Sintetizando, vimos até aqui os principais fundamentos da Doutrina de Segurança Nacional, as divergências em relação à sua importância para a conformação do pensamento e
23 GASPARI, 2002a, p. 41. 24 GASPARI, 2002a, p. 171.
25 FICO, Carlos. Como eles agiam – os subterrâneos da ditadura militar: espionagem e polícia política. Rio de
Janeiro: Record, 2001, p. 41. Grifo nosso.
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da ação militar e as diferentes maneiras de situar sua origem. No contexto da Guerra Fria, a DSN anunciou ser impossível manter-se neutro diante da polarização político-ideológica. Um novo modelo de guerra, permanente e total, de caráter subversivo, revolucionário, psicológico e indireto, estaria em curso, elidindo a idéia de fronteira nacional, convertendo todos os cidadãos em potenciais inimigos e exigindo a montagem de uma eficiente estrutura de informação e repressão. Teorizada no Brasil pela Escola Superior de Guerra, criada no final dos anos 1940, a DSN tinha muitas semelhanças com doutrinas militares da década de 1930, conforme assinalaram certos autores. Outros encontraram traços de origem ainda mais longe, no fim do século XIX. Visto que a realidade histórica brasileira correspondeu, em grande medida, aos preceitos da DSN, muitos também atribuíram à doutrina uma grande importância como fundamento racional do golpe e da ditadura, enquanto outros, inversamente, trataram a DSN apenas como um conjunto de idéias sem maior importância, havendo ainda um terceiro grupo que, assumindo uma posição intermediária, buscou definir sua real dimensão, sem abandoná-la completamente nem absolutizar sua importância.
Passaremos, agora à observação de um dos elementos centrais DSN, que foi a montagem do aparelho repressivo da ditadura. Ao nos determos sobre seu processo de estruturação, cuja evolução, não linear, correspondeu a uma história paralela, a “da perda e reconquista do controle do poder pelos militares moderados”27, desejamos sublinhar a relação estabelecida entre a ditadura e seu principal inimigo interno, a esquerda armada. Como dissemos antes, a organização de um aparato repressivo tornou-se uma das mais importantes tarefas do regime a fim de eliminar os focos de subversão. Entretanto, nem os sistemas de informação e segurança interna começaram a ser montados quando a luta armada já tinha sido deflagrada – eliminando, portanto, as interpretações que se baseiam numa análise de causa e efeito – nem tampouco a estruturação de um aparato repressivo nos níveis verificados no Brasil poderia ter constituído uma resposta à guerrilha, de dimensões pequenas, tanto nas cidades como no campo – exigindo, dessa forma, uma outra explicação para a relação estabelecida entre a ditadura e a esquerda armada, o que será visto no próximo capítulo.
A chamada comunidade de informações contemplava, na verdade, dois sistemas: um de informação e outro de repressão28. O primeiro, denominado Sistema Nacional de Informações (SISNI), tinha como objetivo reunir informações a serem colocadas à disposição do general-presidente, como ocorre com os serviços de informação de qualquer país, e também monitorar as atividades particulares dos cidadãos (de suas preferências políticas à opção sexual), buscando dados importantes para neutralizar o inimigo interno, fosse
27 FICO, 2001, p. 19.
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diretamente, pelo combate, fosse indiretamente, pela desmoralização. Era o equivalente a uma contra-ofensiva militar para fazer frente à guerra revolucionária e psicológica conduzida pelo inimigo. O segundo, denominado Sistema de Segurança Interna do País (SISSEGIN), completava as atribuições do SISNI, atuando no campo repressivo propriamente dito, com execuções de prisões e interrogatórios, embora órgãos como o SNI, pertencente à estrutura de informação, também realizassem ações repressivas. O SISSEGIN, criado a partir da pressão dos militares mais radicais da Revolução de 1964, a chamada linha-dura29, era uma resposta a duas questões prementes: de um lado, o desejo da ditadura em exercer um maior controle policial e militar sobre a sociedade; de outro, a insatisfação dos duros com o aparato repressivo existente, as limitações impostas pela Justiça ao trabalho punitivo e a possível imagem de fragilidade que o regime poderia passar nessas circunstâncias. Pensados havia algum tempo, os dois sistemas se consolidaram plenamente apenas em 1969-70, o que acabou reforçando a percepção de que respondiam à ameaça representada pela esquerda armada, cujo apogeu ocorreu justamente nesse biênio.
