5.1.1 - O luto em família
Grande parte das atitudes perante a morte e o morrer foram introduzidas no Brasil pelos colonizadores portugueses. Posteriormente, com a chegada dos negros, alguns elementos também se incorporaram à prática e foram se adaptando à população de cada localidade. Com relação ao luto, também podemos dizer que os colonos trouxeram seus comportamentos já enraizados na metrópole pela tradição e exigência da ocasião. Exemplo disso foi o momento vivenciado pelos portugueses na morte do rei D. João IV. O Estado apresentou minuciosamente aos súditos como eles deveriam se vestir no luto.
Quando D. João IV faleceu em 1656, a metrópole detalhou a vestimenta que a população deveria envergar.
O luto que se há de trazer por todos os vassalos deste reino hão de ser capuzes cortados de baeta grossa, e quando não haja, de outra virada do avesso. E os que tiverem possibilidades com carapuças, e os mais a este semelhar suas mulheres. Os piões terão pelo menos carapuça de baeta, e as mulheres mantilhas tintas de negro: os capuzes se poderão aliviar passados três meses, e o luto se aliviará passado um ano , e durará aliviado um ano mais.1
O luto constitui talvez um dos momentos mais solitários vivenciado por alguém que passa pela experiência da perda através da morte. Não que os outros momentos não o sejam, mas é no luto que a dor aparece mais intensa, porque é a hora de experimentar o “viver sem o
1 ALVAREZ, José Mauricio Saldanha. Na tumba dos ricos ou no esquife dos pobres: representar a ordem da
outro”. O morto já não existe mais como ser humano. Restam a memória e a saudade.
Nenhuma palavra que sai da boca dos homens contribuirá para acalentar a tristeza do enlutado. O tempo, porém, será o maior auxílio para a família. É ele quem vai reestruturar a vida dos parentes e dos amigos que ficaram. De acordo com João J. Reis, o luto tinha variadas funções:
O luto doméstico seguia uma série de preceitos com múltiplas funções: expressar prestígio social, mostrar a dor, defender a família enlutada de um retorno do defunto. Exatamente como em Portugal, não se dizia o nome de quem morria, falava-se do Morto, do Defunto, do Falecido. A viúva, especialmente, não pronunciava o nome do marido, referindo-se a ele como “meu defunto”, para reafirmar sua nova condição.2
A nova condição de ser viúvo ou viúva tinha que ser demonstrada na sociedade como um sinal de respeito e prestígio. O comportamento social a partir dessa nova situação deveria ser mais moderado.
Segundo Ariès, o luto na Europa nem sempre foi praticado da mesma maneira. Assim como as atitudes diante da morte ia se reestruturando, o luto também passou por significativas mudanças no decorrer da história.
Aproximadamente desde o século XII, o luto excessivo da Alta Idade Média efetivamente ritualizou-se. Começava apenas após a constatação da morte e traduzia-se por uma indumentária, por hábitos e por uma duração fixados com precisão pelo costume.
Assim, do fim da Idade Média ao século XVIII, o luto possuía uma dupla finalidade. Por um lado, induzia a família do defunto a manifestar, pelo menos durante um certo tempo, uma dor que nem sempre experimentava. Esse período podia ser reduzido ao mínimo por um novo casamento precipitado, mas nunca era abolido. Por outro lado, o luto tinha também o efeito de defender o sobrevivente, sinceramente submetido à provação, contra os excessos da dor, pois impunha-lhe um certo tipo de vida social, as visitas de parentes, vizinhos e amigos que lhe eram feitas e no decorrer das quais a dor podia ser liberada sem que sua expressão ultrapassasse, entretanto, um limite fixado pelas conveniências.3
Porém, no século XIV, uma mudança radical na tradição pôde ser percebida. A peste e o temor da morte romperam com o ritual de passagem, apesar de o luto ainda ser manifestado. Mas tornou-se uma representação patológica, visando à afirmação individual do morto.
