2 REVISÃO DA LITERATURA
2.2 A hipótese SBTC (Skill-Biased Technical Change)
A hipótese skill-biased technical change (SBTC) formaliza que a mudança tecnológica é direcionada aos trabalhadores mais qualificados em detrimento dos menos qualificados. Ao contrário do caráter downgrading observado na indústria estadunidense no século XIX, a hipótese SBTC, que pode ser traduzida livremente como ‘mudança tecnológica enviesada para a qualificação’, revela um caráter upgrading da tecnologia sobre a estrutura ocupacional, isto é, o progresso tecnológico estimula a criação de empregos cada vez mais qualificados.
O desenvolvimento da hipótese SBTC foi forjado sobre a formulada associação entre tecnologia e habilidades. A evolução da já mencionada teoria do capital humano durante meados do século XX ajudou a sedimentar a validade das hipóteses que associam a mudança tecnológica ao trabalho qualificado. Como sintoma, há a associação estabelecida por teóricos do capital humano entre os investimentos em educação e os investimentos em capital físico (PAVLIDOU; TSALIKI;
VARDALACHAKIS, 2011). Essa relação evidencia o tratamento similar entre tecnologia e qualificação, tendo como decorrência natural desta abordagem a complementaridade entre ambas.
Segundo a hipótese SBTC, no cenário de aumento exógeno da oferta de trabalho qualificado, há em um primeiro momento a redução do skill premium, isto é, o salário relativo do pessoal qualificado, pelo deslocamento da curva de oferta em um movimento descrito como ‘efeito substituição’. No entanto, no longo prazo, ele poderá aumentar pelo protagonismo do ‘efeito tecnologia’. Isto é explicado pelo fato de que
“um aumento na oferta de trabalhadores qualificados eleva a lucratividade de
tecnologias complementares ao trabalho qualificado” (ACEMOGLU, 1997, p. 2), o que poderia compensar o efeito substituição presenciado de imediato. De qualquer modo, a atuação do efeito tecnologia por si só já revela que quanto maior a qualificação da oferta de trabalho, maior seria em tese a fração de novas tecnologias complementares ao trabalho qualificado, o que explica a crescente complementaridade entre tecnologia e qualificação ao longo do tempo (ACEMOGLU, 1997).
Alguns autores atribuem ao novo paradigma técnico-econômico o estímulo ao emprego de profissionais em funções técnicas e gerenciais. Convém contextualizar que a mudança de rumo na concepção teórica a respeito do impacto da tecnologia sobre a estrutura ocupacional parece estar relacionada à natureza reformadora que ela apresenta ao longo do tempo. A tecnologia há tempos vem transformando os setores da economia, a natureza das tarefas e as necessidades de fatores de produção. Ademais, a redução dos preços estimulou a demanda por serviços (FIORELLI, 2018, p.3). Cirillo, Pianta e Nascia (2014) identificam que a inovação de produto pode gerar mais oportunidades de emprego a posições gerenciais, enquanto a inovação de processo leva à destruição de empregos sobretudo para trabalhadores manuais, que são substituídos por máquina, fato que é mais evidente na indústria do que no setor de serviços. Calvino e Virgillito (2016) entendem que a implementação de novas tecnologias é irradiada para todos os setores da economia:
A mudança estrutural da agricultura para a indústria, e desta para os serviços, é um exemplo claro de como a mudança tecnológica se espalha por todos os setores. Mesmo tendo a direção da taxa de absorção de mão-de-obra se movido dos primeiros dois setores em direção ao setor terciário, atualmente parte do setor de serviços está experienciando uma forte redução na demanda por trabalho. (CALVINO; VIRGILLITO, 2016, p. 7)
Assim, o advento da sociedade do conhecimento pós-industrial orientou a expansão do emprego em direção ao trabalho técnico e profissional, servindo como base para o desenvolvimento da hipótese SBTC (OESCH, 2013, p. 2; SUSSKIND;
SUSSKIND, 2015).
Para Katz e Margo (2014), a criação expressiva de tarefas e funções gerenciais, que alterou a estrutura ocupacional nos Estados Unidos entre os séculos XIX e XX, esteve diretamente relacionada à expansão geográfica dos mercados e à necessidade de controlar escalas crescentes de produção e distribuição. Ao longo do século XX, seguindo o padrão observado desde 1850, Katz e Margo (2014, p. 46) observaram um efeito monotônico de skill upgrading nas ocupações de alta qualificação, como
profissionais liberais, técnicos e gerentes, que cresceu de 6% em 1920 para 28% em 2000. Por outro lado, as ocupações de baixa qualificação decresceram de 60% em 1920 para 40% em 2000.
