2. A Igreja e a interculturalidade
2.3. A Igreja una, santa, católica, apostólica e intercultural
O termo “interculturalidade” é relativamente novo, mas o seu sentido já estava presente no seio da fundação da Igreja. Desde os primeiros momentos da Igreja, ela já sabia do seu aspeto intercultural. Dois fundamentos óbvios do aspeto intercultural da Igreja são o mandato missionário de ir pelo mundo inteiro e a inauguração da Igreja no Pentecostes. «O locus da comunidade da nova Aliança já não era só uma nação (como a comunidade da antiga Aliança), mas uma comunhão transnacional que busca viver a nova vida dada pelo Espírito num mundo que pensa não poder partilhar os seus valores»312. Desde o Pentecostes, quando a comunidade de Jesus saiu daquela sala de cima para o mundo, a Igreja sabia que é para todos os povos e culturas. A Igreja que professamos como una, santa, católica e apostólica é também intercultural.
Os Padres da Igreja fizeram bem ao pôr estas quatro caraterísticas da Igreja no Credo. Assim, cada vez que confessamos a nossa fé, lembramos a verdadeira identidade da Igreja que é una, santa, católica e apostólica. Na verdade, a Igreja recebe de Cristo estes dons, que são ao mesmo tempo um convite, ou seja, a missão de trabalhar na sua unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade. Estas caraterísticas entram no mistério da Igreja: “já mas ainda não”. «A afirmação da Igreja como una, santa, católica e apostólica deve ser entendida escatologicamente»313.
Ao professar a fé na Igreja una, santa, católica e apostólica, sentimos a nossa responsabilidade de realizar a unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade da Igreja na nossa vida cristã. Cada um de nós tem que contribuir com a sua parte para a construção de uma
310 J. A. ESTRADA, Del misterio de la Iglesia al pueblo de Dios, 103.
311 BENTO XVI, Os doze apóstolos, 43.
312 D. A. CARSON, «Christian witness in an age of pluralism», 45.
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Igreja verdadeiramente una, santa, católica e apostólica. Nós, como membros desta Igreja, temos que viver a unidade, a santidade, a catolicidade e a apostolicidade como o nosso testemunho da fé. Para nós, a interculturalidade é uma nova perspetiva, caminho e oportunidade de viver a unidade, a santidade, a catolicidade e a apostolicidade da Igreja.
A Igreja é chamada a viver com o contexto do seu tempo. O nosso tempo é marcado pelo pluralismo e multiculturalismo. «Esse novo lugar ocupado pela Igreja católica confirmava a necessidade de voltar a valorizar a diversidade dentro dela própria»314. O Concílio Vaticano II afirma que a Igreja deve viver a unidade em diversidade. Neste caso, a diversidade de povos e culturas na Igreja é promovida, mas com o desejo ardente de uma unidade mais profunda e rica de todos os cristãos na Igreja. À luz deste espírito, muitos sugerem a interculturalidade como processo de viver a unidade em diversidade da Igreja. «Aceitar a interculturalidade como um processo permite que as pessoas aprendam umas com as outras, para enriquecer e ser enriquecidas por outras pessoas»315. Pela convivência, diálogo, interação e reciprocidade, os diferentes povos e culturas enriquecem a fé de cada um. Assim, «a diversidade é condição para a unidade da Igreja»316.
A unidade da Igreja vem do princípio de que a fé é só uma e o Senhor é só um. A Igreja vive a oração sacerdotal de Jesus «que todos sejam um só» (Jo 17, 21). A santidade da Igreja vem do princípio de que tem origem em Deus que é santo. Como Deus Trindade é santo, a Igreja também é santa. Ao ser sacramento da comunhão de Deus com a humanidade e de toda a humanidade, ela é santa. «A Igreja é o lugar do encontro»317. Ela é um lugar de encontro entre diferentes povos e culturas e lugar de encontro entre Deus e a humanidade. Ao ser sacramento e instrumento de encontro e comunhão, a Igreja é santa. Praticamente, já falámos da relação da unidade e da santidade da Igreja com a interculturalidade quando falámos das duas imagens da Igreja: corpo de Cristo e sacramento da comunhão.
Agora, abordamos a relação da catolicidade e apostolicidade da Igreja com a interculturalidade. «Por ser “católica”, universal, a Igreja é enviada a todos os Povos e homens e, nesse sentido, apostólica, quer dizer, a Igreja é toda ela missionária, enviada»318. A catolicidade e a apostolicidade da Igreja também nos levam a apreciar a nossa interculturalidade. A Igreja é católica, porque se destina a todos os povos e culturas. A apostolicidade vem do princípio de que a verdadeira Igreja fundada por Jesus é a Igreja iniciada
314 W. L. SANCHEZ, «O Concílio Vaticano II e o tema da diversidade», in Revista Espaços 23, nº 2 (2015), 129.
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P. B. KLEDEN, «Trinitarian spirituality and interculturality», 33.
316 W. L. SANCHEZ, «O Concílio Vaticano II e o tema da diversidade», 133.
317 B. FORTE, La Iglesia de la Trinidad, 41.
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pela comunidade dos Apóstolos. Jesus escolheu doze homens como seus discípulos. Ele fundou a Igreja a partir desta comunidade liderada por Pedro. A Igreja é apostólica, porque recebeu a mesma missão dos Apóstolos. Jesus enviou os seus discípulos a toda a terra, a evangelizar todos os povos e culturas. E, como os Apóstolos que falaram em diferentes línguas no Pentecostes, a Igreja é chamada a dialogar com todos os povos e culturas.
A catolicidade da Igreja é importante para a sua interculturalidade. O motivo de convivência e diálogo intercultural de diferentes povos e culturas na Igreja é o princípio de que todos fazem parte da Igreja universal. O ser católico da Igreja exige que ela seja intercultural. «Em suma, ser “católico” significa ser capaz de comunicar a fé cristã de forma intercultural»319. A Igreja que se destina a todos os povos e culturas sempre assegura a sua catolicidade, para que as igrejas locais se sintam uma só Igreja. «O que dominava como Igreja católica era expressão das diferentes igrejas locais com a diversidade própria de cada uma delas»320. A catolicidade salvaguarda a diversidade das igrejas e comunidades cristãs e a união de todos numa só Igreja. Embora existam diferenças culturais nas igrejas locais, elas são parte da Igreja universal que confessa uma só fé no único Senhor. «A catolicidade é expressão teológica da realidade de que o alcance do amor de Deus não é divisivo nem opressivo, mas reúne a diferença genuína numa totalidade inclusiva»321. A interculturalidade pode ajudar-nos a ser inclusivos, abertos e respeitosos de todos os povos e culturas inseridos na Igreja católica.
Os quatro atributos da Igreja não contradizem, aliás reforçam, a interculturalidade da Igreja. A unidade, a santidade, a catolicidade e a apostolicidade da Igreja são motivos para abraçarmos a nossa interculturalidade. A Igreja una, santa, católica e apostólica é necessariamente intercultural. Pela interação, convivência e diálogo entre diferentes povos e culturas na Igreja, concretizamos estes seus quatro atributos. A interculturalidade é o testemunho da fé na Igreja una, santa, católica e apostólica perante a sociedade pluralista e global.