Danilo Moreira Pontes
Tecnologia e mudança ocupacional: um estudo da evolução da estrutura ocupacional em Argentina e México entre 2005 e 2015
MESTRADO EM ECONOMIA POLÍTICA
São Paulo 2019
Tecnologia e mudança ocupacional: um estudo da evolução da estrutura ocupacional em Argentina e México entre 2005 e 2015
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Economia Política, sob a orientação do Prof. João Batista Pamplona.
São Paulo 2019
desta Dissertação de Mestrado por processos de fotocopiadoras ou eletrônicos.
Assinatura _______________________________________________
Data __________________
e-mail __________________________________________________
Ficha Catalográfica
Tecnologia e mudança ocupacional: um estudo da evolução da estrutura ocupacional em Argentina e México entre 2005 e 2015
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Economia Política.
Aprovado em:____/____/_______
BANCA EXAMINADORA
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Dedico este trabalho especialmente à minha avó Virgínia (in memoriam), a quem gostaria de tê-lo mostrado ainda em vida.
E claro, este trabalho é dedicado a todos os trabalhadores, que buscam no trabalho um meio digno de levar sua vida.
Agradeço todo o suporte na realização deste trabalho ao meu Professor João Batista Pamplona, cuja orientação foi essencialmente importante para a minha formação como pesquisador.
Agradeço à banca de qualificação formada também pelas Professoras Maria Cristina Cacciamali e Anita Kon, pela riqueza dos comentários e das sugestões, que foram vitais para endereçar o desenvolvimento da pesquisa.
Também agradeço aos demais professores do programa de Economia Política da PUC-SP, especialmente ao Professor Ladislau Dowbor pela oportunidade de discutir e praticar os avanços na pesquisa.
Agradeço à Sônia Santos, da coordenação do programa, bem como a todos os meus colegas, pelo suporte dado durante todo o curso.
Gostaria de agradecer também aos familiares e amigos que me ajudaram neste percurso com sugestões, ideias, atenção e incentivo. Em especial, ao meu pai Luiz Carlos, minha mãe Luci, meu irmão Nicholas e aos meus companheiros de vida Nathalia, Flavio, Yuri, Hermano e Thiago, cujas contribuições me foram verdadeiramente valiosas.
PONTES, Danilo Moreira. Tecnologia e mudança ocupacional: um estudo da evolução da estrutura ocupacional em Argentina e México entre 2005 e 2015. 2019.
116 f. Dissertação (Mestrado em Economia Política) – Programa de Estudos Pós- Graduados em Economia Política, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2019.
O impacto da mudança tecnológica sobre o trabalho não diz respeito somente ao volume de oportunidades criadas ou destruídas, mas também acomete o perfil das ocupações dispostas na sociedade. Apesar da existência de outros fatores, como a educação e o comércio exterior, a mudança tecnológica tem papel central na explicação da mudança ocupacional em países desenvolvidos, de onde surgem as hipóteses skill-biased technical change (SBTC) e routine-biased technological change (RBTC). Com enfoque na qualificação exigida nas ocupações, a SBTC prevê uma estrutura ocupacional que tende a favorecer os grupos de qualificação mais alta a partir do progresso tecnológico, enquanto a RBTC tem como foco o conteúdo das tarefas desempenhadas nas ocupações e interpreta o fenômeno da polarização da estrutura ocupacional. Foram utilizados microdados de pesquisas domiciliares da Argentina e do México em 2005 e em 2015, classificando-se as ocupações em níveis de qualificação e em tipos de tarefas a fim de avaliar se sua variação corresponde às hipóteses SBTC e RBTC. O resultado observado é que nenhuma delas explica a mudança ocupacional ocorrida na Argentina e no México entre 2005 e 2015. As transformações parecem estar menos relacionadas com a tecnologia do que com as condições institucionais e socioeconômicas de ambos os países. Por outro lado, a mudança ocupacional parece revelar que tais variações nas ocupações, sob o ponto de vista do nível de qualificação e do tipo de tarefa, estão relacionadas também à mudança setorial a partir do rumo da estratégia de desenvolvimento produtivo traçada por Argentina e México.
Palavras-chave: Mudança ocupacional; Qualificação do trabalho; Polarização das ocupações; Futuro das ocupações na América Latina; Ocupações rotineiras e não- rotineiras; Skill-biased technical change; Routine-biased technological change.
PONTES, Danilo Moreira. Technology and occupational change: a study on the evolution of the occupational structure in Argentina and Mexico between 2005 and 2015. 2019. 116 p. Dissertation (Master in Political Economy) – Postgraduate Studies Program in Political Economy, Pontifical Catholic University of São Paulo, São Paulo, 2019.
The role that technical progress plays on the labor market is not only related to the amount of jobs created or destroyed but it also reflects on the distribution of different occupations over the society. Despite of the existence of many factors that impact job structure, such as education and foreign trade, technology has a central role explaining occupational change in the US and Europe, where both skill-biased technical change (SBTC) and routine-biased technological change (RBTC) hypothesis have emerged.
The former reveals the skill upgrading effect determined by technological change and the latter is focused on the task content changes which lead to job polarization. By using microdata samples of national labor surveys for Argentina and Mexico in 2005 and 2015, occupations were classified according to skill level and task content group in order to assess the importance of both SBTC and RBTC hypothesis in the occupational change. As a result, there is no evidence that SBTC and RBTC had worked in the given context. Besides, changes on job structure seems to be more related to institutional and socioeconomic conditions than with technology. On the other hand, occupational change is apparently linked to the changes on industry composition, which is defined by economic development strategies historically followed by Argentina and Mexico.
Keywords: Occupational change; Skilling; Job Polarization; Future of the occupations in Latin America; Routine and non-routine occupations; Skill-biased technical change;
Routine-biased technological change.
