3 ESTUDOS E ABORDAGENS SOBRE LER/DORT
ANO ACONTECIMENTO
3.4 A Interferência do ambiente de trabalho
RUIZ (1998), intriga-se com o fato de quais seriam as verdadeiras causas que levariam ao crescimento e proliferação das LER/DORT em todo o mundo. Segundo ele, existem muitas tentativas de explicação para tal fator, sendo que, uma das mais pertinentes está, provavelmente, vinculada a uma grande mudança na organização do trabalho.
A maneira de organizar o trabalho vem mudando dia a dia e a exploração do trabalho tem aumentado exponencialmente a cada década, seja por fins de produção, produtividade ou por motivos socioeconômicos, RUIZ (op. cit).
O fato é que desde dos anos 30 o número de movimentos repetitivos na indústria cresceram, ao passo que as folgas e o tempo livre diminuíam (fatores inerentes aos sistemas de produção propostos por Taylor e Ford).
Mesmo não tendo sido devidamente registrado na literatura médica, o número de doenças ocupacionais, como LER/DORT ocorridos no primeiro século da industria com certeza não seria tão assustador quanto hoje, RUIZ (op. cit).
Esta teoria ganha força, diante da indústria moderna que ainda se utiliza os métodos propostos pelo Taylorismo8 e Fordismo9 para estruturar os seus sistemas produtivos. O chamado "tempo morto" da jornada de trabalho - que é o período no qual o trabalhador não está executando sua tarefa fim, apesar de estar sendo remunerado - é praticamente zero. Ou seja, hoje, oito horas de trabalho são efetivamente oito horas trabalhadas, sem tempo para ir ao banheiro, fumar um cigarro, ou trocar uma conversa com o companheiro do lado. Isto, para os capitalistas, foi muito bom, pois além de aumentar a produção, ainda desarticula os trabalhadores, que adoecem cada vez mais e organizam-se cada vez menos.
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Sistema de produção baseado na Administração Cientifica da Produção de F. W. Taylor.
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3.5 Diagnóstico da LER/DORT
Legalmente, o termo doença ocupacional envolve dois significados: Doença Profissional e Doença do Trabalho. O primeiro designa doenças cujo nexo causal é legalmente reconhecido e o segundo termo, doenças cuja relação com a situação de trabalho deve ser comprovada. De um modo ou de outro as doenças ocupacionais pressupõe uma conexão entre a moléstia e a situação de trabalho, o que conceitua nexo causal. (MENEGON & BERNADINO, 2002).
Segundo os autores, os procedimentos médico-periciais para o reconhecimento técnico do nexo causal entre a doença e o trabalho, são estabelecidos pelo Instituto Nacional de Seguridade Social-INSS e são os seguintes:
a) A história clínica e ocupacional, decisiva em qualquer diagnóstico e/ou investigação do nexo causal;
b) O estudo do local de trabalho;
c) O estudo da organização do trabalho; d) Os dados epidemiológicos;
e) A literatura atualizada;
f) Ocorrência de quadro clínico ou sub-clínico em trabalhador exposto a condições agressivas;
g) A identificação de riscos físicos, químicos, biológicos, mecânicos, estressantes, e outros;
h) O depoimento e a experiência dos trabalhadores;
i) Os conhecimentos e as práticas de outras disciplinas e de seus profissionais, sejam ou não da área de saúde.
A LER/DORT vem, cada vez mais, acometendo setores secundário e terciário da produção em vários ramos de atividade, como o setor bancário ou a área de saúde e estendendo-se a todas as atividades expostas a traumas cumulativos, as DORT motivaram inúmeros estudiosos em todo globo, desde a década de 1970 (MAZONI, MARÇAL & MENDES, 2002).
Vários outros estudos seguiram linhas como a de Fergunson, que, em 1971, avaliou telegrafistas, funcionários do serviço de telecomunicações da Austrália, encontrando taxas de
prevalência de 14% para cãibra e 5% para dores musculares nos membros superiores; LUOPAJARVI, em 1979 (apud, MAZONI, MARÇAL & MENDES, 2002), comparou prevalências de sintomas como tensão muscular ou dor em diversos segmentos dos membros superiores em operários de linha de montagem e balconistas finlandesas. Os mesmos autores apontam que, MAEDA em 1982, realizou um estudo de operadores de máquina registradora no Japão, relataram prevalência de 4,4% de tendinites, detectadas por meio de exame clínico e entrevista, em trabalhadores norte-americanos em sete ramos de atividades; ou HIGGS et al., em 1993, que procuraram descrever a influência da idade sobre os quadros de LER/DORT; dentre inúmeros outros estudos. Os autores concluem que, como se pode notar, estes estudos abrangiam profissionais empregados em grandes empresas, não contemplando os profissionais liberais ou autônomos como: dentistas, médicos ou fisioterapeutas, e que só em 1974, surgia um novo método de diagnóstico médico, segundo a Associação Médica Americana, que reconhecia o diagnóstico por ultra-sonografia, embora haja relatos de sua utilização 10 anos antes do seu reconhecimento.
