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EXPECTATIVAS PARA O SEGUNDO MANDATO DE LULA DA SILVA

CAPÍTULO 03 O SNC NA GESTÃO GILBERTO GIL (2003 – 2006)

3.4 EXPECTATIVAS PARA O SEGUNDO MANDATO DE LULA DA SILVA

Ao final de 2006, o Ministério da Cultura publicou o Programa cultural para o desenvolvimento do Brasil no qual apresentou as principais ações realizadas entre 2003 e 2006, e projetou a política cultural a ser desenvolvida entre 2007 e 2010, durante o segundo mandato de Lula da Silva. Dentre as dez ações estratégicas do Programa, o SNC aparece como uma de suas prioridades:

1 – Elevar o orçamento da Cultura para 1% do Orçamento da União, para assegurar o atendimento responsável ao processo cultural brasileiro e viabilizar a implementação de um conceito federativo, com repasses aos estados e municípios, visando efetivar o Sistema Nacional de Cultura. [...]. 5 – Desenvolver o Sistema Nacional de Cultura e aprovar o Plano Nacional de Cultura, como instrumentos de articulação e pactuação entre Estado brasileiro, em sua dimensão ao mesmo tempo unitária e federativa e a sociedade. O Sistema Nacional de Cultura, expresso e operacionalizado pelo Plano, deve ir além da União, estados e municípios: devem compô-lo, também, institutos, instituições, entidades, setores públicos e privados, numa lógica colaborativa, de compartilhamento, devidamente instituída, com direito e obrigações. 6 – Criar um forte Sistema de Informações Culturais [...]. 7 – Consolidar um sistema diversificado, abrangente e nacionalmente integrado para o fomento e financiamento da cultura [...]. (MINC, 2007b, p.45-46)

Ainda nesse documento, consta como um dos desafios do MinC o aprofundamento da articulação com gestores públicos de estados e municípios para “[...] consolidação de um novo pacto federativo com definições mais claras e pactuadas de responsabilidades e direitos entre os entes federados na gestão cultural” (MINC, 2007b, p. 49). Isto, de fato, não

foi desenvolvido ao longo desse primeiro período de governo. De acordo com Gustavo Gazzinelli (2016), pensar nas questões relativas às competências e ao papel de cada ente federado na estruturação do Sistema passava pelo aprofundamento das agendas setoriais, o que não foi possível fazer juntos aos órgãos do MinC.

Dificilmente você conseguiria definir claramente essa divisão de responsabilidades se você não estabelecesse um diálogo interno dentro dos setores para ver quais eram as prioridades deles. [...] no período do Márcio Meira, nós não conseguimos avançar muito nessas agendas específicas. Esse foi um trabalho que a gente tentou fazer internamente com diferentes setores dentro do Ministério da Cultura, mas aí eu acho que também tinha muita gente com agenda própria, que não tinha essa compreensão sistêmica. [...] Você teve agendas próprias, algumas concorrendo com outras dentro do próprio Ministério (GAZZINELLI, 2016)

Para Gazzinelli, esse não foi, entretanto, o principal problema do SNC na época. A maior dificuldade, em sua opinião, foi a falta de investimento do MinC na política, o que implicou na impossibilidade da SAI de dar retorno efetivo aos entes federados que haviam firmado o Protocolo de Intenções: “[...] a gente criou uma condição para implantar o negócio, só que na hora que você vai implantar, você precisa de munição, não adianta você ter as armas, só as assinaturas, aí complicou” (GAZZINELLI, 2016).

Sobre a adesão dos entes federados ao SNC ao final da primeira gestão Gilberto Gil, a situação era a seguinte: 34,5% dos municípios e 74% dos estados brasileiros tinham aderido ao Sistema, conforme Tabela 01.

