5 O EFEITO “GRAU MÁXIMO”
5.3 Complexidade estrutural e informação lexical no domínio
Analisaremos, agora, como todo reage à complexidade estrutural no domínio das escalas. Vimos que todo opera sobre dois tipos de denotações nominais cumulativas: os NNs, indefinidos; e as DDs, que são extensões mensuradas. Demonstraremos que as denotações cumulativas do domínio das escalas também apresentam diferenças de complexidade estrutural, que redundam na divisão entre denotações indefinidas e definidas, estas, como extensões mensuradas, constituindo denotações quantizadas com partes.
Para Kennedy & McNally (2005), uma escala pode ou não apresentar um elemento máximo ou um mínimo definido. Isso leva aos tipos possíveis de escala. As escalas fechadas são denotações definidas/quantificadas com partes (os graus). As escalas abertas apresentam partes e são indefinidas131.
Todo é sensível a essas diferenças de escala. Uma evidência é o posicionamento do
quantificador em relação ao adjetivo: tal como quando modifica NNs, todo modificando escala aberta tem posição fixa. O único lugar em que todo pode ser inserido em (480) é imediatamente antecedendo o AG. Por outro lado, tal como ocorre quando todo modifica DDs, a posição de todo não é fixa com AGs de escala (semi ou completamente) fechada, como vemos em (479) e (481):
(479) (Toda) A casa (toda) é (toda) grande: a sala é grande, a cozinha é grande, o quarto é grande...132
(480) O menino está todo triste./*Todo o menino está triste./*O menino todo está triste. (481) (Todo) O apartamento (todo) está (todo) vazio.
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Há escalas semi-fechadas, isto é, com apenas um elemento (ou o mínimo ou o máximo) intrinsecamente definidos; voltaremos a elas mais adiante.
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171 A interpretação de todo também depende da distinção entre as escalas. Com adjetivos de escala aberta, como “triste”, em (480), todo faz o papel de um intensificador e pode ser substituído por “muito”. Já com adjetivos de escala completamente fechada, como “vazio”, em (481), todo é um distribuidor/integralizador: distribui a propriedade denotada pelo AG pelas partes do indivíduo, podendo ser substituído por “cada”, “inteirinho” ou “completamente”.
Vimos que, com AGs dimensionais ou de escala semi-aberta, como o AG em (479),
todo nem sempre é feliz (cf. (475) e (478)). Interagindo com essa escala intermediária, todo
“oscila” entre o seu comportamento com escalas fechadas e seu comportamento com escalas abertas, na dependência de o sintagma nominal atender à s-seleção do AG: todo funciona como um integralizador da dimensão/propriedade nominalizada (482), mas nem sempre atua como intensificador do AG (o.k. em (475), mas não em (483)):
(482) O “Homem Aranha” galgou toda a altura do edifício Itália.
(483) *O edifício Itália é todo alto. (vs. “O edifício Itália é muito alto”)133
A tradição contrapõe os modificadores restritivos aos não-restritivos (ou explicativos). Os restritivos são subdivididos em intersectivos e não-intersectivos134. Numa semântica de graus, essa diferença é captada em termos de como é definido o padrão de comparação usado para mapear o indivíduo a um grau da escala.
De acordo com Kratzer (2004, p.41), um AG como “alto” tem a referência de padrão de altura definida discursivamente: “The projections of gradable adjectives like tall, for
example, are usually assumed to contain a possibly non-overt degree phrase providing a standard value for tallness”. Por isso, uma sentença com esse AG pode ser falsa segundo um
padrão discursivamente fixado, e verdadeira segundo outro (Zola pode ser alta para um animal e baixa para uma girafa). Complementarmente, a verdade de uma sentença com um AG como “cheio” não varia com o contexto de uso, porque o ponto máximo de “completude” é fixo para dada entidade: esse grau é intrinsecamente definido por uma dimensão do indivíduo que o AG toma por argumento. Adjetivos como “alto” são chamados de relativos; adjetivos como “cheio” são chamados de “absolutos”. O teste da ressalva (484)(a) vs. (484)(b)
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Trocando a DDS pela DDP, a sentença fica perfeita: “Os edifícios são todos altos”; nessa sentença, a leitura de todo integralizador (= “Todos os edifícios do conjunto são altos”) é mais fácil que a de intensificador (= “Os edifícios são muito, muito altos”).
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Modificadores intersectivos são divisíveis em dois termos predicativos: “Tom é um gato cinza” equivale a “Tom é um gato e Tom é cinza”. O acarretamento não vale para modificadores não-intersectivos: “Jumbo é um pequeno elefante e um grande animal” não é contraditório, e “Jumbo é um pequeno elefante” não equivale a “Jumbo é um pequeno animal”. (adaptação de Heim & Kratzer 1998, p.68-69).
172 e (485)(a) vs. (485))(b) distingue os dois tipos de fixação de grau máximo. O grau máximo de “cheio” resiste a modulações (cf. (484)(a) e (485)(a)); o de “alto” é adaptável ao contexto, aceitando a troca da referência para o grau máximo de altura (cf. (484)(b) e (485)(b)).
