Para responder à crise nas Forças Armadas provocada pela vitória da oposição em 1965, Castello Branco decidiu decretar o AI-2, que representou, como já vimos, uma espécie de compromisso entre a linha-dura e os castellistas. Uma das mudanças instituídas por essa medida foi a extinção de todos os partidos políticos, cujas legendas remetiam ao período anterior ao golpe. A derrubada de Jango, portanto, não tinha significado, até então, uma ruptura para os treze partidos existentes, o que ocorreu apenas em outubro de 1965 com o segundo Ato Institucional. Do ponto de vista do projeto de abertura defendido por Castello, e logo derrotado pela ascendência dos duros, a proscrição das legendas foi uma tentativa de “reiniciar a atividade política abertamente, porém em termos ‘mais responsáveis’”1. Todavia, ao invés de eliminá-las completamente, como seria previsível na maioria dos regimes ditatoriais, o governo optou por instituir um sistema bipartidário. Com o AC-4, foram definidas as regras para a formação de novos partidos políticos, cuja iniciativa caberia a deputados federais e senadores em exercício do mandato. Numericamente, era possível que fossem organizados até três partidos, mas os cálculos políticos do governo e do Congresso certamente pesaram para que surgissem apenas dois – Arena e MDB.
Na opinião de Maria D’Alva Gil Kinzo, o fim do pluripartidarismo e a adoção de um sistema bipartidário, em vez da completa eliminação das legendas, foi produto de “tentativas fracassadas do regime militar-autoritário brasileiro de se institucionalizar como sistema
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híbrido”2. Não obstante todas as limitações impostas pelos militares, a ditadura preocupou-se em criar partidos políticos nacionais, manter o funcionamento do Legislativo e do Judiciário, estabelecer um sistema jurídico a partir do qual se estruturou o próprio regime (incluindo uma Constituição, em 1967), instituir mandatos para os generais-presidentes e realizar eleições periódicas. Para Kinzo, ao menos três fatores podem explicar essa preocupação da ditadura: o desejo dos militares em projetar uma imagem do Brasil como um país democrático, em se diferenciar de outras ditaduras da região e em acomodar as forças políticas que tinham apoiado a deposição de João Goulart. Na visão de Antonio Carlos Pojo do Rego, manter o Congresso Nacional em funcionamento, com a atuação de parlamentares da Arena e do MDB, serviu não somente como meio de legitimar a ditadura, dentro e fora do país, como Kinzo sugeriu, mas também de conciliar as elites políticas brasileiras3.
Deixando em segundo plano a Arena, observemos em maiores detalhes a trajetória do MDB, que constituiu um dos focos principais da repressão ao longo da ditadura. Uma das maiores dificuldades do bipartidarismo foi equacionar a participação de grupos heterogêneos, de abrangência nacional e regional, dentro de um mesmo partido. O modelo adotado no Brasil, diferentemente de outros países, não foi produto de um longo processo de debate político visando unificar as múltiplas correntes da opinião pública4. Portanto, dado o seu artificialismo, as novas legendas acabaram sendo, na realidade, uma espécie de frente partidária reunindo os políticos e as tendências do período anterior que tinham sobrevivido aos expurgos. No caso do MDB, suas correntes internas atuavam em torno de um objetivo comum, que era o combate à ditadura e a luta pela redemocratização. Dentro do partido, entretanto, a maior divergência era sobre como fazer oposição ao governo.
Em linhas gerais, o MDB dividiu-se em dois grandes blocos a respeito dessa questão. O dos moderados, formado por políticos mais experientes que já tinham exercido algum mandato eletivo antes de 1964, defendia a tese de que os emedebistas deveriam se aproximar dos militares ou agir com moderação, fazendo uma oposição responsável, sem atacar diretamente o regime. Foi sua hegemonia dentro do partido que ajudou a consolidar a imagem do MDB como uma oposição consentida e pouco combativa. O outro bloco, ao contrário, era composto majoritariamente por parlamentares novatos que tinham sido eleitos para sua primeira legislatura, apoiados por estudantes, sindicalistas e movimentos sociais em geral. Sua postura era considerada radical pelos moderados, já que eles defendiam uma atuação mais agressiva por parte do MDB, inclusive com denúncias contra a ditadura. Ao longo do período
2 KINZO, Maria D’Alva Gil. Oposição e autoritarismo: gênese e trajetória do MDB (1966-1979). São Paulo:
Vértice, 1988.
