É chegada a hora. Em um quarto fechado sob a luz de velas o doente dá o derradeiro suspiro e cerra os olhos. Seu corpo está imóvel, sem dor nem calor. Entre as mãos uma vela acesa e um crucifixo. Eis a comadre morte que passa e leva mais uma alma... Sabe-se lá para onde! Ouvem-se gritos e chamados pelo nome do defunto, e todos ali choram. Lágrimas caem dos olhos vermelhos e deslizam sobre os rostos cansados dos familiares que estão em volta da cama reunidos próximos daquele que acaba de fazer o seu passamento.48 Esta foi, por muito tempo, a cena cotidiana das famílias católicas de Juiz de Fora que conviviam com a dura realidade da morte. A casa ainda era o local mais apropriado para se morrer, salvo algumas poucas exceções. De um modo geral, as pessoas queriam fazer seu passamento no âmbito da família e cercado pelos membros mais próximos. Era o que se podia chamar de boa morte.
Fazer o bom passamento consistia em um ritual vivenciado pela família. Raramente morria-se sozinho, e ninguém queria isso, pois significava ter uma má morte, o que impossibilitava a salvação da alma. A companhia dos familiares e de amigos auxiliava o moribundo, porém, os sentimentos de perda, de tristeza e, até mesmo de solidão, permaneciam entre os indivíduos. Sentiam-se o abandono de Deus, apesar de as pessoas manifestarem sua fé n’Ele e na Igreja Católica, o que também contribuía para amenizar o sofrimento. A desolação manifestava-se intensamente no indivíduo que sofria e no grupo que acompanhava seus últimos dias. A consciência da finitude humana revelava-se em todos, o que não é de se estranhar, pois, até mesmo o Filho de Deus, momentos antes de sua morte, demonstrou estes sentimentos, expressos em algumas passagens nos Evangelhos: “Pai, afasta de mim este cálice”, ou “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes!?”49 São situações que refletem bem a angústia daquele que sabe que o seu fim terreno chegou.
Antes que a morte chegasse, a doença ou a velhice chegavam primeiros. Esse tornava-se um momento de praticar a solidariedade em família e, assim também, as pessoas vivenciavam as lembranças de um passado sem volta. Uma oração, uma palavra de Deus, um conselho, enfim, os membros procuravam se reunir para aquele momento fatídico que, certamente, aproximava-se a cada dia. Aqueles momentos ficavam arraigados por anos nas lembranças dos que os presenciavam. O memorialista Pedro Nava assim narrou a doença que atingiu sua avó no início do século XX em Juiz de Fora.
48 Cf. Descrição baseada nas obras de: NAVA, Pedro. Baú de ossos. Op. cit.; NAVA Pedro. Balão Cativo. Op.
cit.
Minha avó ia cuidar de sua velha especialidade: a maionese. Ninguém fazia igual à dela. Pois começou a bater firme; de repente minha Mãe deixou de ouvir aquele ruído ritmado que foi substituído por uma raspação esquisita no fundo do prato. Olhou e viu a Inhá Luisa como que abestalhada, derramando tudo, a cara puxada para um lado, metade do corpo se firmando e metade, de pedra, resvalando. Cortada ao meio. Correu com a Rosa, impediram a queda e vieram trazendo a velha, trôpega, para a sala de jantar. Eu vi sua entrada, lembro! Arrastando as pernas. Assombrou-me o desvio do rosto e a expressão distanciada do olhar ― pasmo, vidrado, fixo nos aléns. [...] Coitada de minha avó. Nunca mais que ela boiaria à tona da vida. Logo ela, que amava tanto a vida, com o que ela lhe dera, com o que ela lhe tomara ― ia morrer, segundo a sentença que o Almada sussurrara a meu tio. Desesperador, inútil, nada a fazer. Morrer!50
Wilson de Lima Bastos, outro memorialista da cidade, descreveu assim a doença que atingiu uma amiga, ainda jovem, em 1930:
Ela, [Silvinha] encantadora e finíssima, sempre sorridente, ao submeter-se a uma operação de apendicite, no Rio de Janeiro, mais ou menos aos 20 anos de idade, foi mal-sucedida na anestesia raquidiana, não mais andando, pelo que teve de passar a locomover-se em cadeira de rodas. O pior, entretanto, é que sofreu um processo progressivo de paralisia, acabando seus dias em grande sofrimento, muitos anos depois, sempre deitada, curtindo sua dor.
