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A IGREJA EVANGÉLICA NA COMUNIDADE QUILOMBOLA DO CEDRO

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CAPÍTULO 2 A COMUNIDADE QUILOMBOLA DO CEDRO

3.3. A IGREJA EVANGÉLICA NA COMUNIDADE QUILOMBOLA DO CEDRO

Ao falar sobre o fenômeno Evangélico na Comunidade Quilombola do Cedro é preciso lembrar que há décadas o Brasil assiste, silenciosamente, um crescimento espantoso das Igrejas Cristãs Evangélicas. Se, em 1980, os evangélicos correspondiam a cerca de 6.6% da população brasileira, o de 2000, alcança 14,6 % do total dos brasileiros e o de 2010 22,2%. Os adeptos dessas igrejas cristãs perfazem aproximadamente (IBGE, 2000), e segundo Almeida & Barbosa. (2015), a tendência é que em 20 anos eles sejam a maioria dos brasileiros.

Conforme Moraes (2010), o fato é que o Pentecostalismo surgido no início do século XX nos EUA foi transplantado para a realidade brasileira e acabou conseguindo seu espaço no subcampo religioso protestante, e conseguindo notoriedade no campo religioso brasileiro. O mesmo autor também analisa que o esgotamento natural do Catolicismo Romano em nosso país, que depois de séculos de influência em nossa cultura entrou em estagnação e o misticismo do povo brasileiro, nascido da influência das religiosidades africanas e indígena, deixaram um legado, o Catolicismo Popular, que aceita e convive com o pensamento mágico para responder às suas indagações, intuição e sentimento e isso pode ser uma das causas para o crescimento neopentecostal.

Na comunidade Quilombola do Cedro, observei que este fenômeno está presente e muito atuante entre os comunitários. Muitos Cedrinos, tantos os descendentes de “Chico Moleque” quanto os que compraram ou alugaram lotes dentro do Quilombo, são adeptos das Igrejas evangélicas neopentecostais. No quilombo não existe nenhum templo evangélico. Observei que são várias Igrejas frequentadas e os adeptos vão até a cidade para participarem das celebrações, embora, segundo depoimento, esporadicamente, são realizados em algumas casas cultos ou reuniões.

Segundo um jovem, que com toda a sua família se converteu a uma Igreja Evangélica neopentecostal:

“Eu encontrei a f elicidade que eu achava impossível. Bebia, f umava, traia minha esposa, não dava valor a f amília e vivia triste, doente e cabisbaixo. Nada dava certo em minha vida. Achei até que separaria da esposa. Um dia f oi apresentado Jesus pra mim e eu comecei a conhece e entender. Participando do culto eu senti uma f orça que veio de f ora e entrou em mim me deixando com o corpo todo f ormigando. Caí em choro e depois disso prof essei a f é em Jesus. Tudo depois disso mudou em minha vida. Comecei a trabalhar na cidade e na roça. Não tenho desanimo, nem vontade de beber, f umar e trair minha esposa. Virei outro homem. Agora quero que todos da comunidade conheça Jesus. Vou f azer de tudo pra isso. Não posso f icar só pra mim o que eu sinto” [sic]

Perguntei a ele: e quanto aos trabalhos do Quilombo? Ele disse: Eu estou disponível para participar no que eles quiserem. Acho bom o trabalho com os remédios, ajuda muita gente. E essa terra é nossa. O esforço de “Chico Moleque” temos que valorizar. Eu só não vou em festa, rezas e essas coisas. Não acredito mais. Essa realidade vem ao encontro do que fala Fernandes et al (1998. p. 25), o “crescimento notável dos evangélicos decorre, sobretudo, de escolhas feitas pelos pobres”. Segundo Novaes (2001), os evangélicos pentecostais, além de possuir membros entre as camadas sociais menos privadas de recursos financeiros, conseguem penetrar nas franjas da sociedade: em áreas que têm se mostrado inalcançáveis para outros segmentos religiosos. São setores sociais (e espaços geográficos) que, por sua precariedade de condições, revelam, por outro lado, a mais completa ausência do poder público.