Tabela 01 – Adesão dos entes federados ao SNC em 2006

Região Municípios no SNC Total de municípios % Estados/DF no SNC Total de estados % Centro- Oeste 137 466 29,36% 4 (DF, MS, MT, GO) 4 100%

Nordeste 464 1.793 25,87% 7 (AL, BA, CE,

MA, PB, PE, PI)

9 77,77%

Norte 45 449 10,02% 3 (AC, AP, TO) 7 42,85%

Sudeste 727 1668 43,58% 3 (ES, MG, RJ) 4 75%

Sul 547 1188 46,04% 3 (PR, RS, SC) 3 100%

Total geral

1920 5.564 34,5% 20 27 74%

Fonte: Elaboração própria feita a partir de Ministério da Cultura (CALABRE, 2006); IBGE (2005)

A adesão em torno do Sistema Nacional de Cultura apresenta um percentual nada desprezível considerando que era uma política nova, que só começou a ser disseminada em

grande escala em 2005, com a I CNC. Entretanto, apesar de ter esse reconhecimento nacional, a SAI não conseguiu desenvolver ações de contrapartida aos estados e municípios que tinham firmado o Protocolo de Intenções. De acordo com Gazzinelli (2016), durante toda a gestão Gil a SAI enfrentou muitas dificuldades para atuar: “as coisas tinham que ser arrancadas para acontecer” e, em sua opinião, parte disso era derivado da relação difícil que eles tinham com o secretário executivo Juca Ferreira:

O Juca, eu acho que por duas razões: primeira, porque ele não entendia o projeto, e talvez até hoje não entenda. Segundo, porque eu acho que ele via nesse projeto uma perspectiva de empoderamento de um outro grupo que em algum momento vislumbrou a posição dele, e esse grupo era representado especialmente pelo Márcio Meira. (GAZZINELLI, 2016)

Na opinião de Paulo Miguez (2017), o SNC poderia ter aproveitado muito mais da figura de Gilberto Gil enquanto ministro se não houvesse ocorrido tanta divergência interna.

[...] acho que o momento inicial [do Sistema Nacional de Cultura] foi muito difícil porque se essa clivagem não tivesse estabelecido, o primeiro momento poderia ser um momento melhor aproveitado do ponto de vista do capital simbólico de Gil, todo mundo fala e tal, mas as pessoas às vezes não se dão conta do tamanho desse capital simbólico, abria qualquer porta...[...] Caetano é que dizia de forma muito apropriada o ‘Gil é o Lula do Lula’, é aquele cara capaz de fazer a diferença. (MIGUEZ, 2017)

Para Guapindaia (2016), parte das dificuldades para o desenvolvimento do SNC foi decorrente de conflitos internos, mas ressalta que isso fazia parte do jogo democrático e o saldo foi positivo.

E isso fazia parte do jogo democrático, do processo de construção mesmo, não considerávamos que essa disputa era uma disputa que iria criar algum efeito negativo ao nosso trabalho, [...] mas de qualquer maneira isso dava muito trabalho para todos nós também...para você superar as divergência políticas e chegar a um acordo, mas foi uma construção muito rica de qualquer maneira. (GUAPINDAIA, 2016)

Sobre as divergências internas, Márcio Meira afirma que apesar de existirem, havia o desejo comum dentro do MinC de fortalecer a política cultural de Estado:

No ministério sempre teve essas diferenças, o que é natural, nenhum governo é monolítico, nenhum órgão é monolítico, tem diferenças, divergências, mas nada que fosse mais forte do que a vontade de fortalecer uma política cultural de Estado. Nisso nós todos sempre tivemos acordo lá do ministério, dentro das nossas diferenças. Dizer que não há diferenças dentro do Ministério da Cultura seria uma hipocrisia da minha parte, mas não vejo essas diferenças como algo impeditivo dessa visão geral, importante, que é o fortalecimento da política cultural como política pública de Estado. (MEIRA apud REIS, 2008, p.123)

