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CAPÍTULO 02 – PREMISSAS PARA A RECONSTRUÇÃO DA TRAJETÓRIA DO SNC

2.3 O SNC E O A IMAGINAÇÃO A SERVIÇO DO BRASIL

2.3.1 Os princípios e conceitos do documento de campanha

Em termos conceituais, Marcio Meira (2004) destaca que o A Imaginação a serviço do Brasil concebeu a construção da política pública a partir de três dimensões basilares: social, democrática e nacional.

Ou seja, o papel central e estratégico da cultura para a inclusão social num país marcado pela desigualdade, a importante contribuição da cultura para o aprofundamento das instituições republicanas e democráticas no Brasil e ainda o suporte fundamental da cultura para a retomada de um projeto nacional, visto que se dá, em grande medida, pela valorização da diversidade e identidade cultural da Nação, sem que isso se confunda com um nacionalismo estreito. (MEIRA, 2004, p. 64)

Além disso, Meira (2016a) pontua a influência que o texto sofreu dos princípios da Cidadania Cultural baseados nas definições e experiência de gestão da filósofa Marilena Chauí, uma das fundadoras do PT e secretária municipal de Cultura de São Paulo entre 1989 e 1992. Em síntese, a perspectiva do desenvolvimento da cidadania cultural na política contemporânea está relacionada com os ideais de partidos de esquerda, que vinculam a política cultural aos direitos do cidadão, e atrelam as demandas dos movimentos sociais a uma política suscetível de contestações, protegida tanto dos excessos do mercado quanto do Estado. (MILLER e YÚDICE, 2002, p. 25). No Brasil, essa ideia foi marcada pelo pensamento crítico de Chauí (2008), para quem a cultura deve ser compreendida como um direito do cidadão de fazer cultura, de participar das decisões sobre a política cultural e de ter acesso aos bens e obras culturais. Ao Estado cabe assegurar tais direitos: garantir que seus cidadãos possam produzir cultura no sentido antropológico do termo, oferecendo condições para a criação de uma memória social; assegurar o direito do acesso às obras

culturais, garantindo os processos de fruição, e garantir aos cidadãos o direito de intervir nas decisões políticas, participando das definições das diretrizes para a cultura e dos orçamentos públicos (CHAUÍ, 2008). Segundo Roberto Lima (2016a, p.39):

Desde então, o conceito de Cidadania Cultural vem desafiando militantes petistas a pensar e implementar mecanismos de gestão adequados àquela concepção, o que levou à construção de uma agenda própria, mas que só veio a se consolidar no início do século XXI.

Nesse sentido, João Roberto Peixe (2017) pontua que nos munícipios dirigidos pelo PT, avançou-se na criação e instituição de mecanismos de participação e articulação social que resultaram na formação de conselhos paritários e orçamentos participativos. Também fazia parte da proposta das prefeituras dirigidas pelo PT descentralizar as políticas culturais.

[...] era uma questão muito importante, era ir por bairro, ir pra comunidade, então a gente fazia conferências municipais de cultura, nas nossas prefeituras, ou fóruns municipais de cultura e era assim, carro de som no bairro, dizer olha a prefeitura vai fazer reunião sobre politica cultural, na igreja no sábado de manhã, estão todos convidados [...] (MEIRA apud ARAGÃO, 2013, p. 128).

De acordo com Márcio Meira (apud ARAGÃO, 2013), foi nessa época que surgiu a ideia

de que a política cultural não deveria ser uma política para os artistas, e sim para a sociedade “[...] os artistas são um parceiro, digamos privilegiado [...] Politica de cultura [...] é pra população, agora os artistas, os operadores da cultura [...] são os principais parceiros da política pra que a população tenha plena inserção na vida cultural do país etc” (MEIRA apud ARAGÃO, 2013, p. 128).

Voltando à influência do pensamento de Marilena Chauí, destaca-se o seu posicionamento expressamente contrário às políticas neoliberais: “Afirmar a cultura como um direito é opor-se à política neoliberal, que abandona a garantia dos Direitos, transformando-os em serviços vendidos e comprados no mercado e, portanto, em privilégios de classe” (CHAUÍ, 2008, p. 66), pensamento também expresso no documento de campanha do PT de 2002:

[...] há uma crescente negação de uma cultura da paz, que perde espaço diante do avanço das políticas neoliberais, para as quais a dimensão cultural de valores como o individualismo, a competitividade e o primado do mercado, inclusive e principalmente de bens simbólicos que oprimem os valores outros, tem um caráter capital. A economia de mercado se sobrepõe à política e ao caráter humanista do desenvolvimento. (PT, 2002, p. 11)

Além dessas reflexões oriundas de intelectuais e das experiências de gestores culturais vinculados ao PT, Márcio Meira (2004, 2016b) destaca que o A imaginação a serviço do Brasil foi influenciado pelos princípios estabelecidos pela Unesco e pela Constituição Federal de 1988. Ao longo do texto é possível comprovar algumas dessas influências por meio das referências ao conceito ampliado de cultura; reconhecimento da interdependência das políticas nas áreas da cultura, educação, ciências e comunicação; inclusão da dimensão cultural do desenvolvimento; preocupação com questões de identidade e diversidade cultural etc. Quanto à Constituição Federal, para além das garantias e princípios relativos à cultura citados no documento de campanha, há propostas de inclusão e regulamentação de alguns dispositivos, a exemplo da defesa da aprovação da PEC 306-A/2000 que trata do Plano Nacional de Cultura (PNC).

Para Márcio Meira (2016b), a Constituição Federal do Brasil é um avançado arcabouço jurídico para a área cultural, tendo se antecipado em vários aspectos à Convenção da Diversidade Cultural da Unesco, aprovada em 2005. Além disso, Meira ressalta que os artigos 23 e 24 da Constituição trazem dispositivos sobre a atuação da União, estados, Distrito Federal e municípios no que tange às competências para legislar e promover ações na área da cultura. Entretanto, “O texto constitucional aprovado em 1988 [...] não introduzia os mecanismos que induzissem o planejamento, o financiamento e a gestão sistêmica da promoção e proteção da cultura brasileira” (MEIRA, 2016b, p. 23-24), o que para ele só ocorreria a partir da instituição do Plano Nacional de Cultura e do SNC. Em contraposição a esse pensamento de que seria preciso criar um sistema de cultura, Humberto Cunha Filho (2010) considera que a Constituição Federal já estabelece um sistema para essa área.

O que há de leis, órgãos e atividades relacionadas à cultura já forma o nosso sistema, neste setor. Evidencia-se, contudo, a timidez deste sistema, a ponto de padecermos da convicção, algo falsa, é claro, da própria inexistência do SNC. Esta sensação aumenta quando se toma como paradigma o Sistema Único de Saúde – SUS, que já está disciplinado e em constante aprimoramento há mais de 18 anos e, por tais razões, possuidor de bens, serviços e fluxos de atuação integrados e visíveis, que ‘provam’ permanentemente não apenas a sua existência, mas a sua serventia. (CUNHA FILHO, 2010, p. 93)