IMPLEMENTACIÓN DEL PROCESO DE ENFERMERÍA (1979-2004)
3.3 A implementação do Processo de Enfermagem e o compromisso com a Enfermagem brasileira
Esta categoria destaca o compromisso, as lutas e a persistência dos enfermeiros que participaram da implementação do Processo de Enfermagem do hospital em questão. Sendo o primeiro hospital do Estado a implantar o Processo de Enfermagem, exigiu dos atores envolvidos características como persistência e disciplina para que sua implementação fosse iniciada e mantida por mais de 30 anos.
O que facilitou foi a garra, a persistência, a capacidade das profissionais que estavam lá implantando. Tiveram muitos enfermeiros que abraçaram a causa e diziam “a gente vai implantar, a gente vai fazer.” Acho que esse grupo inicial do HU foi muito importante porque eles foram treinados, eles incorporaram realmente a filosofia da assistência e isso foi fundamental, porque se os enfermeiros das
unidades não tivessem essa vontade de incorporar, de acreditar que essa era uma enfermagem científica, que tinha um método de trabalho. Foi fundamental para que houvesse o sucesso que a gente teve depois (Enfermeira docente Marcia Cruz Gerges).
Eu lembro que quando eu fiz o curso de enfermagem, nós fomos para alguns hospitais no Rio Grande do Sul, com os professores de administração, Lidvina, Jorge Lorenzetti, fazer visitas em Hospitais. Isso era no início da década de 1970 e lá nós vimos que a enfermagem já fazia assistência planejada. Todos com o processo de enfermagem implantado. Nós achávamos que nunca íamos ver isso aqui. Aqui no HU, como os professores do Departamento de Enfermagem estavam à frente, conseguiram implantar com louvor. Não foi um trabalho fácil e despretensioso, ao contrário o grupo que trabalhou neste modelo sabia bem o que estava planejando, colocou em prática e fez nascer uma cultura fantástica para a enfermagem! (Enfermeira docente Maria Anice da Silva).
No HU eu chegava às sete da manhã e saía às sete horas da noite, se fosse necessário. O intervalo de meio dia, muitas vezes, não havia, porque eu participava da passagem do plantão às sete horas da manhã, no começo da tarde e às sete horas da noite. Eu queria estar presente, porque desejava que a passagem de plantão fosse um momento de aprendizado, tal como eu a conduzia nas Instituições por onde havia passado. A Enfermeira Salete Sakae, recém- formada, com interesse de aprender juntou-se a nós, sem remuneração. Se eu precisasse que ela fosse ao Hospital Florianópolis, por exemplo, ela ia e buscava dados. O Enfermeiro &&&, recém-formado, também esteve algum tempo prestando serviço gratuito. Afirmo que &&&, &&&, eu e as primeiras enfermeiras trabalhamos com a alma e o corpo para tudo aquilo dar certo. Porque era um sonho nosso ter
algo nosso enquanto enfermagem (Enfermeira docente Lidvina Horr).
Responsabilidade para com a profissão foi outra característica encontrada nas narrativas emergidas neste estudo. Esta responsabilidade é representada pelo compromisso com a qualidade da assistência de enfermagem prestada aos usuários, conseguida principalmente com a implementação do Processo de Enfermagem, visto que este instrumento de trabalho, ao estimular o conhecimento científico dos enfermeiros, proporciona uma assistência individualizada e segura.
Percebe-se nas falas, que os enfermeiros no contexto histórico estudado, tinham consciência da importância do Processo de Enfermagem para o alcance de uma assistência de enfermagem de qualidade.
Então eu acho que o acreditar, o saber que é um instrumento de trabalho e sem aquilo você não consegue prestar assistência de enfermagem é o que fez com que o HU tenha até hoje o Processo de Enfermagem (Enfermeira assistencial Tania Soares Rebello).
Quando a gente tá fazendo uma evolução, está colocando como é que o paciente está, quando ele te diz como ele se sente, ele se refere ao ambiente, à equipe, à doença em si, quando ele está mais grave ele fala mais da sintomatologia, mas quando ele vai ficando bom e até quando ele caminha pelo corredor, quando ele senta lá com outros pacientes, ele refere essas coisas para gente. No momento em que o enfermeiro está pensando em tudo isso e fazendo o Processo de Enfermagem, ele consegue até entender o comportamento de um técnico de enfermagem, só com que o paciente diz. Na medida em que observas o paciente quando fazes um exame físico, escutas o que o familiar tem para dizer, escutas o que ele tem para dizer, ou quando você lê o que um técnico de enfermagem registrou. Você consegue fazer perfeitamente um diagnóstico da situação (Enfermeira assistencial Alda Isabel da Silveira Melo).
O compromisso profissional presente na implementação do Processo de Enfermagem, apareceu nas narrativas na forma de definição do papel do enfermeiro. Como uma atividade privativa do enfermeiro, sua execução depende, dentre outras ações, de uma avaliação adequada do usuário que está sendo assistido pela enfermagem, o que exige uma aproximação deste profissional com o sujeito deste cuidado, identificando e compreendendo suas necessidades.