O Serviço Nacional de Informação, organizado em junho de 1964, era o órgão central do SISNI. Desde a década de 1950, o general Golbery, idealizador do SNI, defendia a criação de um eficiente serviço secreto que incorporasse os órgãos e departamentos de informação e contra-informação existentes. Golbery começou a montar o SNI ainda nos primeiros dias de abril, logo após a deposição de Jango. A criação do órgão, portanto, nada teve de secreto, acontecendo abertamente, por meio de um projeto de lei enviado ao Congresso Nacional pelo presidente Castello Branco, onde foi aprovado em “relativa paz”, somente com “pequenas emendas”30 – para o que foi decisivo, obviamente, as primeiras depurações, que limparam o Congresso dos opositores do novo regime. Outra prova de que a criação do SNI não aconteceu veladamente foi o debate suscitado na imprensa, onde o projeto do governo foi duramente criticado sob a acusação de pretender criar uma verdadeira polícia política. Embora isso tenha se comprovado correto tempos depois, o fato para o qual chamamos a atenção é que a maneira como o SNI foi organizado revelou que o governo não tinha, a princípio, nada a esconder. O Serviço Nacional de Informação não era, em 1964, o que mais tarde foi chamado de porão da ditadura. Essa distinção é importante, como lembra Carlos Fico, para que se tenha “um entendimento histórico mais refinado”31 a respeito do aparato informativo- repressivo da ditadura.
29 A expressão surgiu em 1964 para designar os ultra-revolucionários e os militares radicais indisciplinados que
tentavam concorrer com o poder presidencial por meio das prerrogativas que lhes tinham sido conferidas nos primeiros meses da ditadura (Cf. GASPARI, 2003).
30 GASPARI, 2002a, p. 157. 31 FICO, 2001, p. 43.
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Além do SNI, a ditadura dispunha das Divisões de Segurança e Informação (DSI), presentes nos ministérios civis, por meio dos Sistemas Setoriais de Informações dos Ministérios Civis, e militares, através dos Sistemas Setoriais de Informações dos Ministérios Militares. Nas pastas civis, esse subsistema de informações incluía não apenas os ministérios mas também as autarquias, as fundações e as empresas estatais32. Na estrutura de cada ministério havia uma DSI, além de possíveis Assessorias de Segurança e Informações ou Assessorias Especiais de Segurança e Informações, presentes nas áreas mais importantes da administração pública. Algumas pastas, como as de Relações Exteriores e do Interior, distinguiam-se dos demais ministérios por possuírem suas respectivas DSI e setores específicos de informações que não existiam em outros locais. Nos ministérios militares, a organização era bastante diferente. Ao invés das DSI, cada uma das forças armadas possuía sua própria estrutura, incluindo um centro de informação da Marinha (CENIMAR), outro do Exército (CIE) e um terceiro da Aeronáutica (CISA). Todas elas dispunham de uma subchefia de informações de seus Estados-Maiores, de órgãos de suas unidades regionais e de escritórios de adidos da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. Além disso, os militares contavam com um Subsistema de Informações Estratégicas Militares, responsável, especificamente, por tratar das informações relacionadas às operações militares. Nesse caso, a atividade de repressão das Forças Armadas não se confundia com o restante do SISSEGIN.
Ao contrário do SISNI, esse sistema foi estruturado por meio de diretrizes secretas preparadas pelo Conselho de Segurança Nacional e aprovadas pelo presidente da República, e não por legislação pública de exceção, como os diversos atos institucionais aprovados ao longo da ditadura. Na montagem do SISSEGIN, definiu-se que cada comando militar teria um Conselho de Defesa Interna, um Centro de Operações de Defesa Interna (CODI) e um Destacamento de Operações de Informações (DOI), todos sob a supervisão de um comandante do Exército. O território nacional também foi dividido em seis Zonas de Defesa Interna, havendo a possibilidade de serem criadas Áreas de Defesa Interna e Subáreas de Defesa Interna nos locais que exigissem atenção especial do governo. Ao CODI cabia o planejamento, o controle e a execução de ações de defesa interna, articulando todos os escalões envolvidos em cada operação, enquanto os DOI ficavam com o “trabalho sujo”33 da repressão. Essas duas estruturas formavam o sistema DOI-CODI, criado em 1970 a partir do exemplo bem sucedido, em termos de repressão, da Operação Bandeirante (Oban), um órgão extra-oficial de combate à subversão que funcionou em São Paulo com o envolvimento de
32 Era o caso, por exemplo, do Conselho de Segurança Nacional, de Itaipu Binacional e do Departamento de
Administração do Serviço Público, onde havia órgãos setoriais de informação semelhantes às DSI.
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militares e policiais. Em 1974, todas as regiões militares do país já contavam com seus respectivos DOI em pleno funcionamento.
