• Nenhum resultado encontrado

A influência do Renascimento e do Humanismo

CAPÍTULO II – A COSMOVISÃO VIQUIANA

2.2. A influência do Renascimento e do Humanismo

Consoante apresentado no capítulo precedente, o ideário iluminista foi recebido e absorvido na Nápoles do tempo de Vico, sem que houvesse, necessariamente, uma ruptura com a tradição do Renascimento.

Efetivamente, a valorização do Homem e de sua história, exaltação da dignidade humana, da liberdade e da criatividade; a relevância ao seu estudo integral – no sentido dos Studia Humanitatis –, a mente cultuada para se tornar uma mente heroica, dotada do talante para a emancipação do Homem, que caracterizam o pensamento filosófico e cientifico de Vico, bem como a sua proposta para o ensino, encontram suas raízes no ideal humanista de sabedoria e educação.

Percebe-se na cosmovisão de Vico, na concepção da história como um processo imanente aos homens, o quanto o

Renascimento – e seu reflexo ideológico, o Humanismo –

deixou o legado da tradição retórica e do ideal do saber com sua dimensão enciclopédica, além do interesse pelos

45

VICO, G. Le orazioni inaugurali I – VI apud Guido, H., op.cit., p. 87-88.

neoplatônicos Ficino e Pico della Mirandolla, revelado em sua autobiografia.

A importância de tal influência é melhor dimensionada com a definição:

As bases da sociedade hodierna foram lançadas no Renascimento: um abrangente processo, ou “a maior revolução progressista”, nas palavras de Engels, que transformou as práticas morais e os ideais éticos da sociedade, afetando toda a sua estrutura, promovendo modificações econômicas, sociais e culturais, que refletiram profundamente na religiosidade e no desenvolvimento da ciência e das artes; um processo cuja importância – eclipsada pelas “luzes” do Esclarecimento – foi reconhecida apenas após a primeira metade do século XIX, graças ao trabalho de Stendhal, Jules Michelet, Jacob Burckhardt, Engels e Nietzsche.

Como processo de mudança da estrutura social, o Renascimento ocorreu na Itália, França, Inglaterra e parte da Holanda. Sem embargo, teve seu reflexo, substanciado no Humanismo, estendeu-se por toda a Europa.46

O Humanismo, como reflexo ideológico do Renascimento, atuou sob uma forma ética e acadêmica, conforme esclarece Heller 47 , verificando-se, inclusive, em países onde o

Renascimento não se verificou como fenômeno social.

Sob a visão humanista, o Homem se torna o centro do Universo, em contraste com a desimportância de sua condição na “Cidade de Deus”, da visão agostiniana.

46

GONÇALVES, CEM. Op. Cit., p. 25.

47

Com a recolocação do homem em relação ao universo, o eixo da vida se desloca da ordem divina para a ordem temporal e humana, numa mudança que não implicou, contudo, no abandono dos valores cristãos, os quais foram incorporados a um novo modo de vida, que exigia, de todos, a participação nos negócios públicos, resultando que o modelo de homem bom deixou de ser o santo para ser o cidadão.48

A ação humana torna-se o maior valor da humanidade e a fortuna deixa de ser senhora dos destinos dos homens, passando, consoante Mirandolla, a ser reconhecida como uma

entidade exterior, que pode encarnar-se nas forças cegas da natureza, mas que não nos pode obrigar a abandonar os nossos projetos de transformação do mundo49.

Emblematicamente, o espírito humanista é representado em linguagem figurativa pelo “Homem Vitruviano”50, o qual

materializa, ao mesmo tempo, a relação simbólica e mágica do homem individual com o universo.

48 GONÇALVES, CEM. Op. Cit., p. 26. 49

MIRANDOLLA, G.P. A dignidade do homem, 2001.