Figura 1 - Variação na estrutura ocupacional dos Estados Unidos entre os períodos
de 1940-1980 e 1980-2010 ... 44
Figura 2 - Variação percentual do emprego por decis de qualidade da ocupação na Grã-Bretanha ... 47
Figura 3 - Variação do PIB da Argentina entre 1990 e 2017, em termos reais ... 57
Figura 4 - Composição do PIB da Argentina por atividade econômica em 2015 ... 58
Figura 5 - Composição do valor das exportações líquidas da Argentina em 2015 .... 59
Figura 6 - Variação da participação do emprego por atividade econômica na Argentina entre 2004 e 2016 ... 60
Figura 7 - Grau de escolarização secundária e terciária da Argentina em 2015, em relação a outros países ... 61
Figura 8 - Composição do valor das exportações líquidas do México em 2015 ... 62
Figura 9 - Composição do valor das importações líquidas do México em 2015 ... 63
Figura 10 - Composição do PIB do México por atividade econômica em 2015 ... 64
Figura 11 - Composição da estrutura ocupacional do México por atividade econômica em 2014 ... 65
Figura 12 - Taxas de matrícula no México em 2011 por quintis de renda, em percentuais ... 66
Figura 13 - Emprego informal no México como percentual do emprego total, ajustado sazonalmente ... 66
Figura 14 - Variação da participação por grupo de ocupação na Itália entre 2008 e 2015 com base na CIUO-08, em pontos percentuais ... 77
Figura 15 - Variação da estrutura ocupacional por nível de qualificação na Itália entre 2008 e 2015 ... 78
Figura 16 - Variação da estrutura ocupacional por nível de qualificação na Itália entre 2008 e 2015 (critério adaptado) ... 78
Figura 17 - Variação da estrutura ocupacional por tipo de atividade na Itália entre 2008 e 2015 ... 79
Figura 18 - Variação da participação por tipo de atividade na Itália entre 2008 e 2010 e entre 2010 e 2015, em pontos percentuais ... 80
Figura 19 - Variação da participação por grupo de ocupação na Argentina entre 2005 e 2015 com base na CIUO-08, em pontos percentuais ... 82
entre 2005 e 2015 ... 82 Figura 21 - Variação da participação dos grupos de ocupações sobre o total de ocupações na Argentina entre 2005 e 2015, para homens e para mulheres, em pontos percentuais ... 83 Figura 22 - Variação da estrutura ocupacional por tipo de atividade na Argentina entre 2005 e 2015 ... 84 Figura 23 - Variação da participação por tipo de atividade na Argentina entre 2005 e 2010 e entre 2010 e 2015, em pontos percentuais ... 84 Figura 24 - Variação da estrutura ocupacional por nível de qualificação no México entre 2005 e 2015 ... 86 Figura 25 - Variação da estrutura ocupacional por tipo de atividade no México entre 2005 e 2015 ... 86 Figura 26 - Variação da participação por tipo de atividade no México entre 2005 e 2010 e entre 2010 e 2015, em pontos percentuais ... 87 Figura 27 - Comparação entre a estrutura ocupacional de Itália, Argentina e México por nível de qualificação em 2015 ... 90 Figura 28 - Comparação entre a estrutura ocupacional de Itália, Argentina e México por tipo de atividade em 2015 ... 90
Tabela 1 - Distribuição das ocupações nos Estados Unidos de 1850 a 1910 ... 29 Tabela 2 - Variação da estrutura ocupacional no período 1993-2010 por grupos de ocupação por país ... 47 Tabela 3 - Evolução da participação de grupos de ocupação entre 1950 e 2005 nos Estados Unidos ... 52 Tabela 4 - Fontes de dados utilizados na pesquisa empírica ... 69 Tabela 5 - Representação da estrutura ocupacional da Itália em 2008, 2010 e 2015 com base na CIUO-08 ... 77 Tabela 6 - Variação da participação dos tipos de atividade na Itália entre 2008 e 2015, em pontos percentuais ... 80 Tabela 7 - Representação da estrutura ocupacional da Argentina em 2005, 2010 e 2005 com base na CIUO-08 ... 81 Tabela 8 - Variação da participação dos tipos de atividade na Argentina entre 2005 e 2015, em pontos percentuais ... 85 Tabela 9 - Representação da estrutura ocupacional do México em 2005, 2010 e 2015 com base na CIUO-08 ... 85 Tabela 10 - Variação da participação dos tipos de atividade no México entre 2005 e 2015, em pontos percentuais ... 87 Tabela 11 - Comparação entre a estrutura ocupacional de Itália, Argentina e México em 2015, com base na CIUO-08 ... 89
Quadro 1 - Mapeamento do nível de qualificação por grupo de especialização das ocupações na CIUO-08 ... 24 Quadro 2 - Matriz de Classificação das Ocupações ... 39 Quadro 3 - Grupos de ocupação por nível de renda e qualificação ... 44
ATECO Classificazione delle Attività Economiche
CAES Clasificación de Actividades Económicas para Encuestas Sociodemográficas del Mercosur
CEPAL Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe CID Center for International Development
CIUO Classificação Internacional Uniforme de Ocupações CMO Clasificación Mexicana de Ocupaciones
CNO Clasificación Nacional de Ocupaciones CP Classificazione delle Professioni
ENOE Encuesta Nacional de Ocupación y Empleo EPH Encuesta Permanente de Hogares
FMI Fundo Monetário Internacional GII Global Innovation Index
INDEC Instituto Nacional de Estadística y Censos INEGI Instituto Nacional de Estadística y Geografía ISTAT Istituto Nazionale di Statistica
NAFTA North American Free Trade Agreement
OCDE Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico OIT Organização Internacional do Trabalho
P&D Pesquisa e Desenvolvimento PIB Produto Interno Bruto
RBTC Routine-Biased Technological Change RFL Rilevazione sulle Forza di LavoroI SBTC Skill-Biased Technical Change
SCIAN Sistema de Clasificación Industrial de América del Norte SINCO Sistema Nacional de Clasificación de Ocupaciones TICs Tecnologias de Informação e Comunicação
1 INTRODUÇÃO ... 16
2 REVISÃO DA LITERATURA ... 22
2.1 Considerações gerais e conceituais sobre tecnologia e qualificação do trabalho ... 22
2.1.1 Visão pessimista - deskilling ... 26
2.1.2 Visão otimista - upskilling ... 28
2.2 A hipótese SBTC (Skill-Biased Technical Change) ... 33
2.3 A hipótese RBTC (Routine-Biased Technological Change) ... 36
2.4 Literatura empírica recente ... 43
2.5 Contexto macroeconômico e sociodemográfico ... 56
2.5.1 Argentina ... 57
2.5.2 México ... 61
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 67
3.1 Elaboração da base de dados ... 67
3.2 Plano de análise ... 74
4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS ... 76
4.1 A referência europeia – o caso da Itália ... 76
4.2 Argentina ... 81
4.3 México ... 85
4.4 Comparação entre Argentina e México ... 88
CONCLUSÃO ... 92
REFERÊNCIAS ... 96
APÊNDICE A – Classificação das ocupações da CIUO-08 (3 dígitos) ... 101
APÊNDICE B – Tabela de correspondência entre CNO-01 (5 dígitos) e CIUO-08 (3 dígitos) - Argentina ... 105
APÊNDICE C – Tabela de correspondência entre CMO-01 (4 dígitos) e SINCO-11 (4 dígitos) - México ... 107
APÊNDICE D – Tabela de correspondência entre SINCO-11 (4 dígitos) e CIUO-08 (3 dígitos) - México ... 108
APÊNDICE E – Tabela de correspondência entre CP-01 (3 dígitos), CP-11 (3 dígitos) e CIUO-08 (3 dígitos) – Itália ... 110
2015, por setor de atividade econômica... 114
1 INTRODUÇÃO
O debate em torno dos impactos da tecnologia sobre o trabalho é antigo e possui destaque pelo menos desde o início do século XIX, após o desenrolar da Revolução Industrial. Mesmo remontando a séculos de incerteza, as questões debatidas se atualizam a cada ciclo tecnológico. A natureza autorrenovadora da tecnologia estudada confere à teoria, em última instância, um prazo de validade quando se concentra excessivamente em uma tecnologia específica. Em outras palavras, a tecnologia associada à Revolução Industrial há muito tempo já não oferece preocupação em relação ao futuro do trabalho, mas não é certo que pudéssemos dizer o mesmo a respeito das novas tecnologias do século XXI, como a inteligência artificial e o machine learning. Historicamente, “o medo do desemprego tecnológico sempre emerge em períodos caracterizados por mudanças tecnológicas radicais”
(VIVARELLI, 2012, p. 2).
A discussão sobre os limites da automação do trabalho pode ser considerada uma tradição secular da pesquisa econômica, uma vez que o debate suscita polêmicas até hoje, contrastando os argumentos em torno de um otimismo inocente ou de um pessimismo exagerado. Inicialmente, a mecanização da produção foi a forma como a inovação tecnológica se manifestou para dar ares de ameaça aos trabalhadores fabris. No século XIX, o economista inglês David Ricardo expressou que “a opinião da classe operária era caracterizada pelo medo de ser dispensado por causa da inovação” (RICARDO apud VIVARELLI, 2012, p. 2). Assim como muitos empregos foram destruídos nesse período, também é verdade que novos empregos foram criados em quantidade equivalente. Portanto, um aspecto contraditório e instigante do progresso técnico é que ao mesmo tempo cria e destrói empregos e, do ponto de vista qualitativo, acelera e deteriora a qualificação dos trabalhadores (PAVLIDOU; TSALIKI; VARDALACHAKIS, 2011, p. 595).
