• Nenhum resultado encontrado

O realismo causal de Galen Strawson: a inteligibilidade da postulação de forças objetivas

O REALISMO DE HUME

4.3. O realismo causal de Hume segundo Galen Strawson

4.3.4. O realismo causal de Galen Strawson: a inteligibilidade da postulação de forças objetivas

Para finalizar esta discussão sobre o realismo causal de Hume, segundo a interpretação de Galen Strawson, faremos rápida menção ao realismo causal de Strawson segundo o próprio autor, entendendo que sua posição filosófica sobre o assunto pode reforçar e conferir ainda mais legitimidade à sua interpretação sobre o realismo de Hume. Em várias passagens de The Secret Connexion e principalmente em “Realism and Causation”, Strawson defende a crença na existência de poderes causais expondo sua tese de que supor que eles existem é a melhor explicação (a explicação mais inteligível, coerente e aceitável) para a regularidade observada entre fenômenos. Quais os argumentos de Strawson para a defesa desta posição?

Grosso modo, poderíamos dizer que o trabalho de Strawson consistiu, em grande medida, em propor uma correção às tentativas filosóficas malsucedidas de explicar o que há de errado com as teorias regularistas sobre a causação (o que há de errado com o Realismo de Regularidade e com a Visão Regularista de Senso

132 Chibeni pensa que, quanto à aplicação desse critério ao problema da origem de nossa ideia de

conexão necessária, a posição de Hume parece ser “mais refinada”, querendo dar a entender que a interpretação tradicional é simplista a esse respeito. Se não temos experiência da conexão necessária, Hume poderia simplesmente dizer que a expressão é desprovida de significado, no entanto, não é o que faz o autor. Tomando uma “posição mais refinada”, distingue entre o uso ordinário e o uso filosófico do termo. Para Chibeni, apenas esse último daria à expressão “significado empírico genuíno” (CHIBENI, 2011a, p. 7).

Comum). Com seus trabalhos, o autor acredita ter capturado o ponto crucial no debate e, com isso, poder sugerir a seguinte correção: a “versão filosófica” do realismo causal (Realismo de Regularidade) exige a adoção de alguns princípios da “visão de senso comum” (Visão Regularista de Senso Comum) sobre o que é a causação no mundo (Strawson, 1987, p. 253). Resumidamente, a versão filosófica assumiria que a causação não é nada mais que sucessão regular e que não há nenhuma razão para que as coisas aconteçam como acontecem. Mas esta postura está em forte contraste com a visão realista de senso comum (Producing Causation) segundo a qual, “a causação é alguma coisa que, de fato, existe no mundo e existe por conta de (...) forças objetivas (...), que governam o modo como os objetos se comportam e interagem entre si” (STRAWSON, 1987, p. 254; itálicos do autor). Como essas forças seriam parte da natureza das coisas (forças intrínsecas à natureza), o homem comum diria que A produz ou dá origem a B e que há uma relação necessária entre ambos.

A tese de Strawson consiste em mostrar que embora o Realismo de Regularidade possa negar a existência de coisas como “forças objetivas”, “necessidade”, “produção” etc, acaba usando estas palavras no sentido comum, pois, quando esta teoria afirma que causação é apenas contiguidade e sucessão, acredita descrever totalmente o acontecimento. Mas Strawson alerta que “sucessão” é uma coisa bem diferente de “produção”: dizer que “a ocorrência de A é sucedida pela ocorrência de B” é bem diferente de dizer que “A produz B”, por exemplo – há uma lacuna não preenchida entre os dois casos. Por isso, Strawson afirmará que o Realismo de Regularidade pode até ser considerado uma visão coerente, contudo, é uma visão questionável133. Em resumo, ao estabelecer o confronto entre as duas visões sobre o realismo, Strawson pretende defender uma tese negativa: deixar claro que “os Realistas não podem ser teóricos da Regularidade” (STRAWSON, 1987, p. 259). Ao argumentar a favor da visão Realista da Causação Produtiva134, Strawson afirma que “postular a existência da matéria e suas propriedades é já

133

Strawson argumenta que é uma visão questionável porque “ela envolve a crença na existência de objetos ocupando lugar no espaço (...) [o que requer: 1)] a aceitação da ideia de que estes objetos

afetam ou modificam ou podem afetar ou modificar uns aos outros de certos modos; [2) que](...),

processos de afetar e modificar devem ser entendidos como parte do que os constitui (...); [3) que] a teoria da Regularidade da causação não pode ser a verdade sobre um tal mundo, porque nenhuma coisa realmente afeta ou modifica causalmente outra coisa, estritamente falando (STRAWSON, 1987, p. 257; itálicos do autor).

