HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO
II- A integralidade e a homeopatia
No Brasil, a luta pela construção de um sistema de saúde universal, acessível e de qualidade se confunde, primeiramente, com a própria luta pela redemocratização do país e assume, no presente, contornos de resistência à guinada conservadora com relação às políticas públicas da última década.
O Estado deve englobar aspectos intrínsecos da dinâmica da sociedade e manter relação com a dimensão político–ideológica numa visão ampliada do processo saúde- doença. Além disso, deve assumir a integralidade como eixo norteador, uma nova forma de agir social em saúde, uma nova gestão de cuidados nas instituições de saúde (Luz e Pinheiro, 2007).
A questão da integralidade representa hoje o maior desafio nas práticas em saúde. Romper com formas cristalizadas de se entenderem e realizarem ações técnicas que conformam padrões de intervenção médica ou em saúde já tornados tradição é desafio cultural. Integralidade é o termo utilizado para designar uma das diretrizes do Sistema Único de Saúde instituído pela Constituição de 1988 e expressa um dos eixos de luta do movimento sanitário. No texto da Constituição, Brasil (1996), integralidade é definida como “conjunto articulado de ações e serviços de saúde, preventivos e curativos, individuais e coletivos, em cada caso, nos níveis de complexidade do sistema”. Entretanto, ultimamente, esse conceito é considerado polissêmico, adquirindo outras nuances e ampliando seu significado a partir da reflexão de pesquisadores da saúde.
O agir cotidiano nas instituições de saúde busca a construção de novas formas de agir social nas quais a integralidade pode se materializar como princípio, direito e organização de serviço. A integralidade em saúde, no sentido ampliado de sua definição, é entendida como “uma ação social que resulta da interação democrática entre os atores no cotidiano de suas práticas na oferta do cuidado de saúde, nos diferentes níveis de atenção do sistema de saúde” (Pinheiro e Luz, 2007, p. 19). Nesse sentido,
[...] as instituições de saúde assumem papel estratégico na absorção dos conhecimentos de novas formas de agir e de produzir a integralidade em saúde, na medida em que reúnem, no mesmo espaço, diferentes perspectivas e interesses de distintos atores sociais (médicos, dirigentes e usuários) (Pinheiro e Luz, 2007, p. 20).
Existem pelo menos três sentidos para o termo integralidade, no contexto da reforma sanitária brasileira. O primeiro se refere a atributos das práticas, o segundo sentido está relacionado aos aspectos da organização dos serviços e o terceiro, voltado para características de políticas ou de respostas governamentais a certos problemas de saúde. Os beneficiários das ações de saúde têm sempre um conjunto muito grande de necessidades em relação ao serviço, e uma das características das práticas de saúde pautadas na integralidade é a escuta ampliada das necessidades de qualquer sujeito (Mattos, 2003).
A integralidade como princípio orientador das práticas, sejam elas da organização do trabalho sejam elas da organização das políticas, implica recusa ao reducionismo, à objetivação dos sujeitos e talvez afirmação da abertura para o diálogo.
Conforme Pinheiro (2001), a integralidade é assumida como ação social resultante da permanente interação dos atores, na relação demanda-oferta, em planos distintos de atenção à saúde (plano individual – no qual se constrói a integralidade no ato da atenção individual; plano sistêmico – no qual se garante a integralidade das ações na rede de serviços), cujos aspectos subjetivos e objetivos sejam considerados.
Mattos (2004) diz que defender a integralidade é defender a intersubjetividade nas práticas de saúde do SUS, de modo que os profissionais de saúde se relacionem com sujeitos e não com objetos. Essas práticas envolveriam o diálogo, por meio do qual os profissionais de saúde poderiam identificar as necessidades de ações e serviços de cada sujeito com o qual se relacionam.
