PARA PESQUISAS COOPERATIVAS E
7 DIREITOS E DEVERES
Os textos escritos tiveram como foco principal os direitos das crian- ças. Maciçamente mencionados, esses se centralizam no reconhecimento da paternidade (ter um nome), no direito à família e à escola. Também fo-
ram destacados os direitos de se alimentar, brincar, cantar, dançar e fazer higiene pessoal. Elas assim se expressaram: “As crianças de Cabo Verde têm muitos direitos: devem ser alimentadas, educadas, respeitar os outros, estudar, cantar, brincar, tomar banho, etc.”; “as crianças têm direito a um nome, a crescer e a desenvolver de maneira saudável, a conhecer os pais, a não ser separados da família, a alimentar, a instrução básica/elementar, a não trabalhar prematuramente, etc”. Acredita-se que a escola venha de- senvolvendo um trabalho importante na divulgação de seus direitos.
Foi contundente a referência à paternidade, que elas exprimiram as- sim: “A criança deve ter direitos que são estudar, ter um nome, ter um pai”; “para ser criança em Cabo Verde é preciso ter um pai, uma mãe ou alguém da família para ser feliz”. A ênfase dada por elas à necessidade de ter um “nome”/paternidade levou à busca de um documento oficial sobre esses direitos. O Relatório Nacional contém as seguintes explicitações:
o “Direito de Registro e ao nome” está previsto no artigo 4.1.2. Como um dos mais importantes direitos humanos previstos pelo Relatório nacional de direi-
tos humanos, este acaba por se consubstanciar num pressuposto para a existên-
cia e gozo dos outros direitos.
O direito ao nome implica o direito ao registro, ou seja, à existência civil, habilitadora da capacidade jurídica das pessoas. Segundo o Rela-
tório, o governo tem estimulado o registro em até 30 dias depois do nas-
cimento, dispensando qualquer despesa para efetuá-lo, porém, “dados recentes apontam que para crianças de 0 a 1 ano a percentagem de re- gistros não declarados é quase de 40%”189. No que diz respeito ao direito
a não ser afastado e direito a ser cuidado pelos pais, a Constituição da
República de Cabo Verde, no art. 82º-6, determina: “os pais devem
prestar assistência aos filhos menores ou incapacitados”.
Buscou-se também compreender o papel do pai e a configuração da família cabo-verdiana com base em outras pesquisas realizadas no ar- quipélago. A organização familiar foi estudada num ensaio escrito por Andrea de Souza Lobo denominado: “Famílias espalhadas: circulação e
189 CABO VERDE. I Relatório nacional de direitos humanos. Praia: Comissão Nacional para os Direitos Humanos e Ci- dadania, 2010b. Disponível em: <http://www.un.cv/files/reldh.pdf>. Acesso em: 2 out. 2012.
movimento na configuração de maternidades e paternidades em Cabo Verde”. A autora afirma que há uma particularidade em Cabo Verde: “as noções de paternidade e maternidade são definidas por relações de pro- ximidade e distância”. Trata-se, continua, de contexto familiar com for- tes traços da matricentralidade associada à família cabo-verdiana, que, contudo, simultaneamente
empurra as mulheres para a emigração na Europa; de famílias que percebem o binômio mãe-filho como o vínculo mais importante, porém separam-se em nome da reprodução familiar; famílias que têm a crian- ça como valor fundamental, mas que as colocam para circular entre ca- sas e localidades; famílias que constroem a ideia de parentesco por rela- ções de partilha e proximidade, mas vivem os relacionamentos paren- tais à distância.
Constatou-se que cabe à mãe trabalhar para manter o filho na esco- la, inclusive na universidade. Ainda sobre a família, foi esclarecedor o trabalho realizado por Dijanira Santos, que, por sua vez, aponta que há duas estruturas familiares que se sobrepõem em Cabo Verde: a família extensa ou alargada (composta ou poligâmica) e a família restrita (mo- noparental ou incompleta). A autora afirma ainda que a família extensa ou alargada “é muito comum em todo o arquipélago, formada pelo pai, mãe, filhos aos quais se agregam outros parentes como avô e/ou avó, tio e/ou tia, primo e/ou prima, onde os vínculos da solidariedade, conveni- ência, divisão do mesmo espaço sobrepõem aos de consanguinidade e da transmissão do patrimônio”. A família restrita é constituída sobretu- do pelo par reprodutor e seus filhos e a monoparental ou incompleta muito frequente nas ilhas é composta pela viúva, mãe solteira ou mulhe- res separadas dos companheiros por questões sociais ou econômicas”.