As pessoas morrem sem servos e são enterradas sem padres, o pai não visita o filho, nem o filho o pai; a caridade está morta e a esperança abatida. E as forças dos vivos não eram suficientes para enterrar os mortos. O que aterroriza acima de tudo é a morte solitária, a morte sem rito. Porque se corre o risco de não ir para o Paraíso, mas, sobretudo porque se rompe uma tradição, uma continuidade asseguradora. Ora, a função fundamental dos ritos funerários, não nos esqueçamos, é
2 REIS, João José. Op. cit., p. 132. 3 ARIÈS, Philippe. Op. cit., p. 71.
precisamente assegurarem uma continuidade, dando aos mortos um lugar, o “seu” lugar, tanto no espaço que lhes está reservado (o cemitério, a igreja) como na memória coletiva e individual dos vivos. Os funerais fazem do defunto, do homem que se leva à terra um ser imaginário, um antepassado. E esse trabalho do luto consiste em realizar ritualmente essa separação dolorosa, dando ao morto esse novo estatuto que ele não pode adquirir plenamente senão juntando-se aos próprios antepassados no cemitério.
A epidemia, como as migrações e o desenraizamento cultural ou geográfico, porém de modo mais nitidamente apocalíptico, impede os ritos de funcionar e transforma os habitantes das cidades em órfãos inconsoláveis da perda de seus patres. O luto torna-se então patológico. A representação piedosa e macabra que os testadores criam cada vez mais em torno de sua própria morte visa mais afirmar a individualidade daquele que se leva à terra do que a organizar ritualmente a separação entre o defunto e os vivos. E o lugar que assume o corpo no conjunto
das práticas funerárias faz sobressair um narcisismo exacerbado.4 (Grifos
Nossos)
A ritualização do luto, a partir do século XII, acabou por minimizar as atitudes de exageros presentes nos séculos anteriores. Porém, ele nunca deixou de ser manifestado em nenhum momento, mesmo durante os tempos de medo que vigorou no século XIV. Quando chegou o século XIX, as manifestações de luto retornaram aos excessos vivenciados na Alta Idade Média.
Ora ― e este é um ponto muito importante ―, no século XIX esse limite não mais foi respeitado, o luto se derenrola com ostentação além do usual. Simulou até não estar obedecendo a uma obrigação mundana e ser a expressão mais espontânea e mais insuperável de uma gravíssima dor: chora-se, desmaia-se, desfalece-se e jejua- -se como outrora os companheiros de Roland ou de Lancelot. É como um retorno às formas excessivas e espontâneas ― ao menos na aparência ― da Alta Idade Média, após sete séculos de sobriedade. [...].
Esse exagero do século XIX tem um significado: os sobreviventes aceitam com mais dificuldade a morte do outro do que faziam anteriormente. A morte temida não é mais a própria morte, mas a do outro.5
Os exageros do luto que ficaram caracterizados no século XIX não se procederam na centúria seguinte. Pelo contrário, iniciou-se aí um comportamento voltado para a condenação do luto, e sua prática tornou-se uma atitude solitária e vergonhosa.
As manifestações aparentes de luto são condenadas e desaparecem. Não se usam mais roupas escuras, não se adota mais uma aparência diferente daquela de todos os dias. [...]
Dentro do circulo familiar ainda se hesita em desabafar, com medo de impressionar as crianças. Só se tem o direito de chorar quando ninguém vê nem escuta: o luto solitário e envergonhado é o único recurso, como uma espécie de masturbação ― a comparação é de Gorer.6
4 BRAET, Herman; VERBEKE, Braet (eds.). Op. cit, pp. 127-128. 5 ARIÈS, Philippe. Op. cit., pp. 71-72.
De qualquer maneira que se praticava, observamos que as pessoas que vestiam o luto seguiam um conjunto de atitudes apropriadas para a ocasião. Ele era parte integrante do ritual da morte. O luto promovia a solidariedade entre as pessoas e as reintegravam na sociedade. Ao mesmo tempo auxiliava o morto a fazer a passagem para o Paraíso de maneira plena.
