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Russell e a concepção tradicional de conhecimento

HUME CÉTICO: A INTERPRETAÇÃO TRADICIONAL

2.4. Bertrand Russell e a doutrina humeana da causalidade

2.4.1. Russell e a concepção tradicional de conhecimento

Sabemos que embora os principais problemas da epistemologia tenham sido discutidos desde os gregos antigos, não há concordância sobre a maneira como poderíamos definir exatamente conceitos básicos dessa área, tais como opinião, crença, conhecimento, evidência, justificação, etc. Não há um acordo quanto ao que garante que o sujeito esteja, de fato, de posse de conhecimento. Bertrand Russell e Rodrick Chisholm são dois dos epistemólogos contemporâneos, da tradição inglesa, que mais se debruçaram sobre esse tema80. Em Theory of Knowledge81, Chisholm, procurando fornecer-nos uma caracterização apropriada de conhecimento, apresenta o problema logo no primeiro capítulo ao dizer:

Qual é a distinção entre conhecimento e opinião verdadeira? Se um homem teve um palpite acertado (...), mas não sabe realmente; e outro homem sabe, mas não diz, e não precisa adivinhar; o que é que o segundo homem tem (se assim podemos dizer) que falta ao primeiro? Alguém poderia dizer, é claro, que o segundo homem tem evidência e que o primeiro não a tem, ou que algo é evidente para um, mas não para outro. Mas o que é ter evidência e como decidimos, em qualquer caso determinado, se temos ou não evidência? (CHISHOLM, 1977, p. 1; itálicos do autor).

Em seu diálogo Menon, Platão já mostrara que opinião verdadeira e conhecimento são coisas bem distintas; se alguém sabe, então tem opinião verdadeira, contudo, não se segue que quem tem opinião verdadeira sabe (tem conhecimento). Da mesma forma, em Teeteto o autor procura distinguir entre

80 Chibeni resume a problemática a esse respeito de forma muito apropriada dizendo: “Roderick

Chisholm (...) evoca o Teeteto de Platão para propor, na primeira edição de seu conhecido livro-texto (1966, cap. 1), que busquemos caracterizar o conhecimento como a conjunção de crença, verdade e um terceiro fator, mais difícil de ser identificado; um candidato poderia ser, por exemplo, a evidência adequada. Mas, assim como o personagem de Platão, Chisholm não consegue, seguindo essa linha, chegar a uma caracterização satisfatória da noção de conhecimento” (CHIBENI, 2006, p. 2).

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Não abordaremos com detalhes os referidos problemas aos quais Chisholm faz menção. Nos contentaremos, apenas, a fazer referência a algumas questões, pertinentes ao tema das crenças, sugeridas nesta obra. Cabe lembrar também que estamos utilizando, aqui, a edição de 1977, na qual Chisholm fez mudanças significativas à edição de 1966.

opinião certa ou verdadeira e conhecimento. Platão enumera, então, muitas espécies de conhecimento, e até o final do diálogo parece não chegar a nenhuma afirmação conclusiva a respeito do problema. Cabe, contudo, lembrar que, do referido diálogo, o filósofo consegue, pela boca de Teeteto, apresentar uma definição de conhecimento e crença que acabou atravessando muitos séculos sem grandes alterações, gerando os mais intensos debates, sem ainda encontrar resposta definitiva. Para Teeteto, conhecimento deveria ser mais propriamente definido como “opinião verdadeira acompanhada de explicação racional” (Teeteto, 201 d). Chisholm procurou, então, refinar essa definição, colocando a questão da forma como ficou classicamente conhecida na tradição analítica: conhecimento é crença verdadeira justificada, em outras palavras:

‘S sabe que p se e somente se’: (i) ‘S acredita que p’;

(ii) p é verdadeira e

(iii) S está justificado em acreditar que p’82

A terceira condição dessa definição tripartite tem sido a mais discutida em epistemologia. Não há consenso quanto a que tipo de justificação é necessária para que haja conhecimento. Quanto ao primeiro elemento – a crença – dado seu caráter subjetivo, os epistemólogos tendem a considerá-lo dispensável. A solução de Chisholm parece ter sido a de substituí-lo por aceitação. Por isso, no sexto capítulo de Theory of Knowledge, Chisholm apresentará novamente a definição, mas agora com uma pequena alteração: “três condições devem ser obtidas se um homem conhece uma proposição como sendo verdadeira. Primeiro, a proposição deve ser verdadeira; segundo, o homem deve aceitá-la; e terceiro, a proposição deve ser aquela que é evidente para ele” (CHISHOLM, 1977, p. 102; itálicos nossos)83.

