2. Revisão de literatura
2.3 Definição e características do e-Learning
2.3.1 A importância e impacto do e-Learning no Ensino Superior
O e-Learning tem sido muitas vezes perspetivado como uma solução para alguns dos problemas que hoje as IES atravessam; no entanto a maioria destas não se encontra preparada para uma adoção efetiva do e-Learning, nas diversas dimensões que este contempla (Varis, Haugen, Ohagan & Floor, 2003).
Assim entende-se como necessária uma reflexão por parte dos diversos níveis das estruturas institucionais e organizacionais das IES sobre a utilização da tecnologia nos processos de ensino e de aprendizagem, circunscrevendo a euforia que muitas vezes se gera à volta do e-Learning (Guri-Rosenblit, 2005b; Njenga & Fourie, 2010).
Segundo Devine (2005), existem três níveis de objetivos comuns ao e-Learning e ao Ensino Superior:
a. aquisição de conhecimentos e competências, com determinadas técnicas e ferramentas;
b. socialização de acordo com áreas científicas ou interesses de grupo específicos;
c. desenvolvimento de aprendizagens autónomas como objetivo, pensamento e práticas críticas e reflexivas.
Mantendo estes objetivos como referência, subsiste a questão se as universidades estarão preparadas, ou em que medida o estarão, para adotar as tecnologias como parte dos seus processos organizacionais (Cebrian, 2007).
A valorização e rentabilização das tecnologias e processos pedagógicos suportados por estas, e que podemos enquadrar na definição de e-Learning, é algo complexo, considerando que a maioria dos atores da instituição universitária apenas concebe a componente tecnológica, não a interligando com a componente pedagógica,
utilizando os sistemas tecnológicos de gestão de ensino e de aprendizagem num modelo suplementar ao ensino presencial, e não tanto como modelos complementares ou de substituição das atividades de contacto (Gonçalves & Pedro, 2012). Globalmente as universidades com modelo presenciais procuram adaptar e integrar a aprendizagem com suporte em tecnologias, numa organização cuja atividade está construída em torno do ensino presencial (Pedro, Peres & Dias, 2015).
Nesse sentido é fundamental que os decisores políticos e institucionais tenham uma perceção sobre o e-Learning, que não seja a usual e estritamente tecnológica (numa duvidosa assunção de que a tecnologia per si, é sinónimo de melhoria da qualidade de ensino), mas que contemple também as perspetivas de alunos e docentes, sobre o processo de ensino e de aprendizagem com o recurso ao e-Learning (Oh, 2003).
Garrisson e Kanuka (2004) defendem que o e-Learning tem um potencial de mudança do ensino superior, classificando-o como uma estratégia de baixo risco que permitirá às IES estar preparadas para o desenvolvimento social dos próximos anos, mas preparando-as igualmente para modelos de aprendizagem e reorganização de estratégias de ensino com suporte na tecnologia, procedendo ao mesmo tempo a uma reformulação do ensino tradicional realizado em regime presencial. Os mesmos autores referem a adoção o e-Learning no ES como uma medida inevitável para promover a inovação e qualidade pedagógica. Uma questão sintetiza o tópico da seguinte forma (Bacsich, 2012):“The “flip” answer to the question the chapter title poses – “What is the impact of e-learning in the 21st century university?” is “not much” – to which I would add “and that’s the problem”( p. 193).
Esta questão conduz-nos a um contexto em que as IES assumem um modelo misto, ou seja são instituições baseadas no ensino presencial (campus based) com componentes de e-Learning, e nesse sentido estão permanentemente a ser escrutinadas o que gera a
ideia em universidades presenciais de que pode existir demasiada atividade pedagógica on-line (Bacsich, 2012). Tal significa que em alguns casos de IES o e-Learning é concebido (pelas lideranças) como um problema em vez de uma solução (Bacsich, 2012). O impacto do e-Learning numa IES, e de uma forma geral no sistema de ES, situar- se-à na componte da estratégia organizacional, como abordaremos em tópico específico, e no valor estratégico para a IES, nas mudanças organizacionais e dinâmicas de trabalho associadas a alunos e docentes (e que gera nestes alguma expectativa), na necesside de adaptação de estratégias pedagógicas com recurso ao e-Learning, e na redefinição do ambiente de aprendizagem, que se expande do campus físico para o campus digital (Lorenzetti, 2005; Popescu, 2012; Singh, O'Donoghue & Worton, 2005).
