CAPÍTULO II – A COSMOVISÃO VIQUIANA
2.3. O tempo cíclico
2.3.2. Ciclo do tempo e seta do tempo
Pela observação da Natureza a percepção do tempo se desenvolveu no homem arcaico. Pela repetição dos dias e das estações do ano; pela observação do desenvolvimento da vida – nascimento, crescimento, decrepitude e morte – e, especialmente, pela observação da Lua 63 , crenças foram
desenvolvidas pelos povos arcaicos (de forma universal), nas quais o aparecimento, o crescimento, o decrescimento e o desaparecimento da Lua influíram na concepção de ideias relativas a crenças sobre a morte, ressurreição, fertilidade e regeneração. Através da observação das fases da Lua obtém-se unidades do tempo (o mês, a semana) e também a concepção cíclica do tempo, além da “revelação” do “eterno retorno”, conforme Eliade:
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A Lua serve efetivamente para “medir” o tempo. Nas línguas indo- europeias, a maior parte das palavras que designam o mês e a lua derivam da raiz me-, que em latim se formulou como mensis e metior, “medir”, cf. ELIADE, M. O mito do eterno retorno, 1988.
Vamos encontrar concepções análogas sobretudo no apocalipse e nas antropogonias arcaicas; o dilúvio ou a inundação põem termo a uma humanidade esgotada e pecadora e uma nova humanidade regenerada nasce geralmente de “antepassado” mítico, salvo da catástrofe, ou de um animal lunar.64
Com efeito, o surgimento da humanidade, seu desenvolvimento e sua decadência, assim como o seu quase desaparecimento, são inspirados pelos ciclos lunares. E mais: a Lua inspira, também, o surgimento de um novo ciclo para a humanidade:
E esta identificação não é importante apenas por nos revelar a estrutura “lunar” do devir universal, mas também pelas suas consequências optimistas: porque, tal como o desaparecimento da lua não é nunca definitivo, uma vez que é forçosamente seguido de uma nova lua, também o desaparecimento do homem o não é; e, sobretudo, o desaparecimento de toda humanidade (dilúvio, inundação, submersão de um continente, etc.) nunca é total porque uma nova humanidade renasce a partir de um casal de sobreviventes.65
Essa concepção cíclica do tempo, na qual os eventos, considerados como episódios distintos, não têm sentido ou finalidade, mas fazem parte de ciclos que se repetem com acontecimentos imanentes no tempo, prevaleceu até a imposição das tradições judaico-cristãs.
De fato, na história bíblica, Deus criou o mundo uma única vez, assim como a Paixão de Cristo ocorreu sem repetição, e, antes disso Noé testemunhou e salvou-se de um
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ELIADE, Op. cit., p. 101.
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único dilúvio, para, no fim dos tempos, a humanidade se submeter ao Juízo Final. Conforme Gold, “muitos estudiosos identificaram a seta do tempo como a contribuição mais importante e distintiva do povo judeu, pois a maioria dos outros sistemas anteriores ou posteriores favoreceu a imanência do ciclo do tempo sobre o encadeamento da história linear.”66
Gold aplica a metáfora da seta do tempo para a percepção da sequência irreversível de eventos que nunca se repetem e que ocupam posições distintas numa série temporal na qual – ligados uns aos outros – movem-se numa direção definida, narrando uma história 67 , em contraposição à
percepção cíclica do tempo.
Em sua concepção da “história ideal eterna“ como modelo de desenvolvimento que todas as sociedades estão compelidas a cumprir, com ascensão, queda e recomeço, Vico, claramente, adota uma visão cíclica do tempo.
