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Teatro documentário, entre documentos e o ato de documentar

3. O PALCO E OUTRAS HISTÓRIAS: o conceito de Teatro

3.5 Teatro documentário, entre documentos e o ato de documentar

Os principais estudiosos das teorias que versaram sobre o teatro documentário, a partir de importantes obras-índices como Patrice Pavis e seus Dicionário de teatro (1996) e

Dicionário da performance e do teatro contemporâneo (2014), e Jean-Pierre Sarrazac na

organização do Léxico do drama moderno e contemporâneo (2005), insistem em apoiar as definições desta forma teatral nas bases postuladas por Piscator e Weiss. No viés destes autores, em síntese, o teatro documentário será sempre aquele construído a partir da coleta, seleção e manipulação de documentos variados na dramaturgia, estes dotados de um caráter comprobatório com a finalidade de defesa de uma tese ou crítica em grande medida histórica e sociopolítica. Já foi comentado, no entanto, que as práticas deste tipo de teatro na contemporaneidade tem variado muito na abordagem de diferentes coletivos, por isso é possível falar de um campo onde o próprio documentário se desdobrou em subgêneros, falamos de algo que “não se trata tanto de um gênero específico quanto de um método geral de investigação, uma ingrediente base para todo tipo de cozinha cênica27” (PAVIS, 2017, p.321).

27 É curioso, e sintomático para a proposta aqui apresentada, que a metáfora da cozinha enquanto espaço criativo de construção coletiva é também utilizada pelo historiador Michael Frisch, citado no capítulo anterior, para tratar das múltiplas abordagens da história oral e pública em seu artigo A história pública não é uma via de mão única,

Alguns teóricos e praticantes do campo tem produzido novas reflexões acerca desta prática que possibilitam novas formas de interpretação e experimentação do teatro documentário. Um destes autores é Marcelo Soler, atualmente a principal referência a tratar deste campo no cenário brasileiro, que aponta duas outras características fundamentais para uma obra documental: a relação com os documentos, deflagradora de um certo compromisso com o real; e o ato de documentar, uma atitude ligada menos à estética espetacular e mais ao próprio processo e posicionamento discursivo do coletivo que a constrói em relação à sociedade, como veremos mais adiante.

No que diz respeito ao trato com os documentos, as práticas contemporâneas de teatro documentário não se aferram mais às noções de Piscator e Weiss do documento enquanto prova inquestionável de uma verdade defendida. Essa compreensão mais ampla das propriedades e dos próprios tipo de documentação acompanha a discussão que o tema sofreu também no campo da historiografia. Historiadores como Jacques Le Goff explicam como um movimento prescrito pela história positivista e tradicional engendrou por muito tempo a ideia de que o documento era uma materialização da verdade histórica, de modo que o historiador deveria apagar-se em sua escrita e “deixar o documento falar”. Na década de 1960, no entanto, verifica-se o que o autor chama de Revolução Documental, uma revisão ampliada sobre as fontes documentais que permitiu interpretar os documentos como construções de seu próprio tempo, grande parte fixadas por instituições oficiais ou grandes acontecimentos. Le Goff pontua que “em lugar do fato que conduz ao acontecimento e a uma história linear, a uma memória progressiva, ela [a Revolução Documental] privilegia o dado, que leva à série e a uma história descontínua” (LE GOFF, 1990, p.542). Esta expansão da noção de documento foi um dos fatores responsáveis por aquilo que o historiador Peter Burke chamou de Nova História28, em expansão no século XX, uma “história vista de baixo” como coloca, que se interessa pela história de todos os homens e também por temas até então deixados à margem pelos historiadores, histórias outras. Similar ao teatro documentário ensaiado pelos pioneiros alemães, a história também buscava até então o máximo de objetividade em sua prática, a apresentação dos fatos tal qual aconteceram seguindo a máxima de Leopold von Ranke ou modificando a forma, jamais o conteúdo, como postulou Peter Weiss. Para o historiador de qualquer campo e para os profissionais de tal teatro serve a colocação de Burke

28 Na obra em questão, escrita em 1991, o historiador não trata da história pública, mas um capítulo reservado à história oral escrito por Gwyn Prins demonstra a importância de um campo cujas teorias a influenciaram em peso.

Hoje em dia, este ideal é, em geral, considerado irrealista. Por mais que lutemos arduamente para evitar os preconceitos associados a cor, credo, classe ou sexo, não podemos evitar olhar o passado de um ponto de vista particular. [...] Nossas mentes não refletem diretamente a realidade. Só percebemos o mundo através de uma estrutura de convenções, esquemas e estereótipos, um entrelaçamento que varia de uma cultura para outra (BURKE, 1992, p.15).

No caso do teatro documentário, os primeiros autores faziam uso do teor de verdade retido nos documentos não apenas para defender determinado ponto de vista enquanto rompiam com a ilusão do drama, mas para assegurar também o seu contraponto à ficção. Nos trabalhos contemporâneos, por outro lado, essa distinção já não tem seus limites definidos. De fato há trabalhos que mesclam ficção e documento sem perder o seu caráter documental, como é o caso das peças do Grupo Carmin a ser analisada no capítulo seguinte o faz. Sobre esta distinção, Pavis comenta

[...] nossa época não está mais persuadida da oposição absoluta entre o real e o ficcional, ou entre o documento autêntico e a ficção mentirosa. Esta oposição entre o autêntico e o falso não convence mais realmente, pois o documento pode tornar-se ficcional e, ao invés disso, o ficcional afeta amiúde nossa vida real. A obsessão do documentário de mostrar apenas o verdadeiro tornou-se suspeita (PAVIS, 2017, p.321).