As mudanças no ES, resultantes do recurso a modalidades de e-Learning, delimitam um conjunto de factores positivos e negativos (ganhos e perdas), nomeadamente: (i) potencial do e-Learning para providenciar aos alunos oportunidades de reflexão crítica desfasada no tempo de aprendizagem, (ii) providenciar um ambiente de aprendizagem mais equitativo, menos influenciado por caracterísiticas físicas e culturais, (iii) maior e melhor desenvolvimento de cursos, elevando a qualidade, (iv) a capacidade de o e-Learning remover barreiras temporais e geográficas, o que aumenta o acesso, normaliza o conteúdo de cursos e ainda (v) a necessidade de um novo contexto institucional das práticas no ES e consequentemente uma alteração na cultura de um campus ou IES (Fetaji, 2007; Kanuka & Rourke, 2006).
A mudança e impacto do e-Learning, está ligado à evolução e disponibilidade de um conjunto de tecnologias. Num estudo realizado por Lowendahl (2014) para a Gartner, uma empresa que atua em consultoria e investigação na área das tecnologias de informação e perante uma abordagem segundo o conceito de “hype-cycle” relevam-se algumas das tecnologias emergentes. Estas tendências de evolução tecnológica e da sua
utilização em contexto de Ensino Superior são listadas pelo estudo referido, e são ilustradas numa aplicação interactiva on-line7, disponibilizada pela Universidade do
Minnesota.
O desenvolvimento de tecnologias com capacidade de promover e melhorar o ensino e aprendizagem é algo que não deve ser descurado pelas IES, identificando-se as principais tendências não só tecnológicas, mas também pedagógicas. Uma análise aos Horizon Report Higher Education entre 2010 e 2015 revela a evolução das tecnologias, bem como as tendências e desafios que terão impacto no ES num espaço temporal de um ano a cinco anos, em função do ano de publicação de cada documento (Johnson, Adams & Cummins, 2012; Johnson et al., 2013; Johnson, Becker, Estrada & Freeman, 2014; 2015; Johnson, Levine, Smith & Stone, 2010; 2011). A matriz de análise aos documentos é apresentada no Apêndice A.
Os documentos mencionam como contributo para o ES: os conteúdos digitais abertos e e-books, a mobilidade ao nível dos dispositivos e das aplicações, a realidade aumentada, a gamificação, learning analytics, como forma de gestão pedagógica, a tecnologia “wearable”, computação baseada no gesto e movimento, impressão em 3D, e os MOOCs.
As principais tendências promotoras de adoção da tecnologia no ES prendem-se com: a mudança e a inovação, a colaboração interinstitucional, proliferação e procura de recursos educativos abertos, maior utilização de modalidades de blended-learning, reformulação dos espaços de aprendizagem (na continuidade entre o campus físico e o campus digital), a utilização das tecnologias baseada na “cloud” e num suporte não institucional, uma aposta no desenvolvimento de competências através da aprendizagem
informal, a redundante mudança do papel docente; um paradigma de ensino distinto, com base em modalidade de e-Learning, assente na aprendizagem colaborativa e activa.
As principais tendências inibidoras de adoção da tecnologia no ES são enunciadas ao nível: da aprendizagem informal e na procura de ensino personalizado, na necessidade de melhoria da literacia digital, que se manifesta numa reduzida fluência digital dos docentes, no surgimento de modelos de competitividade em educação, na necessidade de compensar e incentivar os docentes, que utilizam as tecnologias nas suas práticas, e o surgimento de modelos educativos que desafiam as IES tradicionais a competir e a estabelecer novos modelos de negócio.
Em suma, o impacto do e-Learning no ES depende das oportunidades de adoção das tecnologias numa dada IES, em face do contexto envolvente, bem como a forma como aquelas são adotadas e utilizadas num contexto organizacional, por forma a suportar as atividades ou modelo de negócio da IES (Homan & Macpherson, 2005).