Lacerda e Valla (2007) acreditam que somente a escuta pode trazer a compreensão do sentimento, dos temores dos sujeitos e validar seu sofrimento. E Machado et al (2004) identificam que a busca pela homeopatia está associada à humanização, pois ela utiliza, como referência de tratamento, a busca do equilíbrio. Para tal, os usuários devem transformar suas atitudes frente à vida e se tornarem mais
conscientes e autônomos. Esse caráter emancipador da homeopatia pode ser focado sob o ponto de vista do cuidado individual, que está relacionado com a vida individual, privada, e sob o do cuidado coletivo, que se relaciona com as questões do agir social e valores associados à solidariedade, ao amor e à fé.
A homeopatia, para Machado et al (2004), é orientada para a percepção do próximo, constrói o agir social unido ao agir positivamente, como ações de solidariedade; o autor considera que fazer bem ao outro significa fazer bem a si mesmo. Tal perspectiva é pautada no amor ao próximo, inúmeras vezes influenciada pela fé em Deus. Aspecto esse, que mostra a integração de fatores culturais e éticos nas concepções e práticas de saúde vividas por meio da homeopatia.
O modelo saúde-doença-cuidado presente na homeopatia amplia a compreensão do processo saúde-doença e sofrimento, indo além da visão biologicista, ampliando a percepção dos sujeitos, tornando-os mais conscientes e autônomos em relação à vida (Lacerda e Valla, 2007).
Lacerda e Valla (2007) também deixam claro que os pacientes com queixas inespecíficas acabam por ir e vir de diversos serviços de saúde pública, a especialistas e realizam inúmeros exames médicos com a intenção de esclarecer o diagnóstico. Contudo, os profissionais de saúde identificam tais queixas como problemas relacionados com os determinantes psicossomáticos e econômicos e, na prática, não têm muito a oferecer a esses pacientes a não ser tratamentos sintomáticos como os psicofármacos.
Percebe-se que existe limite na racionalidade da biomedicina, para lidar com a complexidade do adoecimento e do sofrimento humano. De um lado, conforme a OMS (2001) visualiza, tem-se o modelo hegemônico de assistência que não consegue resolver os agravos psicossociais e, de outro, pacientes com maior número de queixas voltadas para esse agravo, procurando os serviços de saúde, para alívio desse sofrimento. Assim, compreende-se o desequilíbrio entre o que é demandado e o que é ofertado nos serviços de saúde.
A homeopatia, por ser centrada na terapêutica e não na diagnose, utiliza a narrativa do paciente como instrumento fundamental da consulta, exigindo que o médico se aperfeiçoe na arte de interrogar. Dessa forma, a relação médico-paciente é valorizada como recurso terapêutico, permitindo que o paciente, durante a anamnese homeopática, fale sobre suas dores e angústias, ampliando a compreensão de si mesmo (Luz, 1993).
Na homeopatia, então, a relação terapêutica resulta da necessária interação entre homeopata e paciente, sendo este último quem define a natureza do “encontro”, já que ele traz muito mais que suas queixas orgânicas. Importa, assim, ao profissional conhecer o sujeito, porque, somente dessa forma, far-se-á possível a análise do seu sofrimento que se apresenta como objeto final para o diagnóstico e para a escolha do medicamento.
Para o médico homeopata, é essencial conhecer o que faz o paciente sofrer, quais as conexões que ele faz da angústia com o corpo; em quais órgãos ou sistemas ele apresenta tendência de enfermar-se, quando o desequilíbrio se instaura; como é o seu sono; quais são os sonhos recorrentes; quais são os seus medos, as suas sensibilidades e as suas peculiaridades. Dessa forma, enquanto no paradigma biomédico o que caracteriza a doença ou a síndrome é o conjunto de sinais e sintomas comuns entre os indivíduos que a exprimem, para Hahnemann (1984), na homeopatia, ressalta-se o que é raro, estranho e peculiar, exatamente porque expressa a maneira particular de o paciente expressar seu sofrimento.
Portanto, o resgate da integralidade na assistência médica é a busca daquilo que a biomedicina deixou de fornecer, porque, ao se preocupar com a tecnociência, deixou de lado o contexto benévolo na relação médico-paciente, o valor da cura e do cuidar, encorajando expectativas positivas e solidariedade nos pacientes (Rosenbaum, acesso 2007).