A discussão sobre a ocupação das esferas de produção por homens e máquinas sempre se baseou na quantidade de empregos, inclusive fazendo referência à ameaça de ‘desemprego tecnológico’. De maneira geral, o consenso entre os acadêmicos é que a mudança tecnológica tem potencial para destruir e criar empregos. A destruição, de acordo com os neoschumpeterianos, está mais relacionada à inovação de processo e a criação está mais ligada à inovação de
produto. A automação, expressão da tecnologia como inovação de processo, efetivamente substitui o trabalho humano, como tem sido observado até hoje (AUTOR, 2015, p.5).
A maior parte dos economistas acredita firmemente no impacto positivo da inovação sobre o emprego, ao menos no longo prazo (PIANTA, 2004). Sua crença baseia-se na teoria dos mecanismos de compensação, que seriam supostamente
“acionados imediatamente pela mudança tecnológica e poderiam contrabalancear o impacto inicial poupador de trabalho da inovação de processo” (PIVA; VIVARELLI, 2017, p. 5). Vivarelli (2012, p. 5) categorizou os mecanismos de compensação em seis: ‘via novas máquinas’, ‘via redução nos preços’, ‘via novos investimentos’, ‘via redução nos salários’, ‘via aumento na renda’ e ‘via novos produtos’. Uma definição utilizada para a mudança tecnológica é que ela permite produzir o mesmo volume de uma unidade produtiva com menos fatores empregados, a saber, capital e trabalho (VIVARELLI, 2012, p. 3). Por esta definição, chega-se à conclusão de que a inovação gera desemprego (de capital ou de trabalho) como efeito direto, independentemente de sua natureza intrínseca (VIVARELLI, 2012).
A inovação de produto é percebida pelos economistas por sua capacidade de geração de empregos, uma vez que “abre caminho para o desenvolvimento de produtos e serviços inteiramente novos e para a diferenciação de produtos já maduros” (PIVA; VIVARELLI, 2017, p.10). Num olhar mais atento, o impacto gerador de empregos da inovação de produto tem seu resultado decorrente de seu efeito- riqueza (criação de novas unidades de negócio) e seu efeito-substituição (descontinuação de produtos maduros). Consolidando a teoria econômica sobre o assunto, a relação entre inovação e emprego pode ser representada por um quadro complexo em que o impacto labor-saving da inovação de processo, os mecanismos de compensação e seus contrapesos e limitações, e a natureza labor-friendly da inovação de produto podem se combinar em diferentes resultados de impacto quantitativo no nível de emprego (PIVA; VIVARELLI, 2017, p. 11).
O resultado líquido da variação na quantidade de empregos após implementos tecnológicos vai depender de inúmeras variáveis, como por exemplo a composição setorial, o comércio e a divisão internacional do trabalho, o nível de qualificação da mão-de-obra, o grau de competitividade das indústrias etc. No entanto, é crucial entender qual o impacto da tecnologia sobre a qualidade do emprego, afinal o argumento da gradativa redução da jornada de trabalho com o aprimoramento da
automação deveria ter como consequência o aproveitamento do emprego para o trabalho intensivo e de maior qualidade, enquanto as atividades menos sofisticadas seriam realizadas pelas máquinas. Por isso é tão importante revelar no que consistem as ocupações que atualmente persistem no mundo do trabalho. Ademais, a simples análise da variação da quantidade total de empregos em uma economia não revela as alterações na composição relativa dos empregos, expressos por tipos de ocupações, conteúdo do trabalho, níveis de habilidades demandadas e evolução de setores de atividade econômica, que podem indicar importantes tendências para o futuro do trabalho.
Um pressuposto desta pesquisa é a ideia de que a mudança tecnológica teria associação com o nível de qualificação do trabalho. À luz da literatura, no entanto, não parece existir uma associação única entre ambos: enquanto no século XIX a correlação era negativa, modernamente ela parece ser positiva. Sendo assim, pretende-se nesta pesquisa avaliar a transformação do perfil de ocupações em relação ao desenvolvimento tecnológico, o que pode ser medido na literatura a partir da mudança da estrutura ocupacional e pela análise da estrutura produtiva de uma nação.
As mudanças no perfil das ocupações podem ser mapeadas e estudadas a partir da evolução da estrutura ocupacional. Os institutos nacionais de pesquisa costumam realizar periodicamente pesquisas domiciliares com questões sobre a ocupação do entrevistado, sem a identificação do respondente. Tal riqueza de detalhes permite ao pesquisador cruzar dados de ocupações com dados demográficos e de renda, possibilitando boa profundidade na análise. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) fornece a classificação padronizada de ocupações que é utilizada por vários países ou que serve de referência para as classificações nacionais (OIT, 2012).
Um ponto importante para o entendimento da mudança da estrutura ocupacional é que ela não é explicada somente pela mudança tecnológica. Conforme Oesch e Rodríguez Menés (2011), há outros fatores de oferta e demanda, além do contexto institucional que regula essa dinâmica de mercado, que impactam o perfil das ocupações. Os autores identificam outros fatores determinantes além da tecnologia que atuam sobre a demanda por trabalho, quais sejam: comércio internacional, empregos públicos e mudança no perfil de compra dos consumidores.
Estes combinam-se com efeitos atuantes sobre a oferta de trabalho, como o nível
educacional e os fluxos migratórios. Por fim, mecanismos institucionais, como a política de salário mínimo, o grau de regulação trabalhista e o poder de negociação e de organização dos sindicatos, canalizam as forças de demanda e oferta vigentes no mercado. Schimmelpfennig ajuda a entender essa dinâmica:
É importante compreender as forças reais que direcionam a demanda relativa por trabalho. No curto prazo, a oferta de trabalho muito provavelmente não acompanhará o ritmo das mudanças na demanda por trabalho. O desemprego ou o aumento dos diferenciais de salário serão resultados disso.
No longo prazo, a oferta de trabalho pode se adaptar às mudanças na demanda por trabalho ao adquirir novas habilidades. Isto seria facilitado se soubéssemos que tipos de novas habilidades serão demandadas.
(SCHIMMELPFENNIG, 1998, p. 2)
Mesmo assim, muitos autores colocam a tecnologia como elemento central para entender as grandes mudanças da estrutura ocupacional nos países. Com efeito, a tecnologia é apontada por muitos como o principal determinante na mudança da estrutura ocupacional no longo prazo (OESCH, 2013, p. 59).
Como o objetivo deste trabalho é analisar a relação entre tecnologia e mudança da estrutura ocupacional dentro da amostra de tempo e espaço proposta, o foco da pesquisa restringe-se à análise e à interpretação das hipóteses levantadas que tratam a tecnologia como fator relevante de mudança da composição de ocupações.
Há na literatura algumas perspectivas diferentes sobre a direção da mudança tecnológica e seu impacto sobre a evolução do trabalho. Ao longo do debate histórico sobre o assunto, contrastam as perspectivas otimista, que defende a hipótese do upskilling, e pessimista, que associa a mudança tecnológica ao deskilling (BACCINI;
CIONI, 2010, p. 81). Em outras palavras, o upskilling é a trajetória de concentração da participação da população ocupada em torno dos trabalhadores com nível de qualificação mais alto, resultando no ganho relativo de habilidades pela força de trabalho, enquanto o deskilling define o sentido oposto. Nas últimas décadas do século XX, consolidou-se a hipótese skill-biased technical change (SBTC), isto é, mudança tecnológica enviesada para a qualificação, que deu consistência à defesa do upskilling. No início do século XXI, surge a hipótese da rotinização, ou routine-biased technological change (RBTC), isto é, mudança tecnológica enviesada para a rotina, que explica a polarização da estrutura ocupacional haja vista sua composição heterogênea em ocupações que são complementares à tecnologia e em ocupações que são substituídas pela tecnologia. A hipótese SBTC e a hipótese RBTC são
atualmente as mais discutidas na literatura acadêmica e, por isso, merecerão destaque no presente trabalho (OESCH, 2013).
