Foto 8 – Problemas de acessibilidade em Natal/RN
1 A ACESSIBILIDADE E O DIREITO À CIDADE: CORRELAÇÕES
1.5 O DIREITO À CIDADE: DE LEFEBVRE AO CONTEXTO BRASILEIRO
1.5.3 A implicitude da Acessibilidade no Direito à Cidade
No cenário brasileiro, o conceito de direito à cidade passou a ser utilizado como principal bandeira do “Movimento Nacional pela Reforma Urbana”, o qual desempenhou um relevante papel em prol da garantia da gestão democrática e participativa da cidade e do cumprimento efetivo de sua função social.
Como visto anteriormente, a luta pelo direito à cidade começou a galgar as suas primeiras conquistas a partir da instauração da Assembleia Nacional Constituinte de 1987, onde foi apresentada uma proposta de emenda popular escrita por esse movimento, que após muitas reduções em seu conteúdo original resultou no capítulo intitulado "Da Política Urbana” contido nos artigos 182 e 183 da Constituição Federal de 1988.
Alguns anos mais tarde, o Projeto de Lei no 5.788/90 foi apresentado pelo Senador Pompeu de Souza, o qual foi aprovado somente após doze anos de tramitação, no dia 10 de junho de 2001, sob a forma da Lei no 10.257/2001, conhecida como o Estatuto da Cidade, que passou a regulamentar os referidos dispositivos constitucionais, o que fez com que o direito à cidade no Brasil não mais se limitasse às questões políticas, filosóficas ou conceituais, adentrando esse a partir de então na esfera legal do direito brasileiro.
Assim, no contexto nacional, o direito à cidade “[...] pode ser explicado a partir de duas perspectivas. A primeira se refere ao acesso pleno aos serviços da cidade: mobilidade, habitação, saneamento, segurança, lazer, entre outros. A segunda frente refere-se ao desejo de construir uma nova cidade, mais inclusiva, democrática, ecológica, solidária, na qual as pessoas possam participar das decisões [...]”. (OBSERVATÓRIO..., 2016).
Tais avanços institucionais e legais do direito à cidade mantém uma íntima relação com a legislação brasileira de acessibilidade, onde, por exemplo, o Estatuto da Cidade determina em seu Art. 2o que “A política urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade [...]”, corroborando assim com o caput do Art. 182 da Constituição Federal de 1988, no qual está determinado que as políticas de desenvolvimento urbano executadas pelos poderes públicos municipais, deverão “[...] ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes.“, bem estar este que perfeitamente pode ser entendido como sinônimo de qualidade de vida, pois
segundo Gehl (2015) o espaço urbano da cidade que tem considerada a dimensão humana, em sua concepção, cumpre a sua função social, ao propiciar qualidade de vida, uma maior interação social e o desenvolvimento de uma sociedade democrática.
O Estatuto da Cidade constitui, portanto, um marco legal na defesa do direito à cidade no Brasil, tanto na garantia do cumprimento da função social da cidade, como na viabilização da sua gestão democrática, a qual passa a desempenhar um relevante papel na viabilização da criação de uma cidade inclusiva e democrática que atenda de fato as necessidades dos seus cidadãos, inclusive daqueles que possuem limitações de mobilidade.
Determina ainda que seja instrumentalizada e viabilizada a participação civil, no processo de elaboração e execução dos planos diretores, onde a produção e reprodução legítimas do espaço público das cidades deva compreender a democracia participativa e, nesse caso, as instituições representativas das pessoas com deficiência física ou mobilidade reduzida devam impreterivelmente ser consultadas para o tal.
Dessa forma, o Estatuto da Cidade institui mecanismos e processos de gestão participativa e democrática das cidades, onde deve ser aberta à sociedade civil a participação nos planejamentos de programas e projetos de intervenção e desenvolvimento urbanos.
Determina em seu Art. 2o e inciso II que a política urbana, tendo em vista ordenar o pleno funcionamento das funções sociais da cidade, deve usar como uma de suas diretrizes gerais a “[...] gestão democrática por meio da participação da população e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade na formulação, execução e acompanhamento de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano”.