Apesar de terem enfatizado o direito à paternidade, é interessante observar que nas pesquisas mencionadas fica evidente o lugar central na família ocupado pelas mulheres. Andréa Lobo constata que a questão da maternidade em Cabo Verde não se restringe à figura da mãe bioló- gica, a quem a criança chama de “mãe”, mas inclui também a avó mater- na (a “mamã”), que “aguenta” a criança, cuidando do seu alimento, cama,
casa, bens e valores (escola inclusive) quando a mãe viaja para outro pa- ís em busca de trabalho.
Além disso, sabe-se que em Cabo Verde foi implantado desde 1985 o programa SOS Aldeia. Tal programa foi criado pelo austríaco Her- mann Gmeiner, em 1949, para dar assistência às crianças órfãs de guer- ra, e lhes conferia uma “mãe social”. Posteriormente foi ampliado aten- dendo crianças de países subdesenvolvidos. Em Assomada, no momen- to da coleta de dados desta pesquisa, havia 64 crianças recebendo esse tipo de assistência - em cada casa, sob a responsabilidade da “mãe so- cial”, moravam 8 crianças.
Foi possível participar de uma assembleia ocorrida por ocasião do evento comemorativo da presença da Aldeia SOS em Cabo Verde, no qual, duas crianças, líderes, mencionaram as necessidades das crianças, entre as quais o reconhecimento da paternidade e o direito de frequen- tar a escola. Na plateia, moradores da cidade assistiam e alguns manifes- taram preocupação com a ênfase dada aos direitos e com a “ausência” de menção aos deveres das crianças.
Retirada a película que cobria a apresentação de um país idealizado, abrem-se as cortinas... as crianças perceberam que no cotidiano a vida não era bem como elas haviam afirmado num primeiro momento. E de- monstraram suas preocupações, inquietações e solidariedade diante das dificuldades observadas, como das crianças que encontram nas ruas, abandonadas, a esse respeito expressaram: “A coisa que eu mais desejo na- quelas crianças é ter uma família”; “Eu estou com a minha família e fico a pensar nas outras que não têm família”; “A minha opinião, eu acho que to- das as mães que gosta dos seus filhos dá carinho, amor estudos, educação, respeito e tenta fazer as crianças felizes”. De acordo com Lobo, “a avó acu- mula funções de administração de esferas da vida dos netos que normal- mente ficariam a cargo da mãe - por exemplo, na relação com a escola”. A mãe biológica, ainda de acordo com a autora, encarrega-se de sustentar materialmente os filhos e avós que cuidam deles.
Em alguns textos, as crianças passam a aprofundar seu descontenta- mento: “os direitos das crianças cabo-verdianas estão a ser violados por-
que na cidade de Praia a maioria das crianças estão a sofrer péssimas con- sequências”; “em Cabo Verde há violência que são: a violar e atacar as crianças”; “a vida da criança em Cabo Verde é um pouco difícil porque es- sas violações que eles estão fazer com as crianças e os roubos é por isso que as mães têm medo de deixar as crianças andar sozinha”. Percebem que “alguns dos direitos das crianças não são respeitados e estão a fazer muita destruição... das crianças que vivem nas ruas; as criança de Cabo Verde não estão a ter um direito porque estão a ser bandidos e menino de rua, por isso eles não estão a ser respeitados”. Entre os direitos “violados” estão: “conhecer os pais, a instrução básica elementar e outros que não es- tão mencionados na minha composição”; “as crianças que estão atraves- sando problemas domésticos relacionados a Cabo Verde invariavelmente apresentam problema na escola e no grupo social ao qual pertencem.”