Nesse sentido, tem-se como problema de pesquisa a ser investigado a seguinte questão: qual das hipóteses acima explicaria melhor a mudança da estrutura ocupacional nos países selecionados? Apesar de a tecnologia não ser o único fator que afeta a mudança da estrutura ocupacional, ela exerce significativa influência na mudança de longo prazo do perfil das ocupações (OESCH, 2013), como citado anteriormente. Deste modo, tal pressuposto será adotado na análise aplicada à amostra selecionada. Este trabalho pretende, portanto, analisar a mudança da estrutura ocupacional e interpretar os dados de forma a reconhecer na teoria suas similaridades e contradições com o mundo real, no contexto especificamente de Argentina e México.
A decisão de escolha desses dois países deve-se, em primeiro lugar, ao fato de que a pesquisa sobre o tema avançou muito nos últimos anos nos países desenvolvidos, ao passo que, para a região da América Latina, as pesquisas ainda não são expressivas. Pode-se dizer que as principais publicações sobre a mudança da estrutura ocupacional estão centradas no mercado de trabalho dos Estados Unidos e da Europa Ocidental, o que claramente não serve de base para o pleno entendimento da temática sob o ponto de vista dos países em desenvolvimento da América Latina. Além de refletir se alguma das hipóteses que relacionam tecnologia com a mudança da estrutura ocupacional prevalece a ponto de explicar o fenômeno no contexto latino-americano, este trabalho visa à compreensão das eventuais particularidades de tais hipóteses no contexto regional.
Além disso, estes dois países são relevantes na América Latina em termos de tamanho do mercado consumidor e da força de trabalho. Argentina e México representam dois modelos distintos de estratégia de desenvolvimento econômico- produtivo e possuem diferentes características de formação sociodemográfica:
Argentina possui uma economia primário-exportadora e uma população de escolaridade relativamente alta; o México, uma economia aberta, exportadora de manufaturas de baixo valor agregado e com um grande contingente com baixa escolaridade e em situação de pobreza, entre outros aspectos. São dois perfis de países cujos contrastes são um atrativo para que se estude a relação entre sua estratégia de desenvolvimento econômico, no qual se insere a tecnologia, e sua estrutura ocupacional. Portanto, a contribuição deste trabalho revela-se na tentativa
de discutir efeitos sobre o trabalho das estratégias de desenvolvimento para a América Latina.
A metodologia utilizada consiste na utilização das pesquisas domiciliares para ambos os países, cruzando os dados de ocupação com as tabelas de estrutura ocupacional, segundo critérios de classificação por nível de qualificação e por conteúdo da tarefa. De acordo com a disponibilidade das bases de dados para a análise da evolução da estrutura ocupacional de Argentina e México, foi definido o intervalo entre os anos de 2005 e 2015. Com isso, tanto a contextualização teórica quanto a análise empíricos dos dados de ocupação dos dois países estão concentrados nas mudanças ocorridas durante este período.
Esta dissertação está organizada da seguinte forma: além desta introdução, há a seção 2, que se ocupa da revisão da literatura, com quatro subseções. A primeira subseção trata da conceituação teórica entre tecnologia e qualificação do trabalho, em que são desenvolvidos os conceitos de ‘estrutura ocupacional’, ‘habilidade’,
‘qualificação’ e ‘trabalho qualificado’, entre outros. Com isso, é apresentada a relação histórica entre a mudança tecnológica e a mudança na estrutura ocupacional, mostrando as visões otimista e pessimista. Na segunda e terceira subseção, são apresentadas as hipóteses predominantes que procuram dar uma resposta clara para a mudança da estrutura ocupacional, quais sejam: a hipótese SBTC e a hipótese RBTC, respectivamente. A quarta subseção apresenta resultados empíricos de estudos recentes e a quinta subseção trata do contexto macroeconômico e sociodemográfico de Argentina e México, com destaque às mudanças ocorridas neste início de século.
Na seção 3, é apresentada a metodologia de pesquisa aplicada para analisar os dados dos países estudados. Nesta seção, são detalhadas a estratégia traçada para que fosse possível preparar as bases de dados necessárias e o plano de análise.
Na seção 4, são feitas a análise propriamente dita e a interpretação dos resultados da pesquisa à luz da teoria colocada neste trabalho. As análises inicialmente são apresentadas separadamente para cada país, e depois é feita uma análise comparativa entre a estrutura ocupacional de Argentina e México.
Finalmente, a seção 5 apresenta as conclusões deste trabalho, apontando se existe alguma hipótese mais apropriada para explicar a mudança da estrutura ocupacional em Argentina e México, a partir da estratégia de desenvolvimento produtivo dos dois países.
2 REVISÃO DA LITERATURA
2.1 Considerações gerais e conceituais sobre tecnologia e qualificação do trabalho
Uma profunda análise sobre a mudança da estrutura ocupacional exige do pesquisador clareza na compreensão sobre em que consiste o caráter qualitativo do trabalho ou da ocupação. Não há uma definição exata e única sobre o que significa a qualidade de uma ocupação. Geralmente, a qualidade das ocupações é medida pelo grau de sofisticação que elas exigem dos trabalhadores. Um termo muito utilizado na literatura internacional é o skill, que pode ser interpretado como ‘qualificação’ do trabalhador e do trabalho, de forma abrangente, ou pode ser interpretado como as habilidades ou competências dotadas pelo trabalhador. O sentido que se quer destacar aqui quanto à qualidade do trabalho é o nível de exigência em termos de conhecimento e habilidades que as funções profissionais impõem a quem postula a uma posição no mercado de trabalho (OIT, 2012). Frequentemente, a qualificação é associada ao nível de escolaridade da força de trabalho, haja vista a tamanha complexidade em se definir quais conhecimentos e habilidades são mais exigentes em um universo de um sem número de possibilidades, muitas vezes incomparáveis.
Por outro lado, a respeito da qualificação do trabalho, a literatura mais recente desloca o eixo de análise centrado no perfil de conhecimento e experiência exigido dos trabalhadores para o conteúdo da tarefa da ocupação (AUTOR; ACEMOGLU, 2010;
AUTOR; LEVY; MURNANE, 2002; JUNG; MERCENIER, 2014; SPITZ-OENER, 2005).
Esta reconfiguração da abordagem é essencial para entender os impactos modernos da tecnologia sobre a qualificação do trabalho.
Na literatura acadêmica tradicional, uma convenção muito utilizada por pesquisadores é determinar o grau de qualidade de uma ocupação com base em sua remuneração média. Essa definição implica que as ocupações mais qualificadas sejam aquelas que remunerem bem, ao passo que as ocupações pouco qualificadas representariam as atividades mal pagas. Apesar de parecer uma premissa de aproximação muito simples, as análises empíricas que utilizam esta abordagem alcançam resultados muito próximos aos que adotam uma metodologia de classificação mais aprofundada (GOOS; MANNING, 2003, p. 9). Em linha com esta premissa, a tradicional teoria do capital humano enfatiza a motivação de o trabalhador
adquirir alto nível de educação e capacitação, referidos como capital humano, com o intuito de alcançar um diferencial de renda mais elevado (PAVLIDOU; TSALIKI;
VARDALACHAKIS, 2011). Por outro lado, a qualificação do trabalhador e da ocupação nem sempre caminham em sintonia. As condições do mercado de trabalho é que definem de fato se o trabalhador aceita uma função aquém da sua qualificação, por motivos de subsistência diante de um cenário adverso, ou mesmo se um empregador abaixa o nível de exigência para a contratação de um trabalhador em cenário de escassez de mão-de-obra. Spitz-Oener (2005, p. 238) critica alguns estudos por “usar medidas tradicionais de qualificação para avaliar o nível de qualificação dos trabalhadores”, como por exemplo a proporção entre trabalhadores da produção e de fora da produção ou a entre colarinho-branco ou colarinho-azul.
