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MOVIMENTO QUILOMBOLA

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CAPÍTULO 1 O QUILOMBO DO CEDRO

1.7. MOVIMENTO QUILOMBOLA

O negro que procurava um quilombo, em tempos de economia escravista, empenhava-se, de certa forma, em lutar pela garantia dos seus direitos, promovendo na coletividade uma dimensão política e histórica, de resistência, na qual, homens e mulheres buscavam o quilombo como possibilidade de se manterem fisicamente, socialmente e culturalmente. De acordo com Arruti (1997), no período pós-abolição, a luta pelos direitos dos negros e negras se tornou uma bandeira dos movimentos sociais negros. Consequentemente fortalecendo o movimento quilombola e direcionando-o a buscar um aspecto identitário e político organizacional das comunidades.

Segundo Oliveira Jr. (1995) o resultado desta luta foi o reconhecimento do direito às terras ocupadas pelos remanescentes de quilombos na Constituição Federal de 1988. Fruto de um amplo processo de mobilização do movimento negro urbano e de outras organizações, apresentada à Assembleia Nacional Constituinte, através de uma emenda de origem popular. Uma vez não alcançando o número mínimo de assinaturas, foi formalizada pelo então Deputado Carlos Alberto Cão (PDT/RJ), e teve a participação de outros parlamentares como Benedita da Silva (PT/RJ).

Neste contexto o movimento quilombola ganha força com o surgimento da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). Essa organização procura articular junto às comunidades remanescentes de quilombos seus direitos adquiridos, e representa uma força social relevante dando nova tradução ao que era conhecido como comunidades negras rurais (mais ao centro, sul e sudeste do país) e terras de preto (mais ao norte e nordeste). Seu objetivo vem de encontro aos anseios e necessidades das comunidades que reivindicavam o reconhecimento e a implantação de políticas públicas, através de projetos de desenvolvimento sustentável, educação de qualidade e coesivo com o modo de viver nos quilombos, o protagonismo das mu lheres. Essa organização soma na luta da garantia ao título de reconhecimento de domínio para a s comunidades quilombolas.

A constituição da Conaq lança o movimento quilombola no cenário nacional. A partir daí, o movimento quilombola é reconhecido como um dos mais ativos agentes

do movimento negro no Brasil contemporâneo e introduz um debate que busca fortalecer a perspectiva de que este país tem em suas estruturas mais profundas uma grande pluralidade étnica.

O Quilombo do Cedro situa-se neste contexto. Seu reconhecimento tanto para os moradores do município, como para os quilombolas passaram pelo processo de aceitação e assimilação da própria negritude, superando a violência simbólica que os levaram à adoção de estratégias de embranquecimento, subserviência e individualização, proporcionado em grande parte pela atuação do movimento quilombola.

Segundo relata Luceli Morães Pio, quilombola tataraneta de “Chico Moleque” e atuante no movimento:

O quilombo do Cedro só é reconhecido como quilombo graças à participação de vários membros no movimento quilombola. No interesse as pessoas a desenvolverem com dignidade sua vida, sem deixar de lado que é remanescente de negros e negras que lutaram pelo reconhecimento e pela dignidade. Segundo ela as dif iculdades f oram muitas e passando de geração a geração f ica achando que é normal. Que somos assim porque Deus quis assim. Se a f icar no canto da gente será melhor. Um conf ormismo imposto pelo contexto. Pela sociedade branca também a costumada a ver a agente desta f orma. Vivendo de piedade e de migalhas. O movimento quilombola abre os olhos da gente e f az ver que se estamos na situação de penúria é porque alguém quis assim e promoveu isso. Fomos subjugados por um grupo que ditou as regras achando que a única maneira boa e agradável a Deus seria a deles. Inf elizmente ou f elizmente sei lá diz ela a história se repete e se não estivermos com o objetivo claro e f resco na mente do porquê lutamos alguém ou um grupo vai de novo justif icar a submissão e a necessidade de ter quem pode e quem não pode. Quem já nasceu condenado ou não. Quem merece dignidade e quem não merece. E vejo que a consciência de que é quilombola se acaba quando não valoriza a história e não vê mais necessidade de lutar por melhoria. [sic].

As comunidades negras, ainda hoje lutam por seu território e pela sua memória. Os quilombos são exteriorização dessa resistência, que fundamentado nos critérios de pertença, constrói metas comuns em busca de garantia de seus direitos. Fazendo valer o direito de existir e ser respeitado. Nesse sentido, há todo um processo encampado pela Fundação Palmares, outrora, pelo Incra e pelo Ministério Público Federal (particularmente a sua 6ª Câmara), de dar visibilidade e reconhecimento às comunidades de remanescentes de quilombo, visando enquadrar todas as suas ações

numa interpretação do artigo 68 do Ato das Disposições Transitórias da Constituição de 1988, tensionando uma ressignificação dos quilombos e de suas gentes.

Isso se faz necessário, porque a expectativa do movimento negro não se concretiza, percebe-se que a realidade dos grupos é distinta e variada, então buscou retirar a necessidade de comprovação da origem histórica baseada em escravos fugidos no contexto da escravização, e também a necessidade de ratificação de aspectos das culturas africanas como forma de resistência. O Decreto 4.887, de 2003, estabelece os critérios de desapropriação baseados em autoatribuição e na autodefinição. Um quilombo passa, então, a ser definido segundo uma identidade simbólica baseada em autoatribuição. Basta um determinado grupo autointitular-se quilombola, autodefinindo-se grupos étnico-raciais com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida. Conforme Schmitt (2002), esse novo entender sobre o que é um quilombo revela que não se trata mais de terras ou propriedades, mas de ‘territórios’, supostamente fundados nessa identidade étnica. Procurei abranger neste capítulo a definição em torno do que é quilombo, sua trajetória como instrumento de resistência e afirmação. A definição cunhada no novo contexto dos negros remanescentes de quilombo apoiada por políticas públicas voltadas ao empoderamento do negro numa sociedade plural. Os enfrentamentos para um reconhecimento do território de um quilombo a trajetória de luta que culmina num reconhecimento e em políticas públicas a seus moradores. E também o objetivo e as ações do movimento negro. Adiante debruçaremos em torno da comunidade Quilombola do Cedro bem como os aspectos e atividades que a caracteriza.

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