Embora melhorias tenham sido feitas nos aparelhos iniciais de diagnóstico por ultra- som, ainda há indícios de sintomatologias músculo-esquelético decorrentes de atividades que fujam as análises e aos testes propostos acima.
A crescente demanda de trabalhadores, com estas patologias, vem causando polêmica entre os profissionais de saúde, já que as LER/DORTs não são diagnosticadas corretamente e o tratamento muitas vezes é fragmentado e realizado por profissionais que desconhecem os fatores da lesão, sua fisiopatologia e suas conseqüências sociais.
COUTO (2000) afirma que hoje se espera um considerável aumento dos casos de LER/DORT, pois até agora as medidas relacionadas à prevenção, tratamento e reabilitação tem-se mostrado, na maioria dos casos, ineficientes.
Para caracterização de um quadro clínico da LER/DORT, é necessário definir o nexo com a atividade laboral por meio da anamnése ocupacional, exame clínico, relatório do médico responsável pela assistência ao paciente e visita a empresa.
Quanto ao diagnóstico, estabelece-se que deva ser individualizado a cada uma das lesões, sendo o exame clínico o critério principal para caracterizá-lo. Reconhece-se a dor como elemento imprescindível para sua caracterização salientando a importância de se obter informações a respeito do início, localização, intensidade e duração.
Além dos procedimentos estabelecidos pelo Conselho Federal de Medicina - CFM, o INSS recomenda incluir nos procedimentos e no raciocínio médico-pericial a resposta a dez questões:
a) Quanto à natureza da exposição: o “agente patogênico” é claramente identificável pela história ocupacional?
b) Há o registro do “estado anterior” do trabalhador segurado?
c) O conhecimento do “estado anterior” favorece o estabelecimento do nexo causal entre o “estado atual” e o trabalho?
d) Existem outras evidências epidemiológicas que reforçam a hipótese de relação causal entre a doença e o trabalho presente ou pregresso do segurado?
A resposta positiva à maioria destas questões irá conduzir o raciocínio na direção do reconhecimento técnico da relação causal entre a doença e o trabalho.
Segundo autores como MOTA (1999), MORAES (1992), MARÇAL (2002) entre outros, causas ambientais, psicosociais e físicas, contribuem para o surgimento ou agravamento de uma conexão entre o trabalho, de qualquer natureza, e as diversas doenças ocupacionais.
Veremos a seguir, de forma mais detalhada, quais poderiam ser estes fatores contribuintes:
Causas Ambientais:
Segundo MORAES & PEQUINI (2000) e MORAES & MONT’ALVÃO (2000), em uma análise do sistema homem máquina, cabe considerar o ambiente físico – iluminação, ruído, temperatura e mobiliário - como fator gerador ou agravante de problemas ocupacionais relacionados ao trabalho.
MOTA (1999), MORAES & PEQUINI (2000), GRANDJEAN (1998) e IIDA, (1998), apresentam diversas recomendações para iluminação, cores, temperatura, acústica e humanização do ambiente de trabalho em estações informatizadas.
Causas Psicológicas:
RIO (1998), MORAES (1992) e MOTA (1999), apresentam as causa psicossomáticas como um dos fatores geradores de LER/DORT. Eles atribuem ao stress psíquico, induzido por certas condições de trabalho e principalmente econômico-social, o aparecimento de quadros clínicos musculoesqueléticos.
Dentre estes fatores podemos citar: a insatisfação no trabalho ou função que o indivíduo realiza ou outro fator que gere monotonia, falta de autonomia, falta de suporte por parte da organização e falta de coleguismo. Podendo estes gerar quadros psicossomáticos favoráveis ao aparecimento de problemas físicos.(BORGES apud RIO, 1993).
MELO FILHO (1992), acredita que o número de doenças relacionadas aos fatores psicossomáticos podem ser inúmeras. No entanto dados epidemiológicos, já identificados em consultórios e clínicas, apontam que cerca de 25% dos casos de LER/DORT, estão relacionados com a morbidade psíquica dos pacientes.
WILKINSIN (apud MELO FILHO, 1992), afirma que a percentagem de morbidade psíquica não detectada em clínicas da Inglaterra é de 33 a 60 % dos casos.
Segundo RIO (1998), se limitarmos o tema de um estudo, exclusivamente a fatores patológicos, perceberia-se que várias das patologias hoje estudadas pela medicina do trabalho tem íntima relação com o stress psíquico. O desgaste ao qual as pessoas são submetidas nos ambientes e nas relações com o trabalho, são fatores dos mais significativos no diagnóstico destas doenças. Acredita-se que isto não escapa ao conhecimento médico, mas o espaço e a importância dedicada aos aspectos psicológicos na anamnése, ainda, é muito pequeno.
MELO FILHO (1992), conclui que: as relações de estresse são naturais e até mesmo necessárias à própria vida; no entanto, sob algumas circunstâncias elas podem se tornar prejudiciais ao funcionamento do indivíduo.