5 O EFEITO “GRAU MÁXIMO”
5.1 O que é um adjetivo?
5.1.4 A interpretação de todo + AG versus a de muito+ AG
Propomos que todo sempre “carrega” a escala associada ao sintagma em sua restrição com o grau máximo. O resultado é que AGs que têm leitura mínima, como os pólos positivos de escala fechada no grau mínimo, após a modificação por todo têm leitura de escala fechada no grau máximo. Primeiro, vejamos como os adjetivos são sem todo:
(451) A: Não posso usar meu vestido favorito: está sujo! B: Ah, está só um pouquinho sujo; nem dá pra ver. (452) A: Deixe a porta aberta, por favor!
B: Só vou encostar, mas não vou trancar, o.k.? (453) A: Essa cortina está manchada.
B: Está falando desta manchinha aqui? É quase imperceptível! (454) A: Eu pedi uma camisa branca lisa, e você me traz uma estampada!
B: Nem considero esta camisa estampada; ela só tem o logotipo da empresa, neste canto.
(455) A : Não precisa regar hoje, porque a chuva deixou o jardim molhado. B: Choveu tão pouquinho! É melhor molhar.
162 Nos diálogos acima, não há contradição, porque esses adjetivos só requerem que o indivíduo de que predicam apresente a propriedade num grau superior a zero. Essa é a leitura de grau mínimo. Mas, após a modificação por todo, para a verdade da proposição se requer que o indivíduo apresente a propriedade relevante no maior grau. Não é mais bastante apresentar a propriedade em certo grau. As réplicas dos diálogos anteriores não são mais apropriadas. Todo muda a interpretação:
(456) Meu vestido favorito está todo sujo!
(457) Ao sair, deixe a porta toda aberta, por favor! (458) Essa cortina está todinha manchada.
(459) Eu pedi uma camisa branca lisa, e você me traz uma toda estampada! (460) Não precisa regar, porque a chuva deixou o jardim todinho molhado!
Esse efeito de todo sobre as escalas também é notado em adjetivos de escala aberta: (461) (a) João ficou chateado. → qualquer grau de aborrecimento
(b) João ficou todo chateado. → máximo grau de aborrecimento (462) (a) Dora está toda animada. → nunca vi Dora mais animada que agora
(b) Dora está animada. -/→→→→ nunca vi Dora mais animada que agora
Como todo modifica um adjetivo absoluto? Todo toma uma escala fechada no grau mínimo em sua restrição e devolve uma escala completamente fechada. No caso de um adjetivo relativo, todo “mede” o grau com que o indivíduo exibe a propriedade por alguma dimensão inerente do indivíduo; por exemplo, em (461)(b), nenhuma informação sobre a situação em que João foi visto chateado pode interferir no grau de aborrecimento com que ele é descrito; e, em (462)(a), além de o grau de animação não poder ser rebaixado por nenhuma informação contextual, ainda há a inferência de que em todas as outras vezes em que o falante considerou Dora animada, ela estava animada num grau inferior ao desta vez. O grau máximo é típico de escalas completamente fechadas; e a impossibilidade de manipulação contextual dos valores é típica de parâmetros absolutos. Independentemente do tipo de AG modificado, ou seja, tanto se o AG é absoluto quanto se o AG é relativo, o produto da modificação por
todo, é, uniformemente, uma escala fechada; e como toda escala fechada, o sintagma adjetival
complexo tem parâmetro absoluto.
Vamos ver agora de que tipo é o produto da modificação por muito. Qual é a diferença, por exemplo, entre “muito sujo” e “todo sujo”, ou entre “muito aberta” e “toda aberta”? Por concretude, vamos examinar uma situação que um carro tenha ficado na garagem, pegando poeira, por três dias. Há algum pó sobre ele, mas por dentro está
163 impecável; os cinzeiros estão limpos etc. Comparando o estado atual do carro aos estados anteriores, o dono lhe atribui, numa escala de sujeira, o equivalente a 20%. Nessa situação, a sentença (463) é necessariamente falsa, porque requer que o carro esteja 100% sujo; mas a sentença (464) pode ser verdadeira ou não:
(463) O carro está todo sujo. (464) O carro está muito sujo.
