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e, se o céu está plácido, a colheita é feita quase num só dia.

5.1 A ideologia do desenvolvimento sustentável no Brasil

No Brasil, as reformas estruturais iniciadas com o propósito da garantia da retomada do crescimento têm como foco o redirecionamento do desenvolvimentismo brasileiro. Este redirecionamento deve garantir a modernização da estrutura econômica, no sentido de colocá-la nos padrões de competitividade internacional, sob pena de o país ficar condenado ao atraso.

Para este objetivo, além da criação de mecanismos de atração de capitais por meio das reformas estruturais, foi preciso ativar os mecanismos necessários à obtenção de um consenso.

A dimensão do desenvolvimento focado no uso do território expressava o conteúdo aceito pelos países centrais, que achavam conveniente acatar um discurso de desenvolvimento orientado pelas forças do mercado, na medida em que pudessem ser adotadas medidas de proteção ao meio ambiente sem, necessariamente, o rompimento do modelo de produção. Além disso, a presença de um ambiente marcado pela valorização da sociedade civil, bem como para a multiplicação dos mecanismos de mediação e representação, contribuiu para firmar um ideário de aceitação de uma possível sustentabilidade do desenvolvimento.

O consenso relacionado ao valor da sociedade civil foi se consolidando no mesmo processo que levava o Estado a se tornar mínimo. De forma contraditória e combinada, à medida em que o Estado passava a ser considerado ineficiente e dessa forma, responsável pelas mazelas sociais, creditava-se à sociedade civil as iniciativas pelo seu próprio ‘desenvolvimento’. Era preciso que o Estado entendesse o potencial das iniciativas da sociedade e delegasse poderes à mesma.

Reportando-se a essa nova maneira de interpelar a sociedade civil, Canclini afirma que, “[...] hoje se usa sociedade civil para legitimar as mais heterogêneas manifestações de grupos, organismos não governamentais,

empresas privadas e até indivíduos” (2001, apud PAULA, 2005, p. 269). Mas “como cada um entende de forma diferente este nome, esta entidade amorfa aparece como típica comunidade imaginária [...]” (ibid). Ou seja, a simples presença da população não implica em defesa dos seus interesses, pois há de se considerar que, conforme Ander: “la participación no és algo que se concede, como algunus parecem presumir: és simplesmente el derecho del, a decir su palabra, a decirdir sobre su próprio destino” (1974, p. 188).

Apesar do relativo consenso em torno do poder de articulação e do exercício da participação da sociedade organizada para a proposta que se pretende consubstanciar, o modelo de desenvolvimento sustentável reitera a importância da continuidade do Estado assumir a responsabilidade com o desenvolvimento regional para servir de fonte interna de financiamento. Mas, admite-se que além dessa fonte, o governo estadual deve buscar financiamento externo, junto ao governo federal e aos órgãos multilaterais de financiamento, como é o caso do Banco Mundial.

Neste ponto é importante refletir sobre a atuação do Banco Mundial no Brasil, que ocorre desde 1949, quando foi firmado o primeiro empréstimo do BIRD ao país (US$ 75 milhões para a área de energia e telecomunicações), mas que vem se alterando e se intensificando nos anos subseqüentes. De 1949 para cá foram mais de 380 operações de crédito, que somam em torno de U$ 36 bilhões (GRUPO BANCO MUNDIAL, 2002)102.

A adoção de uma política de descentralização administrativa que prevê maiores investimentos de governos estaduais, municipais e das diversas representações da sociedade civil vem acompanhada de poder de barganha das agências multilaterais, que passam a exercer um papel de coordenação de investimentos setoriais no país (PAULA, 2005).

Desde os anos 1990, o Banco Mundial inclui financiamento para projetos em cinco áreas: redução da pobreza, ajuste fiscal sustentável, retomada do crescimento, crescente efetividade do desenvolvimento e melhor administração dos ativos ambientais. Todos esses cinco temas aparecem estreitamente

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A assistência do Grupo se efetiva por meio do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), da Corporação Financeira Internacional (IFC) e da Agência Multilateral de Garantia de Investimentos (AMGI) e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

relacionados com o objetivo principal da assistência do Grupo Banco Mundial, ou seja, a redução da pobreza.

Entre as suas estratégias, o Banco ressalta uma estreita parceria com o FMI e o BIRD, com as agências internacionais de desenvolvimento e com organizações da sociedade civil, além da participação de Associações Comunitárias ou outros representantes de beneficiários na elaboração e na implementação dos projetos.

