CAPÍTULO III! POLÍTICA, COMUNICAÇÃO E SOCIEDADE
3.6.1.2 A INTEGRAÇÃO DO CENTRO E DA PERIFERIA
A igualdade entre os homens não elimina o conflito das sociedades modernas, até o acentua - ao contrário das sociedades ideais e utópicas, sem conflito, onde os seus membros são integrados pela unificação social. No entanto, este acentuar de conflitos, na sociedade democrática, pressupõe uma integração, uma aceitação de um conjunto de valores e da legitimação de um sistema onde estes conflitos tomam lugar. E é por não partilharem a concepção de integração da sociedade moderna ocidental, que as ideologias utópicas consideram como reacionária, já que estes defendem uma sociedade sem conflito. No entanto, a negação do conflito acaba por ser de carácter autoritário, não democrático - tendo existido na União Soviética - já que constituiu uma negação do tecido social, das aspirações, motivações e interesses do ser humano enquanto indivíduo (Shils, 1974/1992).
Assim, numa sociedade moderna e democrática, entende-se a integração como o conjunto de estruturas e processos através dos quais o conjunto das diversas partes de uma sociedade se mantém unido, diferentes condições que se encontram ligadas de múltiplas e complexas maneiras. Tal como afirma Shils: “A integração é a soma estrutural das partes; é o que faz com que o todo da sociedade seja mais do que a soma aritmética das suas partes.” (Shils, 1974/1992, p. 119)
Assim, os partidos de ideologia Marxista, mesmo que não o admitam, são integrados na sociedade moderna e democrática, já que não vivem na clandestinidade e lutam dentro do sistema institucional e legal existente, mesmo que posteriormente o queiram abandonar. É por isto que apenas um ato de secessão seria uma recusa coletiva de continuar a ser membro de uma sociedade, indo mais longe que a revolução ao não promover a reforma, mas querer fundar uma sociedade nova e separada. Não havendo uma sociedade nova, podemos dizer que uma sociedade é integrada pelo facto dos seus constituintes estarem ligados pelo facto de possuírem qualidades comuns, pelo simples facto de viverem dentro das fronteiras dessas sociedade, sendo que aqueles que ocupam uma posição no sistema de estratificação, qualquer que seja, estão integrados na sociedade pela atribuição e o facto de terem conhecimento da sua posição integra-os cognitivamente, mesmo que seja por um aspecto da associação que não apreciam (Shils, 1974/1992).
Podemos dizer que a primeira integração é a limitação do combate político, ou melhor, da violência com que decorre. Podemos interpretar a política como a guerra civil continuada por outros meios (Duverger, 1964/1977), onde a lei da maioria se apresenta como uma forma mais civilizada e menos brutal, do que a lei do mais forte. Assim, limitar o combate, apesar de não ser integração propriamente dita, é um primeiro compromisso, uma primeira cooperação e um primeiro elemento de integração, que transpõe a violência física para uma que é legalizada e jurídica, uma violência de luva branca. É a existência de compromissos desta ordem está na base e origem da luta política, que tem uma das suas funções essenciais no estabelecimento dos mesmos. Ligam-se à noção de justiça, no entanto, exprimem, muita vezes, as relações de força existentes no momento em que elas se resignam a concluí-los. Uma modificação destas pode levar a um novo combate - é neste sentido que um compromisso não é o final do combate, mas assemelha-se mais a uma trégua ou um armistício (Duverger, 1964/1977).
É por isso que, ao contrário da luta pelo regime, a luta no regime é, ao mesmo tempo uma forma de combate e de integração, na medida em que exprime um acordo de princípios fundamentais da sociedade, enquanto a autoidentificação dessa integração depende da posição que cada partido ocupa: na oposição cada partido vê a política como luta, enquanto os que estão no poder veem-na como integração (Duverger, 1964/1977). E, neste sentido, a luta de classes não é uma recusa da sociedade existente, mas uma tentativa de alterar a sua relação com o centro e com a autoridade, dentro das limitações de integração dos seres humanos, que tornam a integração não homogénea, parcial e em permanente deslocação de uma parte da sociedade para a outra.
Pode-se dizer que a relação com a autoridade define a integração dos seus membros, já que um ato de autoridade é uma ação integrante na medida em que, quando é bem sucedida, integra o centro e a periferia, através de uma ligação dos vários sectores uns com os outros e com o centro, organizando a sociedade em vários graus à volta de instituições que executam ações autoritárias no seu interior. No entanto, apesar de o centro ser o único poder integrante, a sua imagem regula a execução das ações autoritárias das numerosas instituições, que as executam através de uma autodenominação resultante do poder do centro, surgindo centros de crítica aos centros existentes organizados publicamente e aos esforços constantes em remover do posto aqueles que estão no poder. Deste modo, a legitimidade das instituições é contestada, mas a mudança delas só pode ser alcançada por uma estrutura de regras integrantes que são partilhadas por todas as partes em conflito.
Esta partilha e relação com o centro define uma condição essencial da integração: a solidariedade. Esta pode ser entendida como o resultado da própria estrutura da vida comunitária, da dependência mútua, numa rede de relações cruzadas, onde o desejo de uma comunhão conjunta, em que cada um encontra o realizar total do seu eu, adquire um papel importante na vida coletiva (Duverger, 1964/1977). O interesse de cada um contribuiu para o interesse de todos, onde homens integrados atenuam as suas paixões e reconhecem a dependência do apoio dos seus iguais, dando origem ao tecido social do qual fazem parte.
Pode-se dizer que as sociedades modernas são integradas na medida em que a aceitação dos princípios do governo de direito, separação de poderes, da liberdade de crença, associação e representação de interesses é indicativa de uma necessidade de integração destas sociedades. E mesmo aqueles que os querem alterar, aceitam fazer a sua luta política dentro desta concordância de legitimidade e das instituições que a constituem.