CAPÍTULO III! POLÍTICA, COMUNICAÇÃO E SOCIEDADE
3.2.4 – O G ÉNERO E PIDÍCTICO NO C OMÍCIO
Aristóteles, em Retórica, divide os géneros discursivos em deliberativo, judicial e epidíctico. O género judicial é caracterizado pela argumentação com vista à deliberação de um juiz ou tribunal, em defesa ou ataque de uma ação ocorrida no passado. Já o género deliberativo remete para uma ação futura, que pode ser conveniente ou prejudicial, tendo no discurso o papel de aconselhar ou dissuadir à sua adopção. Ambos os géneros são apresentados como verdadeiros combates para conquistar a adesão de um auditório a uma tese, sobre uma matéria que desperta controvérsia, com vista a resultar numa determinada ação. Por outro lado, o discurso epidíctico não é caracterizado por Aristóteles dessa forma. É entendido como uma celebração dos valores partilhados, aos quais ninguém num determinado grupo se opõe, remendo para o presente, através do elogio ou da censura, algo que se considera belo ou feio, virtuoso ou vicioso.
Por ter um carácter celebrativo, o género epidíctico acabou confundido como entretenimento, desprovido de consequência prática, no qual o auditório tinha um papel de espectador, que, após ouvir o discurso, aplaudia e regressava ao seu quotidiano. Aristóteles, em Retórica, identificava o seu papel de reconhecer valores, mas, faltando a referência à noção de juízo de valor e à intensidade da adesão, o discurso epidíctico acabou confundido, pelos teóricos do discurso que lhe seguiram, como um formalismo literário, que se afastava da argumentação. Devido à confusão do papel argumentativo do epidíctico, Perelman e Olbrechtstyeca (1958/2007) recuperam-no, recusando a ideia de que o epidíctico seja uma mera questão estética ou de beleza discursiva, sem consequências práticas:
“Ora nós pensamos que os discursos epidícticos constituem uma parte central da arte de persuadir e que a incompreensão manifestada em relação a eles resulta de uma falsa concepção dos efeitos da argumentação. (Perelman & Olbrechtstyeca, 1959, p.58)
Defende-se que o discurso epidíctico não é desprovido de efeitos na ação do auditório. Mesmo que a sua referência seja a um presente que se celebra, cria uma predisposição para uma ação que não deve ser ignorada. É de defender a posição que o louvor ou a censura, no discurso epidíctico, são uma
referência social. A comunidade celebra-se a si própria e fortalece a sua relação com os seus valores. O que leva a concluir que o género discursivo influência a prática enquanto impulsionador da decisão. Neste sentido é, também, ele argumentativo:
"Contrariamente aos géneros deliberativo e judicial, que se propõem obter uma decisão de ação, o epidíctico, tal como o discurso educativo, cria uma simples disposição à ação com que se pode aproximá-lo do pensamento filosófico. Se bem que esta distinção entre géneros oratórios nem sempre seja fácil de aplicar, ela apresenta, do nosso ponto de vista, a vantagem de oferecer um quadro unitário para o estudo da argumentação: toda a argumentação só se concebe, nesta perspectiva, em função da ação que prepara ou determina." (Perelman & Olbrechtstyeca, 1958/2007, p. 63)
Neste sentido, não se pode resumir o discurso epidíctico a uma mera contemplação dos valores que celebra uma comunidade. Deve ser entendido como um elemento importante para a materialização de uma vontade intelectual, ou seja, a passagem do intelecto para a ação, através do reforço da identificação com uma determinada tese ou ideia. Neste sentido:
“A intensidade da adesão, visando a ação eficaz, não pode ser medida pelo grau de probabilidade concedido à tese aceite, mas antes pelos obstáculos que a ação supera, os sacrifícios e escolhas que implica e que a adesão permite justificar. A existência de um intervalo de tempo, mais ou menos grande, entre o momento da adesão e o momento da ação que ela devia suscitar, explica suficientemente a intervenção no debate, anteriormente considerado como fechado, de certos valores esquecidos ou minimizados, de elementos novos que surgiram, talvez, depois da tomada de decisão. [...] É nessa perspectiva, porque reforça uma disposição para agir, aumentando a adesão aos valores que exalta, que o discurso epidíctico é significativo e importante para a argumentação.” (Perelman & Olbrechtstyeca, 1958/2007, p.58)
É o reforço desses valores que tem um contributo importante para a argumentação, pois permite que uma escolha já tomada se mantenha entre o tempo da tomada de decisão e a ação. O epidíctico existe porque os valores celebrados pertencem ao domínio das escolhas que não se encontram em discussão, sendo retomados pela palavra. Aquilo que ele traz de novo é a formulação em abstrato de valores
vividos a-tematicamente, conferindo, a quem toma a palavra, o papel de representar, no sentido mais nobre, a comunidade.