Pelo tanto, num exame menos acurado, o modelo de desenvolvimento social de Vico, a sua “história ideal eterna“, poderia ser tomado como um “círculo vicioso” do qual a humanidade não pode escapar, pois os acontecimentos não resultam da vontade deliberada do homem e o devir não existe, vez que tudo regressa eternamente ao mesmo ponto. Tal juízo pode, ainda, ser reforçado pelas palavras do próprio Vico, no § 348 da edição de 1744 da Scienza nuova, quando textualmente afirma que em virtude do senso comum, e dada a ordem das coisas estabelecidas pela Divina
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GOLD, S.J. Seta do tempo, ciclo do tempo: mito e metáfora na descoberta do tempo geológico, 1991, p. 23
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Providência, o curso das nações “teve, tem e terá de proceder.68
Especificamente sobre o aludido parágrafo 348 da
Scienza nuova, Pompa 69 argumenta que a afirmação nele
aportada colide com o que Vico considera na descrição da “história ideal eterna”, em que o desenvolvimento cíclico da história é condicionado às circunstâncias do mundo real. Antecipar-se o que poderá acontecer, se observadas certas circunstâncias, é natural em grande parte das ciências, observa Pompa, as quais deixam à história a incumbência de chancelar o acerto ou não de suas previsões. Entretanto, nenhuma ciência pode jactar-se preditiva para determinar o que deve absolutamente acontecer. Dessarte, Pompa conclui que o conceito de uma ocorrência necessária ao invés de uma simples possível recidiva no padrão da “história ideal eterna” não pode ser validamente deduzido da teoria política e social de Vico.70
Prossegue, ainda, argumentando Pompa, que a filosofia de Vico sobre a natureza humana e sobre a história nos propicia deliberar sobre o que é preciso fazer diante de uma sociedade democrática em vias de desestabilizar-se; mas não há em seu pensamento nada que prive os homens em
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E ‘l critério, di che si serve, per una Degnità sovra posta, è quello insegnato dalla Provvidenza divina comune a tutte Nazioni, ch’è il senso comune d’essa gener’umano, determinato dalla necessária convenevolezza di questo mondo civile. Quidi regna in questa Scienza questa spezie di pruove, che tali DOVETTERO, DEBBONO, e DOVRANNO andar ele cose delle Nazioni, quali da questa Scienza son ragionate, posti tali ordini dalla Provvidenza Divina, suffe anco che dall’Eternità nascessero di tempo in tempo mondi infiniti, lo che certamente è falso di fato.
69
POMPA, L. “Introduction”. In Vico, G. The first new Science. Cambridge: Cambridge University Press, 2002.
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sociedade da responsabilidade de decidir por conta própria sobre o que querem fazer. Destarte, a antinomia entre o aludido parágrafo e o teor maior da Scienza nuova, não autoriza o desvirtuamento do que o Napolitano conseguiu em sua grande obra. É, pelo tanto, muito mais plausível considerar tais proposições como avaliações subjetivas, frutos da influência das incertezas de Vico sobre o futuro da Europa de seu tempo, do que tê-las como conclusões válidas de sua ciência.71
Pompa argumenta com argúcia e logra demonstrar como a ideia de fatalismo contida na concepção de um tempo cíclico, de idades recorrentes e na qual a história não tem um objetivo final, se contrapõe à teoria política e social de Vico.
Sem embargo, é de causar surpresa que Pompa considere uma contradição o teor do aludido parágrafo 348 face as proposições da Scienza nuova, fruto de avaliações subjetivas, refutando o teor desse parágrafo como conclusões inválidas.
A Scienza nuova é a obra da vida de Vico, e seria não só incongruente, como também nitidamente contraproducente a presença de tal antinomia em sua opus
magnum.
Antes de uma contradição, a visão cíclica de Vico contida na “história ideal eterna” revela uma visão de mundo, cuja coerência pode ser percebida quando se observa: 1) que as concepções cíclica e linear do tempo não são
71
excludentes, mas complementares e concomitantes; 2) a sua relação com o posicionamento ético de Vico.
A seta do tempo, conforme exposto acima, passou a ser a percepção prevalente com a imposição das tradições judaico-cristãs. Nada obstante, o ciclo do tempo jamais saiu de cena.