3 REGO, Antonio Carlos Pojo do. O Congresso brasileiro e o Regime Militar (1964-1985). Rio de Janeiro: FGV,
2008.
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militar, foram chamados pela imprensa de imaturos, autênticos, neo-autênticos e tendência
popular5. Portanto, existiam no MDB várias correntes disputando a hegemonia de seu projeto político ou de suas posições imediatas diante de problemas suscitados em cada conjuntura. Quando Geisel apresentou seu projeto de distensão, em 1974, as forças políticas que integravam a legenda logo começaram a discutir os possíveis alinhamentos num cenário de pluripartidário que se avizinhava. Para os estrategistas da abertura, incentivar os debates no MDB, alimentando suas expectativas, servia para enfraquecer a unidade do partido como oposição cada vez mais qualificada6.
Durante o governo liberalizante de Geisel, vários parlamentares do MDB tiveram seus mandatos cassados e direitos políticos suspensos. Mencionamos no capítulo anterior o caso do deputado Francisco Pinto, condenado a seis meses de prisão por ofender o general Pinochet. O tratamento dispensado ao parlamentar, cujo caso foi encaminhado com muita habilidade pelo presidente da República, não se repetiu nos anos seguintes, quando o governo fez uso do AI-5 para realizar outros expurgos no MDB. No final de 1975, em inquérito produzido pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo a respeito das atividades do PCB, então na ilegalidade, o MDB foi acusado de manter entre seus quadros parlamentares daquele partido, numa “infiltração [...] política nacional” que visava a “ocupação de posições de destaque nos diversos setores da atividade humana”7. O MDB, de fato, abrigava várias correntes e organizações políticas em sua estrutura, incluindo o Partido Comunista Brasileiro, organização que, não tendo aderido à luta armada, como foi visto, sempre apoiou a legenda de oposição à ditadura, pela qual lançava seus candidatos8. Derrotados, alguns grupos que tinham feito a autocrítica da luta armada, como a Ação Popular-Marxista Leninista (AP-ML) – herdeira da antiga AP – e o MR-8, também passaram a lançar seus candidatos pelo MDB, considerado um espaço viável para a militância política no contexto da abertura proposta por Geisel9.
Chamado a prestar esclarecimentos no DOPS, o deputado federal Marcelo Gato, um dos parlamentares mencionados no inquérito, recusou o convite, exigindo que o órgão
5 Para a caracterização detalhada de cada um desses grupos, ver KINZO, 1988, pp. 57-79.
6 Em março de 1979, por exemplo, uma pesquisa indicou que 92% dos parlamentares emedebistas apoiavam o fim
do bipartidarismo (FLEISCHER, David. Manipulações casuísticas do sistema eleitoral durante o período militar, ou como usualmente o feitiço se volta contra o feiticeiro. In: SOARES, Gláucio Ary Dillon; D’ARAÚJO, Maria Celina (Orgs.) 21 anos de regime militar: balanços e perspectivas. Rio de Janeiro: FGV, 1994, pp. 154-197).
7 Relatório do DOPS citado em O Estado de S. Paulo, 23 de dezembro de 1975.
8 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Partido e sociedade: a trajetória do MDB. Outro Preto: Editora da UFOP, 1997. 9 Em 1976, as duas organizações, conjuntamente, lançaram o nome de Antônio Carlos Carvalho (MR-8) para o
cargo de vereador no Rio de Janeiro. Dois anos depois, a AP-ML e o MR-8 novamente apoiaram um mesmo nome, José Eudes (AP-ML), candidato a deputado estadual. Em 1982, Liszt Vieira (ex-VPR) e Lúcia Arruda (AP-ML) foram lançados para o mesmo cargo, já pelo PMDB (Cf. ARAÚJO, Maria Paula Nascimento. Lutas democráticas contra a ditadura. In: FERREIRA, Jorge; REIS FILHO, Daniel Aarão. Revolução e democracia
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requisitasse formalmente sua convocação à Câmara, no que foi apoiado por Ulysses Guimarães. Ao longo da abertura, a fim de evitar que o partido fosse vítima de mais expurgos, o presidente do MDB centralizou as críticas endereçadas à ditadura com o propósito de proteger a bancada emedebista, para que seus integrantes, “respondendo isoladamente aos atos do poder, [não] se tornassem objeto de cassações políticas”10. Gato ainda classificou a investigação como um “pseudo-inquérito” com o objetivo de “comprometer o MDB e isolá-lo do povo brasileiro”11. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional, o deputado teve seu mandato cassado em janeiro de 1976 pelo presidente Geisel, que, embasado no AI-5, ainda suspendeu seus direitos políticos pelo prazo de dez anos.