Quando eu soube do mal que a acometera, sofri sobremaneira, não podendo compreender a desigualdade das situações humanas, uns esbanjando saúde e alegria no vício, na baderna, no negativismo, e outros, cheios de virtude, com tanta coisa boa a dar e a receber, entregues a um bloqueio irreversível, sofrimento para si e para os que os rodeiam. Assim foi fenecendo, perdendo o seu brilho, murchando aquela florzinha viçosa de ontem, de aroma tão doce, que enfeitava a nossa roda, que sorria e fazia-nos sorrir.51
O sentimento de incompreensão marcou profundamente o comportamento do autor, não podendo entender o “jogo da vida”. O sofrimento fica bem expresso no texto, atingindo a jovem e os seus parentes que a rodeavam. O fim chegara e com ele o sorriso se acabara na certeza de uma morte ainda em idade prematura.
Os doentes necessitavam de cuidados especiais. Naquela época, quase não existiam hospitais, por isso, as famílias procuravam manter os moribundos em casa, por vezes, trancafiados em um quarto. Os familiares trocavam, quase sempre, o dia pela noite ou, quando suas posses permitiam, contratavam um acompanhante para providenciar os cuidados especiais e permanentes àquele que não mais podia cuidar de si próprio. Isso fica evidente no texto a seguir:
Foi nesta fase que tive a oportunidade de conhecer “tio” Juca, da família Côrtes, parente de tio Mário, velho e muito doente, vítima da erisipela que o mantinha preso no quarto. Dali raramente saía, sendo tratado por um dos empregados, que lhe dava o banho, pensava-lhe as feridas, levava-lhe os alimentos, executava as
50 NAVA, Pedro. Balão Cativo. Op. cit., pp. 74-75.
mordomias necessárias. Era homem de estudo mas, no seu isolamento, naquele pequeno mundo de quatro paredes, ficou ranzinza e muito pouco afeito a uma conversa. O certo é que, ao passar por aquela porta, todos nós devíamos fazer silêncio para não perturbar o seu repouso.
Ao vê-lo, assim de inopino, magro, barbudo, branco como bicho de goiaba e com cheiro de desinfetantes, fiquei parado como que a indagar o porquê de tudo aquilo. Ele olhou para mim e perguntou o meu nome. Que bom! Ficamos amigos. Daí para frente, quase todos os dias, quando iam cuidar dele, eu dava um jeito de entrar no quarto e cumprimenta-lo.52
A passagem anterior reflete o que se passava em uma casa onde a presença de um doente mudava bastante a rotina da família. Percebemos também que o espaço do moribundo devia ser respeitado por todos no lar. Reinava, quase sempre, o silêncio, o medo e, na maneira de vivenciar o catolicismo, a caridade ao próximo que sofre.
A espera da morte pelo doente e pelos familiares tornava-se um momento de grande importância na vida das pessoas. Não somente pelo fato da morte em si, mas também pela possibilidade de reunir os parentes e amigos, às vezes, distantes há muitos anos. Por isso que podemos afirmar, o morrer constituía-se em um bom momento para se cultivar e afirmar os laços de parentesco e de amizade. As conversas, as bebidas e as comidas reuniam as pessoas em torno de um único objetivo: prestar uma última homenagem ao moribundo e solidarizar com a família. O procedimento dos indivíduos diante da morte de algum ente e amigo seguia um ritual em que se procurava tomar as primeiras atitudes para se fazer um bom passamento. Vejamos, a título de exemplo, um texto sobre a morte na Bahia nos séculos XVIII e XIX.
Hildegardes Vianna lembra que na Bahia já foi assim: ao primeiro sinal de que alguém estava “se concluindo”, os vizinhos vinham reunir-se ao agonizante e sua família. As mulheres se lançavam a muitas tarefas, cozinhando, lavando, fervendo e passando roupa para o doente, costurando sua mortalha. Ajudavam também no elaborado banho de água misturada a cachaça e álcool, no abanar e mover o acamado. Em meio à fumaça de incenso, os homens de reuniam na sala a conversar sobre doença e morte. Havia doentes “sem forças para morrer”, que necessitavam de um empurrão dos vivos, como a queima de velas, rezas, certas beberabens. Uma das rezas talvez fosse o “ofício da agonia”, de que fala Araújo.53
A respeito dos objetos que, geralmente, acompanhavam tais rituais, há outra passagem que nos revela o seguinte:
Cercado de gente, o enfermo ocupava uma cama colocada a um canto, num pequeno quarto absolutamente fechado. Apenas uma vela iluminava o ambiente. [...]