Pequena divagação à parte, o trecho de Pavis faz lembrar que vivemos hoje em tempos de autoficção, de faction (facts and fiction), de perfis e bios online, de vida compreendida como performance e também de fake news. Testemunhamos o desenrolar de uma verdadeira crise do documento enquanto prova, de compreensões individuais sobre o que é verdadeiro e falso em planos que desafiam o senso comum, o consenso, a memória coletiva e a história – e em alguns casos a própria razão. Pensar o papel da arte e da própria história nestes meandros é uma urgência, mas deixemos estas considerações para as vezes de conclusão; por agora basta compreender que para que o teatro documentário possa ser considerado enquanto tal, na vasta gama de possíveis diálogos entre a ficção e o documento, este deve recorrer, como sempre, ao seu interlocutor, o espectador.

Segundo Soler o espectador do teatro documentário, assim como o do cinema documentário, já possui um arcabouço interpretativo deste gênero, já supõe saber de antemão o que esperar e como interpretar o que está vendo. No teatro, tal qual no cinema, ´deve ser

estabelecido uma espécie de pacto documental, ou seja, o público deve compreender e logo significar o que vê como pertencente ao campo documentário, tão logo cindindo o que poderia vir a ser um pacto ficcional. O autor enfatiza que

[...] de nada adianta simplesmente trazer o documento à cena se o tratamento dado a ele não o evidencia enquanto documento. Assim, os envolvidos em um processo de caráter documental, ao se depararem com documentos de diversas naturezas, têm como desafio descobrir o modo pelo qual esses documentos poderão ser explicitados em cena, exigindo dos criadores uma proposta de jogo diferenciada, que irá romper o fluxo dramático e funcionar como um elemento épico dentro da encenação. A visualização e/ou leitura daquilo que o documento manifesta passa a ser requerida, sendo necessário, em algumas circunstâncias, mudar o suporte material do documento para que isso seja possível (SOLER, 2015, p.98-99).

Esta relação de determinado coletivo com os documentos utilizados em seu trabalho implica em um determinado posicionamento ético em relação ao real apresentado, nos moldes de Saison já citados, uma vez que a interpretação sobre determinada fonte é sustentada pelo

pacto entre coletivo e público; um determinado discurso em relação a este real, e o avistar de

um gesto, um ato de documentar.

Na reflexão proposta por Soler, o ato de documentar está próximo de um desejo de mundo que não está apenas no ato de coletar documentos ou promover irrupções do real em benefício da performance, mas em uma atitude investigativa, um olhar de pé atrás, um ponto de vista que percebe “na realidade dados que em si são metáforas para entende-la de maneira mais ampla” (SOLER, 2015, p.57). Movidos por determinado mote, em grande medida um questionamento do tempo presente, os praticantes desta forma de teatro documentário retomam o passado, mesmo que o recente, através dos documentos levantados na construção dramatúrgica para um entendimento, reflexão ou crítica sobre o seu próprio tempo e um vislumbre do futuro. Nesta esteira Fernandes observa

Ainda que optem por uma estética de confronto com o contexto em que se inserem, definem uma atitude de resistência de outra natureza. Seus criadores parecem “lutar por um espaço aberto, um respeito mútuo, bater-se por um espaço comum de liberdades individuais e coletivas, memórias e direitos”, como observa Saison. Sem dúvida, a opção por abrir brechas no simbólico para permitir que a matéria do teatro e do contexto social, especialmente o corpo do artista e o espaço da cidade, estejam implicados no processo crítico é um modo inédito de renovar a tradição de combate e engajamento (FERNANDES, 2013, p.4-5).

O retorno ao passado pontuado pelos documentos deixa logo um pouco de lado o seu caráter de prova e passa a aludir a uma experiência comum com o público, uma memória minimamente coletiva partilhada entre artistas e espectadores que deve ser ativada no processo de fruição e significação da performance. A partir do ato de documentar, o teatro documentário apresenta-se, portanto e sobretudo, enquanto uma forma de lembrar e instituir novas memórias, únicos vestígios possíveis da fugidia arte teatral, sobre determinados temas fadados ou não ao esquecimento, ao solapamento pelas memórias e histórias oficiais. Soler complementa que a narrativa documental “em meio a “lembranças e esquecimentos”, daquilo que se deseja explicitar, segundo determinados interesses, reescreve o passado, construindo um memorial possível daquilo que se documenta.” (SOLER, 2015, p.58).

Memoriais possíveis, memórias possíveis. Neste ponto trago à baila novamente as considerações colocadas no capítulo anterior desta pesquisa. O teatro documentário e a história pública não possuem um modus operandi, um como fazer definido/definitivo, mas possuem horizontes similares no que diz respeito a práticas que visam o diálogo com o público, a construção de narrativas alternativas sobre o passado em espaços distintos. A memória, um dos pontos articulados pela história pública, é, repetindo o já citado Freddie Rokem, o ponto chave de encontro entre a história e a performance nos palcos. É a memória também um dos pontos centrais que guia a produção teatral do Grupo Carmin. Nos três espetáculos que serão analisados aqui será possível perceber como o grupo mobiliza experiências comuns ao público, memórias coletivas, para a ativação de um diálogo que se dá sob a forma documental. O discurso sobre o real produzido então pelo grupo de forma espetacular, amparado pelas irrupções do real em cena na forma de um retorno ao passado e ao elemento histórico; e pontuado pelos documentos apresentados, permite entrever ao mesmo tempo um ato de documentar e o que podemos chamar de exercício de história pública, como veremos a seguir.

Fim do segundo ato.