As Pastorais Sociais na Diocese de Goiás foram uma conseqüência de todo o trabalho realizado, e por isso elas foram nascendo naturalmente, uma a uma a começar pela Pastoral da Terra. A formação oferecida por esta Igreja como diz Antônio César31 (anexo 15) levou a uma “abertura do pensamento dos fiéis para os problemas que afligem a sociedade, cuja raiz é a desigualdade social, a corrupção, a falta de compromisso com o próximo”.
A CNBB (2001, p. 190) diz que as Pastorais Sociais são um meio de concretizar em ações sociais e específicas a solicitude da Igreja diante de situações reais de marginalização:
“A dimensão sócio-transformadora da Igreja é constituída de quatro aspectos complementares e indissociáveis: sensibilidade para com os fracos e indefesos, solidariedade frente a determinadas emergências, profetismo no combate à injustiça e espiritualidade libertadora. Diante destes aspectos, a Pastoral Social traduz tais palavras em tarefas específicas frente aos campos de trabalho precisos de cada pastoral”.
As CEBs não são um modelo perfeito e acabado de Igreja e que permita a melhor forma de se comprometer com uma transformação social. A comunidade é uma forma e poderá ser substituída ou melhorada, mas no momento ela ainda cumpre um papel muito importante e como afirma Comblin (1975, p. 80):
“É preciso que haja comunidades que possam ao menos sonhar com um homem e um mundo novo. O resto se seguirá. Dir-se-á então, uma vez ultrapassada essa fase de iniciação, a comunidade de base deverá desaparecer e ceder lugar a grupos mais especializados e de uma eficácia mais determinada? Sem dúvida estes deverão nascer. Mas se terá de recomeçar sempre desde o início, será necessário recomeçar sempre da base, isto é, do homem desprovido de poder e de cultura”.
A Igreja como um todo sofreu mudanças na década de 90, a teologia da libertação é combatida pela Cúria Romana, Leonardo Boff o seu maior representante no Brasil é colocado em julgamento, é silenciado e acaba não resistindo às pressões e deixa o ministério, deixa de fazer parte da hierarquia da Igreja. Na Diocese de Goiás estes reflexos se fazem sentir e fortemente. As CEBs começam a se enfraquecer e vão surgindo movimentos que vão se fortalecendo e ganhando sempre mais espaço e força devido ao apoio vindo da Igreja Romana, principalmente através dos meios de comunicação, aonde o Movimento de Renovação Carismática Católica vai ocupando espaços. Como há um enfraquecimento das
comunidades e a reclamação destas passa a ser no sentido de formação para seus animadores em Bíblia, liturgia e espiritualidade, a Diocese resolve apostar mais nas pastorais, ao mesmo tempo em que procura comprometer as comunidades com estas pastorais. As pastorais privilegiadas são as pastorais sociais, as pastorais chamadas de pastorais de “fronteira”. CNBB (2001, p. 47) usando uma linguagem simbólica assim define Pastoral Social:
“A Pastoral Social é uma árvore que mergulha na terra suas raízes profundas. Delas vem a seiva que alimenta sua espiritualidade. Ao longo do caminho, a ação social abriu poços onde se encontra a água viva que sustenta sua caminhada. As Pastorais Específicas, que formam os ramos dessa árvore, nutrem-se do alimento que vem do chão, transfigura-se ao contato com a luz solar e reforça-lhe a mística libertadora”.
Estas pastorais são organizadas com equipes diocesanas fortes, muitas delas com pessoas liberadas para este serviço e são elaborados projetos para que não faltem recursos financeiros para o trabalho. Segundo Capponi (1999, p. 125) isto não deixou de representar um avanço inclusive na forma como se passou a viver uma espiritualidade ecumênica e inculturada e ligada à opção pelos pobres:
“Também na prática pastoral da solidariedade podia-se observar um enriquecimento. Em toda a Diocese podia-se observar a multiplicação das iniciativas. Nesse tempo foi criada uma equipe liberada, portanto mais eficiente, de apoio aos acampamentos e assentamentos dos Sem Terra. Já existia uma equipe Diocesana de Educação que atuava em convênio com a Universidade Católica de Goiás para a formação dos professores. Seguindo este mesmo modelo surgiram logo outras equipes: a equipe da saúde foi reimplantada e se instalou com seus próprios centros de atendimento e produção de remédios, a Escola Teológica abriu um espaço para finais de semana dedicados à formação política. Foi liberado um assessor para os
Direitos Humanos. E nos anos seguintes apareceram ainda a pastoral da Criança, as reuniões de prefeitos, as celebrações do ‘Grito dos Excluídos’ em um crescendo contínuo de iniciativas”.