Outros objetos também zelavam pelo doente. Sobre a cabeceira da cama, observou Lindley, estavam colocadas várias imagens, uma perna e um pé, uma pequena
52 NAVA, Pedro. Balão Cativo. Op. cit., pp. 115-116.
53 HILDEGARDES, Vianna. A Bahia já foi assim (Salvador, 1973), pp. 53-55; Alceu M. Araújo. Ritos, sabença,
espada, outras relíquias e uma coroa de galhos retorcidos sempre suspensa sobre ele: o conjunto formando mui curiosa mistura de doença, estupidez e superstição. [...]
Não estava sozinho. Rodrigues tinha sua mulher e uma outra mulher de plantão acocoradas ao lado da cama, e as duas passavam a toda hora por cima do doente por uma ou outra razão prática ou talvez mágica. Além delas, o quarto se achava cheio de parentes, visitantes e fâmulos, que o tornavam imensamente quente e pequeno. Exemplo típico de morte domesticada.54
Percebemos o quanto a morte domesticada era praticada na Bahia naqueles tempos. Eram as atitudes que se esperavam daquelas pessoas que estavam em meio a uma sociedade amplamente formada por comportamentos associados às crenças populares, nem sempre compartilhadas pela Igreja Católica, mas que compunham o imaginário familiar da época.
Também em Juiz de Fora vamos perceber comportamentos semelhantes aos relatados anteriormente. A morte domesticada, presente naquela sociedade já industrializada, visava fazer ainda com que o moribundo tivesse toda a assistência para se fazer um bom passamento. A presença dos amigos, dos vizinhos e dos familiares não deixam dúvidas de que esse acontecimento tinha um significado intenso nas vidas das pessoas. Vejamos o relato de Pedro Nava, bastante envolvente e rico em detalhes:
Os convidados para o jantar chegavam, caíam das nuvens, e iam ver a doente estertorar, aceitavam um sorvete compungido e voltavam para casa. Sempre ficaram uns poucos. O Antonico, que logo reclamou vinho do Porto para a vigília. O Mário. A D. Maricota Ferreira e Costa. A tia Dadinha, a Titita e o Clóvis Jaguaribe com a Zima. O Nelo ― o noivo ― que chegara de fraque, plastrão e camélia branca no peito. Nas suas águas tinha vindo o Cícero, que aproveitou e foi se preparando para passar a noite. (...) Cada um foi servindo ao deus-dará. Para os meninos aquilo foi uma orgia de doce, queijo e uva branca à tripa forra. (...) Nesse segundo dia da doença, minha avó, desidratada pelas sangrias, pelos drásticos ― tinha afilado o rosto e deixado transparecer os traços da raça ornitológica dos Pinto Coelho da Cunha. O queixo lhe fugira, as têmporas tinham se salientado, o nariz adquirira o ar adunco e rapace dos antepassados. Despersonalizava-se, perdia de si e virava numa espécie de síntese familiar que ia morrer (na sua expressão provisória de indivíduo) subsistindo nos filhos, netos, bisnetos ― inclusive o que nunca a viu nem ela a ele e que quando ri, não ri como o pai, nem a mãe, nem os avós ― ri com o riso que eu conheci na sua bisavó e minha avó. (...) Ela estava morrendo e eu sentia confusamente que cada um de nós morria um pouco daquela morte da filha do Luís da Cunha. Ali estava se rompendo um elo e começavam as separações. O caleidoscópio familiar ia mover suas pedras e formar novas rosáceas... Aquilo foram dias de balbúrdia, de liberdade dos meninos, de calaçaria das negrinhas, dum entra e sai, dum servir de café, dum abrir de garrafas de vinho do Porto como nunca se vira no 179. Não se fechavam mais portas nem janelas. Havia sempre dez, quinze, vinte pessoas, entre filhas em pranto, netos, visitas, parentes, comadres e curiosos ― dentro do quarto da agonizante. Todos davam palpites, sugeriam remédios, que se despachasse o Almada e se
