CAPÍTULO III O PROEJA no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia
3.3 A implementação do PROEJA sob o olhar docente
Com relação ao processo de implantação do programa na Instituição, quando questionados a respeito, os professores que demonstraram possuir conhecimento do processo afirmam que foi resultado de um debate institucional que culminou com a proposta de implantação da política no campus, como parte do conjunto de metas que constituíram o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI). Posteriormente, coube a Pró-reitoria de Ensino (PROEN) a elaboração dos projetos de cursos que seriam implantados, em consonância com o relatório do estudo desenvolvido pelo Observatório do Trabalho35:
A concepção dos cursos no Campus se processou no momento de sua abertura como parte dos compromissos assumidos pelo IFG no plano de meta a partir da criação dos IFs. Desta forma, quando os docentes iniciaram seu trabalho, eles passaram a atuar nestes cursos. A concepção dos projetos e diretrizes de trabalhos do PROEJA partiram da Proen, em articulação com a Coordenação de Projetos Especiais do IFG e, a posteriori, com elaboração dos projetos de cursos em consonância com as especificidades locais definidas pelo estudo prévio de implantação (realizado pelo observatório do mundo do trabalho), contando com apoio dos professores e chefias de cada departamento. (D8)
Existia um modelo na implantação do campus, decidido pela reitoria e depois pelo PDI, onde cada campus deveria ofertar ao menos um PROEJA. (D9)
Entre os docentes que afirmaram desconhecer como ocorreu a implantação do PROEJA no IFG, foi possível perceber que estes têm a ciência que a implantação tenha ocorrido tomando como base tanto a legislação quanto os estudos realizados. Nota-se que, além dos documentos institucionais, como o PDI, a previsão de oferta do PROEJA pelos institutos federais já se encontrava presente na Lei 11.892, de 2008, de criação dos institutos federais de educação:
Art. 7o Observadas as finalidades e características definidas no art. 6odesta
Lei, são objetivos dos Institutos Federais:
I - ministrar educação profissional técnica de nível médio, prioritariamente na forma de cursos integrados, para os concluintes do ensino fundamental e para o público da educação de jovens e adultos; (Grifo Nosso)
Art. 8o No desenvolvimento da sua ação acadêmica, o Instituto Federal, em
cada exercício, deverá garantir o mínimo de 50% (cinqüenta por cento) de
suas vagas para atender aos objetivos definidos no inciso I do caput do art.
7odesta Lei, e o mínimo de 20% (vinte por cento) de suas vagas para atender
ao previsto na alínea b do inciso VI do caput do citado art. 7o. (BRASIL,
2008, p.01). (Grifo Nosso)
Frente a isso, pode ser observado que a Lei, ao tratar da criação da Rede Federal dos Institutos, contempla a obrigatoriedade de serem ofertados cursos para o público da EJA, sendo efetivado por meio do Decreto 5.840, de 13 de julho de 2006, que instituiu a oferta do PROEJA nas instituições federais, bem como estabeleceu as diretrizes que iriam orientar a política.
Ainda nesse contexto, os professores sujeitos da pesquisa, ao serem inquiridos a respeito do processo de escolha dos cursos do PROEJA no IFG - Campus Formosa, demonstraram que a escolha dos cursos foi pensada com base nas necessidades do mercado local identificadas no relatório do Observatório do Trabalho, assim como os cursos ofertados pela instituição:
Em relação ao curso de suporte e manutenção eu não sei. Já sobre o curso de edificações, houve a realização de estudo sobre a demanda na cidade, além disso, já ofertávamos o curso de engenharia civil e, no passado, tínhamos o curso técnico em edificações. (D4)
Acredito que a escolha dos cursos ofertados tenha relação com as áreas técnicas que são de vocação do campus, conforme estudo do observatório do trabalho. (D5)
Tal como foi identificado na pesquisa documental, a escolha do curso de Suporte e Manutenção em Informática, um dos cursos ofertado no contexto do PROEJA, assim como os demais cursos ofertados pelo Campus de Formosa, no início de suas atividades, no ano de 2010, ocorreram em função do levantamento realizado pelo Observatório do Trabalho, que identificou as possíveis demandas de empregabilidade da cidade e região, considerando as áreas de conhecimento do próprio Instituto.
Nesse sentido, o docente D8 expõe que somente depois de três anos de funcionamento do campus é que o corpo docente conseguiu se organizar para refletir sobre a política do PROEJA que estava em vigor na Instituição. Esse momento possibilitou aos professores pensar e projetar novos cursos relacionados com aqueles já desenvolvidos pelo Instituto, nos níveis médio e superior, tal como ocorreu com a incorporação do curso Técnico Integrado em Edificações ao PROEJA.
Com o propósito de aprofundar a análise acerca da implementação do PROEJA, buscou-se compreender também como ocorreu a participação dos professores na elaboração do Projeto Pedagógico dos Cursos (PPCs), uma vez que este é considerado um instrumento político-pedagógico que embasa as ações pedagógicas da Instituição, bem como a organização do fazer docente.
Nesse ponto, os professores apresentam que a participação na elaboração do documento foi incipiente. Os dados revelam que os docentes receberam os programas praticamente prontos, motivo pelo qual a sua participação na formulação do PPC foi muito pequena. Realidade que, em tese, contraria o princípio defendido na LDB/1994, Artigo n.º 14, boração dos projetos
Para Veiga (1998), o projeto pedagógico deve estar além de um agrupamento de
momentos por todos os envolvidos como processo
relação de reciprocidade entre a dimensão política e a dimensão pedagógica36da escola. Entretanto, mesmo sem contar com a participação efetiva dos professores na elaboração do plano pedagógico dos cursos, foi identificado na pesquisa que a Instituição disponibilizou para consulta os documentos do PROEJA. Todavia, o fato de os documentos estarem disponíveis pode não representar o desenvolvimento real do programa, mas sim uma
36Para Veiga (1998), a dimensão política é o compromisso sociopolítico com os interesses reais e coletivos da população majoritária, ou seja, tem o compromisso da formação do cidadão para a sociedade. Já a dimensão pedagógica possibilita a efetivação da intencionalidade da escola, que é a formação do cidadão participativo, responsável, compromissado, crítico e criativo.
prática burocrática de muitas Instituições, tal como citado por Veiga (1998). Além disso, isso pode significar também um recuo de ações formativas e financeira por parte da gestão institucional, em que o próprio professor deve buscar uma autoformação, sem a participação de modo direto e/ou indireto por parte da instituição.
Para Veiga (1998), o projeto pedagógico deve proporcionar, entre os sujeitos e instituição, interações e processos investigativos visando à qualidade social e autonomia educacional. Assim, pensar o projeto político-pedagógico, na visão da autora, implica a adoção de uma prática permanente de revisão e formação entre os sujeitos, principalmente no Instituto que apresenta o ingresso e saída frequente de professores via concursos e seleções de remoção e redistribuição a outras unidades e instituições.