Na realidade, [o luto] é um estado de margem para os sobreviventes, no qual entram mediante ritos de separação e do qual saem por ritos de reintegração na sociedade geral (ritos de suspensão do luto). Em alguns casos este período de margem dos vivos é a contrapartida do período de margem do morto. A terminação do primeiro coincide às vezes com a terminação do segundo, isto é, com a agregação do morto ao mundo dos mortos.
[...] Durante o luto os vivos e o morto constituem uma sociedade especial, situada entre o mundo dos vivos, de um lado, e o mundo dos mortos, de outro, da qual os vivos saem mais ou menos rapidamente conforme fossem mais estreitamente aparentados ao morto. Por isso as estipulações do luto dependem de grau de parentesco e são sistematizadas de acordo com o modo especial como cada povo determina este parentesco (paterno, materno, de grupo, etc.). 7
A sociedade especial de que fala Gennep é, na verdade, um momento em que é possível perceber uma relação muito próxima entre vivos e mortos, pois os familiares aproveitam o estado de dor e sofrimento para ficarem mais próximos das “coisas” que pertenciam ao finado: seus objetos pessoais, suas roupas, móveis, dinheiro, jóias, fotos, etc. Tudo que lembrava o morto tornava-se, por vezes, sagrado para os familiares, quase intocável. Porém, em alguns casos, chegava a provocar um sentimento inverso, de distanciamento e de temor. Manipular os objetos do finado trazia ainda a lembrança e a saudade, muitas vezes carregadas de lágrimas, lamentações e incertezas.8
Estudando o caso brasileiro no século XIX e XX, alguns autores puderam resgatar os comportamentos vivenciados pelas pessoas durante o tempo de luto. Como forma de compreensão geral do assunto e a título de comparação, apresentamos dois textos de conteúdos significativos a respeito do assunto. O primeiro deixa evidente a cor predominante durante o luto e como eram os comportamentos dos adultos e das crianças. O segundo, mais completo, possibilita um entendimento mais minucioso com relação às atitudes das pessoas que acabaram de perder um ente querido.
1 - Quando morre alguém na família, todos colocam luto. Se é o pai ou a mãe, até crianças de braço são trajadas de preto. Mesmo quando morrem crianças, os pais usam luto. É, portanto, muito comum tal uso. Tingem todas as peças de roupa - as de cima e as de baixo. É impressionante o número de pessoas de luto: pessoas de idade, mulheres e crianças. Guardam luto de parentes e até de compadre. De pai e mãe - luto fechado durante um ano, aliás, não há luto aliviado. O luto é camisa e calças pretas. As mulheres de vestido todo preto. Acreditamos que seja também uma roupa mais prática, pois a sujeira pouco aparece.
7 GENNEP, Arnold Van. Op. cit., p. 127.
Luto por parte de filho, sendo casado ou maior, guardam seis meses. De filhos antes dessa idade, apenas três. De tio, avós, três meses. De irmão, seis meses. De compadre que se quer bem, três meses. Quanto aos pobres também é assim.9
2 - Já se pôs de luto e por todos. A ordem geral era "botar luto". A ética marcava os meses e os anos da duração do sentimento. Viúvo e viúva possuíam um código verdadeiro cinturão de aço, que quase tornava o cônjuge sobrevivente numa espécie de sombra do falecido. O luto tinha de ser fechado e fadado a continuar até o resto dos seus amargurados dias.
Luto fechado, no conceito reinante, consistia em vestido negro, negríssimo com gola subida, mangas compridas, e o comprimento da saia o mais fora da moda possível, longo, longo, muito longo. Barras de espesso crepe, preto retinto, recobriam a parte inferior da saia, subindo em recortes consoante o gosto de cada qual, pelo casaco invadindo a gola e punhos. Luvas pretas, sapatos pretos, cabo de guarda-sol preto. Isto para a mulher.
Para o homem era terno preto, camisa branca ou branca com riscas pretas, abotoaduras dos punhos e botões do peito da citada camisa bem pretinhos, gravata preta. Meias e botinas pretas. Fumos pretos na manga do paletó preto. Era um nunca acabar de tanto preto. Além de tudo, o colete.
