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CAPÍTULO III O PROEJA no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia

3.6 Processo avaliativo da implementação do PROEJA

Partindo-se do pressuposto de que o processo de implantação e implementação de uma política envolve uma série de fatores que perpassam a elaboração e o desenvolvimento, foi questionado aos professores qual foi a avaliação da implantação do PROEJA no Instituto ? .

Para os docentes, a implantação do programa foi positiva, pois ele é compreendido como uma política de inclusão social, que garante acesso público e gratuito à educação, para

uma população que teve seus itinerários formativos interrompidos em consequência da dinâmica social:

Embora não dê aos alunos o sentimento de inclusão de que necessitam e pelo qual clamam, creio que a oferta para essa modalidade é essencial, já que é o público mais carente e merecedor do ensino que se autointitula "público, gratuito e de qualidade

O desenvolvimento passa pela escolarização. A oferta do curso permite elementos para este desenvolvimento, social, humano e econômico das pessoas e da comunidade (D10).

Creio que a raiz de todo o mal que o país enfrenta é uma deficiência na educação. A modalidade EJA abre uma porta para pessoas que não tiveram tanta oportunidade na vida, já garante de certa forma um futuro melhor. Com o crescimento da educação, a miséria e criminalidade diminuem, a resposta para todos os nossos problemas é educação (D1).

No entanto, os docentes apresentam críticas ao processo de implantação do PROEJA, no que se refere à falta de participação da comunidade acadêmica na implantação, aspecto este que pode ter contribuído para as dificuldades no processo de implementação, que perpassam desde a incompreensão da política até as dificuldades dos alunos:

1) Os livros que usei eram voltados para alunos adolescentes, então eles se tornam um problema para os alunos do PROEJA, são pouco atrativos para eles.

2) Os professores iniciantes entram totalmente alheios a como dar aulas para estes alunos, a dinâmica de curso é diferente do que estamos acostumados.

3) Enquanto numa sala de adolescentes o tempo de aprendizado entre os alunos é parecido, no PROEJA o tempo de absorção de conteúdo entre os alunos é muito distinta (D2).

Incompreensão ou desconhecimento da proposta, falta de interesse dos professores pelo segmento, ausência de estímulo pelas instâncias superiores pela atuação no segmento, falta de atenção ao segmento que é sempre deixado para o plano B, carência de uma política macro e micro de avaliação do segmento e dos cursos e também dos egressos. Falta disto a que você se propõe a uma avaliação da implantação (D8).

Deficiência na preparação dos docentes para atuarem no Proeja; cursos do Proeja relegados a um segundo plano no interesse de professores e da própria instituição (D6).

Além de enfatizarem a problemática da deficiência na formação dos professores e o desinteresse dos professores em atuar na EJA, a análise de D6 e D8 chamam a atenção para o , seja pelos

professores ou pela Instituição. Essa condição apontada pelos docentes reafirma que o processo histórico discriminatório da EJA ainda permanece atual nas práticas de muitos professores e nos interesses políticos das instituições.

Para Simões (2010), o jovem trabalhador tem o acesso à escolarização ampliada, porém, essa ampliação também é marcada por reprov

inclusão excludente ocorre na escola por esta ser um espaço de tensões sociais, seja em função dos interesses institucionais ou dos agentes sociais envolvidos.

Nessa perspectiva, o conflito dos interesses de classe está intrínseco no sistema educacional, e é nesse cenário que o PROEJA se encontra:

aparelho do Estado que transmite valores dominantes, [...] mas que também é estratégia das pessoas em superar as condições socioeconômicas mais precárias de vida, como também

Entende-se que o ensino da EJA e seu público ainda não superaram o caráter de , como ressaltam os professores, diante de outras modalidades de ensino. É possível compreender que os problemas/dificuldades na implementação do programa estão na ausência de conciliação entre os agentes participantes (professores, alunos e gestão). Isso porque, na implementação da política, é necessário articular as interfaces presentes na proposta do programa: educação básica, educação profissional e educação de jovens e adultos, além de comprometimento, monitoramento e avaliação permanente (MOURA, 2012).

Depara-se, nesse contexto, com uma organização educacional que segue a lógica do capital competitivo, pautada em interesses, sejam particulares ou não. Dessa forma, nota-se que nas ações dos professores, em sua maioria, e na Instituição, há a existência de uma preocupação com a formação profissional, desconsiderando a formação unitária:

Embora seja professora do núcleo comum, os alunos costumam referir que há várias contradições travando o sucesso de sua formação. Dentre elas, queixavam-se de que não eram avisados com antecedência quando um professor faltava, de que não têm professores de determinadas matérias, de que a instituição os força a cumprir as exigências do ensino técnico sem oferecer condições mínimas para tal: eles não fazem visitas técnicas, não há eventos que os contemple, quando há, é no seu horário de trabalho, eles não têm aulas práticas ou são poucas, não há no instituto o aplicativo para as aulas de desenho dos cursos de Edificações, o estágio de Informática consiste apenas em limpar computadores do laboratório, eles não conseguem estagiar antes de concluírem os estudos porque são preteridos em função dos cursos Integrados, etc. (D5).

