3. O PALCO E OUTRAS HISTÓRIAS: o conceito de Teatro
3.3 A ideia e a forma de um teatro documentário com Peter Weiss
O percurso do dramaturgo alemão Peter Weiss em direção ao que viria a definir como teatro documentário é indissociável de sua relação com a política. Autor de romances e textos teatrais, seu trabalho mais notável até hoje é Perseguição e assassinato de Jean-Paul
Marat representado pelo grupo teatral do Hospício de Charenton sob a direção do Marquês de Sade ou Marat/Sade (1964), texto icônico que mais tarde seria adaptado para o cinema pelo
diretor Peter Brook (1967). A obra já continha traços de discussão histórica e política ao interpor planos temporais distintos como o período em que o Marquês de Sade ficara internado no Hospício de Charenton, já próximo ao fim de sua vida, e o assassinato do jacobino Marat pela girondina Charlotte Corday, no contexto da Revolução Francesa; e ficou marcada como o último trabalho de Weiss com a ficção, visto que em 1965 o autor se aproximou dos ideais do socialismo revolucionário e passou a rever o papel da arte, e mais especificamente do teatro, na sociedade.
Coadunando os aspectos documental e político em Piscator, mas ciente de que o teatro enquanto expressão artística diverge de uma manifestação pública; e os fins didáticos do teatro épico de Brecht, mas prezando, diferente deste, o olhar e o posicionamento do autor sobre a dramaturgia ao invés daquele do espectador, Weiss compreendia que somente um teatro
documentário (dokumentarischen theater) poderia servir como resposta ou forma de
compreensão do mundo contemporâneo e seus mecanismos de opressão e ocultamento da verdade, consideradas por ele como necessidades políticas (CARLSON, 1997)
O primeiro trabalho de Weiss sob este novo posicionamento ideológico é então O
Interrogatório. Oratório em 11 cantos (1965). O texto é fruto de uma extensa pesquisa do autor
que acompanhou no ano anterior os julgamentos de criminosos de guerra de Auschwitz reunindo depoimentos, autos e sentenças e depois os distribuindo na forma de colagens em onze passagens ou cantos em referência à Divina comédia de Dante. A peça reunia elenco que se revezava em cena entre acusados, testemunhas, juiz, promotor e defesa numa ambientação semelhante a um tribunal. A chave da dramaturgia, por sua vez, é a supressão de palavras como nazista, judeu, Alemanha e Auschwitz ao passo que as narrativas apresentadas se completam e também se contrapõem, de modo que o texto torna-se atemporal e dialético, tratando de uma experiência de opressão que pode ser circunstancial. Não à toa o texto, que foi dirigido por Piscator na década de 1960, é encenada até hoje. Segundo Soler:
O autor seleciona, recorta e monta as falas, explicitando vários pontos de vista de um mesmo acontecimento. Compõe-se em cena um retrato em que perspectivas que diferem, e até se opõem, dialogam, convidando o espectador a construir seu próprio ponto de vista (SOLER, 2015, p.43).
A peça foi essencial para que Weiss pudesse observar este “novo” teatro, e em 1968 o autor finalmente sistematiza seu trabalho com a publicação de Notas sobre o teatro
documentário25 (Notizen zum dokumentarischen Theater), um conjunto de 14 breves itens na
forma de um manifesto em que expressa os objetivos políticos de um teatro documentário, a principal característica deste gênero; os questionamentos que o movem e as críticas que deve fazer; os tipos de documentos que podem ser utilizados na dramaturgia; e as melhores técnicas para que o dramaturgo possa, através da montagem, propagar um discurso visto que “o drama há apresentar ambos os lados das disputas políticas, mas é dever do escritor informar qual o melhor” (CARLSON, 1997, p.413). No que cabe aos motivos desta pesquisa, é interessante notar como o questionamento sobre a hegemonia do Estado e dos meios de comunicação sobre a manutenção da memória e história comuns estão presentes no texto manifesto de Weiss
[...] Porque um personagem histórico, um período ou toda uma época são mergulhados no esquecimento? Quem reforça suas próprias posições eliminando certos fatos históricos? Quem tira proveito de uma alteração consciente de certos fenômenos marcantes e memoráveis? Quais são as classes sociais que dissimulam acontecimentos do passado? Como se manifestam as falsificações produzidas? Como elas são recebidas? (WEISS, 1968).
Sob o ponto de vista de Weiss cabe ao teatro documentário ensaiar e apresentar possíveis respostas para estas perguntas, uma perspectiva que busca construir e promover narrativas históricas alternativas em direção ao público sobre uma memória, passado, experiência comuns amparadas sobre documentos fontes do passado questionamentos sobre o tempo presente. Esta prática se assemelha ao tipo de história pública apresentada aqui, sobretudo com aquela que é realizada no campo da história e performance, esta por sua vez movida pela noção de autoridade compartilhada. De todo modo Weiss lançou as bases de uma forma teatral que seria experimentada de múltiplas formas nas décadas seguintes da publicação dos seus escritos. Nas práticas mais contemporâneas do teatro documentário, por outro lado,
25 Não consegui encontrar uma publicação do texto integral no Brasil, no entanto, pude encontrar disponível na internet uma tradução feita pelo diretor Luiz Fernando Lobo e o ator Otoni Araujo, versão que será utilizada aqui. A tradução está disponível na plataforma Scribd em https://pt.scribd.com/document/332389616/Teatro- Documentario-Peter-Weiss
alguns dos pontos basilares destacados pelo autor já foram deixados de lado, como é o caso das peças documentárias de cunho autobiográfico, por exemplo, que nem sempre levantam as hastes de uma crítica social, histórica ou política. Na verdade, a prática do teatro documentário tomou tantas formas que ao invés de distingui-las uma a uma, parece mais fácil organizá-las sob um outro termo guarda-chuva. Falemos então sobre um teatro do real, o termo de reorganização da experiência pretendida.