7) por fim, Hume não aceita os argumentos de que, mesmo que não tenhamos a impressão de poder
1.3.6. A ideia de poder no plano de nossas percepções
Uma vez estabelecido que não é possível chegar a nenhuma conclusão a respeito da ideia de conexão necessária seja a partir de um objeto particular ou da análise das relações entre esses objetos (T. 1.3.14.15), Hume conjectura a possibilidade de encontrarmos a ideia de conexão necessária na multiplicidade de casos das relações causais, pois, parece que “essa multiplicidade de casos semelhantes constitui (...) a essência mesma do poder ou conexão, sendo a fonte de que nasce sua ideia” (T. 1.3.14.16). Hume conclui que é na conexão que sentimos na mente, ou na transição da imaginação de um objeto para o que habitualmente está presente, que se descobre o sentimento (ou impressão) a partir do qual formamos a ideia de poder ou conexão necessária, conforme explica numa longa passagem do Tratado.
A repetição de casos perfeitamente similares nunca poderá, por si só, dar origem a uma ideia original, diferente daquela que encontramos em um caso particular, como foi observado, e como se segue de modo evidente de nosso princípio fundamental de que todas as ideias são copiadas de impressões. Portanto, se a ideia de poder é uma nova ideia original, que não pode ser encontrada em nenhum caso e que, entretanto, surge da repetição de vários casos, segue-se que a repetição, por si só, não tem esse efeito, mas deve descobrir ou produzir alguma coisa nova que é a fonte dessa ideia. Se a repetição não descobrisse nem produzisse nenhuma coisa nova, nossas ideias poderiam ser multiplicadas por ela, mas não seriam acrescidas além do que são quando da observação de um caso isolado (T. 1.3.14.16; itálicos do autor).
Hume procura esclarecer que não há, em toda natureza, um só exemplo de conexão concebível por nós, mas apenas acontecimentos soltos e separados (EHU. 7.26) “Um acontecimento segue outro, mas jamais nos é dado observar qualquer ligação entre eles. Parecem conjugados, mas nunca conectados (EHU. 7. 26; itálicos do autor); os vários casos são independentes entre si (T. 1.3.14.17-18), ou seja, embora “casos semelhantes sejam ainda a fonte primeira de nossa ideia de poder ou necessidade (...), sua semelhança não faz com que tenham nenhuma influência umas sobre as outras o sobre os objetos externos” (T. 1.3.14.19). A semelhança não muda nada nos próprios casos de causa e efeito, nem nos objetos envolvidos nessa relação (EHU. 7.27-28). Isso mostra que as ideias de poder e eficácia “não
representam nada que pertença ou possa pertencer aos objetos que estão constantemente conjugados” (T. 1.3.14.19).
Vendo esgotadas todas as possibilidades de encontrar qualidades produtivas nos próprios corpos, Hume pensa na possibilidade de encontrá-las na própria mente que observa a semelhança entre os casos de relações de causa e efeito. Essa parece ser, de fato, a única maneira de resolver a dificuldade sobre a multiplicidade de casos analisados. O que ocorre, segundo ele, é que “a observação dessa semelhança produz uma impressão na mente; e é essa impressão que é seu modelo real” (T. 1.3.14.20; itálicos do autor). Hume explica que
Depois de termos observado a semelhança em um número suficiente de casos, imediatamente sentimos uma determinação da mente para passar de um objeto àquele que usualmente o acompanha e a concebê- lo sob uma forte luz em função dessa relação. Essa determinação é o único efeito da semelhança e, portanto, deve ser o mesmo que o poder ou a eficácia, cuja ideia é derivada da semelhança (T. 1.3.14.20; itálicos nossos).
Essa é a única diferença entre um caso único e uma multiplicidade de casos. Só dizemos que objetos estão conectados depois de os observarmos várias vezes conjugados. A única alteração que concorre para essa mudança é que passamos a sentir que estão conectados em nossa imaginação e a prever a ocorrência de seu acompanhante usual. Eles parecem adquirir uma conexão apenas em nosso pensamento (EHU. 7.28). Hume lembra, também, que essa nova ideia só poderia surgir da observação da semelhança entre esses casos e não dos casos em si mesmos. Segundo ele, “A necessidade [é] o efeito dessa observação e é somente uma impressão interna da mente, uma determinação a levar nossos pensamentos de um objeto a outro” (T. 1.3.14.20). Esse foi, diria Hume, o aspecto ignorado pelos filósofos que situaram o poder nos corpos, considerando-o uma qualidade neles presente. Diferentemente desses pensadores, Hume acredita que só podemos conhecer esse poder na medida em que o consideramos situado na mente que se acostuma a observar objetos unidos mediante uma relação de causa e efeito e realizamos a transição de um a outro. Essa hipótese é bastante fecunda porque possibilita compreender, também, a estrita relação e interdependência entre conexão e inferência, conforme explicará o próprio autor: “A conexão necessária
entre causas e efeitos é o fundamento de nossa inferência daquelas a estes ou reciprocamente. O fundamento de nossa inferência é a transição resultante da união habitual. A conexão necessária e a transição são, portanto, a mesma coisa” (T.1.3.14.21).
Veja-se que, apesar de considerar que a necessidade que percebemos é algo que existe na mente e não nos objetos, em T. 1.3.14.28 Hume concede que “as operações da natureza são independentes de nosso pensamento e raciocínio” e que as relações de contigüidade e sucessão entre objetos são independentes e anteriores às operações do entendimento. Para Hume, parece não haver nenhum problema em se fazer tais considerações. O que ele não admite é que possamos ir além disso e atribuir um poder ou conexão necessária a tais objetos, já que nunca observamos esse poder nesses próprios objetos. É por essa razão que ele diz claramente que “essa ideia [de poder] tem de provir daquilo que sentimos internamente ao contemplá-los” (T. 1.3.14.28).
Hume conclui que essa discussão, além de revelar a ignorância e a fraqueza de nosso entendimento, revela também a importância de se conhecer perfeitamente a relação de causa e efeito; é nela que se fundam os raciocínios referentes a questões de fato ou existência. Contudo, afirma o autor, temos uma ideia tão imperfeita dela que sequer podemos dar suas definições exatas, salvo as extraídas de circunstâncias estranhas a ela, como as duas definições que oferecerá posteriormente. Mesmo assim, de posse das conclusões dessa longa e difícil discussão, Hume se julga capaz de dar uma definição da relação de causa e efeito, que teve de esperar desde a discussão da inferência causal, em T. 1.3.6 e EHU. 4. Na ocasião, Hume examinou a inferência baseada na relação, sem poder ainda explicar a própria relação. A justificativa do autor, para esse procedimento, é a de que a natureza da relação dependia da natureza da inferência (T. 1.3.14.30).
Podemos definir uma CAUSA como um objeto anterior e contiguo a outro, tal que todos os objetos semelhantes ao primeiro mantêm relações semelhantes de anterioridade e contiguidade com os objetos semelhantes ao último. Se tal definição for considerada deficiente, porque extraída de objetos estranhos à causa, podemos substituí-la por essa outra: uma CAUSA é um objeto anterior e contíguo a outro, e unido a ele de tal forma que a ideia de um determina a mente a formar a ideia do outro, e a impressão de um a formar uma ideia mais vívida do outro (T. 1.3.14.31; maiúsculas do autor).