Segundo ele, as classificações utilizadas têm uso limitado para determinar exigências de qualificação. De fato, não é incomum que se façam inferências sobre o conteúdo de tarefas de uma ocupação com base em uma percepção ultrapassada ou tradicional.
A Classificação Internacional Uniforme de Ocupações (CIUO), produzida pela OIT, organiza as ocupações mais comuns em grupos de ocupações indicativos dos níveis de qualificação. Segundo os documentos da OIT (2018), o propósito da CIUO é “organizar as ocupações em um conjunto claramente definido de grupos de acordo com as tarefas e obrigações assumidas nas ocupações” (OIT, 2018). A versão mais recente da CIUO, divulgada em 2008, é bem clara ao diferenciar trabalho (job, em inglês) de ocupação. Enquanto para a CIUO-08 o trabalho é “um conjunto de tarefas e obrigações desempenhadas por uma pessoa”, a ocupação é “um conjunto de trabalhos cujas principais tarefas e responsabilidades são caracterizadas por um alto grau de similaridade” (OIT, 2012, p. 11). Em outras palavras, o conceito de ocupação é mais abrangente e permanente em relação ao trabalho, uma vez que um mesmo trabalhador costuma dedicar-se à mesma ocupação desempenhando diferentes tarefas e obrigações ao longo de sua vida profissional. Adicionalmente, o desenho da CIUO também orienta a padronização das análises internacionais e nacionais. De fato, embora muitos países não utilizem a versão mais atual da CIUO, claramente há um esforço geral de se preservar a linha metodológica formulada na CIUO, adaptando em cada país os traços locais de organização das ocupações.
As ocupações geralmente são agrupadas nas classificações nacionais conforme o grau de qualificação que lhes são atribuídas, salvo raras exceções.
Voltamos, neste ponto, à questão de como a qualidade de uma ocupação é definida.
A literatura que relaciona tecnologia ao perfil de ocupações tradicionalmente aborda a qualidade da ocupação em função de uma combinação de fatores como as habilidades demandadas nos postos de trabalho e o nível de escolaridade exigido. A CIUO-08 define skill, o que denominamos aqui qualificação, como “a habilidade de realizar as tarefas e obrigações de um determinado trabalho” (OIT, 2012, p. 11). A estrutura ocupacional da CIUO-08, ou seja, a tabela de organização das ocupações de acordo com suas características, é segmentada, no nível mais agrupado, em quatro grupos que representam ‘níveis de qualificação’. Cada nível de qualificação é aberto em um ou mais subgrupos, somando dez no total, que representam as
‘especializações’ (Quadro 1). De acordo com a CIUO-08, os quatro níveis de qualificação são definidos em função da complexidade e escopo das tarefas e obrigações envolvidas. Nas palavras da CIUO-08:
O nível de qualificação é mensurado operacionalmente considerando-se uma ou mais das seguintes características: a natureza do trabalho desempenhado em uma ocupação em relação às tarefas e obrigações características que estão definidas para cada nível de qualificação da CIUO-08; o nível de educação formal definido em termos do International Standard Classification of Education (ISCED-97), exigido para o desempenho competente das tarefas e obrigações envolvidas; e a quantidade de treinamento informal on-the-job (intra-jornada) e/ou a experiência prévia em uma ocupação relacionada que são exigidas para o desempenho competente destas tarefas e obrigações.
(OIT, 2012, p. 11)
Já os dez grupos de especialização foram definidos de acordo com “o campo de conhecimento exigido, as ferramentas e máquinas utilizadas, os materiais com os quais se trabalha e os tipos de bens e serviços produzidos (OIT, 2012, p. 12).
Quadro 1 - Mapeamento do nível de qualificação por grupo de especialização das ocupações na CIUO- 08
Principais grupos da CIUO-08 Nível de qualificação
1. Diretores e Gerentes 3 + 4
2. Profissionais Científicos e Intelectuais 4
3. Técnicos e Profissionais de Nível Médio 3
4. Pessoal de Apoio Administrativo 5. Vendedores
6. Trabalhadores da Agropecuária, Floresta e da Pesca 7. Operários e Artesãos Mecânicos
8. Operários de Instalação e Máquinas
2
9. Ocupações Elementares 1
0. Ocupações Militares 1 + 2 + 4
Fonte: traduzido da CIUO-08 (OIT, 2012)
O estudo a partir da metodologia das classificações de ocupação é valioso e detalhado, mas enfrenta alguns obstáculos de consistência conceitual. As opções de classificação de uma ocupação durante um questionário individual podem suprimir ou não revelar com exatidão as tarefas desempenhadas pelo entrevistado, nem o nível de experiência e conhecimento acumulado por ele. Por exemplo, uma mesma descrição de ocupação pode estar vinculada a diferentes níveis de experiência e exigir do trabalhador conhecimentos técnicos distintos, a depender da sofisticação tecnológica integrada a seu espaço de trabalho. Especialmente quando analisada durante uma sequência de anos, a descrição de uma ocupação pode ser mantida, embora o conteúdo da tarefa tenha se transformado parcialmente por conta de mudanças tecnológicas ou de inovações organizacionais.
Nas últimas décadas, temos visto que o trabalho considerado qualificado com frequência não sofre os efeitos negativos da implementação de novas tecnologias.
Por meio da computerização, as pessoas conseguem potencializar suas habilidades para executar um conjunto de tarefas, como preparar textos e apresentações, realizar desenhos técnicos tridimensionais, fazer cálculos, transferir informação e manipular grandes bancos de dados (LEVY; MURNANE, 1996, p. 258). Não somente a mudança tecnológica vai ao encontro de diversas habilidades, como também altera o tipo das habilidades que serão demandadas. Green et al. (1998) citam as habilidades de resolução de problemas, de comunicação, habilidades sociais e de tecnologia da informação (TI) como crescentemente importantes no mercado de trabalho. Por outro lado, habilidades conquistadas por trabalhadores após longo período de educação profissional e treinamento podem ser desvalorizadas a partir da mudança tecnológica.
Segundo De Grip e Van Loo (2002, p. 2), a velocidade com que novas habilidades são demandadas geram a percepção de obsolescência das habilidades portadas por grande parte dos trabalhadores. A obsolescência a que os autores se referem trata do caráter econômico da obsolescência, isto é, quando as habilidades do trabalhador permanecem, não sem que seu capital humano perca valor devido a desenvolvimentos externos, sejam de ordem tecnológica, organizacional ou de desvios na demanda pelo produto ou serviço no qual suas habilidades são empregadas.
Na discussão dos efeitos da tecnologia sobre a estrutura ocupacional, o debate central é se a reestruturação dos espaços de trabalho a partir dos implementos
tecnológicos leva ao skill upgrading ou skill downgrading, ou seja, se a mudança tecnológica complementa ou substitui o trabalho qualificado (SPITZ-OENER, 2005).
As duas hipóteses marcam respectivamente as visões otimista e pessimista acerca do assunto, já que o ganho ou a perda relativa de habilidades pela força de trabalho revela um nível de sofisticação capaz de prover desde funções de mais satisfação e qualidade para o trabalhador até relegá-lo a um papel secundário nos processos produtivos devido ao aprofundamento da automação.
2.1.1 Visão pessimista - deskilling
Diante de tantas mudanças nos processos produtivos, na oferta de produtos e serviços e mesmo nos hábitos de consumos das sociedades, o que impacta diretamente a composição das ocupações, parece seguro afirmar que a associação entre tecnologia e qualificação tende a mudar ao longo do tempo. O fato é que a tecnologia sempre ajudou a alterar o perfil da mudança ocupacional. Fernández- Macías e Hurley (2016, p. 564) lembram que Adam Smith alertava que a divisão do trabalho levada ao extremo a partir da industrialização poderia levar a “uma redução geral do conteúdo das habilidades nas ocupações, substituindo as tradicionais ocupações de artesãos por trabalho de rotina estonteante”.