Para o dono do carro, um grau abaixo de 50% da máxima sujeira em que ele já viu seu carro não se qualifica como “muito sujo”. E ele só costuma levar o carro para lavar quando ele está “muito sujo”, o que, para ele, significa estar entre 55% e 100% da escala. Portanto, no julgamento dele, dada a situação, (464) é falsa. O filho dele pede o carro emprestado. O pai empresta, mas o filho, ao constatar que há pó sobre o carro, decide não usá-lo, pois está “muito sujo” em sua opinião. O pai o interpela, zangado, mas o filho explica que vai sair pela primeira vez com uma garota. Esclarecido, o pai concorda com o filho que o carro está “muito sujo”, ou seja, não está limpo o suficiente para impressionar bem a garota.
O pai mudou de opinião porque “muito sujo” é um conceito relativo, que depende de um parâmetro suprido pelo contexto, e, por isso, manipulável. O estado do carro não mudou. Para o uso corriqueiro, o carro, naquele estado, não se qualificava como “muito sujo”. Para a finalidade de impressionar uma garota, o carro, no mesmo estado, se qualifica como “muito sujo”. “Muito sujo” não precisa ser maximamente sujo, então: o carro em questão tinha só 20% da sujeira que poderia chegar a ter.
O fato de, com um parâmetro, “muito sujo” ser verdadeiro do indivíduo, e, com outro, ser falso, mantido o mesmo estado para o indivíduo, com o mesmo valor (20% do máximo), mostra que o complexo “muito” + adjetivo é relativo; se é relativo, tem escala aberta. Muito modifica qualquer tipo de adjetivo; o produto da modificação é sempre uma escala aberta, e tem sempre parâmetro relativo. O parâmetro (a referência contra a qual o argumento do AG é comparado quanto ao grau da propriedade exibido) pode ser abertamente realizado:
(465) (a) A banheira está muito cheia para dar banho no bebê. (b) A banheira está muito vazia para mim.
(466) (a) Seu vestido favorito está muito limpo para um vestido deixado no armário há tanto tempo.
(b) Meu vestido favorito está muito sujo para ser usado! (467) (a) Esse brinquedo é muito seguro para a altura que atinge.
164 (468) (a) João é muito alto.
(b) João é muito baixo.
O parâmetro nem sempre é explicitado, mas é sempre possível, mudando as circunstâncias, alterar a verdade de sentenças com muito + AG. A montanha russa mais alta do mundo pode ser considerada “muito segura” pelo engenheiro que a construiu, e que a testou segundo as leis da física e da mecânica, mas ser “muito perigosa” na opinião da mãe do menino de oito anos que insiste em subir nela.
Como é característico de leituras relativas, muito pode marcar um grau acima de um parâmetro, e esse parâmetro pode vir explicitado, na sentença, como o grau mínimo (o menor grau suficiente) para certa finalidade. Todo não é feliz em sentenças com parâmetros explicitados, porque a leitura de grau suficiente não é compatível com a de máximo grau:
(469) (a) O sofá é muito largo para passar pela porta. (b) *O sofá é todo largo para passar pela porta. (470) (a) A porta é muito estreita para deixar o sofá passar.
(b)*A porta é toda estreita para deixar o sofá passar. (471) (a) A praia é muito comprida para ser percorrida a pé.
(b) *A praia é toda comprida para ser percorrida a pé.
Então chegamos ao seguinte quadro, que exibe complementaridade total: Tabela VI – Todo + adjetivo vs. muito + adjetivo
PARÂMETRO NÃO-TRIVIAL/ RELATIVO manipulável pelo contexto
TRIVIAL/ ABSOLUTO impermeável ao contexto
FECHADA todo+ adjetivo
E S C A L A
ABERTA muito + adjetivo