A atuação dessa agência no Brasil é regida pela Estratégia de Assistência ao País – EAP (Country Assistance Strategy - CAS), um documento que descreve as prioridades, a composição e a distribuição da assistência. O documento destaca que o crescimento da renda per capta é condição para a redução da pobreza e que a primeira prioridade para o crescimento é a continuação da estabilidade macroeconômica com taxas de juros decrescentes (que dependem do ajuste fiscal e da continuação das reformas do setor financeiro). A segunda prioridade é a melhoria das condições para o desenvolvimento do setor privado (inclusive através de maior acesso ao financiamento, à infra-estrutura e a investimentos na educação).

De acordo com o Banco Mundial, pobreza e desigualdade continuam a ser os desafios mais importantes do desenvolvimento a longo prazo do Brasil. Para eles, não há uma solução única, simples e rápida para esses desafios, mas uma gama de estratégias que devem funcionar conjuntamente.

As políticas de redução da pobreza incluem desde crescentes oportunidades de obter receitas por meio da estabilidade e da retomada do crescimento até as políticas voltadas para aumentar o que o Banco Mundial denomina de capital humano e físico dos pobres (especialmente através de educação, saúde, reforma agrária, solos urbanos e rurais) a fim de permitir que eles possam tirar proveito das oportunidades econômicas e uma rede de segurança social para protegê-los.

Neste encaminhamento, as principais linhas de atuação dos projetos financiáveis devem oferecer oportunidades de geração de emprego e renda às comunidades rurais pobres e apoiar as comunidades no planejamento e implementação de seus subprojetos.

Paradoxalmente, o Banco Mundial com o consentimento dos estados, ao estabelecer o ajuste estrutural como a condição de investimentos nos países

pobres acaba por assumir a definição das políticas desses países, expressando o sentido contraditório do seu discurso pelo desenvolvimento sustentável, uma vez que o ajuste beneficia tão somente os grandes grupos detentores de capital – dando à sustentabilidade, um sentido fetichizado.

A exigência da continuidade das reformas do setor financeiro, apenas confirma que essa agência vem legitimando medidas antidemocráticas de subtração dos investimentos, sobretudo, dos serviços públicos, já que estimulam a liberalização econômica e o aniquilamento de conquistas relacionadas aos direitos trabalhistas.

Em diversos países considerados subdesenvolvidos, as transformações políticas ocorridas pós-ajuste estrutural passaram pela “privatização de terras públicas e comunitárias, além da privatização das águas e das florestas” (REZENDE & MENDONÇA, 2004). Contraditoriamente, o consentimento do ajuste pelos governos dos países que buscam os empréstimos demonstra que enquanto o Estado deixa de promover a desconcentração fundiária, ele está estimulando o controle do território por grandes empresas e ainda a integração dos camponeses ao agronegócio. Além da política chamada mercado de terras (Crédito Fundiário, Banco da Terra), o Estado estabelece uma nova política pela via da mercantilização da terra.

Trata-se de uma conjuntura que torna incompreensível a realidade da formulação das políticas internas dos países devedores que estão sendo delegadas à instituição que capitula o receituário neoliberal, cristalizando uma política macroeconômica fundada numa lógica que restringe o atendimento das demandas do povo, ao mesmo tempo que alinha todos os setores do país a um modelo de desenvolvimento gestado nos circuitos financeiros supranacionais.

Apesar disso, a ideologia do desenvolvimento sustentável com ênfase no local, como aparece nas propostas de políticas públicas no Brasil, se generalizou. Esta ideologia se afirmou tornando-se, de acordo com os seus interlocutores, a estratégia de desenvolvimento que permite fazer uso do potencial competitivo do território, de modo a melhorar sua eficiência na utilização dos recursos, no usufruto do sistema de relações e das especificidades culturais.

No decorrer dos últimos anos vem ocorrendo uma avalanche dessas políticas de recorte sustentável que, de forma progressiva, vêm ganhando força

no seio da sociedade. Nas comunidades mais pobres onde elas se territorializam, elas substituem as políticas anteriores, consideradas ‘políticas de cima para baixo’ e, segundo documentos do Banco Mundial, elas buscam a promoção de uma gestão local, procurando assegurar o desenvolvimento econômico e social.

A análise dos projetos que visitamos em trabalho de campo nos estados do Ceará, Pernambuco e Sergipe mostra que o propósito nuclear está na conjugação do desenvolvimento local e do desenvolvimento sustentável, implicando para os seus formuladores, que um está no outro. As práticas desenvolvidas com base nessa proposição passaram a ser elaboradas na região Nordeste a partir do Projeto Áridas que será tratado a seguir.