chamasse a rezadeira de Milheiros, traziam imagens, fitas santas, palhas milagrosas, bentinhos, orações fortíssimas, terços que tinham tocado na santinha Bernardette, no Menino de Aracelli, no Santo Sepulcro, contas do rosário do Padre Júlio Maria, água de Lourdes, água de Aparecida, água de Lagoa Santa,
água do banho do Monsenhor Horta.55 (Grifos Nossos)
Parece que aquele momento que antecedia a morte de um ente tão querido por todos tornava-se o tempo certo para se desenvolver a sociabilidade entre pessoas. Para entender melhor essa questão, estaremos recorrendo a dois conceitos básicos desenvolvidos por Georg Simmel. Primeiramente, ele define por sociação:
A forma (realizada de incontáveis maneiras diferentes) pela qual os indivíduos se agrupam em unidades que satisfazem seus interesses. Esses interesses, quer sejam sensuais ou ideais, temporários ou duradouros, conscientes ou inconscientes, causais ou teleológicos, formam a base das sociedades humanas.56
A sociação vai combinar inúmeras maneiras diferentes de interagir em função dos interesses dos indivíduos. É nesse ponto que se insere o conceito de sociabilidade.
[...] Sociedade propriamente dita é o estar com um outro, para um outro, contra um outro que, através do veículo dos impulsos ou dos propósitos, forma e desenvolve os conteúdos e os interesses materiais ou individuais. As formas nas quais resulta esse processo ganham vida própria. São liberadas de todos os laços com os conteúdos; existem por si mesmas e pelo fascínio que difundem pela própria liberação destes laços. É isto precisamente o fenômeno a que chamamos sociabilidade.57
A sociabilidade é, assim sendo, a “forma lúdica da sociação”.58 A sociabilidade vem a ser o espaço onde a interação sai dos meandros formais e entra no âmbito do jogo, da brincadeira e da conversa despretensiosa.
Conversar pressupõe duas partes: é um caminho de ida e volta. De fato, entre todos os fenômenos sociológicos, com a possível exceção de “olhar um para o outro”, a conversa é a forma mais pura e elevada de reciprocidade. A conversa é desse modo a realização de uma relação que, por assim, dizer, não pretende ser nada além de uma relação — isto é, na qual aquilo que usualmente é a mera forma de interação torna-se seu conteúdo auto-suficiente.59
O momento vivido por Pedro Nava e seus familiares diante da doença de sua avó era propício para se “jogar conversa fora” e, despretensiosamente, promover uma relação de reciprocidade entre os indivíduos presentes naquele recinto. Cultivava-se a sociabilidade com os amigos, os vizinhos e os parentes que chegavam de longe para um último contato com a matriarca.
55 NAVA, Pedro. Balão Cativo. Op. cit., pp. 76-77.
56 SIMMEL, Georg. Sociologia. (Trad. Carlos Alberto Pavanelli, et. al.). São Paulo: Ática, 1983, p. 166. 57 Ibidem, p. 168.
58 Ibidem, p. 169. 59 Ibidem, p. 177.
As sugestões para retardar a passagem da agonizante eram diversificadas. Isso demonstra o envolvimento das pessoas com o simbólico, que se alternavam entre as crenças populares e os sacramentais católicos. Chama atenção, nesse sentido, a idéia que foi lançada para ir buscar a benzedeira de Milheiros para proceder a um ritual de cura através de gestos e palavras apropriadas. Importante mencionar que:
A prática de cura através das benzeções sugere a comparação com os métodos da medicina institucionalizada [...] O ritual de benzeção ― que envolve benzedor / benzido, gestos, espaços e objetos sacralizados ― está inserido no contexto da cultura popular.
O ritual de benzeções se organiza de modo a dialogar com as diferentes forças sociais, ora firmando certos modelos (como acontece na preservação das heranças recebidas dos antepassados) ora ultrapassando-os (como sucede na ação de rezadores que reelaboram aspectos religiosos do catolicismo).
