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A democracia brasileira antes do golpe e a derrota das reformas de base

Todos esses fatores se consolidaram basicamente entre 1945-64, período em que o Brasil passou por profundas transformações em sua estrutura social, política e econômica36. Sua população, por exemplo, saltou de quase 41 milhões para mais de 70 milhões de pessoas, conseqüência da diminuição da mortalidade infantil, do aumento da expectativa de vida e das altas taxas de fecundidade da mulher brasileira, sobretudo no Nordeste, que ainda em 1975 conservava índices semelhantes aos dos anos 1940. A intensa migração para outras regiões do país, entretanto, ajudou a manter o tamanho de sua população praticamente inalterado. O desenvolvimento econômico do Sudeste e da região central do Brasil – neste caso, por causa da construção de Brasília, na segunda metade da década de 1950 – atraiu parte dessa mão-de- obra para o Centro-Sul, movimento que foi impulsionado também pelas secas que castigaram o Nordeste entre 1930-50. O Brasil, além disso, era um país predominantemente jovem, com mais da metade de sua população abaixo dos vinte anos nas décadas de 1940-50. A esperança de vida também era baixa, persistindo as diferenças regionais: em 1950, a média nacional era de 46 anos, sendo que no Nordeste esse número caía para 39, enquanto no Sul, chegava a 53.

36 Os dados a seguir estão em AGGIO, Alberto, BARBOSA, Agnaldo, COELHO, Hercília (Orgs.) Política e sociedade no Brasil (1930-1964). São Paulo: Annablume, 2002.

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Em termos educacionais, metade população era formada por analfabetos, com índices que alcançavam 70% no campo, contra pouco mais de 21% nas cidades.

Mas, talvez, o processo mais significativo desse período tenha sido a intensa urbanização, que mudou a forma de morar e viver, impondo novos hábitos; que concentrou um grande contingente populacional num mesmo espaço, incentivando as mobilizações políticas e sociais; e que exigiu um conjunto de novas atividades que, desempenhando um papel cada vez mais importante na economia brasileira, levaram a uma crescente especialização, estratificação e complexificação da sociedade. O processo de urbanização ocorreu de modo abrupto e desordenado, ocasionando diversos problemas nos anos seguintes, como o crescimento mal planejado das principais cidades do país e a ineficiência da infra- estrutura urbana. Ainda assim, a melhoria na qualidade de vida atraiu um grande número de pessoas da zona rural para o meio urbano, invariavelmente para trabalhar no setor de serviços ou nas indústrias, que então passavam por um processo de intenso crescimento. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o Brasil tinha deixado de ser meramente um exportador de produtos agrícolas, sobretudo de café, para tornar-se um país em que a indústria ocupava um espaço importante.

Naturalmente, a população empregada no setor primário diminuiu bastante entre 1940- 60, caindo de 70,2% para 54%. O setor terciário, vinculado ao crescimento e à importância das cidades, foi o que mais absorveu essa mão-de-obra, subindo de 19,8% para 33,3% no mesmo período. Mesmo sendo menores em números absolutos, os trabalhadores urbanos – ⅓ da população em 1950 – foram os mais favorecidos pelas melhorias das condições de vida e trabalho. Os benefícios da legislação trabalhista, por exemplo, só contemplaram o trabalhador rural nos anos 1960, e, mesmo assim, de maneira danosa, inserindo-o precariamente no processo de desenvolvimento do capitalismo no país, a exemplo dos bóias-frias. Por outro lado, a baixa produtividade do setor primário fazia com este respondesse por apenas 25% do Produto Interno Bruto (PIB) em 1950, embora empregasse ⅔ da mão-de-obra, o que revela a importância dos trabalhadores urbanos, responsáveis por gerar 75% da riqueza nacional. Assim, potencializaram-se as conseqüências de suas manifestações, como as greves, que somente nos dois primeiros anos do governo João Goulart chegaram a 163, contra 80 em todo o período entre 1945-49.

Nos quase vinte anos que antecederam o golpe de 1964, dois projetos de nação bem definidos estiveram em disputa: o nacional-estatista e o liberal-conservador. O primeiro, de maneira ampla, ficou associado à figura de Getúlio Vargas, especialmente a seu segundo governo, quando o nacionalismo praticamente assumiu a condição de linha política oficial.

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Apoiando-se nos trabalhadores, “eleitos os interlocutores preferenciais do presidente”37 desde o fim do Estado Novo, Vargas adotou um programa de combate às ingerências cometidas em razão dos interesses econômicos estrangeiros e de busca pela autonomia nacional por meio do desenvolvimento interno. Nesse sentido, a intervenção do Estado se traduziu em duas frentes: de um lado, protegendo os interesses da população (não obstante as contradições encerradas na idéia de um interesse comum do povo) e defendendo a soberania nacional; de outro, atuando em setores estratégicos para o país, como siderurgia, energia e comunicações. Os liberais-conservadores, por sua vez, pregavam o fim da participação do Estado na economia, a abertura do país ao capital estrangeiro e o controle rígido dos gastos públicos, especialmente a redução dos subsídios à indústria brasileira.

Os dois projetos, entretanto, convergiam para a idéia de transformação do Brasil em potência, superando o subdesenvolvimento, com uma classe trabalhadora produtiva e ordeira, avessa a revoluções e a questionamentos da ordem. Do ponto de vista das relações internacionais, os nacionalistas defendiam um desenvolvimento autônomo, longe da influência do imperialismo norte-americano e do capital estrangeiro, ao passo que os liberais desejavam o alinhamento irrestrito com os EUA, inclusive para obter sua ajuda no combate ao comunismo. Enquanto os defensores desse projeto pregavam investimentos internacionais em todas as áreas, sem restrição, com o objetivo de desenvolver a economia brasileira, os nacionalistas advogavam o monopólio do Estado sobre setores considerados estratégicos para a soberania nacional, como o petróleo. Para eles, a industrialização ocupava um lugar central em sua política, enquanto para os liberais a indústria deveria estar subordinada à lógica do mercado, competindo livremente conforme suas próprias condições38.