O Sínodo diocesano dedicou toda a etapa de 1996 sobre a atuação do leigo no mundo, ou seja, foi um ano dedicado a pastorais sociais. Não foram apenas aqueles cinco dias reservados para o encontro diocesano com os delegados vindos de cada município. Durante todo o ano foram realizadas Assembléias nas pequenas comunidades, depois nas paróquias e posteriormente nas quatro regiões da Diocese para depois se realizar o grande encontro diocesano. Além disso, algumas paróquias, as maiores realizaram Assembléias populares, procurando assim, atingir também pessoas que não participam diretamente na Igreja, mas que de alguma forma têm algum interesse de participação sócio-política. Isto representou uma 31 Antônio César é natural de Itaberaí, leigo e historiador, hoje reside em Goiânia.
grande novidade na medida em que se procurou realmente ouvir o povo. Segundo Ivo Poletto, no comunicado da Coordenação Diocesana (1995, p. 1): “Sínodo significa: escuta, democracia, participação, missão, abertura, acolhimento, povo participando, caminhada com o povo, comunhão com o povo, colegialidade, escuta do espírito através dos sinais dos tempos e construção coletiva numa igualdade de irmãos”.
Este sínodo concluiu que diante da nova realidade encontrada não apenas na Igreja nacional e universal, mas também em seu próprio território, uma das saídas para garantir a continuidade da caminhada desta Igreja seria a de reforçar as Pastorais Sociais já que as comunidades vinham, há algum tempo, demonstrando fraqueza. A Diocese não abandona o seu princípio com relação às CEBs, estas continuam sendo a grande prioridade e justamente para que esta prioridade seja garantida é que parte para um apoio mais decisivo para as pastorais sociais, que seriam o braço da Igreja no meio do mundo. Na introdução (1996, p.16) a esta etapa do Sínodo em que são privilegiados os temas: Prática Política, Luta pela Terra, Política do Trabalho, Educação e Saúde, vem expresso o sentido destas escolhas:
“Nossos compromissos sinodais têm como objetivo apoiar, fortalecer e, se necessário fazer nascer iniciativas populares capazes de exigir mudanças necessárias para que
todos tenham vida e vida em abundância. Queremos somar-nos a todas as
comunidades de nossa Igreja do Brasil e do mundo, a outras Igrejas cristãs e às pessoas de boa vontade para que( ...) a vida esteja em primeiro lugar.
Mantendo-nos fiéis a nossa caminhada, queremos que nosso serviço anime as pessoas a se organizarem para conquistar seus direitos. Desejamos que cresça a capacidade de mobilização do povo. Este é o caminho para exigir que todos tenham boas oportunidades de vida, pressionando os governantes para que promovam políticas verdadeiramente públicas. Agindo dessa forma temos certeza que as pessoas se
tornarão mais cidadãs e a democracia alcançará todas as dimensões da vida”.
Segundo Ivanir32 as Pastorais Sociais são uma conquista e são resultado da ação profética da Diocese e de sua opção pelos leigos (anexo 16):
“A Diocese de Goiás foi uma mãe para os leigos e a juventude, e isso, é uma atitude profética dentro da própria Igreja. Ao mesmo tempo uma mãe para os pobres, para os trabalhadores em geral, porque ela foi profética denunciando as injustiças e através das Pastorais Sociais ela possibilitou várias conquistas e assim podemos citar aqui a questão da terra, a educação, os Direitos Humanos, a moradia e a saúde”.
32 Ivanir Ferreira Oliveira Melsbach é leiga e foi militante da PJ e posteriormente agente de pastoral, assumiu
junto com outras jovens a coordenação da Paróquia de Carmo do Rio Verde. É natural de Itaberaí, hoje reside na Alemanha.
Acredita-se que as Pastorais Sociais são hoje, o mais novo caminho encontrado pela Igreja das CEBs, pela Igreja da teologia da libertação para garantir a sua opção pelos pobres, e se acredita com vantagens porque já consegue envolver pessoas que não participam das CEBs, e até mesmo combatiam o caminho adotado pela Igreja de Goiás, hoje podemos ver, por exemplo, pessoas ligadas ao Movimento Carismático Católico que fazem parte da Pastoral da Criança ou da Pastoral da Saúde. As CEBs são um espaço de vivência da fé, do despertar para o compromisso cristão com a realidade do mundo e de celebração desta fé e deste compromisso. As pastorais sociais são o meio concreto que as CEBs encontram para a sua atuação no meio sócio-político. Contudo, conforme Boff (1997, p. 205): “as CEBs permanecem e devem permanecer como uma das prioridades decisivas em qualquer plano de pastoral de nossas Igrejas”. Ao concluir este estudo lembramos um provérbio chinês que traduz bem o sentido das opções da Diocese. Este provérbio diz que perguntaram a determinada mulher a qual dos filhos ela mais amava. Ela, como mãe, respondeu: ‘ao mais triste até que sorria, ao mais doente até que sare, aos mais distante até que volte, ao mais pequeno até que cresça’.