1. A Trindade como o modelo da Igreja intercultural
1.2. Comunidade de amor
«Deus é uma comunidade de Amor»254. Aliás, Deus é amor. As três pessoas divinas da Santíssima Trindade estão ligadas umas às outras pelos laços de amor que elas têm em abundância entre si. «Em tal perfeição, Santo Agostinho descobre três termos: o amante, o amado e o próprio amor»255. Deus Trindade é uma comunidade de amor: do Pai amante, do Filho amado e do Espírito Santo que é o próprio amor. É uma comunidade que vive no amor perfeito; um amor que se dá ao outro completamente sem guardar nada em si. Portanto, a Santíssima Trindade é o modelo de uma comunidade perfeita.
Há um ditado que diz: «O amor faz o mundo girar». Sem o amor, não podemos imaginar o nosso mundo e a nossa vida. O amor é salvação. Deus criou todo o universo pelo seu amor e salvou-nos pelo seu grande amor. O amor é o melhor dom de Deus para a humanidade. Portanto, convém que toda a humanidade seja uma comunidade de amor. Mas, para conseguirmos ser uma comunidade de amor, temos que seguir o exemplo da Trindade. Isto, porque só a Santíssima Trindade pode ensinar-nos o que é o verdadeiro amor. Aliás, segundo António Vaz Pinto, «só o amor “explica” a Trindade. Só a Trindade “explica” o amor»256. Temos que aprender muito da nossa fé em Deus Trindade sobre o amor e traduzi-lo na nossa vida comunitária.
«O mistério trinitário não é uma sociedade anónima, mas uma comunidade vital de pessoas com as suas próprias diferenças e, ao mesmo tempo, uma vontade operativa de harmonia e inter-relação»257. Em Deus Trindade, as três pessoas divinas são distintas umas das outras, mas todas se entregam à harmonia e ao intercâmbio divino. O Pai, o Filho e o Espírito Santo, ao manterem as suas diferenças pessoais, comprometem-se perfeitamente com a harmonia divina. Eles não se contradizem, complementam-se pelo seu amor entre si. O amor é o que explica melhor Deus uno e trino. «O um e o muito coexistem no amor: unidade na trindade e trindade na unidade. A diversidade na unidade é a forma como o Deus trinitário existe»258. O amor é um mistério. Ele é uma força unificadora.
Jesus ordena a todos nós: «Amai-vos uns com os outros como vos amei» (Jo 13, 34). Colocando sempre o amor como o centro das nossas relações, seja com Deus ou com o nosso
254 A. V. PINTO, Revelação e fé I, 400.
255 T. SZABÓ, «La santisima Trinidad y el encuentro interpersonal en San Buenaventura», in Semanas de
estudioso trinitario 14: Trinidad y vida comunitaria, Ediciones Secretariado Trinitario, Salamanca, 1980, 62.
256 A. V. PINTO, Revelação e fé I, 400.
257 J. A. MERINO, «La Trinidad, paradigma de vida comunitaria en S. Buenaventura», in Semanas de Estudios
trinitarios 30: Pensar a Dios, Ediciones Secretariado Trinitario, Salamanca, 1997, 190.
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próximo. Aliás, Jesus resumiu todos os mandamentos em apenas dois; primeiro, «amar Deus acima de todas as coisas e, depois, amar o teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22, 37-39). O Filho amado de Deus Pai veio ensinar-nos a importância do amor na nossa vida como filhos de Deus. Portanto, a fé tem que se traduzir no nosso amor por Deus e pelo nosso próximo. Temos que ser uma comunidade que vive no amor de uns pelos outros.
Atualmente, a nossa sociedade é plural e multicultural. A Igreja propõe uma resposta ousada que se chama ‘interculturalidade’. «Quando a linguagem teológica é empregada, já existe um uso distinto entre multicultural (sociológico) e intercultural (teológico)»259. A multiculturalidade reconhece apenas a existência de uma diversidade cultural e racial no mundo e que haja tolerância relativamente à diferença. A interculturalidade, por sua vez, convida todos os povos e culturas a entrar numa convivência e interrelação.
A interculturalidade pede mais do que uma mera tolerância; pede uma verdadeira convivência de diferentes povos e culturas na Igreja. «A interculturalidade só pode ser vivida se todos estiverem conscientes de que é um processo para crescer num relacionamento mais profundo de uns com os outros»260. Esta convivência de povos e culturas na Igreja é possível se cada um se comprometer a amar o outro sobretudo aquele que é diferente. Para conseguirmos uma Igreja intercultural, precisamos do amor que cria ambiente para o intercâmbio e a interação entre povos e culturas que se tratam com respeito e igualdade.
Nisto, Deus Trindade é modelo para a Igreja intercultural. «Deus é caridade: ágape. Contudo, a caridade é essencialmente amor interpessoal, amor de uma pessoa para outra e vice- versa. Por sua própria natureza, exige pluralidade de pessoas»261. Em Deus, vemos o exemplo de uma comunhão perfeita na pluralidade de pessoas. O amor divino é que faz unir as três pessoas num só Deus. Inspirada pelo mesmo amor, a Igreja também procura uma comunhão de diferentes povos e culturas.
O próprio ser de Deus é amor. Portanto, todas as suas obras são fruto do amor que não reside apenas em si, mas se manifesta em toda a criação. «Ele é amor. Todas as suas obras ad extra são marcadas pelo amor: cria-nos por amor e, acima de tudo, nos redime por amor e nos destina ao amor»262. Fomos criados por Deus pelo seu grande amor e o nosso destino é o mesmo amor. Desde que o pecado entrou na nossa realidade humana, fomos separados do amor de Deus. Onde existe o pecado, o amor não pode existir. Por isso, Jesus nos redime da nossa condição pecadora para que possamos voltar plenamente a Deus e gozar do seu amor infinito.
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A. J. GITTINS, «The challenge of intercultural living», 62.
260 P. B. KLEDEN, «Trinitarian spirituality and interculturality», 33.
261 T. SZABÓ, «La santisima Trinidad y el encuentro interpersonal en San Buenaventura», 64.
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O amor é fundamental para a nossa vida cristã. Fomos criados por amor, redimidos por amor e destinados para o amor. Convém sermos uma Igreja de amor. A comunhão de todos os cristãos é a nossa comunhão com Deus uno e trino. «Chegou a hora em que podemos descrever a comunhão como a participação gratuita dos homens pela caridade na própria vida de Deus, uno e trino»263. A Igreja intercultural, onde os diferentes povos e culturas se amam uns aos outros, é um grande testemunho da presença de Deus Trindade. A Igreja que vive na comunhão a sua pluralidade e diversidade cultural é uma teofania. «O lugar onde a Igreja nasce é, portanto, a Trindade e o lugar de manifestação da Trindade é a Igreja»264.
Para a Igreja ser uma verdadeira comunidade de amor, ela tem que promover a interculturalidade nos seus membros. Como Deus é comunidade de amor das três pessoas distintas, nós, os cristãos, devemos ser uma Igreja de amor onde todos os povos e culturas se amam e se unem na mesma fé, no mesmo amor e no mesmo Senhor. A nossa interculturalidade é o testemunho da nossa fé em Deus uno e trino. Se acreditamos na existência de um só Deus em três pessoas, também temos que acreditar que é possível ser uma só Igreja de diferentes povos e culturas. Pela interculturalidade, somos a imagem viva de Deus Trindade no mundo atual.