Entende-se que a política do PROEJA, assim como outras políticas públicas, estão

profissional para legitimar a inclusão de trabalhadores de modo a alimentar o consumo lógica de elaboração e , em que a participação dos agentes interessados é mínima ou inexistente.

Por outro lado, os docentes afirmam que a política do PROEJA, ao ser colocada em prática, sofre mudanças no que se refere aos documentos norteadores, mesmo sendo orientadores da prática, visto a realidade em que se materializa. Nesse sentido, os professores enfatizam que há muito o que se fazer no âmbito da implementação do programa:

A construção cotidiana escolar sempre é uma dialética em relação aos documentos, pois estes são bússolas e o cotidiano é dinâmico, é a ação enquanto tal. Assim, as mudanças acontecem e são naturais. Isto não significa que desvirtuou ou saiu do rumo (D10).

Eu conheço o projeto inicial para esse Campus e de fato houve mudanças, a melhora foi muito significativa, principalmente em relação à objetividade, ementas, a matriz em si também melhorou, mas como disse antes, há muito que melhorar (D4).

Ao serem q Quais estratégias seriam necessárias para que os objetivos do PROEJA fossem alcançados , os professores opinaram sobre a necessidade e a importância da participação coletiva, da formação dos professores e da criação de grupos de trabalho e pesquisa capazes de envolver toda a Instituição. Apontam, ainda, a necessidade de se contar com políticas de financiamento, políticas de permanência e até da possibilidade de superar modelos de educação:

Fortalecer o diálogo com o alunado, conceder-lhe mais voz e representação e formar um grupo de trabalho que estude e ataque os problemas relatados (D5).

Investimento, cuidado, maior engajamento dos docentes, maior conhecimento da instituição e do programa, além, é claro, de maior destinação de recurso, tendo em vista que 25% das vagas da Instituição hoje devem ser destinadas a este segmento (D8).

Professores que querem ensinar, respeitar o limite do outro ou saber impor desafios, que façam as pessoas se sentirem capazes, respeitadas. Pensando em currículo, devemos aprender uma maneira de não ficarmos presos a conteúdos [...](D4).

Pessoas especializadas nesta modalidade, que façam palestras para instruir os demais docentes e pesquisas de quais cursos dão mais certo e se é necessário alteração dos cursos de uma forma que se adapte melhor a realidade do perfil do aluno EJA (D1).

Nota-se, aqui, que a política do PROEJA apresentou e apresenta limites e impactos no seu processo de implementação no Campus, particularmente no que diz respeito ao conhecimento dos documentos norteadores para o seu funcionamento; a formação docente para atuação na EJA; maior interesse e envolvimento da gestão institucional na valorização e fomento de recursos para o programa e seus agentes, além do reconhecimento do aluno da EJA como sujeito histórico-social e detentor de saberes.

Acredita-se que, para superar ou amenizar os efeitos da implementação do PROEJA, será necessário que docentes, alunos, equipe de gestão, comunidade externa se encontrem comprometidos coletivamente com a proposta da política. É fundamental que esses agentes busquem romper com uma educação bancária e optem por uma a favor de educação integrada e humana para o público da EJA.

Para Machado (2010, p.83), a sociedade vive um momento favorável para superação

educativas que se nota . A autora conclui: [...] trata-se de enfrentar a tensão dialética entre pensamento científico e pensamento técnico e a busca de outras relações entre teoria e prática, visando instaurar outros modos de organização e

No que se refere aos alunos do PROEJA, entende-se que é importante que eles se sintam parte integrante da Instituição, atores históricos e sociais, pertencentes de um contexto que é marcado pela luta de classes, mas que é um espaço de contradição e busca de superação desses impasses impostos pela dinâmica da sociedade.

Na análise final do questionário, pode-se observar que, para os docentes inquiridos, a política do PROEJA apresentou limites na sua implementação, dada a necessidade de se repensar e/ou romper com práticas desenvolvidas no âmbito institucional para que o PROEJA de fato alcance as finalidades e princípios pensados no momento de sua elaboração.

No próximo tópico, procura-se aprofundar esse processo de formulação e implementação do programa no Campus a partir da visão dos ex-gestores entrevistados.