De fato, Gould observa que na própria Bíblia, em especial em Eclesiastes, ciclos solares e hidrológicos são:
evocados em metáforas para ilustrar tanto a imanência do estado da natureza (‘nada há de novo debaixo do sol’) quanto a vacuidade da riqueza e do poder, uma vez que as riquezas não podem senão se desgastar num mundo de infinita recorrência.72
Embora a seta do tempo seja a percepção prevalente no mundo hodierno, sem a qual seria muito difícil conceber – só para exemplificar – a ideia de progresso advinda da revolução científica do século XVII, ou o evolucionismo de Darwin, é preciso reconhecer que se trata – assim como a percepção do ciclo do tempo – de uma concepção de mundo delimitada pela cultura.
Na Scienza nuova Vico concebe o tempo cíclico – conforme patente em sua historia ideal eterna – mas jamais nega o desenvolvimento linear do tempo, considerando a coexistência de ambas as concepções do tempo em sua cosmovisão.
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Nesse sentido, corrobora Rossi:
Só se pode conhecer a realidade genética e historicamente, mas a própria possibili-dade de tal conhecimento implica um apelo ao princípio da recorrência dos processos da história. A doutrina das repetições não foi elaborada por Vico num momento de distração. Não pode ser afastada da Scienza nuova, nem ser qualificada como uma concessão às filosofias tradicionais da história. Vico faz coexistir uma concepção unilinear e uma concepção cíclica do tempo. Considera que ambas são necessárias para uma nova ciência das nações.73
Efetivamente, Vico concebe sua nova arte crítica74,
sintetizando filosofia e filologia; unindo a Filosofia – a ciência do verdadeiro, que se desenvolve sobre a temática da justiça, das leis formais do devir, das “formas eternas” – com a Filologia – a ciência do fato, do certum, que se desenvolve sobre a temática da linguagem e tradições dos povos, sobre a descrição dos fatos acontecidos no tempo. A reunião da Filosofia com a Filologia – imprescindível para uma ciência da realidade social – representa, assim, a coexistência das concepções de tempo cíclica e linear.
73
ROSSI, P. O passado, a memória, o esquecimento, 2010, pp.139-140.
74 Cf. GONÇALVES, CEM. Op cit. Vico, ciente que a tendência dos
modernos para o abandono da tradição humanista apontava para a tentativa de adaptação da realidade social às leis naturais, com o consequente desprezo da história e das humanidades, as quais, por esse prisma da ciência natural, passaram a ser vistas repletas de incorreções pelos filósofos a partir do século XVII, se preocupou em instituir com a sua Scienza nuova uma nova arte crítica (Vico, G. Principi di scienza nuova, 1744, § 7), para buscar o sentido filosófico e se ocupar da investigação da tradição, juntamente com uma arte diagnóstica, para avaliar o Estado civil, o grau de civilidade das nações e os riscos a que estão submetidas.
Conforme o Napolitano:
Essa mesma dignidade comprova como falharam parcialmente tanto os filósofos que não completaram suas razões com a autoridade dos filólogos, quanto os filólogos que não cuidaram de confirmar sua autoridade com as razões dos filósofos; o que, se tivessem feito, teria contribuído muito mais para as repúblicas e precederia o meditar sobre esta Ciência.75
A história de um indivíduo, a história de um país, por exemplo, terá começo, meio e fim, em sucessão linear e cumulativa, conforme a seta do tempo. Nada obstante, é possível contextualizar essa história do indivíduo, essa história de um país, num contexto maior, num cenário com ocorrências regulares que o governam e que evidenciarão significados àquelas histórias (do indivíduo e/ou do país) que não seriam percebidos fora do contexto maior desse cenário, ou fundo, como exprime Rossi:
O tempo se move para a variedade, a diferença, o imprevisto. Não é possível (exceto em setores muito restritos do saber) prever como irá acontecer no futuro. Mas é possível reconhecer isso e reconhecer, ao mesmo tempo, a existência de invariantes que revelam uma ordem inteligível das mutações e variações. Uma lista e mutações pode ser transformada numa trama de significados.76
75
VICO, G., Idem, § 140: “Questa medesima Degnitá demostra, aver mancato per metà cosi i Filosofi, che non accertarono le loro ragioni con l’Autorità de Filologi; come i Filologi, che non curarono d’avverare le loro autorità con la Ragion de Filosofi; lo che se avessero fato, sarebbero stari più utili alle Repubbliche, e ci avrebbero prevenuto nel meditar questa Scienza.”
