PARA PESQUISAS COOPERATIVAS E
4 A INTERAÇÃO UNIVERSIDADE-EMPRESA NO BRASIL
4.2 A interação U-E na visão das empresas brasileiras
Quanto à localização, as 325 empresas que constituem a base de dados concentram-se em maior número nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, onde se localiza 79,7% das empresas. Setenta e sete empresas pesquisadas estão localizadas no estado de Minas Gerais, 60 no Rio Grande do Sul, 60 em São Paulo, 29 em Santa Catarina, 18 no Paraná e 15 no Rio de Janeiro, ficando os restantes 18,3% distribuídos nos de- mais estados brasileiros. Quanto ao tamanho, de acordo com o critério para empresas industriais do SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio as Micro e Pequenas Empresas, observa-se haver uma distribuição equi- librada, 34,2% são grandes, 31,4% são médias e 33,5% são classifica- das como pequenas e micro empresas. A origem do seu capital é pre- dominantemente privado nacional, 69,2 %, 12% privado estrangeiro, 5,8% empresas públicas e o restante de capital misto.
As empresas da base de dados foram classificadas de acordo com ramo de atividade, composta majoritariamente por empresas da indús- tria de transformação (62,8%), dividindo-se de maneira equilibrada en- tre as quatro categorias de intensidade tecnológica em que a OECD183
segmenta a atividade industrial.
Quanto à estrutura relativa à pesquisa e ao desenvolvimento das empresas, o número médio de empregados envolvidos nas atividades de P&D nas empresas da base de dados é de 28,5 empregados. Obser- vou-se que 84,4% empresas declararam que suas atividades de P&D são contínuas. Já 67,1% das empresas pesquisadas declararam possuir departamento de P&D.
As empresas pesquisadas apresentam relações duradouras, pois, 32,9% das empresas têm cooperação com universidades ou institutos de pesquisa por um período entre 5 e 10 anos e 34,9% das empresas afirma ter relações com universidades ou institutos de pesquisa há mais de 10 anos.
4.2.1 Razões da empresa para interação com universidades
As razões que levam à colaboração da empresa com a universidade podem ser diversas. Na Tabela 5 estão listadas as mais importantes, por ordem de importância, com a apresentação da média para as respostas das empresas brasileiras. Observa-se que a razão mais importante é a realização de testes necessários para produtos e processos da empresa, com média 2,71 pontos dos 4 possíveis, seguida da utilização de recur- sos disponíveis nas universidades e laboratórios de pesquisa, da busca de conselhos de cunho tecnológico ou consultoria para solução de pro- blemas relacionados à produção e, em quarta posição, da contratação de pesquisas que a empresa não pode realizar.
Considerando a taxonomia proposta por Arza184, podem-se classifi-
car as razões mais importantes para as empresas como passivas.
183 OECD. Science, Technology and Industry Scoreboard. Paris: OECD Publications, 2003. 184 ARZA, op. cit., p.3.
TABELA 5 – Razões da colaboração da empresa com universidades
Razões para colaboração
com universidades importânciaMédia da padrãoDesvio importante% *
Realizar testes necessários para
produtos e processos da empresa 2,71 1,238 63,1
Utilizar recursos disponíveis nas
universidades e laboratórios de pesquisa 2,68 1,150 61,8 Buscar conselhos de cunho tecnológico
ou consultoria com pesquisadores e/ou professores para solução de problemas relacionados à produção.
2,65 1,184 59,8
Contratar pesquisas que a empresa
não pode realizar 2,64 1,301 57,5
Transferência de tecnologia
da universidade 2,62 1,200 59,8
Contratar pesquisas complementares, necessárias para as atividades inovativas da empresa, em
universidades e institutos de pesquisa
2,61 1,254 58,5
Aumentar a habilidade para encontrar e absorver informações tecnológicas
2,56 1,173 57,2
Conseguir informações sobre engenheiros ou cientistas e/ou tendências de P&D nas áreas científicas
2,35 1,142 46,8
Fazer contatos com estudantes de
excelência para futuro recrutamento 2,15 1,133 37,2 Receber ajuda no controle
de qualidade 1,87 1,068 28,0
* Percentual de respondentes que atribuíram 3 (moderadamente importante) ou 4 (muito importante).
Fonte: Elaborado pelos autores com base em base de dados da Pesquisa Nacional Interação Universidade-Empresa.
Dadas as respostas das empresas, pode-se observar que há uma maior preocupação na busca de recursos, conforme prevê o trabalho de Bonac- corsi e Piccaluga185, bem como na ampliação da capacidade de desenvolver
tecnologia com menor investimento, menor prazo e menores riscos, corro- borando Geisler186. Entretanto, diferentemente da teoria revisada nesse ar-
185 BONACCORSI; PICCALUGA, op. cit., p. 3 186 GEISLER, 2001, op. cit., p. 3.
tigo, não se percebeu uma preocupação das empresas em aumentar o po- der preditivo da ciência que Bonaccorsi e Piccaluga34 sugerem.