Neste sentido, o orador não deve ser entendido como um propagandista, que procura obter a atenção do público e realizar uma alteração das crenças sobre uma determinada matéria. Age, para a sua comunidade, num sentido oposto, como alguém que procura reforçar a adesão a algo que já está aceite, aumentando a resistência contra uma propaganda adversa. Tem como objetivo aumentar a adesão aos valores comuns ao auditório e ao orador, a partir dos quais o enquadramento das escolhas tem lugar. Assim, os valores não são um meio para uma decisão, mas um fim que se demanda. São uma comunhão, que permite o reconhecimento de um espaço comum, necessário para a legitimação daqueles que pretendem representar o grupo.
Enquanto representante do grupo, o orador necessita de um reconhecimento prévio, pois um discurso epidíctico corre o risco de roçar o ridículo se não for efetuado por alguém que detenha o prestígio para o fazer. O Ethos desempenha um papel importante, permitindo-lhe aparecer perante um auditório como o revelador dos seus valores, preparando ou determinando uma ação futura (Perelman & Olbrechtstyeca, 1958/2007). O líder aparece, no seu discurso epidíctico, como um educador, que unifica os argumentos da comunidade e reforça os seus laços, promovendo os valores que são objeto de comunhão.
E porque se trata de assegurar tudo o que pode favorecer a comunhão do auditório, o discurso epidíctico recorre dos elementos da arte literária. Enaltece os valores aceites pela comunidade, como que uma bênção sobre aquilo que o auditório considera como fundador e unânime. É neste sentido que, tal como referem Perelman e Olbrechtstyeca (1958/2007), o epidíctico assemelha-se mais a uma procissão do que a uma luta, apelando mais facilmente a uma ordem universal, ou uma divindade, que garanta que os valores se mantenham incontestados. Desta forma, pode considerar-se que o epidíctico contém características que se assemelham aos discursos religiosos, enquanto celebração dos valores que uma comunidade considera como fundadores da sua existência enquanto tal.
No caso do comício, este aspecto torna-se particularmente importante, já que, não sendo um debate de ideias, a argumentação não decorre no plano do confronto direto de argumentos opostos. O discurso decorre num contexto deliberativo, o da eleição, contendo elementos deliberativos que são incontornáveis. No entanto, o comício tem um formato celebrativo, em que o orador apresenta argumentos, que visam a reforçar os valores, que legitimam o seu papel de representante dos interesses dos indivíduos. Neste sentido, o género epidíctico revela um especial interesse para compreendermos a sua estrutura argumentativa. Reforça a comunhão da comunidade partidária em torno dos valores que permitem a identificação entre os seus membros, aproximando-os do centro partidário, aumentando a sua predisposição para colaborar com a organização.
Contrariamente a um debate, onde os oradores se confrontam diretamente com os seus adversários, e colocam os seus argumentos em confronto, num comício, o orador detém a oportunidade de falar, sem estar exposto aos argumentos da sua oposição política. Expõe os seus argumentos, aponta para a decisão futura, do voto, e intensifica o presente, através do reforço dos valores que compõem a comunidade. Deve conceber-se a argumentação do comício, não como uma alteração do sentido de aceitação para uma determinada tese, ou uma alteração do sentido de voto, mas como um reforço do sentido já existente, tendo o seu efeito pós-comício na defesa dos argumentos apresentados, na motivação para participar na luta partidária ou na motivação para concretizar a intenção de voto. É neste sentido que o discurso de um comício é argumentativo. Porque tende a modificar um estado de coisas existente, não pelo ataque a um pensamento, mas pela defesa dos valores que são alvo de ataque durante uma campanha eleitoral. Neste sentido, o género epidíctico é aquele que se enquadra no momento festivo e de comunhão que o comício representa, criando um discurso híbrido, que apresenta elementos deliberativos e celebrativos.