Como se pode ver, em uma década, a ditadura erigiu uma ampla e complexa estrutura de informação e repressão. Os dois sistemas, SISNIN e SISSEGIN, foram consolidados apenas 1969-70, conforme dissemos. Em 1968, reformas conduzidas por dois proeminentes militares da linha-dura – marechal Arthur da Costa e Silva, presidente da República, e general Jayme Portella, chefe do Gabinete Militar – redefiniram o papel do SNI, garantiram ao Conselho de Segurança Nacional (cujo secretário-geral era o próprio Portella) ascendência sobre as DSI, aperfeiçoaram a estrutura existente e criaram outros órgãos de informação. Com a montagem do sistema DOI-CODI, completou-se o aparato informativo-repressivo à disposição do regime.
Observemos, para efeito de comparação, as dimensões da estrutura que a esquerda armada precisou enfrentar. Entre 1969-74, durante a gestão do general Carlos Alberto de Fontoura à frente o SNI, cerca de dois mil funcionários trabalhavam no órgão34. Em cada DSI, por sua vez, havia aproximadamente trinta funcionários, lembrando que seu pessoal não era o mesmo que o do SNI, que tinha profissionais específicos. Apenas no DOI do II Exército, em São Paulo, trabalhavam 250 pessoas em 1970, sendo 80 só das Forças Armadas. Nos cálculos de Carlos Fico, supondo o envolvimento de cem pessoas em cada um dos dez DOI espalhados pelo país, somente nesse nível do aparelho repressivo estiveram envolvidos cerca de mil funcionários. O número pode, inclusive, ter sido maior, já que documentos oficiais revelaram que, naquele momento, apenas o Exército fornecia 600 homens para o SISSEGIN. Na esquerda, diferentemente, os cálculos mais otimistas apontam que nos seis principais grupos armados militaram, no máximo, 1600 pessoas, sendo que a maioria tinha pouco ou nenhum
34 Em 1964 eram apenas cem funcionários, enquanto em 1982 o SNI chegou a contar com seis mil pessoas,
segundo Elio Gaspari (2002a). Saindo dos números, outro dado trazido pelo autor e que revela a dimensão da estrutura com a qual as organizações armadas se depararam são os contatos, a rede de intercâmbios, estabelecidos entre o SNI e os serviços de segurança de outros países. Ainda em 1964, a Central Intelligence
Agency (CIA) dos EUA propôs mandar ao Brasil um funcionário encarregado de auxiliar na montagem do serviço secreto brasileiro. Para o MI5, do Reino Unido, seguiram, naquele ano, oficiais brasileiros para um intercâmbio com o serviço britânico. Portugal convidou o governo brasileiro a visitar a Escola de Comando de Luanda, onde eram treinadas as tropas antiguerrilheiras que combatiam os movimentos de libertação nacional em Angola e Moçambique. Em 1965, dois oficiais brasileiros foram estagiar em Buenos Aires durante algumas semanas. Nessa época, o SNI aproximou-se também do serviço secreto francês e italiano, em negociações disfarçadas “dentro do cerimonial das visitas oficiais dos presidentes Charles de Gaulle e Giuseppe Saragat” (p. 167). Em 1966, após acordo com o Mossad, de Israel, o segundo homem do SNI, o então coronel João Batista Figueiredo, foi convidado a visitar o serviço israelense em Tel Aviv. Tempos depois, o Brasil também enviou estagiários para a Alemanha. Não se pode comparar tais intercâmbios com a rede estabelecida entre a esquerda armada brasileira e países como Cuba, China e Albânia. Como se depreende do estudo de Denise Rollemberg, no treinamento em Cuba, a falta de infra-estrutura adequada e o primarismo teórico e político dos instrutores foram compensados com a boa intenção, o romantismo e o idealismo de ambos os lados (ROLLEMBERG, Denise. O
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treinamento militar35. Balanços mais modestos, entretanto, indicam que, em 1969, no auge da luta armada urbana, a quantidade de guerrilheiros pode ainda menor, não passando de 800 pessoas36. Por esses números, fica evidente que a chamada guerra revolucionária colocou em lados opostos forças absolutamente desproporcionais em efetivos, infra-estrutura, treinamento e armamentos, de modo que justificar o recrudescimento da repressão por causa da guerrilha pode ter sido politicamente eficaz, mas não correspondeu, de fato, ao potencial da esquerda armada em tomar o poder e fazer a revolução.
35 RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira. São Paulo: Editora da UNESP, 1993. Para esse
número, consideramos as seguintes organizações: ALN, PCBR, Comandos de Libertação Nacional (COLINA), Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares) e Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Adotamos como critério o fato de serem esses os grupos responsáveis pelo planejamento e execução, sozinhos ou em conjunto, das mais importantes ações de guerrilha urbana e rural ocorridas na ditadura – por sua publicidade e pela quantidade de armas, munições e dinheiro expropriados.
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