Havia o luto fechado sem ser pesado em que o crepe não aparecia nas vestes femininas sendo substituído por requifes também pretos. Quanto aos homens dispensava-se apenas o fumo do braço, mas tendo que conservar o que cobria a fita do chapéu. [...]
Luto de marido ou de mulher durava a vida toda, salvo se casasse de novo. Para pai e mãe um ano fechado, sendo seis meses com crepe. Irmão e irmã obrigava a seis meses fechado e seis meses aliviado. Tios e sobrinhos, três meses fechado, três meses aliviado. Primos, compadres e amigos diletos três meses aliviado. Parente longe ou amigo por quem se precisasse dar uma satisfação ao público cabia um fumo no braço e outro no chapéu para os homens, contas e argolas pretas para as mulheres.
Havia o chorão. O chorão no luto de pai e mãe era preso ao chapéu de jeito que caísse sobre um dos ombros apenas. Cabe dizer que o chorão era um véu de gaze, voale ou outra fazenda mole. No luto de marido, o chorão caía sobre as costas, complementando o véu que cobria a face da viúva. Viúva não podia sair de cara descoberta. Se não tinha chapéu, envolvia a cabeça numa mantilha ou xale preto. Viúva que aliviasse luto antes do tempo, sem obedecer três anos de completo negror, dava que falar. Se vestia lilás, roxo, cinza ou moldes muito no rigor da moda, demonstrava estar de casamento em vista ou ter sido desviuvada de forma ilícita.
Viúva honesta tinha de vestir preto e desistir de vida mundana. Se depois de certo tempo, dez ou quinze anos, freqüentava casas de amigas em dias de festa, ficava discretamente sentada no quarto da sala, sem participar das alegrias gerais. O viúvo também ficava obrigado à roupa preta e às mesmas obrigações de retiro.10
Percebemos o quanto as regras para se guardar o luto eram rígidas, principalmente com as mulheres. Porém, há que se destacar que tanto viúvos quanto viúvas tinham que cumprir o ritual para o resto da vida, com exceção para aqueles que contraíssem novo matrimônio.
9 ARAÚJO, Alceu Maynard. Medicina rústica. Instituto Nacional do Livro, 1977, s/p.
10 VIANA, Hildegardes. A Bahia já foi assim – crônicas de costumes. 2ª ed. Brasília, Ed. GRD, 1979, s/p.; Cf.
Os dias de luto constituíam-se os mais penosos para se vivenciarem. Os familiares ficavam abalados. Não conseguimos coletar para nossa pesquisa dados que demonstrem uma riqueza de detalhes, porém, pudemos nos deparar com alguns autores que participaram da dor do luto pela perda de um membro da família. O texto a seguir reproduz um desses momentos vividos pelo autor a partir da morte de sua avó em 1923em Juiz de Fora.
Assim acabou-se para nós um tempo imensamente feliz. A falta que ela fez foi imensa, pois, enquanto viva, a luta era repartida entre ela e mamãe, sobrando tempo para muita coisa boa que deu à minha primeira infância um toque de tanta alegria. Os dias que se seguiram foram longos, sofridos, pesados. Tia Mercedes, que acompanhara tudo de perto e assistira ao momento trágico, estava abaladíssima e assim permaneceria por muito tempo, para o que foi necessário recuperar-se na casa das tias, no Rio de Janeiro.
Mamãe, aos poucos, foi abrindo malas, caixas, arquivos da querida finada. Eu, que estava sempre nas proximidades, de vez em quando me assustava com uma sua exclamação ao encontrar algo que mexia fundo em suas recordações. A sorte é que parentes e amigos se revezavam nas atenções, fazendo companhia da manhã à noite.
[...]
Revirando tudo, aos poucos foram ordenados os papéis relativos à casa que vovó acabara de construir, a que dera tanto amor e em que depositara tanta esperança, mas que, por ironia do destino, fora apenas um sonho. Terá que ser levada a inventário e partilhada entre os três filhos: minha mãe, tia Mercedes e tio Waldemar.