Rejeita-se a noção de que os elementos epidícticos do discurso de um comício sejam uma circulação de uma ideia sem qualquer consequência prática. No comício, o reconhecimento dos valores do partido permite o aumento da adesão por parte da sua comunidade. O discurso epidíctico é uma parte da persuasão política e deve ser enquadrada com o objetivo que lhe é dado num comício. Defendendo a visão perelmaniana, o discurso epidíctico desempenha um papel importante para as Relações Públicas na Política. Não é um mero elemento decorativo. Permite reforçar a adesão a uma tese, reduzindo o fosso entre a concordância com uma ideia e a manifestação de apoio a uma força política, através do voto, mas também pela participação nas ações oficiais de campanha e na mobilização, a título individual, de outras pessoas para o sufrágio eleitoral.
Desta forma, entende-se o comício, como um evento festivo, epidíctico, inserido no contexto deliberativo da campanha eleitoral, sendo que a argumentação que nele decorre não deve ser considerada como um mero entretenimento, mas como um reforço dos laços de identificação e de mobilização, através da expressão da identidade partidária. Considerar que, por não haver confronto direto de ideias, o discurso epidíctico, num comício, é um fenómeno de mero entretenimento, é ignorar o papel que tem no reforço da intensidade da adesão aos valores do partido, que apesar de serem reconhecidos isoladamente, poderiam não prevalecer diante de outros que viriam a entrar em conflito com eles (Perelman & Olbrechtstyeca, 1958/2007).
O carácter festivo do comício, inserido no contexto deliberativo da campanha eleitoral, cria uma dificuldade em se isolar os elementos deliberativos do discurso, daquilo que é o momento epidíctico de celebração dos valores partidários. Assim, entende-se que o comício é um espaço de defesa da comunidade e de um futuro idealizado. É o lugar sagrado do partido, vitalizador da sua identidade, mas que se insere num contexto de deliberação que se estende fora dela e ultrapassa a questão
discursiva. A comunhão é efetuada não só pelo discurso, mas pelo conjunto de elementos que permitem ampliar e valorizar os argumentos apresentados. É neste sentido que, por exemplo, o lugar ou dia simbólico representam elementos importantes para a argumentação. Ligam acontecimentos passados ao discurso proferido, reforçando os valores que se querem enaltecer.
N
o entanto, é fora daquela comunidade, num sentido de sociedade, como Plessner (1924/1999) apresenta130, que o comício pode aparecer como propaganda, devido à ausência da partilha dos valoresnele expressos. É neste sentido que para uma pessoa um determinado argumento pode ser “a verdade” e para outro ser categorizado como “apenas retórica”, no sentido negativo com que muitas vezes a expressão é usada para categorizar um argumento em que a forma é ilusória do seu conteúdo.
3.3 - A LEGITIMIDADE
Perceber a Política enquanto Ação, que decorre através do processo argumentativo, implica entender que esta decorre entre iguais, que se fazem compreender e que reconhecem a opinião uns dos outros como legítima. Para entendermos a prática das Relações Públicas na Política enquanto um processo de legitimação das organizações da vida política, que decorre de um processo argumentativo, devemos compreender a fonte dessa legitimidade na sociedade contemporânea. Desse modo, o presente subcapítulo recorre a um conjunto de abordagens que permitem compreender o Homem enquanto ser livre e criador de valores, que vê na sua vontade e no acordo entre iguais a fonte da legitimidade política.
Isto implica reconhecer que a Política, na sua forma moderna, decorre num plano cuja legitimação extra-política é intrinsecamente diferente da que encontramos na religião. A legitimidade da política moderna é fundada num plano de igualdade, que, como refere o filósofo belga Robert Legros (1999), traz consigo uma experiência do mundo substancialmente diferente daquela que encontramos nas sociedades que têm uma organização hierárquica como espinha dorsal da sua existência:
“Como é sabido, o advento da democracia manifestou-se pelo meio da conquista coletiva de uma igualdade entre cidadão, mais precisamente, de um igualdade dos cidadãos, enquanto homens, chamada, desde Tocqueville, igualdade das condições. […] Por outras palavras, a democracia adveio da invenção coletiva de uma forma de sociedade, na elaboração comum de
um modo de coexistência profundamente novo, fundado num princípio de igualdade dos cidadãos enquanto homens, num princípio de autonomia do homem enquanto tal e num princípio de independência individual.” (Legros, 1999, p. 8)
Porque nas sociedades democráticas os homens reconhecem-se como semelhantes e não reconhecem uma hierarquia natural entre eles, o debate é possível. Caso contrário, estariam condicionados à hierarquia natural que encontramos noutro tipo de sociedades (tanto primitivas como aristocráticas), onde a experiência humana provém de uma ordem a priori, que revela “o mundo” e dá ao Homem aquilo que ele compreende como natural. Uma sociedade democrática supõe que o Homem não é um mero revelador da ordem natural das coisas, mas um construtor dessa mesma ordem, que tem a legitimidade da sua Ação fundada na ausência de identificações coletivas que não a de uma noção igualitária de humanidade.