No século XIX, Marx criticou o caráter downgrading, ou seja, de deterioração das habilidades dos trabalhadores. Por exemplo, a reorganização do trabalho promovida pela Revolução Industrial remanejou uma quantidade enorme de artesãos, que tinham habilidades variadas e dominavam todo o processo de produção e comercialização da manufatura, passando a empregá-los em tarefas atomizadas e repetitivas nas linhas de montagem (OESCH, 2013, p. 1; AUTOR; ACEMOGLU, 2010, p. 2). Para Marx, a mecanização da produção implicou não somente a perda de emprego para uma massa de trabalhadores, como também marcou a perda de ocupações, habilidades, salários e controle sobre seu trabalho (MARX apud PIANTA, 2004), efeito também conhecido como ‘alienação do trabalho’. Os artesãos, que foram gravemente impactados pela industrialização orientada ao consumo em massa, eram considerados qualificados ou semiqualificados. Ao mesmo tempo, os empregos da indústria manufatureira que concentravam trabalho repetitivo e especializado não exigiam qualificação prévia. Isso porque, no passado industrial, o capital físico não era complementar com o trabalho qualificado; complementava os insumos juntamente
com o trabalho não qualificado, como por exemplo na fabricação de armas e de sapatos, e com açougueiros, padeiros e alfaiates (GOLDIN; KATZ, 1998, p. 2). Até este ponto, portanto, existia a correlação positiva da tecnologia com o trabalho não qualificado, ou seja, a tecnologia substituía o trabalho qualificado. Predominante no século XIX, esta correlação prenunciava que o desenvolvimento e difusão da tecnologia tornaria a organização do trabalho cada vez mais hierarquizada e especializada, sendo a força de trabalho composta por pessoas com menos habilidades, embora treinada tecnicamente para executar as tarefas para as quais fosse contratada. Por consequência, a estrutura ocupacional apresentaria cada vez mais pessoas com baixa qualificação em detrimento das mais qualificadas.
Braverman (1998) não via na tecnologia causa para o efeito skill upgrading da estrutura ocupacional. Em sua visão, havia um crescente controle gerencial sobre a performance do trabalhador e uma tendência crescente de deskilling (BACCINI;
CIONI, 2010, p. 81). Em resposta à noção de que “o efeito de futuras mudanças tecnológicas seria o de aumentar a qualificação média exigida” (JEROME apud BRAVERMAN, 1998, p. 294), Braverman criticou o senso comum de que a
‘qualificação média’ dos trabalhadores aumenta com os avanços tecnológicos.
Segundo ele, a qualificação média poderia omitir a polarização na composição da força de trabalho. O comando do processo de trabalho deslocou-se dos trabalhadores artesanais em direção aos gerentes e engenheiros. Em sua visão, além de perder habilidades absolutas ao longo do tempo, os trabalhadores também perderam habilidades relativas, como o autor explica:
Quanto mais ciência é incorporada ao processo de trabalho, menos o trabalhador entende do processo; quanto mais sofisticado o produto intelectual que a máquina se torna, menos controle e compreensão da máquina o trabalhador tem. Em outras palavras, quanto mais conhecimento o trabalhador precisa ter para manter-se um ser humano no trabalho, menos conhecimento ele ou ela tem. Este é o abismo que a noção de qualificação média esconde. (BRAVERMAN, 1998, p. 295)
Braverman também pondera sobre a correção da contemporânea categorização das ocupações em trabalho qualificado, semiqualificado ou pouco qualificado, sobretudo quando comparadas ao longo do tempo. De acordo com ele, a simples interação com uma máquina pode fazer com que uma ocupação tipicamente pouco qualificada torne-se um trabalho semiqualificado, ainda que a essência das tarefas constituídas nesta ocupação seja a mesma. Dessa forma, ele critica nos
censos contemporâneos à sua obra a classificação de ‘semiqualificado’ atribuída aos operadores, que por definição recebem pouca e suficiente instrução de como realizar suas tarefas no trabalho e já logram desempenhá-las com maestria em dias ou semanas, além de não terem necessidade de investir anos de estudo para executar as atividades que lhe são atribuídas. A descrição desse perfil de atividade, segundo ele, mais se identifica com o trabalho pouco qualificado.
2.1.2 Visão otimista - upskilling
Ao longo do século XX, uma série de reestruturações do processo produtivo industrial, influenciadas pela eletrificação e pela expansão dos mercados, implicaram mudanças no perfil das ocupações. As transformações nos processos produtivos e a mudança da matriz energética hidráulica e a vapor para a eletricidade reforçaram a tendência para a associação entre tecnologia e capital humano. Porém, a intensidade do capital é o fator preponderante como medida de mudança tecnológica (KATZ;
MARGO, 2014). De modo geral, a produção industrial avançou ao longo do capitalismo desde as oficinas artesanais, passando pelas linhas de montagem, pelos processos contínuos em lote, até as fábricas robotizadas mais modernas. Esta evolução nos processos industriais aumentou ao mesmo tempo a intensidade de capital e a demanda por trabalho mais qualificado. A eletrificação possibilitou a automação de operações de transmissão de materiais dentro das fábricas.
Katz e Margo refutam o entendimento convencional de que no século XIX tenha havido o predomínio do efeito deskilling, ou skill downgrading, isto é, de que o progresso técnico tenha elevado a demanda por trabalhadores não qualificados em desfavor dos trabalhadores qualificados, comumente ilustrados pelo exemplo dos artesãos desprezados pelo processo fabril. Na sua visão, a queda da participação de artesãos é percebida na indústria, mas não na economia como um todo. Houve já no século XIX um processo de polarização da estrutura ocupacional na indústria, tendo os artesãos como protagonistas da perda de prestígio entre as ocupações (KATZ;
MARGO, 2014, p. 16). Entre 1850 e 1910 no Estados Unidos, a participação de artesãos na indústria caiu de 39% para 23%, enquanto houve o crescimento percentual dos trabalhadores não (ou pouco) qualificados de 58% para 65% (KATZ;
MARGO, 2014, p. 36), como visto na Tabela 1:
Tabela 1 - Distribuição das ocupações nos Estados Unidos de 1850 a 1910
% das ocupações 1850 1860 1870 1880 1900 1910
A. Indústria manufatureira
Colarinho branco 3,1 3,2 4,8 4,7 6,8 11,9
Colarinho azul qualificado 39,4 38,5 31,8 29,2 28,7 22,8
Operacional/pouco qualificados 57,5 58,3 63,4 66,1 64,5 65,3
B. Todos os setores
Colarinho branco 6,9 8,3 10,6 11,6 17,1 19,7
Colarinho azul qualificado 11,6 11,2 10,7 9,1 11,0 11,9
Operacional/pouco qualificados/serviços 28,7 30,1 32,4 37,7 36,4 37,9
Agricultura 52,8 50,4 46,3 41,6 35,5 30,5
Fonte: Katz e Margo (2014, p. 37)
Embora seja comum analisar a mudança na estrutura ocupacional a partir da indústria, em que pesem todas as rupturas realmente ocorridas, prevaleceu do século XIX até a década de 1980 o efeito skill upgrading ou upskilling no nível agregado de todos os setores da economia, já considerando, vale ressaltar, o setor de serviços e, sobretudo, a agricultura (KATZ; MARGO, 2014, p. 17). O aumento da participação da indústria na economia geral, cada vez mais urbana, fez com que aumentasse ligeiramente a quantidade de artesãos de 11,6% para 11,9%, apesar da minguante participação dos artesãos na mão-de-obra industrial de 39% para 23%. Novas posições foram demandadas, sobretudo pelo segmento de construção civil, que era intensivo em trabalho artesão. Enquanto isso, a queda dos trabalhadores rurais mais do que compensou o aumento de operários nas fábricas, o que levou à diminuição da participação do trabalho não-qualificado no agregado dos setores econômicos (KATZ;
MARGO, 2014, p. 38). Embora não se possa afirmar que a mudança da estrutura ocupacional estadunidense entre os anos 1850 e 1910 deveu-se a fatores de demanda ou a fatores de oferta, é observado que “as taxas de matrícula escolar e níveis de escolarização foram crescentes ao longo do período” (KATZ; MARGO, 2014, p. 39). Adicionalmente, Katz e Margo encontraram evidências de que a demanda relativa por trabalhadores de alta qualificação aumentou durante o período em relação à oferta relativa de mão-de-obra qualificada. Tal conjunto de evidências suportam a tese de que “o aumento da demanda relativa por trabalhadores qualificados
provavelmente teve início com a investida industrializante nos Estados Unidos” (KATZ;
MARGO, 2014, p. 43). Em outras palavras, muito da mudança da estrutura ocupacional dos Estados Unidos no século XIX pode ser explicado pelo progresso técnico encabeçado pela Revolução Industrial.