4.2.2 Tipos de interação com universidades
As empresas assinalaram a importância dos tipos de interação com universidades, cujas médias são apresentas na Tabela 6, por ordem de im- portância. Observa-se que a pesquisa realizada em conjunto com a univer- sidade é a o tipo de interação mais importante para as empresas brasileiras, com média de 2,94 pontos dos 4 possíveis, seguida das interações com uso de publicações e relatórios, da contração de pessoal da universidade, das conferências públicas, da troca informal de informações, da pesquisa enco- mendada à universidade e da consultoria com pesquisadores individuais.
TABELA 6 – Fontes de informação de universidades
Tipo de interação com
universidades importânciaMédia da Desvio padrão importante% *
Pesquisa realizada em conjunto
com a universidade 2,94 1,156 68,0
Publicações e relatórios 2,90 1,051 69,2
Pessoal contratado com graduação
ou pós-graduação 2,73 1,144 62,5
Conferências públicas e encontros 2,67 1,012 61,2
Troca informal de informações 2,67 1,051 61,5
Pesquisa encomendada à universidade 2,52 1,185 54,2 Consultoria com pesquisadores
individuais 2,45 1,139 52,3
Participação em redes que envolvam
universidades 2,36 1,174 48,0
Patentes 2,10 1,140 32,9
Parques científicos e/ou tecnológicos 2,03 1,149 36,3
Tecnologia licenciada 2,02 1,045 32,9
Intercâmbio temporário de pessoal 1,95 1,075 32,9
Incubadoras 1,71 0,999 24,8
Empresa pertencente a uma
universidade 1,52 0,901 15,4
Empresa é spin-off da universidade 1,48 0,880 14,8 * Percentual de respondentes que atribuíram 3 (moderadamente importante) ou 4 (muito importante).
Observa-se que interações que têm importante apoio em termos de es- trutura posta à disposição das empresas, tais como parques científicos ou tecnológicos, incubadores, empresas pertencentes à universidade ou spin-
-off da universidade, apresentaram pouca importância para as empresas.
Chama a atenção, também, a baixa importância das relações com a universidade com uso de informações sobre patentes.
4.2.3 Impacto das interações universidade-empresa nas empresas
Para perceber o desempenho tecnológico, as empresas foram ques- tionadas quanto à introdução de produtos e processos novos ou aperfei- çoados nos últimos três anos. Quando das respostas pelas empresas ao questionário, essa questão permitia que fosse assinalada mais de uma alternativa, caso a empresa tivesse introduzido mais de um tipo de ino- vação nos últimos três anos. Assim, para a análise, foi considerada ape- nas a resposta de maior grau de inovação. A Tabela 7 apresenta o desem- penho relativo a produtos, em que se observa que 9,85% das empresas não realizaram nenhum aperfeiçoamento ou desenvolvimento de pro- duto novo, 12,31% realizaram aperfeiçoamento de produto existente, 25,54% introduziram produto novo para a empresa, 31,38% produto novo para o país e 19,08% produto novo para o mundo. Seis empresas não responderam à questão.
TABELA 7 – Introdução de produtos novos ou aperfeiçoados nos últimos três anos
Tipo de inovação em produto Frequência %
Nenhum produto novo 32 9,85
Aperfeiçoamento de um produto já existente 40 12,31 Produto novo para a empresa, mas não para o país 83 25,54 Produto novo para o país, mas não para o mundo 102 31,38
Produto novo para o mundo 62 19,08
Não respondeu 6 1,84
Fonte: Elaborado pelos autores com base em base de dados da Pesquisa Nacional Interação Universidade-Empresa.
Com relação à inovação em processos, a Tabela 8 indica que 7,7% das empresas não realizaram nenhum desenvolvimento de processo novo,
27,38% aperfeiçoaram processo existente, 30,46% desenvolveram proces- so novo para empresa, 20% processo novo para o país e 11,08% processo novo para o mundo. Onze empresas não responderam à questão.
TABELA 8 – Introdução de processos novos ou aperfeiçoados nos últimos três anos
Tipo de inovação em processo Frequência %
Nenhum processo novo 25 7,70
Aperfeiçoamento de um processo já existente 89 27,38 Processo novo para a empresa, mas não para o país 99 30,46 Processo novo para o país, mas não para o mundo 65 20,00
Processo novo para o mundo 36 11,08
Não respondeu 11 3,38
Fonte: Elaborado pelos autores com base sem base de dados da Pesquisa Nacional Interação Universidade-Empresa.
Observa-se que entre as empresas pesquisadas a inovação em pro- duto está mais presente do que a inovação em processos.
5 POSSIBILIDADES DE FORMAÇÃO DE REDES