50

O “Homem Vitruviano”, que com seus braços estendidos se inscreve tanto no círculo, quanto no quadrado, se encontra no célebre Livro de Horas do Duque de Berry, e foi adotado por Leonardo da Vince para ilustrar “a base que deu à estética, na qual as proporções do corpo humano refletem a ordem universal, noção esta, que é aceita como evidente em todo o período da Renascença“ (Cf. Francastell, P. A realidade figurativa, 1993, p. 176). Marcos Vitruvio Pollio foi engenheiro militar e arquiteto da Roma antiga, contemporâneo do Imperador Augusto, e escreveu Os dez livros da arquitetura, que foram redescobertos no final do século XV pelos renascentistas italianos, obra que estabelece o princípio da existência de uma relação harmoniosa entre as proporções arquitetônicas e o homem de “boa conformação” (bene figuratus), definindo um cânone de beleza para o desenho de corpos no Ocidente, desde o Renascimento até fins do século XIX (no capítulo I, do livro III, intitulado “De acordo com qual modelo se edificam os templos”), cf. Panofsky, E. L’évolution d’um schème structural, 1969.

Essa noção do “homem individual” que tanta importância tem na concepção da ética viquiana, como se verá adiante, no Capítulo IV do presente trabalho.

Com efeito, a noção de individualidade – De

individualitas – já aparecera nas traduções latinas de

Avicena e toma corpo durante o Renascimento, onde, conforme Heller, o

mundo (moderno) começava a surgir cada vez mais como um mundo feito de indivíduos, um caleidoscópio de personalidades individuais. Daí em diante, o indivíduo transforma-se no ponto de partida teórico de todos os sistemas psicológicos e éticos.51

No mesmo diapasão, Valverde, relacionando individualidade e secularidade, sintetiza o processo de individualização no Renascimento:

Se o processo de secularização, iniciado no século XII, está na matriz e em concomitância com o processo de individualização, durante o Renascimento, Lutero findou por secularizar a religião, Maquiavel a política e Bacon a ciência. A arte, por sua vez, foi secularizada pela maioria
dos artistas, sobretudo italianos. Para os artistas italianos e flamengos não importava mais o universal concreto – a santidade de Cristo, da Virgem Maria, dos santos – mas o homem comum, o burguês. Todas essas instituições – religião, política, ciência, artes – tenderam a se transformar em “técnicas”. Frente a nova concepção de individualidade, as noções de “alma” e “imortalidade” não encontravam nexo com a orientação moral e a vida cotidiana. O Renascimento conheceu um ateísmo prático, mas não aberto. Talvez por um excesso

51

de religiosidade, em crise.

...

O momento era de separação entre o burguês e o cidadão, que prefigura a divisão e conflito entre a vida privada e a vida pública. Assim, o homem foi cindido para melhor exprimir-se de uma forma relativa ao “indivíduo” e seu “papel”. E se, em princípio, durante a Idade Média, a natureza era fonte de estranheza – o grande Outro –, durante o Renascimento será o mundo da política – a cidade – tal lugar. 52

Há, ainda, um outro movimento impactante ocorrido no

Renascimento: o neoplatonismo, que se apresentou como um

ressurgimento do idealismo platônico sob um prisma místico e cristianizado.

O surgimento de textos místicos atribuídos a sábios de prestígio, como Zoroastro, Orpheu e, destacadamente, Hermes Trimegisto na mesma época em que eram redescobertos os textos de Platão, aprofundaram a característica mística do núcleo hermético desse movimento, conforme Yates53.

Marsílio Ficino é um dos fundadores desse núcleo hermético; para Ficino, o universo é vivo: um vasto sistema de correspondências, unindo o mundo das estrelas e dos elementais ao mundo e aos seres espirituais.

Emblemático, o livro de Cornélio Agripa, De occulta

philosophia, incorpora as ideias neoplatônicas de Marsilio

Ficino e os princípios cabalistas de Pico della Mirandolla,

52

VALVERDE, A.J.R. Individualidade, misantropia, vilania sob o Renascimento, 2002, pp. 83-98.

53

YATES, F.A. Ensayos reunidos III: ideas e ideales del renacimiento en el norte de europa, 1993.

para apresentar as técnicas místicas para o homem, como mago, dominar e operar a natureza.

Destacar a tradição hermética renascentista, portanto, é oportuno para a compreensão do quão frágeis eram as fronteiras entre o hermetismo e a ciência, colaborando muito para a compreensão da passagem do

Humanismo para a época de Vico, período em que um reputado

homem de ciência, filósofo e matemático de prestígio como John Dee, inventor de instrumentos para a navegação, que se tornou célebre por prefaciar a versão inglesa de Euclides54,

também era conhecido por conjurar espíritos55.