(484) (a) #A piscina está cheia, mas ainda está abaixo do nível máximo. (b) João é alto, mas ainda está abaixo da altura média americana. (485) (a) #A piscina está cheia, mas ainda cabe muito mais água nela.
(b) João é alto, mas ainda vai crescer muito mais.
Vimos que, numa DDmass, se a medida não vier abertamente realizada, ela será saturada pelo contexto; paralelamente, a verdade de uma proposição com AG relativo, como “João é alto” (484)(b) e (485)(b)), varia conforme se tome como referência o padrão de altura de meninos de 12 anos ou o padrão de altura de americanos adultos. A variação no domínio nominal é de cardinalidade/quantidade (tamanho da soma), pelo preenchimento contextual da medida em SMs; a variação no domínio das escalas é a posição relativa do grau a que é mapeado o argumento do AG (superioridade ou inferioridade em relação ao grau de um parâmetro), dada pela fixação contextual das referências na escala relevante. O fenômeno de modulação contextual pareia adjetivos relativos a nomes de massa, e adjetivos absolutos a nomes contáveis. Para Kennedy & McNally (2002), a distinção relativo/absoluto é de origem lexical, tal como tradicionalmente é tratada a distinção massivos/contáveis e a divisão entre estados e eventos no domínio das eventualidades.
Segundo Kennedy & McNally (2005), AGs de escala (semi ou completamente) fechada são absolutos; AGs de escala aberta são relativos.135 Os autores mostraram que modificadores de grau reagem à natureza da fixação do valor-padrão para a definição do grau máximo a que o indivíduo será mapeado na escala. A distinção entre “very” e “much” está aí. “Very tall” define que o grau de altura do argumento é o superior do intervalo de que ele participa na escala, segundo um critério discursivamente relevante (Zola é alta para uma girafa ou para um animal); já o padrão para a definição do alto grau de talento em “much
talented” é intrínseco (dependendo só das características do argumento do AG) e não varia
com o contexto. Além disso, os DegMs do inglês, como já foi apontado no início desta seção, distinguem entre tipos de escala: os itens “much” e “very” selecionam escalas sem um elemento máximo definido, enquanto “well” seleciona escalas completamente fechadas.
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Portanto, dado tomarmos “escala aberta” como o correspondente à ausência de determinante no domínio nominal, prevemos que AGs relativos serão sempre denotações cumulativas indefinidas, não-atômicas; e prevemos que AGs absolutos serão denotações quantificadas e, eventualmente, atômicas. Voltaremos a isso.
173 Em PB, a nosso ver, a complementaridade entre DegMs é diferente. Intensificadores como muito modificam quaisquer AGs, relativos ou absolutos136. Em PB, não há DegMs que se combinem a AGs relativos, mas não a absolutos, como “very” faz137. Todo (integralizador) seleciona AGs absolutos; todo (intensificador) seleciona AGs de escala fechada no grau mínimo e AGs de escala aberta sem unidade de medida associada138.
Esse fato espelha o que ocorre no domínio das entidades: não temos conhecimento de nenhum determinante em PB que selecione exclusivamente nomes de massa, não aceitando nomes contáveis. Em inglês, “much” faz, no domínio nominal, a seleção exclusiva de nomes de massa, paralelamente a “very”, que seleciona AGs relativos em detrimento dos absolutos. Essa língua tem operação singular sobre nomes contáveis mesmo na ausência de determinantes. Com a distinção entre contáveis e massivos ocorrendo antes da determinação, a especialização em nomes de massa é natural. Paralelamente, o inglês também tem DegMs especializados em AGs relativos. Já numa língua em que a quantização só ocorre na sintaxe aberta, e em sintagmas de determinante, como o PB, não faz sentido haver um determinante que selecione exclusivamente massa. Paralelamente, também não há em PB um DegM que selecione apenas AGs relativos. A sensibilidade a propriedades semânticas não é idêntica para as duas línguas139.
Em nossa visão, escalas fechadas são estruturas da mesma complexidade de sintagmas de determinantes; escalas abertas comparam-se a nomes nus.
5.4 AGs Dimensionais e atomicidade
Dissemos que AGs dimensionais comparam-se a nomes contáveis, pois, como ilustrado em (475) e (478), podem constituir predicados atômicos. Quando as DDs na restrição de todo são atômicas em relação ao AG dimensional em seu escopo nuclear, todo tem posição fixa na sentença (cf. (480)). Nessa posição fixa, interna a VP, todo é intensificador: vale por “muito”.
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“Muito” só não modifica adjetivos sem grau, como os dos exemplos de (472) a (474).
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Exemplos de Kennedy: (i) The coffee at the airport is very expensive. (AG relativo); (ii) ??The door is very open. (AG absoluto)
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“Altura” pode ser medida em metros ou pés; “felicidade” não conta com uma unidade-padrão de medida.
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Defenderemos nesta tese que a distinção divisora de águas em PB não é singular vs plural ou contável vs massivo, mas atomicidade vs não-atomicidade, que é o mesmo que incrementalidade vs não-incrementalidade.