As famílias que aderem as Igrejas Evangélicas, na comunidade, mudam o perfil, suas roupas, suas expressões, decoram partes da bíblia e de forma radical condenam toda religiosidade de matriz africana. Em uma roda de conversa uma senhora é incisiva em dizer que “é preciso destruir toda idolatria e toda feitiçaria da comunidade”. Na minha observação estava se referindo ao trabalho da Umbanda e das benzeções realizadas na comunidade Quilombola.

Essa mudança, segundo a presidente da associação acaba por dificultar mais ainda as ações voltadas ao reconhecimento da negritude e da valorização dos antepassados. Ela diz: “eles não participam mais com a gente, vê o trabalho com desconfiança, veem satanás em tudo e condenam quem não aceitou Jesus como eles”.

Observo que as Igrejas frequentadas convivem com a dificuldade em tolerar as religiões de matrizes africanas, segundo Silva (2007) o neopentecostalismo defende que sua batalha é eliminar a presença e a ação do demônio no mundo, classificam as outras denominações religiosas como pouco engajadas nessa batalha, ou até mesmo como espaços privilegiados da ação dos demônios, os quais se “disfarçariam” em divindades cultuadas nesses sistemas. É o caso, sobretudo, das religiões afro- brasileiras, cujos deuses, principalmente os Exus e as Pombagiras, são vistos como manifestações dos demônios. Embora, paradoxalmente, adicionam em suas celebrações práticas realizadas nas liturgias afro-brasileiras. Mas, acentuando a ênfase do dom de cura divina, conversão em massa, profecia, línguas, etc. O

sectarismo e o ascetismo (MARIANO, 1999).

Observo nas casas dos evangélicos que permanecem vários elementos que caracterizam a identidade das religiões de matrizes africanas. A maneira que se relacionam com os mais velhos, pedindo benção cada vez que encontram; na relação com as ervas de proteção e de cura plantadas nas frentes das casas e nas pequenas hortas; na espontaneidade das palmas e do gingado; na forma de lidar com a natureza. Ao dizer “tal planta é Abençoada” se nota o caráter sobrenatural e sagrado introduzida na afirmação. Pode ser que isso se dá pelo fato de ser recente a conversão (o que tem mais tempo se converteu há quatro anos) e ainda não se desvencilhou das crenças antigas. Embora, acredito que já revela a possibilidade do sincretismo entre os evangélicos da comunidade.

Pela empolgação e determinação das três famílias visitadas por mim, logo terá um templo na comunidade. Eles não importam em repassar o dízimo e são generosos em doar 10% de suas rendas para a Igreja. Suponho que quando algum pastor solicitar um pedaço da terra para a construção será imediato o repasse. Isso, se não partir por inciativa deles mesmos.

Quando dizem “eu era cego e não percebia”, “eu estava servindo a satanás”, por isso a vida não tinha sentido” eu analiso que estão falando das práticas católicas e as de origem africanas. A libertação da comunidade que estão dizendo se refere à eliminação sistemática de toda prática que não for evangélica. Repetem a negação realizada pelo cristianismo no Brasil-colônia de toda expressão religiosa que tem origem “pagã”.

O avanço do neopentecostalismo na comunidade quilombola do Cedro assiste a diminuição considerada dos católicos, garante um membro da associação dos moradores. Embora, o catolicismo praticado na comunidade é popular, mesmo assim ele vai perdendo espaço para outras denominações. Popular no sentido de ser um catolicismo muito sincrético e tolerante. Que não está sob as orientações e normas da Igreja oficial. E que sempre conviveu com outras formas de religiosidade.

3.4. A IGREJA CATÓLICA NA COMUNIDADE QUILOMBOLA

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