CAPÍTULO 04 O SNC NAS GESTÕES GILBERTO GIL E JUCA FERREIRA (2007-2010)
4.2 A INSTALAÇÃO DO CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA CULTURAL
Em dezembro de 2007, finalmente foi instalado o CNPC, ou seja, dois anos após a publicação do Decreto 5.520/2005. Tal feito é considerado um dos poucos marcos desse período no âmbito do Sistema, ainda que o Conselho não estivesse vinculado à SAI no organograma do MinC, estando sob a coordenação de Gustavo Vidigal29, da Secretaria de Políticas Culturais.
De acordo com Juca Ferreira (2018), depois da reforma de 2005, o CNPC tentou abarcar a complexidade da área cultural no país com a representação de vários segmentos da sociedade brasileira, “[...] tinha representação dos povos indígenas, de quilombolas, tinha representação de todas as linguagens, tinha representação regional...” e as alterações no Conselho representaram uma mudança de paradigma, com a participação dessa instância em várias etapas do processo das políticas públicas.
[...] o conselho depois desse processo foi se consolidando e virou um instrumento importante de construção dessas políticas, de avaliação das
29 Vidigal entrou no MinC em fevereiro de 2007 e assumiu a coordenação do Plano Nacional de Cultura na
Secretaria de Políticas Culturais. Em setembro de 2008, assumiu o cargo de secretário executivo adjunto do MinC.
políticas e de formulação de novas, então eu acho que aí foi bem sucedida... podendo haver aprimoramentos, eu acho que a gente devia reforçar as câmaras técnicas, criar mais grupos temporários para enfrentar questões da ordem do dia, mas no fundamental avançamos. (FERREIRA, 2018)
Para o conselheiro Hamilton Pereira30 (2018), representante do Ministério do Meio Ambiente no CNPC, esta instância era caracterizada por uma assembleia heterogênea, com representações de diversas esferas, “Um desenho que expressa preocupação com legitimidade, pluralidade e exercício democrático.” (PEREIRA, 2008). Em sua opinião, muito além da pauta do que era discutido no Plenário do Conselho, valia a preocupação do desenho institucional que propunha uma real intervenção nos rumos da política traçada pelo Ministério da Cultura.
Apesar de o Conselho ter sido instalado em dezembro de 2007, a primeira reunião do Plenário só ocorreu nos dias 25 e 26 de março de 2008, e contou com as presenças do ministro Gilberto Gil e do secretário executivo Juca Ferreira. Em síntese, Gil ressaltou a importância do Conselho para avançar na tramitação da PEC 150/2003 que estava na Câmara dos Deputados; para o desenvolvimento do PNC, e para a implantação de uma nova ação do MinC, o Programa Mais Cultura:
Um programa que caracteriza pela primeira vez a incorporação plena da cultura como setor, como elemento estratégico e transversal, um trabalho que será feito com muitos ministérios, envolvendo, inclusive recursos diretos de outros ministérios. [...] Pela primeira vez recursos significativos irão permitir uma intervenção em escala jamais conhecida no Brasil na área cultural. (GIL, 2008, p.1)
Dois pontos de pauta marcaram a primeira reunião do CNPC, a discussão do regimento do Conselho e o Caderno de Diretrizes do Plano Nacional de Cultura. Não consta na Ata o desdobramento desses pontos, pois, estranhamente, a maior parte do registro refere-se à 169ª reunião ordinária do Conselho Nacional de Saúde, provavelmente um erro por parte do responsável pela Ata da reunião do Plenário.
Como a configuração do Conselho já foi apresentado anteriormente, bem como os motivos para a demora na posse dos seus membros, será feito um recorte na análise voltado apenas para a questão da representação de estados e municípios.
30 Um dos coordenadores do A imaginação a serviço do Brasil e um dos nomes cotados para assumir o MinC no
início do primeiro governo Lula. Na época da instalação do CNPC, Hamilton Pereira era secretário de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, onde ingressou em 2007.