76
Essa coexistência das concepções linear e cíclica em Vico, também se evidencia na observação da reincidência cíclica histórica, que não se pode traduzir em simples repetição.
De fato,
Ao se observar o segundo ciclo das idades, em especial a segunda idade heroica, percebe-se grande correspondência e semelhança, mas não uma perfeita identidade. O medievo apresenta uma marcante diferença em relação ao período heroico do mundo clássico, que é o cristianismo; uma diferença tanto mais profunda do ponto de vista do desenvolvimento ético e moral, quando nos atemos ao fato de que Vico era um cristão professo.77
Esse retorno que encontra idades correspondentes, mas aprimoradas – quer do ponto de vista do desenvolvimento da técnica, quer do desenvolvimento ético e moral – recomenda que o movimento cíclico da história deve ser considerado antes espiral do que circular, o que rompe o pretenso “círculo vicioso” da “história ideal eterna”.
Destarte, considerando a coexistência e complementariedade das concepções do tempo em Vico, representadas pela metáfora da seta e do ciclo do tempo, uma nova metáfora se apresenta oportuna: a da roda do trem percorrendo o trilho.
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Com a superação da ideia da circularidade do tempo, que implica em fatalismo, que implica na ideia de uma vida sem sentido ou finalidade, vez que, com eventos predeterminados, a história não tem um objetivo final, torna-se possível pensar-se na emancipação do homem face a “história ideal eterna”.
Esse tema é desenvolvimento nos capítulos III e IV, adiante. Contudo, sem embargo, é oportuno antecipar que tal emancipação se dá pela aproximação do homem com sua origem divina, a qual se alcança pelo cultivo da mente heroica através da cultura e da erudição em direção da “quase divina” natureza da mente humana78.
Vico concebe diferentes naturezas humanas consoante o estágio em que se encontra a humanidade. Assim, “a natureza do homem antes é cruel, depois severa, então benigna, delicada e, por derradeiro, dissoluta”79, conforme o
homem passa pelas idades dos deuses, dos heróis e dos homens para, então, decair novamente em barbárie, para a idade dos deuses, recomeçando o ciclo condicionado pela “história ideal eterna”.
A cada estágio ou idade da humanidade, corresponde uma natureza.
Para que não incida em nova barbárie, é preciso que se transcenda a “história ideal eterna”; é mister que o homem cultue sua mente heroica, aproximando-se de sua “natureza quase divina” e não preterindo as características
78
VICO, G. De mente heroica, 1732, pp. 2-3.
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humanas que o colocaram no curso da civilização: imaginação e piedade, perdidas face à vaidade dos doutos e das nações e à sustentação do individualismo racional em detrimento da coesão social, prenúncios do ciclo histórico da barbárie da
reflexão.
Consoante Vico:
A lição da história aos maiores impérios do globo terrestre, que alguma vez floresceram, para firmar vossa prudência civil mediante exemplo: considerai as origens, desenvolvimento, consolidação, decadência e destruição dos povos e nações, e o fato de que a Fortuna calamitosa governa orgulhosa os assuntos humanos; entretanto, sobre a Fortuna, a sabedoria obtém um reino firme e estável.80