134 Visão que combina realismo com relação ao mundo físico com uma noção comum, baseada na

postular a existência de forças objetivas (...). A existência de forças não está além ou acima da existência da matéria e de suas propriedades fundamentais” (STRAWSON, 1987, p. 259-260).

Mas o que é a matéria? É alguma coisa que possui certas propriedades fundamentais que persistem através do tempo; que tem uma natureza estável, uma regularidade etc. Postular esta estabilidade e esta continuidade é já postular a existência de forças cuja existência é parte do modo de existência da matéria e de suas propriedades. Assim, Strawson coloca a questão a respeito do fundamento dessa regularidade: “O que (...) sustenta a matéria sem interrupção, como alguma coisa que permanece qualitativamente similar de instante a instante?135 (...). A resposta não pode ser: “Nada” (...) A resposta deve ser: “Alguma coisa” (STRAWSON, 1987, p. 260-261). Não podemos nos alongar mais nesta fecunda discussão. Basta, por enquanto, lembrar que a sugestão de Strawson para a dificuldade levantada é a de que “a expressão ‘forças objetivas’ é um nome tão bom quanto qualquer outro para designar aquilo que alguma coisa é” (STRAWSON, 1987, p. 261; itálicos nossos). O realismo sobre objetos físicos e suas propriedades requer a aceitação da noção de forças. “Seja o Realismo verdadeiro ou não, nossa experiência têm o caráter de ser uma experiência de um mundo que é altamente regular em seu comportamento. Daí a questão surge naturalmente: Por que nossa experiência tem este caráter regular?” (STRAWSON, 1987, p. 263; itálico do autor). A resposta seria a de que é assim porque é governado por forças objetivas constantes, que estão para além da mera regularidade de sucessão. Talvez não possamos provar que tais forças existem, mas é possível perceber que a questão é, ao menos, inteligível. O que parece ininteligível e absurdo é a suposição contrária, de que há um mundo externo de objetos independentes de nós e altamente regulares em seus comportamentos, sem nenhuma força governando essas

135

Quando nos referimos a esta polêmica, vale fazer uma comparação com as tentativas clássicas de Berkeley e de Malebranche de dar uma resposta inteligível à mesma, em contraste com a visão ordinária. Segundo Chibeni, ao romper com a visão ordinária de matéria, segundo a qual as regularidades são entendidas como decorrentes de poderes causais, as respostas de Berkeley e de Malebranche apontam para a tese epistemológica de que “quer causas reais existam ou não, nos corpos, elas nos escapam totalmente ao conhecimento” (CHIBENI, 2008, p. 363). “Malebranche (...) ofereceu uma resposta clara: embora os corpos não atuem uns sobre os outros, oferecem a ocasião para que Deus, a fonte de toda ação no mundo físico, produza os efeitos apropriados. (...) Para Berkeley, Deus também desempenha papel central nessa explicação, porém produzindo diretamente fenômenos de maneira regular em nossas mentes, sem que seja preciso que corpos materiais lhe ofereçam a ocasião” (CHIBENI, 2008, p. 363-364; itálico do autor).

relações regulares, sem nada que governe ou ordene os modos como se comportam, nada que os obrigue a interagirem do modo estável e contínuo como sempre interagem entre si (STRAWSON, 1987, p. 264-265). Por isso, em tom irônico Strawson conclui: “Isto realmente seria bastante extraordinário” (STRAWSON, 1987, p. 265).

4.4. Edward Craig: realismo e agnosticismo na epistemologia de

Outline

Documentos relacionados