Foto 8 – Problemas de acessibilidade em Natal/RN
1 A ACESSIBILIDADE E O DIREITO À CIDADE: CORRELAÇÕES
1.2 O CONCEITO DE ACESSIBILIDADE: SUAS VARIAÇÕES E
1.2.1 Os conceitos de Desenho Universal e Acessibilidade Universal
O conceito de desenho universal foi disseminado pelo arquiteto Ron Mace, o qual lançou uma nova tendência para o desenvolvimento de projetos urbanos, arquitetura e design, como também de produtos. Segundo o mesmo, o desenho universal aplicado a determinado projeto consiste na criação de produtos e
2 Esta definição de Lippo (2005) amplia o conceito de acessibilidade para além dos espaços urbanos,
estendendo-o para as questões de mobilidade urbana, mantendo assim uma íntima relação com a dimensão de acessibilidade “mobilidade” apontada por Garcia (2012).
ambientes que possam ser usados por todas as pessoas, isso na máxima extensão possível (MACE et al, 1991).
De acordo com o Decreto Federal nº 5.296/04, Art. 8º em seu Inciso IX, o conceito de desenho universal compreende os seguintes aspectos:
[...] concepção de espaços, artefatos e produtos que visam atender simultaneamente todas as pessoas, com diferentes características antropométricas e sensoriais, de forma autônoma, segura e confortável, constituindo-se nos elementos ou soluções que compõem a acessibilidade.
O conceito de desenho universal ainda é relativamente novo dentro da concepção das cidades; este transcende a mera eliminação de barreiras, consiste em evitar a criação de ambientes e elementos especiais para públicos diferentes, por meio da criação de produtos e ambientes únicos, plenamente acessíveis a todos, de forma completa, segura e irrestrita. (MINISTÉRIO..., 2016).
Esta definição de público usuário como sendo todos inclui não apenas a universalidade numérica, mas, e principalmente, a enorme gama de variações do ser humano: altos, baixos, obesos, idosos, crianças, gestantes e, também, pessoas com deficiências diversas. [...] Um objetivo básico que o conceito do Desenho Universal quer passar é a busca de se transformar o dia-a-dia das pessoas em momentos cada vez mais simples, através da produção de uma cidade democrática, onde não se precise fazer adaptações extras ou adequações a elementos, objetos e ambientes. (MINISTÉRIO..., 2016, p. 27-28).
Segundo Cambiaghi (2012) o principal objetivo do desenho universal consiste na redução da distância funcional entre os elementos contidos no espaço e a capacidade subjetiva de cada indivíduo.
Essa concepção de desenho universal promove a autonomia de todos “[...] satisfazendo suas necessidades mediante maior independência no uso e percepção dos diferentes espaços públicos, bem como os serviços e equipamentos urbanos.” (GARCIA, 2012, p. 65).
A incorporação dessas condições facilita a convivência sem hierarquias nem papéis estabelecidos, adaptada ao ciclo de vida, sem segregação ou discriminação de determinados coletivos, promovendo a participação e a visibilidade das diferentes identidades existentes. (GARCIA, 2012, p. 65).
A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), em sua NBR 9050/2015 expõe o conceito de desenho universal da seguinte maneira:
desenho universal concepção de produtos, ambientes, programas e
serviços a serem utilizados por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou projeto específico, incluindo os recursos de tecnologia assistiva [...] tem como pressupostos: equiparação das possibilidades de uso, flexibilidade no uso, uso simples e intuitivo, captação da informação, tolerância ao erro, mínimo esforço físico, dimensionamento de espaços para acesso, uso e interação de todos os usuários. (ABNT, 2015, p. 4, grifo do autor).
As ações e justificativas acerca da inclusão contidas na Declaração Internacional de Montreal sobre a Inclusão, apelam à sociedade em geral, que esta se comprometa no amplo desenvolvimento do conceito de desenho universal de ambientes, produtos e serviços; pois o mesmo proporciona eficiência operacional e financeira, além de contribuir decisivamente para o desenvolvimento dos capitais social e econômico da população. (SASSAKI, 2002).
Segundo Lanchotti (2005 apud LEITE, 2012) os sete princípios fundamentais do conceito de desenho universal são os seguintes:
1) Uso equiparável: projetos que busquem atender a equiparação de oportunidades entre os usuários, respeitando a diversidade de habilidades dos indivíduos, acomodando nesta perspectiva o maior número de pessoas com diferentes características físicas;
2) Uso flexível: o projeto deverá atender a uma ampla escala de habilidades e preferências individuais;
3) Simplicidade e intuição: o desenho do projeto deverá ser de fácil compreensão para o seu uso, não demandando do usuário prévios conhecimentos, habilidades ou experiência sobre seus aspectos;
4) Informação perceptível: o projeto deverá garantir aos usuários informações suficientes para a sua utilização, não dependendo para o tal dos níveis de habilidades sensoriais destes, tampouco das circunstâncias ambientais;
5) Tolerância do erro: o projeto deverá minimizar as consequências indesejáveis e o perigo, provocadas acidental ou involuntariamente;
6) Pouca exigência de esforço físico: o projeto deverá buscar a redução do uso de esforço ou fadiga para a utilização de espaços ambientais e/ou produtos concebidos com esse conceito;
7) Tamanho e espaço para o acesso e o uso: o tamanho e o espaço necessários para a aproximação, o alcance, a manipulação e o uso, independente da capacidade de mobilidade, postura ou tamanho do corpo do usuário.
Como visto anteriormente, para autores como Garcia (2012) e Lippo (2005) o conceito de acessibilidade não abrange apenas as edificações e espaços urbanos, mas compreende ainda os aspectos de mobilidade urbana, em especial os que compõem o sistema de transporte público coletivo.
Nesta perspectiva, segundo o Art. 1o da Lei 12.587/2012 (Política Nacional de Mobilidade Urbana) a melhoria da acessibilidade e mobilidade das pessoas na espacialidade municipal é descrita como um dos seus principais objetivos, tendo ainda como princípios previstos em seu Art. 5o a promoção dos seguintes fatores: “I acessibilidade universal [...] III equidade no acesso dos cidadãos ao transporte público coletivo [...]” como ainda “VI segurança nos deslocamentos das pessoas [...] VIII equidade no uso do espaço público de circulação, vias e logradouros [...]”.
De acordo com Lippo (2012, p. 80-81) a proposta de acessibilidade universal pode ser definida como:
[...] a condição de utilização, por qualquer pessoa, com deficiência ou não, com segurança e autonomia, dos espaços construídos, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos serviços de transporte e dos dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação.
Garcia (2012, p. 64) defende que a acessibilidade universal deve abranger “[...] todos os entornos, bens, processos, produtos e serviços, bem como os objetos ou instrumentos, ferramentas e dispositivos [...]”, isto para que os mesmos venham a
ser “[...] compreensíveis, utilizáveis e praticáveis por todas as pessoas em condições de segurança e comodidade e da forma mais autônoma e natural possível, pressupondo a estratégia do desenho para todos.”.
Já para Fávero (apud Garcia, 2012) o conceito de acessibilidade universal propõe a criação de espaços e ambientes que não sejam “separados”, ou seja, que não sejam segregados para uso exclusivo de indivíduos que possuem certas limitações, pois tal criação se constituiria em uma espécie de discriminação e, que por outro lado, a acessibilidade universal tem como proposta a concepção de ambientes únicos e acessíveis a todas as pessoas, para um uso seguro e sadio que não exponha as possíveis limitações daqueles que as possuem.