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É importante lembrar que, em todas essas formulações, tanto Chisholm quanto Russell, bem como outros epistemólogos que se referem ao tema, interpretam a expressão ‘S sabe que p’ sempre no sentido proposicional (como expressão de um juízo; um ato mental significativo) e nunca no sentido de habilidade ou familiaridade.

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Há controvérsia quanto ao fato de que a aceitação poderia, de fato, ser uma condição substitutiva para ‘crença’. Veja mais detalhes, a esse respeito, em Albieri (2005), Lehrer (1974) e Armstrong (1973). Em geral, estes autores defendem que uma proposição pode ser conhecida mesmo sem ser aceita.

Para ilustrar os compromissos de Russell com a noção tradicional de conhecimento, façamos rápida menção a seu The Analysis of Mind, de 192184, obra em que o autor fala abertamente sobre o assunto. Em uma de suas passagens afirma que “nossas crenças, às vezes pelo menos, produzem conhecimento e uma crença não produz conhecimento se não é verdadeira” (RUSSELL, 1992, p. 253), ilustrando sua preocupação com a possibilidade de determinar em que medida nossa mente é “instrumento de conhecimento” (idem). Russell busca, neste texto, uma definição apropriada de conhecimento; procura estabelecer em que medida estamos, verdadeiramente, de posse de conhecimento e, considerando que isto ocorra, saber se conhecemos neste ou naquele aspecto particular. Segundo Russell, a razão para essa busca de um critério claro para o conhecimento está na necessidade de encontrar uma “certeza” quanto ao que é verdadeiro e o que é falso85. “Se pudéssemos descobrir a verdade de uma crença examinando suas características intrínsecas, ou as de alguma coleção de crenças, da qual faz parte, a busca da verdade seria, segundo se pensa, um negócio menos árduo do que do parece ser” (RUSSELL, 1992, p. 262). As tentativas que se têm feito nessa direção, lembra o autor, não são muito alentadoras. Em geral, dois critérios tem sido sugeridos: a auto-evidência e a coerência mútua, ambos ainda inadequados, em sua opinião. Ocorre que nenhum critério intrínseco proposto, até então, tem sido suficiente para distinguir crenças verdadeiras de crenças falsas.

Algumas de nossas crenças parecem ser peculiarmente indubitáveis. Podemos citar como exemplos as crenças de que dois mais dois são quatro, de que duas coisas não podem estar no mesmo lugar ao mesmo tempo, nem uma coisa em dois lugares, ou que um ranúnculo determinado que estamos vendo é amarelo (RUSSELL, 1992, p. 262). Mas o problema mais sério diz respeito ao conjunto de nossas crenças fatuais, caso em que surge o problema da verificabilidade dessas crenças. A esse respeito, diz Russell: “Cremos em diversas coisas, e enquanto cremos pensamos que as conhecemos (...), portanto, nem todas as nossas crenças são corretas e há casos de crenças que não são casos de conhecimento (RUSSELL, 1992, p. 251; itálicos nossos). Daí a questão clássica formulada, agora, em outros termos: “podemos

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Utilizaremos aqui a edição de 1992.

85 Veremos que um dos principais problemas que Russell detecta na teoria da crença de Hume é esta

descobrir algum conjunto de crenças que nunca sejam erradas, ou alguma prova que, quando aplicável, nos permita sempre discriminar entre crenças verdadeiras e falsas?”(RUSSELL, 1992, p. 251; itálico nosso). Como determinar um conjunto de crenças básicas e algum tipo de justificação racional para esse conjunto? Assim como Platão, ao final do texto, Russell deixa o problema em aberto. Apenas reconhece que não há nenhum critério infalível que elimine todo risco de erro. A própria crença de que há um critério pode estar errada. O máximo que podemos pensar é em um critério relativo (um critério mínimo). Russell não apresenta nenhuma definição conclusiva de ‘conhecimento’ ou ‘crença’ em suas análises, mas reafirma o compromisso com as noções tradicionais ao manifestar sua preocupação com um critério claro de justificação racional para nossas crenças fatuais.

Essa discussão foi proposta com o intuito de colocar a questão mais geral dos conceitos envolvidos na definição tradicional de conhecimento; para mostrar que Russell aceita e utiliza aqueles conceitos para fazer suas interpretações da filosofia de Hume. Independentemente dos resultados a que Russell e Chisholm chegaram com suas análises, buscaremos entender como essas noções básicas influenciam sua leitura da epistemologia de Hume – como ocorre, exemplarmente, em seu A History of Western Philosophy.

2.4.2. A parte objetiva e a parte subjetiva da doutrina da causalidade: as

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