Fomos até lá. Era e ainda é o nº 508 da mesma Rua Antônio Dias. Os primeiros momentos foram de impacto, porque sua presença era sentida em todos os cantos, dentro de casa e no quintal, onde as árvores frutíferas por ela plantadas e já bem desenvolvidas, pareciam dizer: −”Foi ela quem me plantou!”
[...]
Cedo, já estávamos todos prontos, mamãe e tia Mercedes de luto fechado, tudo preto da cabeça aos pés, o que ressaltava a beleza do tom alvo de suas faces. Eu e Filhinho com calça preta e camisa branca, trazendo na manga a tarja negra do
luto. Do mesmo modo as meninas com suas saias, sapatos e meias pretos.11
(Grifos nossos)
Observa-se que os membros de sua família estavam desnorteados após o enterro e o início do luto. Abrir as caixas, malas e os arquivos da finada traziam sempre uma lembrança viva. Percebe-se o vestuário do luto presente entre os familiares. A cor preta predominava no luto fechado entre os adultos. Já as crianças também eram mantidas no luto, porém, de maneira parcial, sem o rigor do ritual. Calça preta e uma tarja da mesma cor sobre a camisa branca. O preto sempre ressaltava o sentido simbólico da morte, estabelecendo no seio da família novos comportamentos exigidos pela ocasião. Evitava-se qualquer manifestação de alegria, de festejo e de cantoria. Foi assim que a filha da finada celebrou seu aniversário, um mês depois da morte de sua mãe: “No dia 29 de janeiro, aniversário de mamãe, ela se manteve
em severa discrição, evitando qualquer manifestação a este respeito, mas, mesmo assim, teve de receber os sogros, os cunhados e os amigos mais íntimos.”12
Outro momento de grande dor diante da perda de uma pessoa constituía-se aquele em que a esposa, achando-se grávida, ficava viúva. O desespero era, com certeza, o primeiro sentimento a vir à tona. Pedro Nava relata que sua mãe ficou viúva em 1911 e encontrava-se grávida de nove meses do quinto filho. Assim, ela tomou a decisão de sair do Rio de Janeiro e ir para Juiz de Fora, onde a criança nasceria. Sua opção seria uma maneira de se afastar do local onde vivera com seu marido e assim fazer com que os dias de luto não fossem tão melancólicos. A cor preta do luto também predominava em suas vestes
Com a morte de meu pai [...] minha mãe queria ir para Juiz de Fora, para a companhia da Inhá Luísa, mas desta não havia notícias. [...] Foi assim que tivemos, para subir o Caminho Novo, a companhia e o amparo desse gentil-homem (Lafaiete Modesto). Urgia o embarque porque a viúva estava no nono mês de gravidez e queria que a criança póstuma nascesse às mãos da Senhorinha e do Almada Horta. [...] O trem saiu apitando e da janela demos adeus às tias e a uma página da porca da vida. Minha mãe, coroada pelo chorão, sentou-se no fundo, de frente para a máquina e para Minas Gerais, abraçando dois filhos de cada lado e trazendo o quinto na barriga. Estava enorme, inchada, e toda vestida de negro.13
Em algumas famílias, o luto só se completava com o processo de se desfazer dos pertences do finado a fim de tentar reestruturar a vida dos familiares. Limpar as gavetas, esvaziar as caixas e os baús tinham um caráter simbólico também de permitir que o morto fizesse a passagem por completo para o além. Qualquer objeto que reportasse à lembrança do finado era motivo para se desfazer dele. Em algumas famílias mais abastadas, procurava-se ainda vender ou leiloar as peças mais valiosas. Alguns até mesmo mudavam da casa ou da cidade. Qualquer atitude que afastasse a lembrança do morto tinha validade para minimizar a dor e o sofrimento.
O relato a seguir demonstra bem como um homem viúvo procurou reestruturar sua vida e a de seus familiares, tomando atitudes rígidas para não ter que conviver com os