O estudo da direção da mudança tecnológica ganhou importância com a implementação e difusão das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), também associado ao novo paradigma tecnológico. À medida que as TICs conseguiram aumentar a produtividade marginal do trabalho qualificado em relação ao trabalho não qualificado, tornou-se mais econômico empregar trabalhadores qualificados.
De fato, muitas pesquisas evidenciaram a maior intensidade da hipótese SBTC quando aplicado a países e setores intensivos em tecnologia (VIVARELLI; PIVA;
SANTARELLI, 2003, p. 6). Os autores lançam luz sobre o papel da reorganização da produção dentro das organizações como contribuição primária para a mudança da estrutura organizacional em favor das ocupações altamente qualificadas.
Pesquisadores da mudança organizacional consideram que o desenvolvimento de práticas gerenciais, como a descentralização, o trabalho coletivo e a abordagem multitarefas, tenha atuação relevante para a maior demanda de trabalhadores qualificados. Um dos motivos é que as TICs mudam a forma como as decisões são tomadas numa empresa, não raro “tornando as hierarquias redundantes já que as ordens hierárquicas são substituídas por interações laterais entre trabalhadores”
(VIVARELLI; PIVA; SANTARELLI, 2003, p. 6). Por outro lado, eles reiteram a importância do papel da tecnologia como fator de mudança da estrutura ocupacional, embora exercido na sequência dos efeitos da reorganização organizacional.
Para Baccini e Cioni (2010), as pesquisas empíricas sobre a validade da hipótese skill-biased technical change (SBTC) procuram identificar uma correlação positiva entre tecnologia e a mudança da estrutura ocupacional em favor do trabalho qualificado. Uma vez confirmada a correlação, a explicação mais comum é que “há um mecanismo causal segundo o qual as novas tecnologias introduzidas no processo produtivo demandam trabalhadores com alta qualificação” (BACCINI; CIONI, 2010, p.
81). O outro lado dessa questão é que, ao mesmo tempo em que a nova tecnologia produtiva impulsiona a demanda por trabalho qualificado, a implementação da tecnologia é limitada pela escassez de trabalho qualificado para operar as inovações (AGUILERA; RAMOS BARRERA, 2016, p. 62). Na sua pesquisa aplicada ao setor industrial da Itália, os autores colocam em questionamento a visão mainstream que
generaliza a hipótese SBTC em nível macro sendo que os resultados em nível micro são muito diferentes. Eles entendem que os modelos construídos para avaliar a direção da mudança tecnológica deveriam levar em conta “a coexistência de um conjunto heterogêneo de tecnologias de diferentes impactos sobre os trabalhadores, seja em favor ou em desfavor do trabalho qualificado” (BACCINI; CIONI, 2010, p. 88).
Embora a hipótese SBTC estabeleça que a tecnologia eleve a demanda por trabalhadores qualificados, a baixa oferta de mão-de-obra qualificada pode ser um gargalo para a implementação de novas tecnologias nas unidades produtivas. O consenso que se formou no início da década de 1990 é que a demanda por trabalho seria enviesada pela oferta de trabalho, ou seja, as empresas só definiriam a técnica de produção empregada a partir das condições de oferta de trabalho em termos de habilidades disponíveis no mercado. Diferentemente de Autor, Levy e Murnane (2003), que enxergam as tecnologias como fatores exógenos, Autor e Acemoglu (2010, p. 19) os entendem como “respostas parcialmente endógenas às mudanças na oferta de habilidades no mercado de trabalho”. Para Acemoglu (1996), a demanda por habilidades é endógena, isto é, a variação na oferta de habilidades pode variar também a demanda por habilidades. Quando há uma fração qualificada da oferta de trabalho, as empresas avaliam como economicamente viável a criação de empregos qualificados. Muitas vezes, a limitação da oferta de trabalho obriga os países a buscar mão-de-obra qualificada em terras estrangeiras para contornar esse problema.
Como a escassez de mão-de-obra qualificada acessível no mercado torna-se um gargalo para a produção de uma indústria, a especialização do trabalho, nesse sentido, passa a ser uma saída. Uma atividade que demande muitas habilidades pode ser decomposta em mais de uma atividade que demande menos habilidades ou habilidades mais modestas. Muitas vezes, essas novas atividades que surgem da decomposição são automatizadas, pois não raro tratam-se de tarefas de rotina. Tal ideia dá origem à hipótese da rotinização.