De acordo com João Roberto Peixe (2017), o Fórum Nacional dos Secretários de Cultura das Capitais já existia antes do início do primeiro Governo Lula, mas era uma articulação política informal, sem estatuto e, quando foi publicada a primeira composição do Plenário do CNPC (2005), verificou-se que esse Fórum não possuía assento:
Foi curioso porque quando foi criado o CNPC, o Fórum de Secretários de Capitais, que era quem mais cobrava do MinC a instalação do Conselho e do Sistema, o Fórum não teve assento...uma briga grande com Márcio Meira... [...] é meio esquisito, foi dado assento para a Frente Nacional dos Prefeitos,
para os Estados foi dado assento ao Fórumdos Secretários Estaduais [...] na
época, o Márcio terminou alegando que era porque o Fórum de Secretários Municipais era informal e, então, não podia participar do CNPC, e o Fórum do Secretário Estaduais participava porque era formalizado. Só que passado alguns anos – e o Fórum de Secretários Municipais criou o estatuto, se formalizou, essa coisa toda –, eu fui convidado para uma reunião do Fórum de Secretários Estaduais para passar a experiência dessa formalização porque o Fórum de Secretários Estaduais não era formalizado. (PEIXE, 2017)
Apesar de não estar previsto no CNPC, Peixe (2017) comenta que eles conseguiram “driblar o Ministério, porque a gente conseguiu negociar com a Frente Nacional de Prefeitos (FNP)”. Tal negociação consistiu em que o representante da FNP no Conselho fosse o presidente do Fórum Nacional de Secretário de Capitais, que na ocasião era o próprio Peixe: “[...] a Frente cedeu a vaga [no CNPC] que tinha para o Fórum, e então eu fui representando como presidente do Fórum, mas a rigor, a vaga era da Frente Nacional de Prefeitos.” (PEIXE, 2017). A leitura da ata da 2ª reunião ordinária do Plenário do CNPC, realizada nos dias 03 e 04 de junho de 2008, comprova a presença de João Roberto Peixe como representante da FNP. Nessa reunião, a fala de Peixe em relação ao Sistema foi de cobrança na definição de papeis e responsabilidades, e na “contundente necessidade de sair do plano do discurso e adentrar no plano de ações concretas” (PEIXE apud CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA CULTURAL, 2008).
A incorporação definitiva de representante do Fórum Nacional dos Secretários de Cultura das Capitais no CNPC só foi acontecer em 2009, por meio do Decreto nº 6.973/2009, que passou a prever: quatro representantes do Poder Público dos Estados e Distrito Federal, sendo três indicados pelo Fórum Nacional de Secretários Estaduais de Cultura e um pelo Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Cultura; e quatro representantes do Poder Público municipal, dirigentes da área de cultura, indicados pela Associação Brasileira de Municípios, Confederação Nacional de Municípios, Frente Nacional de Prefeitos e Fórum dos Secretários das Capitais.
Na opinião de Peixe (2017), a participação dos fóruns de dirigentes de estados e municípios foi importante para manter de alguma maneira o SNC na pauta do MinC, e isso esteve bastante presente no Conselho
[...] essa questão [do SNC] ela foi bem muito trabalhada e mesmo cobrada de fora pra dentro, e aí os municípios, as secretarias municipais, principalmente das capitais que tinham um peso político maior, tiveram um atuação bastante forte, especialmente quando se instalou o Conselho Nacional de Política Cultural. (PEIXE, 2017)
Sobre a atuação de instâncias de representação como os fóruns de secretários, Peixe comenta que costuma ser instável porque “os personagens mudam e aí depende muito também da visão, da mobilização, da concepção política” (PEIXE, 2017), mas apesar disso, “acho que tem tido de forma geral um aspecto suprapartidário e tem tido algumas bandeiras que tem unificado” (PEIXE, 2017), a exemplo do SNC. Para Peixe (2017): “havia uma articulação muito boa [no CNPC] entre os secretários e os representantes da sociedade civil [...] havia conflitos com o Ministério, mas com outras questões, não com o Sistema em si”.