E acrescentaram que há dificuldade de diálogo: “As crianças podem se recusar a falar sobre esses problemas com o adulto que cometeu a agressão, quanto com familiares e professores. Falta-lhes confiança nos adultos de modo geral”. Transgressões e comportamentos antissociais são mencionados: “a vida das crianças é muito importante porque roubam nas escolas, estão a fugir e não conta à mãe o que se passa”; “algumas crianças estão felizes porque estão com as famílias, outras crianças não estão felizes porque há crise de fome”; “eu acho que os direitos das crianças em Cabo Verde estão sendo violados porque toda criança tem direito de uma família, de crescer porque eu vejo muitas crianças na rua a chorar de fome, de sede e muitas não podem, querem estudar e não podem porque não têm famílias e não têm materiais escolares”.
Também demonstram sua combatividade e solidariedade, afirman- do: “Cada criança tem o direito de viver e por isso vamos lutar para con- seguir.” E, além disso, foi possível perceber uma referência indireta à di- ferença de gênero que os familiares teriam particularmente em relação às meninas, dando a entender que existem violações dos direitos, inclu- sive, que elas estariam sujeitas a violências sexuais, diante do que os fa- miliares fazem restrição às suas saídas, limitando-as a irem da “casa à escola” e vice-versa.
As crianças ainda mencionaram o respeito que têm pelos mais ve- lhos e o prazer que lhes dão “as histórias contadas pelos idosos da comu- nidade, à noite”. Em Assomada as conversas e histórias vão até a hora em que são desligados os motores, quando a cidade fica às escuras. E, final- mente entre os valores salientaram o direito a dançar, cantar, brincar e fazer higiene corporal. Embutidos nos direitos, foi possível observar os valores/deveres a eles associados: o respeito, a solidariedade com os mais velhos quer no ambiente escolar, familiar e mesmo perante seus pares, entre os quais os moradores de rua. Observa-se ainda um papel importante dos idosos e da escola na transmissão da história de Cabo Verde. As crianças declararam possuir orgulho de sua história e raízes: “eu tenho orgulho de minhas raízes”!
Nesse sentido, a escola fornece um suporte significativo para a formação da identidade cultural – nessa escola onde foi realizada a pesquisa, foram observadas frases, desenhos do mapa de Cabo Verde no piso, onde as crianças brincavam de “amarelinha”, cartazes refe- rentes ao Arquipélago, etc. Além disso, adiciona um status social àqueles que a frequentam e possibilita às crianças um sentimento de pertença à sociedade crioula. Conseguir uma vaga na escola signifi- ca para elas não “ficar nas ruas”, não correr riscos “com drogas, não passar fome”.
O direito à educação está assegurado entre os direitos culturais e mencionado no I Relatório Nacional de Direitos Humanos, onde se lê, no artigo 3.3.1 “I. Enquanto direito social no sentido amplo da palavra, o direito à educação encontra-se previsto no Pacto Social Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais.” No parágrafo II, artigo 4.1.1, consta:
II. Por sua vez, a Constituição da República de Cabo Verde contém um conjunto diversificado de preceitos que podem ser considerados como base de um Direito Interno das Crianças (ao nível fundamental). Neste sentido, o legislador consti- tuinte reserva um dispositivo para os direitos das crianças (art.74), outro para os direitos dos jovens (art.75) bem como garantias constitucionais, que contêm re- flexos subjectivos, da família (art.82; arts. 87-88), paternidade e maternidade (art. 89) e infância (art. 90).
Ainda no mesmo artigo, aponta que a escolaridade é obrigatória e o “acesso é garantido a todas as crianças, tendo o ensino básico obrigató- rio sido generalizado a todo o país”. As crianças imputam às famílias e ao governo a responsabilidade de garantirem uma escola para todos. E criticaram: “Eu acho que o Ministério de Educação está a fazer um pés- simo trabalho porque as crianças pobres têm direito de aprender, não é só o ministério de educação”; “algumas crianças estão a ser marginais porque os pais não lhe dão uma educação como é preciso, daí o governo deve tomar algumas medidas para melhorar essa condição.”