Um dos primeiros a afirmar a relação de complementaridade entre capital físico e trabalho qualificado foi Griliches (1969), em detrimento da até então compreendida correlação positiva com o trabalho não qualificado. Welch (1970) coloca duas possibilidades para o aumento na demanda por trabalho qualificado: (i) os fatores de produção físicos além do trabalho aumentaram em quantidade e qualidade ao longo do tempo, podendo ter influenciado o aumento da produtividade de relativamente mais trabalho qualificado; (ii) o progresso técnico pode não ser neutro em relação aos diferentes níveis de qualificação, levando a crer que incrementos em tecnologia resultam em incrementos na produtividade relativa do trabalho de acordo com o respectivo nível de qualificação (WELCH, 1970, p. 38). Cada vez mais, a implementação de novas tecnologias nas fábricas atraía o ingresso de trabalhadores altamente qualificados e o espaço para os menos qualificados começava a se esvaziar. Nas décadas de 1980 e 1990, o efeito foi notadamente maior (AUTOR;
ACEMOGLU, 2010, p. 2).
É importante entender quais os fatores determinantes para a mudança da correlação tecnologia-qualificação de negativa para positiva em algumas décadas.
Acemoglu (1997) procura explicar a razão para o forte aumento do skill premium nos Estados Unidos entre as décadas de 1980 e 1990. Enquanto muitos creditam este aumento à complementaridade entre qualificação e novas tecnologias, Acemoglu (1997, p. 29) ressalva que tão importante quanto a magnitude da mudança tecnológica é a sua direção. Em suas próprias palavras, “a direção da mudança tecnológica é determinada pelo tamanho do mercado para diferentes invenções”, ou seja, “quanto mais trabalhadores qualificados existirem, o mercado para tecnologias complementares a suas habilidades será maior, portanto mais será inventado”. Após a elevação da oferta de trabalhadores qualificados, o investimento em P&D direcionado a tecnologias complementares ao trabalho qualificado deverá aumentar, o que por sua vez promoverá o desenvolvimento mais rápido das novas tecnologias (ACEMOGLU, 1997, p. 30). Em relação à identificação das tecnologias mais complementares ao trabalho qualificado, Acemoglu (1997) cita o uso dos computadores, que são mais presentes nos estratos mais qualificados.
Para Levy e Murnane (1996), o impacto da computerização na demanda do trabalho divide-se em dois efeitos opostos. O primeiro é o aumento da participação de trabalho qualificado em detrimento de trabalho não qualificado, a partir da mudança nas exigências de habilidades. O segundo efeito é reduzir a quantidade de trabalho qualificado por unidade produzida, a partir do crescimento da produtividade do trabalho (LEVY; MURNANE, 1996, p. 259). São inúmeros os exemplos de como estas transformações se sucederam na prática ao longo do século XX: o trabalho qualificado de soldador foi substituído por robôs; os técnicos das máquinas de escrever foram extintos em decorrência da difusão dos computadores pessoais; parte do trabalho qualificado de engenheiros calculistas de concreto e aço foram substituídos por aplicações de computação; grande parte do trabalho dos caixas de bancos foram extintos pela tecnologia dos terminais eletrônicos, entre outros.
Por sua vez, Goldin e Katz (1998) evidenciam que a correlação entre tecnologia e capital humano surgiu nos Estados Unidos no início do século XX, com a transição da linha de montagem para as fábricas com processos contínuos. Goldin e Katz segregam o processo industrial em instalação das máquinas (‘manutenção de máquinas’) e montagem (‘produção’). Segundo eles, a associação com o trabalho qualificado dá-se sempre pela parte de manutenção de máquinas. O trabalho qualificado de instalação e manutenção das máquinas cria condições para que os trabalhadores menos qualificados atuem na etapa de produção ou montagem. A variação da demanda relativa por trabalho qualificado, portanto, será positiva ou negativa dependendo se a absorção de trabalhadores qualificados na fase de manutenção de máquinas compensará a demanda por trabalhadores pouco qualificados nos processos produtivos.
Diante da conclusão de Goldin e Katz (1998) a respeito da associação entre capital e trabalho qualificado ser um ‘fenômeno transitório’, à luz da histórica relação de substituição com o trabalho qualificado no século XIX, Duffy, Papageorgiou e Pérez-Sebastian (2002) procuram evidências em diferentes países sobre a validade de hipótese da correlação capital-habilidade ao longo do tempo. Os autores concluíram que há evidências de que a hipótese de correlação positiva entre capital e habilidade é válida no nível de produção agregada, embora façam ressalvas quanto ao nível de confiança do teste empírico nos países. O motivo para tal ressalva, sugerem, é que o grau de correlação varia de acordo com o estágio de
desenvolvimento de país sob análise e, portanto, é sujeito a mudanças ao longo do período estudado.
Berman, Bound e Griliches (1994, p. 368) entendem que a mudança da estrutura ocupacional do setor industrial nos Estados Unidos a partir de 1980, caracterizada pelo deslocamento da demanda em direção ao trabalho qualificado, deveu-se principalmente a fatores de dentro de cada indústria, e apenas parcialmente por fatores de realocação de empregos entre diferentes indústrias. As principais evidências de seu estudo associam o aumento de trabalhadores não-operários - em desfavor da quantidade relativa de trabalhadores operários – a novas tecnologias produtivas do tipo labor-saving, o que foi concluído a partir da correlação positiva entre o skill upgrading e o investimento em computadores e P&D.
Apesar do nítido aumento relativo da quantidade de trabalhadores não- operários (ou de supervisão, também conhecidos como ‘colarinho-branco’), o efeito skill upgrading ocorre tanto para estes últimos quanto para os trabalhadores operários (os ‘colarinho-azul’). O direcionamento da demanda por trabalho ao segmento de trabalhadores mais qualificados fica, portanto, ofuscado por essas mudanças na composição intrassetorial. Tal deslocamento é explicado parcialmente pela mudança da composição intersetorial motivada pelo comércio internacional, que demanda indústrias mais intensivas em trabalho qualificado. Enquanto isso, a mudança tecnológica puxa a demanda por trabalhadores qualificados em cada indústria (BERMAN; BOUND; GRILICHES, 1994, p. 377). Os exemplos dos setores aeroespacial, de editoração e publicação, de eletrônicos e microeletrônicos, como principais promotores do efeito skill upgrading na dimensão intrassetorial, caracterizam os tipos de inovação que substituem trabalho por tecnologia. Vale ressaltar que esta tecnologia pode vir em diferentes formas, como a substituição das máquinas de escrever por computadores pessoais que reduzem as exigências de qualificação dos trabalhadores, robôs industriais e novos métodos industriais controlados por sistemas de produção flexível. Berman, Bound e Griliches (1994) concluem que “grande parte do skill upgrading que ocorreu na indústria durante os anos 1980 pode ser atribuído ao deslocamento das ocupações para os trabalhadores não-operários ou colarinho branco” (BERMAN; BOUND; GRILICHES, 1994, p. 374).