Eu nunca tive dúvida sobre a minha função. A palavra enfermeiro deriva de enfermo, o que significa que eu tenho que cuidar do doente e não me perder em trabalhos burocráticos, pois a primeira coisa que o enfermeiro tem que fazer é cuidar. Todo o enfermeiro deve saber: a administração não é o fim da enfermagem. A administração é um meio para cuidar adequadamente. Ela dá ferramentas para o cuidado ser realizado (Enfermeira docente Lidvina Horr).
Tinha um consenso entre os enfermeiros da importância da metodologia, da necessidade do paciente ter isso, mas que era uma das atribuições dos enfermeiros e ele não podia deixar de fazer isso, assim como a assistência direta (Enfermeira assistencial Tania Soares Rebello).
Entretanto, apesar de saberem sobre a importância do Processo de Enfermagem para o desenvolvimento da profissão, sua implementação dependia de condições adequadas de trabalho, o que em algumas situações e na medida em que o número e a complexidade dos usuários foram crescendo, dificultavam sua realização. Esta situação gerava certa angústia nos enfermeiros, em razão da responsabilidade e do compromisso presentes entre estes profissionais.
No fundo aquilo era assim, a gente se sentia muito angustiada, porque queria fazer bem feito, a gente queria corresponder àquela meta inicial. Só que o volume de trabalho foi aumentando e a gente não conseguia acompanhar. Achávamos que íamos ficar muito tempo escrevendo e, ficávamos. Quantas vezes era para eu sair às 19h eu saía às 21h! Porque foi uma tarde que teve parada, que teve coisas
complexas, muitas ocorrências. Mas nenhum de nós tinha a coragem de ir para casa sem registrar. Porque a nossa primeira função era aquela, depois era o treinamento, a supervisão de equipe, depois era o resto. E a gente não tinha coragem de deixar para o colega porque sabia que o colega não ia poder fazer (Enfermeira assistencial Alda Isabel da Silveira Melo).
Nunca deixei de sair do HU sem fazer as prescrições, os históricos. Muitas vezes eu saí da pediatria às 10 da noite, por amor, porque eu queria. Eu acho que a gente tinha aquilo como compromisso, aquilo fazia parte, não tinha desculpa, a gente entrava no HU sabendo que tinha que fazer e que quem estava ali reconhecia isso (Enfermeira assistencial Rita Bruno Sandoval).
A responsabilidade e o compromisso com a enfermagem presentes na implementação do Processo de Enfermagem, pode ser identificada também na defesa do Processo de Enfermagem quando a validade deste instrumento de trabalho era contestada pelos próprios pares. Ademais, como hospital de ensino, havia o compromisso com a formação de novos profissionais.
A metodologia sempre foi a bandeira número um da enfermagem. Eu me lembro de que uma vez teve uma reunião no auditório sobre um item da metodologia e umas enfermeiras novas que se levantaram e falaram que isso era chato, que tomava muito tempo, que eles tinham que ter mais tempo com o paciente. A enfermeira &&& levantou, e falou assim: “olha aqui, quem não quiser fazer metodologia da assistência vá embora, está no lugar errado. Quem trabalha no HU tem que fazer essa metodologia, caso contrário peça as contas e vá embora. Veste a camisa e vamos trabalhar. Não podemos abrir mão da metodologia”. A gente desde o começo hasteou a bandeira que a professora Lidvina e outras professoras que achavam viável o HU, hastearam. Nós brigávamos pela enfermagem (Enfermeira assistencial Margareth Rose Gramkow).
Eu pensava, poxa, eu tenho uma responsabilidade, isso aqui é uma coisa nova, num Hospital Universitário, daqui a pouco tem alunos. Eu sentia uma responsabilidade muito grande (Enfermeira assistencial Salete Virgínia de Souza Sakae).
O Processo de Enfermagem aparece como um instrumento que diferenciava o grupo de enfermeiros do local do estudo, quando comparada à enfermagem de outros hospitais do estado. Esta diferença aparece nas narrativas como pioneirismo, por ter sido o primeiro hospital do estado a ter Processo de Enfermagem.
Nós sabíamos desde o começo, ficou claro que nosso hospital não poderia ser como os outros, ele teria que ter um diferencial para poder justificar fazer parte da universidade, para que ele se integrasse à Universidade e também para que a gente colaborasse com a nossa profissão, porque Processo de Enfermagem era uma novidade no país. A Dra. Wanda Horta ainda era viva, embora muito doente, a gente nunca se encontrou com ela pessoalmente, também não havia esses recursos de vídeo conferências, de coisas que existem agora (Enfermeira assistencial Alda Isabel da Silveira Melo). Acho que a enfermagem do HU passou a ser respeitada, porque era o diferencial de outras instituições hospitalares que não tinham isso, faziam o trabalho e não planejavam a assistência, não faziam o registro da mesma forma, sistematizada. Para fora do HU é uma imagem diferenciada. Às vezes a gente ia a um congresso, uma jornada e a nossa enfermagem era olhada de forma diferente. Porque estava construindo uma sistematização e uma assistência que é exemplo, é referência (Enfermeira assistencial Elizabeth Flor de Lemos).
A gente também como enfermeira recém- formada vinha de uma prática dos estágios onde eram feitos os registros de enfermagem, a gente sabia que não era uma coisa institucionalizada