Para tanto, no seu Art. 43 e incisos I ao IV fica determinado ainda que, para que se garanta a gestão democrática da cidade deverão ser utilizados os seguintes instrumentos “I – órgãos colegiados de política urbana, nos níveis nacional, estadual e municipal; II – debates, audiências e consultas públicas; III – conferências sobre assuntos de interesse urbano, nos níveis nacional, estadual e municipal [...]” como ainda “[...] IV – iniciativa popular de projeto de lei e de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano.”.
Essas determinações do Estatuto da Cidade corroboram com as existentes no Art. 4o do Decreto nº 5.296/2004 que regulamenta as leis federais de acessibilidade nº 10.048/2000 e nº 10.098/2000, no qual fica determinado que as instituições representativas das pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida, devem participar do processo decisório inerente a intervenções nos espaços públicos, onde a consulta às mesmas sobre as possíveis necessidades de adaptação das obras às necessidades das pessoas com deficiência é imprescindível.
Corroboram ainda com os Artigos 10o, 11o (parágrafo 2o), 12o, 14o e 15o do Decreto nº 5.296/2004, onde está determinado que as intervenções de reestruturação urbana devem obedecer à Legislação Brasileira de Acessibilidade vigente e, às normativas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) contidas na NBR 9050/2015 que apontam para o conceito de desenho universal.
Por meio de redação dada recentemente pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146 de 06 de julho de 2015) ao parágrafo 3o do Art. 41 do Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001), ficou determinado que:
As cidades de que trata o caput deste artigo devem elaborar plano de rotas acessíveis, compatível com o plano diretor no qual está inserido, que disponha sobre os passeios públicos a serem implantados ou reformados pelo poder público, com vistas a garantir acessibilidade da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida a todas as rotas e vias existentes, inclusive as que concentrem os focos geradores de maior circulação de pedestres, como os órgãos públicos e os locais de prestação de serviços públicos e privados de saúde, educação, assistência social, esporte, cultura, correios e telégrafos, bancos, entre outros, sempre que possível de maneira integrada com os sistemas de transporte coletivo de passageiros.
Fica ainda determinado no inciso IV do Art. 3o do Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001), por meio de redação dada pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015) que compete à União “[...] instituir diretrizes para desenvolvimento urbano, inclusive habitação, saneamento básico, transporte e mobilidade urbana, que incluam regras de acessibilidade aos locais de uso público [...]”.
Na “Carta Mundial do Direito à Cidade”, documento produzido a partir do Fórum Social Mundial Policêntrico de 2006, em sua Parte III intitulada “Direito ao Desenvolvimento Econômico, Social, Cultural e Ambiental das Cidades”, no seu Artigo XIII denominado “Direito ao Transporte Público e a Mobilidade Urbana”, se reivindica que seja promovido nas cidades “[...] a remoção de barreiras
arquitetônicas para a implantação dos equipamentos necessários ao sistema de mobilidade e circulação e a adaptação de todas as edificações públicas ou de uso [...]” isto, tendo em vista “[...] garantir a acessibilidade das pessoas portadoras de necessidades especiais.” (PLATAFORMA..., 2016).
Essas reivindicações da Carta Mundial do Direito à Cidade corroboram assim com a ideia de que “É, em si mesmo, uma conexão importante o fato de tanto o caráter quanto a gama de vida urbana serem dramaticamente influenciados pela qualidade do espaço público.” e que “Ao escolher entre tipos de ruas e soluções de tráfego, é preciso partir da dimensão humana [...]” e ainda “[...] quando forem adotadas soluções de tráfego, exija-se especial atenção às crianças, aos jovens, aos idosos e às pessoas com necessidades especiais.”. (GEHL, 2015, p. 22-93), questões que estão diretamente atreladas à promoção da acessibilidade universal.
Diante do que foi exposto, se conclui que a democratização da gestão municipal em prol da garantia de oferta de uma melhor qualidade de vida e bem estar à população por meio do pleno cumprimento da função social da cidade, preconizada no direito à cidade no contexto brasileiro, mesmo que intrinsecamente, resgata a acessibilidade como direito e princípio fundamental de todos os cidadãos.