Schimmelpfennig (1998) introduziu o conceito de mudança estrutural setorial, segundo o qual, trata-se da geração de empregos altamente qualificados pela expansão de novos setores da economia, a partir da inovação de produto. Portanto, a
mudança na estrutura ocupacional em favor dos empregos mais qualificados não se deve ao difuso efeito upskilling, mas à mudança estrutural da economia que a inovação disruptiva gera ao ofertar no mercado novos produtos e serviços, incorrendo na necessidade de criar funções e posições em detrimento indireto de setores que perderam espaço na economia em constante destruição criativa.
A interpretação otimista do upskilling evoluiu gradativamente para a hipótese SBTC que, juntamente com a hipótese da RBTC, também conhecido por hipótese da rotinização, se destaca no debate acadêmico atual. Ambas as hipóteses serão esmiuçadas em seguida.
2.2 A hipótese SBTC (Skill-Biased Technical Change)
A hipótese skill-biased technical change (SBTC) formaliza que a mudança tecnológica é direcionada aos trabalhadores mais qualificados em detrimento dos menos qualificados. Ao contrário do caráter downgrading observado na indústria estadunidense no século XIX, a hipótese SBTC, que pode ser traduzida livremente como ‘mudança tecnológica enviesada para a qualificação’, revela um caráter upgrading da tecnologia sobre a estrutura ocupacional, isto é, o progresso tecnológico estimula a criação de empregos cada vez mais qualificados.
O desenvolvimento da hipótese SBTC foi forjado sobre a formulada associação entre tecnologia e habilidades. A evolução da já mencionada teoria do capital humano durante meados do século XX ajudou a sedimentar a validade das hipóteses que associam a mudança tecnológica ao trabalho qualificado. Como sintoma, há a associação estabelecida por teóricos do capital humano entre os investimentos em educação e os investimentos em capital físico (PAVLIDOU; TSALIKI;
VARDALACHAKIS, 2011). Essa relação evidencia o tratamento similar entre tecnologia e qualificação, tendo como decorrência natural desta abordagem a complementaridade entre ambas.
Segundo a hipótese SBTC, no cenário de aumento exógeno da oferta de trabalho qualificado, há em um primeiro momento a redução do skill premium, isto é, o salário relativo do pessoal qualificado, pelo deslocamento da curva de oferta em um movimento descrito como ‘efeito substituição’. No entanto, no longo prazo, ele poderá aumentar pelo protagonismo do ‘efeito tecnologia’. Isto é explicado pelo fato de que
“um aumento na oferta de trabalhadores qualificados eleva a lucratividade de
tecnologias complementares ao trabalho qualificado” (ACEMOGLU, 1997, p. 2), o que poderia compensar o efeito substituição presenciado de imediato. De qualquer modo, a atuação do efeito tecnologia por si só já revela que quanto maior a qualificação da oferta de trabalho, maior seria em tese a fração de novas tecnologias complementares ao trabalho qualificado, o que explica a crescente complementaridade entre tecnologia e qualificação ao longo do tempo (ACEMOGLU, 1997).
Alguns autores atribuem ao novo paradigma técnico-econômico o estímulo ao emprego de profissionais em funções técnicas e gerenciais. Convém contextualizar que a mudança de rumo na concepção teórica a respeito do impacto da tecnologia sobre a estrutura ocupacional parece estar relacionada à natureza reformadora que ela apresenta ao longo do tempo. A tecnologia há tempos vem transformando os setores da economia, a natureza das tarefas e as necessidades de fatores de produção. Ademais, a redução dos preços estimulou a demanda por serviços (FIORELLI, 2018, p.3). Cirillo, Pianta e Nascia (2014) identificam que a inovação de produto pode gerar mais oportunidades de emprego a posições gerenciais, enquanto a inovação de processo leva à destruição de empregos sobretudo para trabalhadores manuais, que são substituídos por máquina, fato que é mais evidente na indústria do que no setor de serviços. Calvino e Virgillito (2016) entendem que a implementação de novas tecnologias é irradiada para todos os setores da economia:
A mudança estrutural da agricultura para a indústria, e desta para os serviços, é um exemplo claro de como a mudança tecnológica se espalha por todos os setores. Mesmo tendo a direção da taxa de absorção de mão-de-obra se movido dos primeiros dois setores em direção ao setor terciário, atualmente parte do setor de serviços está experienciando uma forte redução na demanda por trabalho. (CALVINO; VIRGILLITO, 2016, p. 7)
Assim, o advento da sociedade do conhecimento pós-industrial orientou a expansão do emprego em direção ao trabalho técnico e profissional, servindo como base para o desenvolvimento da hipótese SBTC (OESCH, 2013, p. 2; SUSSKIND;
SUSSKIND, 2015).
Para Katz e Margo (2014), a criação expressiva de tarefas e funções gerenciais, que alterou a estrutura ocupacional nos Estados Unidos entre os séculos XIX e XX, esteve diretamente relacionada à expansão geográfica dos mercados e à necessidade de controlar escalas crescentes de produção e distribuição. Ao longo do século XX, seguindo o padrão observado desde 1850, Katz e Margo (2014, p. 46) observaram um efeito monotônico de skill upgrading nas ocupações de alta qualificação, como
profissionais liberais, técnicos e gerentes, que cresceu de 6% em 1920 para 28% em 2000. Por outro lado, as ocupações de baixa qualificação decresceram de 60% em 1920 para 40% em 2000.
O estudo da direção da mudança tecnológica ganhou importância com a implementação e difusão das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), também associado ao novo paradigma tecnológico. À medida que as TICs conseguiram aumentar a produtividade marginal do trabalho qualificado em relação ao trabalho não qualificado, tornou-se mais econômico empregar trabalhadores qualificados.
De fato, muitas pesquisas evidenciaram a maior intensidade da hipótese SBTC quando aplicado a países e setores intensivos em tecnologia (VIVARELLI; PIVA;
SANTARELLI, 2003, p. 6). Os autores lançam luz sobre o papel da reorganização da produção dentro das organizações como contribuição primária para a mudança da estrutura organizacional em favor das ocupações altamente qualificadas.
Pesquisadores da mudança organizacional consideram que o desenvolvimento de práticas gerenciais, como a descentralização, o trabalho coletivo e a abordagem multitarefas, tenha atuação relevante para a maior demanda de trabalhadores qualificados. Um dos motivos é que as TICs mudam a forma como as decisões são tomadas numa empresa, não raro “tornando as hierarquias redundantes já que as ordens hierárquicas são substituídas por interações laterais entre trabalhadores”
(VIVARELLI; PIVA; SANTARELLI, 2003, p. 6). Por outro lado, eles reiteram a importância do papel da tecnologia como fator de mudança da estrutura ocupacional, embora exercido na sequência dos efeitos da reorganização organizacional.
Para Baccini e Cioni (2010), as pesquisas empíricas sobre a validade da hipótese skill-biased technical change (SBTC) procuram identificar uma correlação positiva entre tecnologia e a mudança da estrutura ocupacional em favor do trabalho qualificado. Uma vez confirmada a correlação, a explicação mais comum é que “há um mecanismo causal segundo o qual as novas tecnologias introduzidas no processo produtivo demandam trabalhadores com alta qualificação” (BACCINI; CIONI, 2010, p.
81). O outro lado dessa questão é que, ao mesmo tempo em que a nova tecnologia produtiva impulsiona a demanda por trabalho qualificado, a implementação da tecnologia é limitada pela escassez de trabalho qualificado para operar as inovações (AGUILERA; RAMOS BARRERA, 2016, p. 62). Na sua pesquisa aplicada ao setor industrial da Itália, os autores colocam em questionamento a visão mainstream que