A noção de ruptura da unidade do Cosmos ou do indivíduo fundamenta o conceito de doença na cultura popular. [...] Estar doente, portanto, é experimentar o estado de desordem ou de quebra da harmonia nas relações do indivíduo com o mundo, consigo mesmo e com os semelhantes. Essa ruptura identificada inicialmente pelo seu caráter simbólico e caracterizada como doença requer intervenções que restabeleçam a unidade. De modo específico, a benzeção se apresenta como uma linguagem oro-gestual com a qual algumas pessoas detentoras de poder especial controlam as forças que interferem na vida harmoniosa do homem. Nesse sentido, benzer consiste em garantir o funcionamento da normalidade desejada devendo-se, para tanto, conter a atuação do mal.
O conceito de benzeção implica, além do contexto social, a ação simultânea de gesto e palavra sagrados com o objetivo de reorganizar o mundo. Tal organização leva ao estabelecimento do conceito de mal, definido como a força que promove a ruptura. Por isso, a doença é uma forma de mal, que retira do homem a capacidade de trabalhar e instaura a dor em oposição à felicidade a ao bem-estar.60
Nenhuma atitude da família contribuiu para amenizar a dor e o sofrimento naquele ambiente, pois a morte da matriarca se aproximava e iria provocar, sobretudo, rompimentos de elos entre os membros. Morre a bisavó, a avó, a mãe, enfim, cada um da família morria um pouco com aquela morte. Ela é desagregadora e, ao mesmo tempo, formadora de novos laços, não somente familiares, mas sociais. Isto, porque “os cerimoniais domésticos tradicionais (nascimentos, batismos, aniversários, casamentos e funerais) fazem o movimento inverso: abrem a casa para a rua, transformando o espaço doméstico da moradia em algo público, área onde estranhos podem circular livremente.”61 A sociabilidade, assim sendo, constitui-se marca própria dos cerimoniais domésticos, inclusive o da morte.
Naquele momento de morte circulava muitas pessoas pelo local, sempre entre quinze e vinte, segundo Nava. Eram dias de balbúrdia, crianças brincando, comilanças, café e vinho do Porto com fartura. “Morrer acompanhado era especialmente importante quando a morte
60 GOMES, Núbia Pereira de Magalhães; PEREIRA, Edmilson de Almeida. Assim se benze em Minas Gerais:
um estudo sobre a cultura através da palavra. 2. ed. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2004, pp. 88-90.
não dava aviso prévio.”62 O momento da morte tornava-se o momento da dor, e também do alívio, da sensação de que nada mais se tinha a fazer para com aquela que vivera uma boa vida e, certamente, fizera seu passamento dentro das regras do bem morrer.
Na noitinha de 3 de setembro a Inhá Luísa já era coisa diferente, pessoa que eu nunca vira. Tinha a face cor de cinza e cor de vinho. As mãos, amarelas. Os pés, de gelo. Os olhos entrados de crânio adentro, pálpebras coladas. Tal como se sua substancia fosse do aço do Luís da Cunha ― uma ferrugem pulverulenta lhe dera nas narinas, nos lábios, na língua seca e curtida. E aquela respiração formidável. Parecia parar. Depois, retomava fraca e espaçada, como ruído que viesse do fundo da chácara. Ia chegando perto, crescia, invadia o quarto, a casa, a rua, a cidade e era como um sustenido de órgão que podia ser ouvido da Creosotagem a Matias Barbosa. Depois do pico, começava a descer, feito água de enchente, amainava, distanciava, entrecortava, voltava para os fundos, para a Rua de Santo Antônio. Sumia um instante. Todos olhavam para ver se estava na hora da vela. Não estava e o ruído recomeçava mofino, ia chegando perto, empolando, tomando novamente conta de tudo ― num vaivém de onda que incha, arrebenta, desmorona, recua. E volta. Dia 4, de madrugada, a harmoniflauta parou de repente. Mal deu tempo para a vela. Houve aquela gritaria das filhas e das negrinhas, tia Dedeta perdeu os sentidos e tio Meton Chegou, diante da boca de minha avó, um espelhinho que não embaçou. Deu tudo por acabado e, aplacado o rodamoinho do primeiro momento, já se começava a combinar a mortalha, quando a respiração retornou a vir subindo de longe ― que nem vaca que avoluma, chega, estoura, desaba, retrocede. Foi uma alegria. Mamãe está viva, mamãe está viva. Vai