Para Meira (2016a), a passagem de Gilberto Gil pelo MinC, com a sua capacidade de liderança, foi um dos melhores momentos que o órgão vivenciou desde sua criação. Segundo o ex-secretário, durante a transição do governo FHC para o governo Lula, o programa A imaginação a Serviço do Brasil foi oferecido ao ministro como uma contribuição do acúmulo petista para a nova gestão, o que teria sido acolhido por parte de Gil: “O novo ministro não somente acolheu aquela plataforma como a ampliou, acrescentando-lhe a sua própria marca ‘tropicalista’ e conferindo-lhe uma visibilidade jamais imaginada, tanto no Brasil quanto no meio internacional.” (MEIRA, 2016a, p. 139). Segundo Meira (2016a), Gil soube reunir laços políticos variados e renovar e fortalecer o projeto do PT. De opinião semelhante é Hamilton Pereira (2018), para quem, depois da criação do Ministério da Cultura, o fato mais relevante foi a política implementada por Gilberto Gil e Juca Ferreira, mesmo com as tensões do período “[...] as naturais tensões que ocorreram foram reduzidas ao seu peso real: contradições inevitáveis em um corpo heterogêneo, mas focado em tornar realidade uma proposta inovadora de Política Pública de Cultura para o país.” (PEREIRA, 2018). Em sua avaliação:

Avalio que a experiência prática de Gilberto Gil/Juca à frente do Ministério surpreendeu os mais céticos e cumpriu um duplo papel no curso do governo Lula: conferiu extraordinária visibilidade a um Ministério sabidamente de segunda ou terceira linha para o país e para o exterior ancorado no perfil do seu titular; e, em segundo lugar, mas não menos importante, conduziu a Política Pública de Cultura mais democratizante que já experimentamos, não apenas no sentido de ampliar o acesso aos bens e serviços culturais, mas no sentido de estimular e abrir espaço para a diversidade das identidades culturais do país e da produção cultural popular ignorada pela indústria do entretenimento, pela pasteurização imposta pelos critérios de mercado. (PEREIRA, 2018)

Possivelmente esse entendimento sobre a importância do papel do Estado na condução das políticas culturais, expresso em vários discursos proferidos por Gilberto Gil, Juca Ferreira, Márcio Meira etc., tenha sido um fator relevante para a coesão que o Ministério da Cultura externava, apesar de todas as tensões internas. De acordo com Silvana Meireles (apud BARBALHO, 2014): “[...] quando se estava diante de municípios, de secretários, sociedade civil, o Ministério tinha essa característica, que sempre me chamou a atenção, era muito coerente e todo mundo defendia todos os projetos, inclusive o Sistema”. Sobre isso, João Roberto Peixe (2017) recorda que quando era secretário de Cultura do

Recife, percebia que apesar das disputas internas no MinC, havia uma imagem de conjunto passada pelos dirigentes:

uma coisa que eu via como muito positiva na gestão de Gil [...] tinha muita briga ali, era muita disputa interna, e quando o pessoal comentava, eu falava: ‘rapaz, não adianta, todo mundo aparece bonitinho, em conjunto, todo mundo acha que tá tudo unificado’ e nesse ponto eu acho ótimo, é um ponto positivo do Ministério. (PEIXE, 2017)

Voltando à publicação do Programa cultural para o desenvolvimento do Brasil, o documento sinalizava que o Sistema Nacional de Cultura permaneceria na pauta do MinC enquanto uma das suas políticas prioritárias a ser desenvolvida ao longo do segundo mandato do presidente Lula da Silva. De acordo com Silvana Meireles (apud BARBALHO, 2014):

[...] a conversa na SAI era ‘bom, tudo indica que vem por aí mais uma gestão, e agora a gente precisa estruturar o Sistema, porque a ideia está disseminada, já tem uma adesão expressiva, mas a gente precisa avançar’, então já começaram a debater [...] o que precisava ser estruturado, e foi interrompido. (MEIRELES apud BARBALHO, 2014).

A interrupção dos trabalhados conduzidos e planejados pela SAI se deu no período do segundo mandato do presidente Lula, quando a equipe foi desestruturada com a saída de praticamente todos os seus integrantes, como será desdobrado no próximo capítulo.