O expurgo, que também atingiu o deputado estadual Nélson Fabiano Sobrinho, outro parlamentar cujo nome fora arrolado no inquérito, foi relembrado posteriormente por Marcelo Gato de um ponto de vista diferente. Segundo ele, o verdadeiro motivo para sua cassação teria sido as críticas feitas ao regime a respeito da política salarial do governo e da violação dos direitos humanos cometidas durante a ditadura:
É bom registrar isso, a cassação foi por natureza política, a cassação do AI-5, não tem nada a ver com outras histórias, cassação política por perseguição política. O que detonou a minha cassação e de outras pessoas, na época, foram as denúncias que fizemos das torturas a presos políticos, das perseguições políticas, do arrocho salarial, enfim, toda aquela caretice da ditadura que atingia principalmente a classe trabalhadora12.
Poucos dias depois, em sua prestigiosa coluna diária, o jornalista Carlos Castello Branco voltou ao assunto para sublinhar esse aspecto, ainda mais evidente quando os nomes dos dois deputados foram suprimidos do inquérito13. Além de Gato e Fabiano Sobrinho, um terceiro deputado do MDB paulista, Alberto Goldman, também foi incluído na lista do DOPS. Estranhamente, apenas os dois primeiros acabaram punidos pelo governo Geisel, o que indicaria, na realidade, que a acusação de que pertenceriam ao PCB era tão somente um pretexto para afastar da vida pública parlamentares dispostos a enfrentar a ditadura. Lembremos que, no plano nacional, a oposição se articulava para criar uma Comissão
10 SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Crise da ditadura militar e o processo de abertura política no Brasil
(1974-1985). In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de Almeida Neves (Orgs.) O Brasil republicano: o tempo da ditadura – regime militar e movimentos sociais em fins do século XX, vol. 4, 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 268.
11 Verbete “Marcelo Gato”, Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro da Fundação Getúlio Vargas [fonte
digital].
12 Entrevista de Alberto Marcelo Gato, Projeto Memória DIEESE [fonte digital]. 13 Jornal do Brasil, 27 de dezembro de 1975.
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Parlamentar de Inquérito (CPI) com o objetivo de investigar os casos de tortura, desaparecimento e morte ocorridos desde 1964, além de defender a reformulação do Conselho de Defesa da Pessoa Humana14. No plano estadual, por sua vez, o relatório que apontou a
causa mortis do jornalista Vladimir Herzog, que supostamente havia cometido suicídio nas dependências do II Exército, em outubro de 1975, foi motivo de questionamento dos deputados cassados. Por isso, Carlos Castello Branco sugeriu em sua coluna que
o aparelho paulista parece suscetibilizado pelas dúvidas suscitadas em torno das conclusões do inquérito sobre a morte do jornalista Herzog e isso terá justificado a reação extrema que levou o Presidente [Geisel] a decretar a pena política capital contra os dois deputados que contestaram a idoneidade das denúncias que os envolviam15.
Em março de 1976, mais dois parlamentares do MDB tiveram seus mandatos cassados por fazerem pesadas críticas à ditadura. Com a proximidade das eleições municipais, o partido decidiu promover um evento em Palmeira das Missões (RS), quando dois deputados fizeram discursos contundentes contra os militares. Um deles, Amaury Müller, chegou a dizer que o país “não era governado pelo povo, e sim por uma aristocracia armada”. O deputado ainda solicitou aos presentes que fizessem uma homenagem a todos os brasileiros banidos pela ditadura, incluindo Leonel Brizola, um dos principais adversários políticos do regime16. Em outro momento do discurso, Müller aproveitou para atacar as Forças Armadas e o Movimento
de 1964:
Estamos num regime de golpe, não de revolução, dominados pela aristocracia fardada [...] O que houve em primeiro de abril [de 1964] foi uma quartelada com fuzis e metralhadoras compradas com dinheiro de quem paga impostos [...] Chegou a hora de pôr um fim à ditadura17.