CAPÍTULO 2 A COMUNIDADE QUILOMBOLA DO CEDRO
2.3. ASPECTOS DA RELIGIOSIDADE DO CEDRO
As manifestações religiosas também são culturais e acontecem na comunidade do Cedro por tradição. Muitas vezes sem a presença oficial da Igreja. Os Cedrinos em sua maioria professam a religião católica. Segundo a associação dos moradores todos receberam os sacramentos ministrados pela Igreja, batismo, Eucaristia, crisma e muitos o sacramento do matrimônio. Mesmo aqueles que se converteram à Igreja evangélica receberam porque há pouco tempo professavam na Igreja Católica. As festas tidas como religiosas são, portanto, as responsáveis pelo maior movimento cultural na comunidade.
Observa-se que os Cedrinos são profundamente religiosos e acreditam em uma proteção divina e dizem respeitar todas as manifestações religiosas. Uma entrevistada afirma ser espiritualista, pois segundo ela condiz mais com sua fé. Diz ainda que todas as formas de falar de Deus são válidas. Por isso, participa de todas as igrejas e religiões quando tem oportunidade. Parece-me ser mais ou menos essa ideia que perpassa pela maioria dos Cedrinos.
Poucos têm consciência clara, mas várias das manifestações religiosas que realizam são herança das tradições africanas que receberam de seus antepassados, tais como as benzeções, o misticismo, a crença que as ervas, a argila e a pedra têm poder medicinais porque contêm a força de Deus. A própria preocupação e respeito
com as árvores e os animais, a forma de plantio, a utilização das plantas medicinais tem relação com a religiosidade dos Cedrinos.
Hoje em dia eles usam a medicina e fitoterapia como baliza identitária, mas, com certeza, a tradição de usar plantas para curar tem a ver com a forma herdada da cultura ancestral de algumas etnias africanas, em que objetos incorporam e influenciam o comportamento das coisas, no cotidiano das pessoas. Vários dizem que assim “eu aprendi a fazer remédios de minha mãe, meus avôs e até de bisavôs” Isso comprova a herança desta pratica de seus ancestrais.
Essa prática, na comunidade quilombola do Cedro, também vem carregada de respeito pela natureza. Uma quase veneração, pois veem nela a manifestação de Deus. De certa forma um “Panteísmo”. O próprio Deus está na árvore, argila, pedra, animais. Talvez uma consciência de que “é preciso cuidar porque senão o castigo vem”, assim como fala uma senhora que faz parte da comunidade fitoterápica.
As ervas estão sempre presentes nos rituais de oração dos comunitários. Cada casa, mesmo as de evangélicos, têm em algum lugar, na frente da casa um pé de Tipi (ou guine Bissau), uma touceira de “espada de São de Jorge”, ou uma moita de “comigo ninguém pode” para impedir mau olhado ou energia negativa. Um senhor bem jovem e que se diz evangélico respondeu a minha pergunta sobre o porquê disso, dizendo: “Tem muita coisa ruim, né! temos que proteger a família”. Na minha avaliação torna-se evangélico, oficialmente negam o que aprendeu, mas, continuam na prática a acreditar que existe plantas e ervas que protege a pessoa.
Nos benzimentos que são realizados por alguns na comunidade, o uso de folha de arruda serve para retirar quebranto, inveja, melhorar a “arca caída”, voltar a energia do corpo. A argila é usada como relaxante, cicatrizante e revigorante, para limpeza de pele e febre interna. Dona Maria me disse que tudo isso acontece porque a argila tem a força de Deus, que se usada de maneira confiante é muito poderosa. É possível ver a valorização das plantas nos rituais do terreiro de umbanda que existe na comunidade onde as ervas são consideradas sagradas, não só são usadas para cu ra de moléstias, mas também para reverenciar os Orixás. As ervas são consagradas às entidades e amplamente utilizadas nas sessões realizadas no terreiro da comunidade. Carlos um jovem quilombola me ensinou um banho para espantar “ruinzeira”
“Esfregar com as mãos folhas de mangueira. Deixar repousar e depois colocar na água quente para f azer o banho. O inimigo gosta de banho quente. Ir com uma caneca jogando a água no corpo e ir falando ‘que o mal-estar sai de meu corpo”. [sic] Outro banho bom diz o mesmo jovem:
Pega f olha de tipí, mistura com a f olha de catinga de mulata, f erve ela e vai jogando no corpo com uma caneca da cabeça pra baixo. Af asta o mau olhado. [sic]
Uma senhora quilombola (tataraneta de “Chico Moleque”), orientou-me como utilizar a argila a seu favor. Ela afirma que a argila tem a força da divindade. Diz ela:
cava perto de uma mina uns 40cm e pega bastante argila dali. Depois amassa ela com as mãos até f icar sovada, tirando as impurezas dela. Tira toda a roupa, deita numa mesa e pede alguém que passe uma camada f ina de argila em todo o corpo. Não deixa nada sem argila. Tampa os olhos e passa em tudo. Fica quieto e pensa só coisa boa que você quer que te aconteça. Depois de uma hora a argila vai estar seca e vc toma banho. Toda ruindade e mal vai sair na argila.
De acordo com Roger Bastide (1974), o africano não separa o mundo material do mundo ecológico. Não há dualidade. Tudo se complementa. É a Religião cristã que introduz a cosmovisão dualística. Azevedo (2013. p.9) ressalta que “Religião na África é uma cosmologia. Uma visão de mundo integrada, em que os ancestrais e os vivos estariam conectados; definindo uma filosofia.” Mbiti (1990), afirma que as cosmologias africanas são de cunho “extremamente antropocêntricos”, são experienciadas pelo corpo, pela natureza. Podemos perceber isso na relação com o sagrado pelos Cedrinos, como se pode notar nas palavras de Silva:
O Catolicismo of icial não conseguiu tirar do Cedrino sua prof unda religiosidade f undada em princípios de harmonia cósmica de f undas raízes af ricanas, mesmo que exteriorizada por intermédio e rituais e santos católicos, do chamado catolicismo popular. Isto signif ica que os cedrinos através de histórias memoráveis, contadas pelos mais velhos, continuam mantendo atitudes mentais prof undamente arraigadas, que os escravos af ricanos trouxeram para o Brasil e que nenhuma ideologia seja ela religiosa ou política, conseguirá extirpar (SILVA, 2008, p.441).
É perceptível, também, que o manejo com plantas medicinais é carregado do caráter religioso, dando às plantas e seu manejo um sentido sagrado. Como diz uma
senhora da comunidade: “é Deus que nos orienta para fazer remédios que cura, tanto os males físicos quanto espirituais”.
Apesar da tentativa colonial e católica de destruir tudo aquilo que pertencia à tradição africana, a herança an cestral, com certeza, deixou marcas no modo de vida e especialmente no modo de cultuar. Por isso, que muitas das formas de lidar com o sagrado permanecem no cotidiano e na religiosidade dos Cedrinos. Sobre esse assunto abordaremos com mais detalhes no capítulo 3.