No enfrentamento entre os dois projetos, a mobilização popular constituiu um dos elementos principais no campo de forças próprio daquele período – do lado nacionalista, um exemplo marcante foi a campanha O petróleo é nosso, que levou à criação da Petrobras, em 1953. Os trabalhadores, particularmente os da zona urbana, que tinham cada vez mais importância na economia brasilera pelas razões já mencionados, foram sendo progressivamente trazidos para o centro do debate político, fosse pelos governos chamados de

populistas, em busca legitimação política; fosse pelos partidos e movimentos de esquerda, tentando mobilizar as massas populares no caminho da mudança; fosse ainda pela simples

37 D’ARAÚJO, Maria Celina. O Estado Novo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000, p. 55.

38 Como qualquer polarização, esta também não foi absoluta. Adotamos uma separação rígida entre os dois

projetos apenas para ilustrar melhor as idéias que estiveram no centro dos debates sobre o desenvolvimento nacional no período anterior ao golpe, e que mobilizaram tanto os setores à direta como à esquerda na sociedade. Os militares que governaram o Brasil a partir de 1964, por exemplo, embora simpáticos ao projeto liberal- conservador, nem por isso deixaram de intervir em setores estratégicos da economia por meio da criação de empresas estatais, a exemplo do que fez o próprio Vargas nos anos 1950.

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exigência da democracia, cuja construção “passava primeiro pela extensão da cidadania, que incluía o direito de voto para as classes trabalhadoras”39. No campo, especialmente no Nordeste, onde as difíceis condições de vida e trabalho submetiam milhões de pessoas à miséria, como também revelam os números apresentados anteriormente, os trabalhadores rurais passaram a se mobilizar em busca de reformas que melhorassem seu cotidiano.

A agitação social e a radicalização política características daquela conjuntura não deixaram de influenciar também um setor fundamental da sociedade no período anterior e posterior ao golpe, sobretudo porque foi ele quem exerceu o poder depois de 1964: os militares. As Forças Armadas, que tinham apoiado Vargas durante o Estado Novo pela ênfase conferida por seu governo à integração nacional e à industrialização de base, o que atendia ao projeto profissionalizante das instituições militares, afastaram-se do presidente a partir de 1942, quando este começou a acenar para um “ator político que lhes era política e ideologicamente antagônico”40, isso é, os trabalhadores. Embora as Forças Armadas não fossem homogêneas, como ficou claro nas crises institucionais do período41, a fração militar que, em geral, impôs suas idéias como sendo às da instituição militar era antagônica ao nacional-estatismo de Vargas, a quem identificavam com o comunismo, a subversão e a ameaça à ordem, numa visão conservadora que não aceitava que a ampliação da democracia permitisse o protagonismo crescente das massas populares.

Dentro desse contexto, trabalhadores rurais, operários, estudantes, setores da classe média e militares de baixa patente, além de partidos e movimentos de esquerda (não exclusivamente marxista), envolveram-se no debate das reformas de base. Em sua concepção, somente uma transformação radical das estruturas da sociedade permitiriam ao Brasil superar o subdesenvolvimento, integrando plenamente os que haviam sido alcançados pelo desenvolvimento da democracia, do capitalismo, da indústria e das cidades. Falava-se em

reforma agrária para garantir o acesso à terra aos mais pobres; reforma urbana para equacionar o problema das habitações, sobretudo nas grandes cidades; reforma fiscal e

bancária para aliviar os encargos financeiros que pesavam sobre os trabalhadores e as empresas nacionais; reforma educacional para ampliar o acesso à educação; e reforma

econômica para controlar o fluxo de capitais estrangeiros e regular a participação de empresas internacionais em setores estratégicos.

39 SOARES, Gláucio Ary Dillon. A democracia interrompida. Rio de Janeiro: FGV, 2001, p. 313.

40 CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e política no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005b, p.

111.

41 Tomemos, por exemplo, o caso dos sargentos, que tiveram um destacado protagonismo nesse período. Mesmo

entre o oficialato havia divisões, como ficou evidente na postura de militares legalistas durante as crises de 1961 e 1964.

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A não realização das reformas revelou a incapacidade de uma elite civil-militar, temerosa dos efeitos que isso poderia trazer, em concretizar as mudanças exigidas por amplos setores da sociedade, politicamente mobilizados em torno daqueles temas. Como Gláucio Soares observou, a experiência democrática brasileira entre 1945-64 não “contribuiu para a paz social nem para cimentar a unidade nacional”, constituindo, sim, uma fase de rápido desenvolvimento nacional que “separou, cada vez mais, os que tinham dos que não tinham. Os pobres dos ricos. Os universitários dos analfabetos. Os que viveriam mais dos que viveriam menos”42. O golpe de 1964 encerrou não apenas o debate sobre as reformas como também quase duas décadas de democracia, desmobilizando momentaneamente a sociedade. Para a esquerda revolucionária, a derrota das reformas de base e o desfecho da crise política revelou a impossibilidade de uma aliança com a burguesia nacional para realizar as mudanças necessárias para o desenvolvimento do país e reforçou a tese de que apenas através da luta armada seria possível fazer revolução.

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Capítulo 2