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1.5.5 A IMPORTÂNCIA DO COTIDIANO

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1.5 – O IDEAL DAS CEBS

1.5.5 A IMPORTÂNCIA DO COTIDIANO

Nas CEBs, o modo de se fazer e viver a Igreja não obedece ao modelo pré- estabelecido, pronto, onde o povo precisa se adaptar. Ela vai nascendo do povo, se construindo a partir da base. Segundo Baldissera (1987, p. 147) a Igreja vai “fazendo-se do modo mesmo do povo”. Neste modo próprio do povo de fazer a Igreja são muito valorizadas as coisas do dia-a-dia. Isso faz com que a comunidade, a religião, a fé não sejam algo diferente da vida, estão presentes em tudo, ligadas a tudo o que diz respeito à vida.

Quando se fala em CEBs, significa entre outras coisas que são comunidades pequena onde todos se conhecem, se relacionam, têm certo laço de amizade e isso tudo é valorizado e acentuado ainda mais na comunidade. Conforme Baldissera (1987, p. 147):

“Nas CEBs dá-se muita atenção ao cotidiano, ao relacionamento fraterno, ao tecido dos acontecimentos, invisíveis para quem olha de fora. Trata-se com muita atenção, carinho, respeito. Todo mundo sabe o nome de todos. Cada um é importante pelo que é e faz. É interessante ver nas reuniões que as coisas do dia-a-dia são debatidas com a mesma importância e seriedade do que as questões mais amplas e decisivas para o processo”.

Este espírito de valorizar mesmo as coisas que parecem mais insignificantes certamente é um dos fatores que faz as pessoas se sentirem mais à vontade, participar mais, se sentir mais iguais. Nesses assuntos da vida do dia-a-dia todos têm facilidade de participar. No estilo paroquial de Igreja, essa conversa acontecia antes e depois da missa, antes ou depois da reza do terço. Esse é um dos grandes méritos das CEBs e que surgiu da religião do povo, não desligar a religião, a fé, das coisas da vida. É essa realidade que coloca um alicerce firme para as comunidades. Segundo Baldissera (1987, p. 148): “parece que são essas coisas do cotidiano que dão consistência ao movimento das CEBs, quando analisadas, avaliadas, debatidas e assumidas em conjunto”.

As coisas do cotidiano aparecem bem claro nas celebrações das CEBs no momento da prece comunitária. É o momento em que todos falam, crianças, jovens e adultos. Todos trazem presente o cotidiano: os problemas de saúde, desemprego, o nascimento, as viagens, os mortos, a chuva ou a seca e por aí afora. Acontece uma verdadeira ladainha de

pedidos e agradecimentos e ninguém se inibe de repetir um mesmo pedido se achar importante. O povo faz de sua vida a celebração, faz de sua vida oração.

Essas coisas simples vão ajudando a participar e ajudando a pegar o gosto pela comunidade. A solução das coisas simples vai ajudando a acreditar que é possível uma solução também para as coisas mais complicadas. Segundo Baldissera (1987, p.149) as CEBs:

“refletem toda uma dimensão dinâmica da vida. Disso resulta que vai agindo e construindo,

aos poucos, aumentando qualitativamente a participação dos membros”.

1.5.6 - A GRATUIDADE

É preciso que fique bem claro, que se está analisando o trabalho pastoral, ou o compromisso sócio-político de uma comunidade, no caso a Diocese de Goiás, que tem como base última a fé. Esse pressuposto não pode ficar fora desta análise, isso porque a fé cristã adere à idéia de um Deus que fez tudo por pura gratuidade: a criação do mundo, a criação do homem e da mulher, a redenção da humanidade, enfim a libertação que é oferecida ao homem são pela graça de Deus, pura gratuidade divina. Por isso também não se exclui, no seguimento a Jesus Cristo, uma fé mais descompromissada com o político. Existem hoje verdadeiros santos e santas que fazem obras de caridade grandiosas e, no entanto não querem se envolver com ideologias políticas, embora de qualquer forma o estejam fazendo. Por esta reflexão em torno da gratuidade se entende também a vida monacal hoje. Viver a fé do modo próprio da pessoa, do modo que melhor lhe convier, mesmo que este se pareça alienado é um direito da pessoa humana. Podemos apontar caminhos novos, mas a liberdade de escolha deve ser sempre respeitada.

Um dos traços muito característico do povo Latino Americano é a gratuidade. A generosidade é um dom que está presente nas massas populares. Portanto, quando se pensa em evangelizar esses pobres é preciso ter presente que há uma infinidade de valores evangélicos já presentes nos meios populares. Nas CEBs, se faz uma forte experiência da presença de Deus, uma presença bem concreta na caminhada do povo. A presença de Deus, acredita-se na vida das comunidades, é uma presença gratuita. Segundo Gutiérrez (1975, p. 121) é amar e desenvolver atitudes gratuitas:

“A gratuidade marca nossas vidas de tal modo que somos levados a amar e a procurar ser amados gratuitamente. Trata-se de uma questão-matriz. O verdadeiro amor sempre é um dom, algo que está além das motivações e dos méritos. Aspiração

humana profunda, porque é o terreno da doação radical e da presença da beleza em nossas vidas”.

Analisando a vida das CEBs, pode-se perceber que há uma estrutura e uma dinâmica interna que favorecem o desenvolvimento de relações igualitárias entre os seus elementos, está aí presente e se desenvolve o gérmen da gratuidade. Esta é uma pequena ferrugem que vai corroendo os alicerces da estrutura capitalista. Isso provoca a busca de uma sociedade de relações de igualdade, pelo menos se começa em casa a construir algo de diferente. Nas CEBs, em princípio não há superior nem inferior, todos têm uma mesma importância e dignidade. Por outro lado há um projeto, uma utopia que é a construção de uma nova sociedade.

As CEBs estão marcadas por uma devoção muito especial a Maria, a mãe de Jesus. Esta devoção determina muito o modo de ser dessas comunidades, pois o amor e a gratuidade do serviço de Maria ao Reino de Deus fazem com que esta marca se transmita aos cristãos das CEBs. Ou ainda melhor, a gratuidade presente em Maria, já está presente no povo das CEBs que se identifica com ela e esta identificação faz aquela característica aumentar ainda mais. Segundo Matos (1984, p. 161): “A figura de Maria é de tal forma determinante para a espiritualidade latino-americana que, sem exagero, podemos dizer que ela constitui a síntese vital e a encarnação concreta das características do modo de ser cristão”.

O modo de ser de Maria, a atitude em seu cântico (Lc 1,46-56), revelam uma opção clara pelos pobres em vista da construção de uma comunidade e sociedade solidária, fraterna e igualitária. D. Mauro Morelli conforme Boff (1986, p. 9 e 10) assim expressa a importância e a grandiosidade do testemunho de Maria para as CEBs:

“O Cântico de libertação, manifestação da alegria e da esperança de Maria, é uma profecia que revela o projeto de Deus. Um mundo sem senhores e escravos. Um mundo de irmãos. Deus quer vida na terra.

Maria que eu aprendi a venerar e amar desde criança, e entre os pobres do mundo, descobri como mulher que caminhou na fé, ministra do Evangelho e servidora do Reino, anuncia a verdadeira revolução que trará igualdade e participação aos filhos da terra. Seremos todos irmãos. Seremos todos cidadãos do Reino”.

Esta característica do povo latino-americano está em sintonia com o pedido de Jesus quando diz que quer misericórdia e não sacrifícios (Mt 9,13). Isso é muito significativo porque a palavra ‘misericórdia’ significa ter um coração de pobre.

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