A Ação existe porque os homens reconhecem que a existência de uma autoridade legítima, que regula e é soberana sobre os destinos de uma sociedade, está assente na sua humanidade e na sua vontade enquanto criador. É através do consenso e compreensão que os indivíduos chegam a acordos e coexistem socialmente.
Falar em Ação é entender a Política, no sentido de gestão pública dos assuntos comuns, enquanto constitutiva da vida humana em sociedade. Dizer que qualquer sociedade humana é política é reconhecer que o princípio que funda a sociedade, o da humanidade, torna a política possível pelo acordo entre os seus membros e não por uma norma prévia à sua existência:
“Dizer que a sociedade humana é intrinsecamente política é dizer que o político […] não é uma dimensão que terá vindo juntar-se a uma sociedade humana prévia que terá sido natural […]. A dimensão política é consubstancial à coexistência humana, o que significa que não há sociedade humana alguma que possa deixar transparecer, antes da sua dimensão política, alguns traços naturais que a terão caracterizado antes de que em seu seio se constitua um poder. Tal como a ideia de um homem pré-social, a ideia de uma sociedade humana anterior ao nascimento de um poder […] só pode ser ou uma abstração ovaria ou uma ficção” (Legros, 1999, p.94)
A Política supõe, por um lado, poder, personificado na figura do Estado, e, por outro, compreensão, expresso nas relações entre os membros de uma determinada sociedade. Estas relações não são as de tipo animal, de uma ordem natural do mundo, comuns a todos os indivíduos, mas na relação de intencionalidade que tornam as coisas significantes. Como tal, as relações que o Homem estabelece nunca são naturais, mas humanas, no sentido que trazem consigo essa compreensão e intencionalidade. Com isto não se quer dizer que as sociedades democráticas libertam o Homem para a intencionalidade, mas que em toda e qualquer sociedade a compreensão humana está subjugada ao princípio pelo qual a ordem social é tida como natural: ou por uma autoridade fundada na vontade humana ou por uma autoridade de origem supra-humana.
É nesta autoridade que reside o poder dos governantes e dos políticos modernos. No entanto, a autoridade que regula uma sociedade pode ser de carácter hierárquico/tradicional (aristocrático) ou de carácter igualitário/moderno (democrático ou pós-revolucionário) O primeiro funda um Estado à imagem da lei natural do mundo, o segundo é assente na vontade do Homem e na soberania do Estado - essencial para o bem comum (espiritual e temporal dos homens, não podendo ser eliminado da sociedade, nem confundido com o conceito de “pátria” ou “nação”131) e tendo na Revolução Francesa
a alma histórica a partir da qual se pode fazer a sua distinção.
Estes dois tipos de legitimidade distinguem entre uma sociedade de lei única, de uma autoridade cuja fonte ultrapassa a vontade do Homem, e entre uma sociedade que origina várias ideologias políticas, que lutam entre si numa arena pública de significados na esfera da Ação. A primeira pode ser vista como uma contemplação do mundo, na qual a Política se reduz a um papel de instrumento a partir do qual essas leis naturais e que transcendem as relações humanas são aplicadas. Por outro lado, a segunda é uma legitimidade baseada na razão humana, passando os homens a ser, eles mesmos, autores e criadores de leis, que se emancipam de qualquer autoridade extrassocial - a autoridade passa a ser a do homem, ou seja, a do povo, que tem a sua vontade representada na lei e nos seus governantes.
131 A pátria corresponde a “terra dos pais”, a um território habitado por um povo, enquanto e que a nação precede o
estado e é a comunidade dos homens que descendem dos mesmos antepassado, expressando um vínculo temporal entre gerações e de descendência.