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Como a seleção dos modificadores de grau em PB se compara à do inglês

No documento O EFEITO GRAU MÁXIMO SOBRE OS DOMÍNIOS: (páginas 167-172)

5 O EFEITO “GRAU MÁXIMO”

5.1 O que é um adjetivo?

5.1.3 Como a seleção dos modificadores de grau em PB se compara à do inglês

Vamos montar um quadro de complementaridade em PB, quanto à seleção de modificadores de grau, pois o nosso objetivo é descrever a estrutura interna do domínio das escalas e a que características dessa estrutura os DegMs do PB são sensíveis. O correlato de

“well” em PB é bem, que também apresenta uma leitura de modo/maneira (429) e uma leitura

de grau (430). Todo é o melhor candidato a correlato de “much”, pois, como intensificador, amplifica o grau de adjetivos, como vemos pela diferença entre (431) e (432). Quanto a

“very”, a tradução óbvia é muito, apontado como um DegM por Doetjes (1997).

(429) O apartamento foi bem decorado. (430) Ela é bem bonita.

(431) Maria chegou contente. (432) Maria chegou toda contente.

Encontrados os três DegMs para o PB, a primeira observação é que não há uma seleção categorial como a do inglês; o uso dos DegMs do PB é muito mais livre. Todos modificam adjetivos participiais/deverbais (433), dois deles participam de construções com

157 morfologia de grau abertamente realizada (comparativos e superlativos) (434), e todos modificam formas positivas de adjetivos (435):

(433) bem feito/ muito merecido/ todo preocupado

(434) bem mais protegido que.../ muito menor que…/ *todo mais sujo que… (435) bem sujo/ muito sujo/ todo sujo

A ambigüidade de bem entre a leitura de maneira (em que bem pode ser substituído por “mal”) e a de intensificação (aumento de grau ou quantidade, em que bem pode ser substituído por “um bom tanto de”) parece seguir outra divisão em PB: particípios que formam “target state passives

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” (cf. KRATZER, 2000) aceitam modificação de grau em PB (p. ex., “preocupado”, “aberto”, “interessado”, “conhecido”); particípios que formam “resultant state passives” (“feito”, “comprado”, “inventado”, “nascido”) não aceitam modificação de grau122, talvez porque eles não tenham grau; provavelmente não sejam AGs em PB. Assim, pelo que sabemos, a leitura de grau de bem está disponível para todos os AGs; ela só está indisponível para adjetivos sem grau. A leitura de maneira está restrita à categoria dos particípios, pois é uma modificação sobre o evento e os estados dele resultantes; ela não pode estar disponível para modificação de adjuntos/“advérbios” (por exemplo, “nós moramos bem perto”). A todo particípio corresponde uma escala fechada pelo menos no grau mínimo, dado que, para que o particípio se aplique ao indivíduo de que predica, a mudança de estado

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Kratzer (2000) defende que a culminância de um evento pode produzir duas mudanças de estado distintas: (1) Eu estiquei o fio → o fio agora está esticado (“target state”)

(2) Eu estiquei o fio → naquela situação, o fio foi esticado por mim (“resultant state”)

Kratzer propõe que há dois tipos de passivas. A passiva de “target state” descreve um novo estado do tema que não é permanente; por exemplo, o fio pode embaraçar outra vez. A passiva de “resultant state” associa a uma situação um evento de mudança de estado; mesmo com o fio embaraçado novamente, ou muito tempo depois, ainda será verdade que, na situação relevante, esse fio participou de um evento em que “eu” fiz algo que mudou o estado dele para esticado. Passivas “target state” não aceitam agentes da passiva (3). Em alemão, a “target state” e a “resultant state” se distinguem pelo tipo de auxiliar (respectivamente “sein”e "werden”); só a “target state” aceita modificação pelo advérbio “immer noch”. Em PB, as passivas “target state” se caracterizam pelo auxiliar “estar” (3); e as “resultant states”, pelo auxiliar “ser” e por não aceitarem o advérbio “ainda” na leitura de duração temporal de um estado (4):

(3) O fio ainda está esticado (*por mim) (“target state”) (4) O fio (*ainda) foi esticado por mim (“resultant state”) Observe-se a distribuição de bem com leitura de grau:

(5) O fio está bem esticado (“target state”) (leitura de grau para bem)

(6) # O fio foi bem esticado por mim (“resultant state”) (leitura de modo para bem) (7) # O artigo foi bem escrito por ele (“resultant state”) (leitura de modo para bem)

(8) # O dinheiro foi bem empregado por você (“resultant state”) (leitura de modo para bem) (9) O carro está bem rodado (“target state”) (leitura de grau para bem)

(10) #O carro foi bem avaliado pelo vendedor (“resultant state”) (leitura de modo para bem)

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Por exemplo, esses particípios não podem entrar em comparativas: *“Este carro foi menos comprado que o outro”/ *“O artigo da Kratzer está mais feito que o da Doetjes”. Uma exceção é “bem morto”; mas essa expressão, inegavelmente, com bem modificador de grau, assim como “morreu de morte matada ou de morte morrida?”, tem um sabor idiomático.

158 tem de ter ocorrido pelo menos até certo ponto (como defendido por Kennedy e Mcnally, 2005). Os particípios que formam “target states passives” predicam do tema incremental do evento e passaram por uma mudança completa de estado, mas apresentam o estado-alvo num grau padrão para aquele tipo de evento. Bem muda o grau de médio ou padrão para um grau alto, mas não (necessariamente) máximo. Particípios que formam “target states passives” medem o grau da propriedade exibido pelo indivíduo (que foi tema da mudança de estado) após a mudança de estado ter se operado. Mas os particípios que formam “resultant states

passives” medem o grau da completude da mudança, ou seja, quanto falta para a culminância

do episódio, apresentando uma escala completamente fechada. O grau de completude do episódio não pode ser elevado, porque já é o máximo.

Então podemos concluir que a leitura de maneira de bem é a única possível de se obter com particípios que não são AGs associados a propriedades de indivíduos, mas que marcam o estado produzido por uma escala totalmente fechada, relativa à dimensão temporal do processo de transição para o estado-alvo. Mais precisamente, bem (o pólo oposto de “mal”) opera exclusivamente sobre particípios com escalas fechadas no grau máximo, porque a mudança de estado está 100% completa. Como “well”, bem de maneira se compõe com uma função de medida sobre o progresso de eventos em direção à sua culminância (não há leitura de maneira com estados, em “Maria é bem bonita” ou *“João odeia bem política”).

Sem dúvida, escalas fechadas (numa só ponta que seja) estão relacionadas a parâmetro absoluto. Bem (leitura de maneira) replica a seleção de “well” para inglês, então, quanto à natureza do parâmetro; bem de maneira não modifica AGs de parâmetro relativo. Quanto ao tipo de escala, bem de maneira só modifica escalas fechadas no grau máximo.

E quanto a bem de grau? Parece disponível para modificar qualquer expressão que tenha grau, sejam modificadores adjuntos/“advérbios” (“bem perto”, “bem rápido”), particípios (“bem cansado”, “bem assado”) ou adjetivos em formas positivas (“bem fácil”, “bem lindo”); e até confere leitura de grau (de intensificação) a expressões ordinariamente desprovidas de grau (há um programa chamado “Bem Brasil”; dizemos “a caneta estava bem aqui há 5 min” etc.). Aparentemente, bem (intensificador) não seleciona mais que graus! Não há escala nem parâmetro que ele não modifique:

(436) (a) A banheira está bem cheia. (escala completamente fechada, parâmetro absoluto) (b) A banheira está bem vazia.

(437) (a) Seu vestido favorito está bem limpo no armário. (escala fechada no grau mínimo, parâmetro absoluto)

159 (438) (a) Esse brinquedo é bem seguro. (escala fechada no grau máximo, parâmetro

absoluto)

(b) Esse brinquedo é bem perigoso.

(439) (a) João é bem alto. (escala completamente aberta, parâmetro relativo, tem unidade de medida: metros, pés)

(b) João é bem baixo.

(440) (a) Maria chegou lá bem animada. (escala completamente aberta, parâmetro relativo, não tem unidade de medida)

(b) Maria saiu de lá bem desanimada.

O resultado (bem+AG) é a saturação da escala num grau alto, acima da média, mas não no grau máximo; e a leitura é relativa (estar “bem animado” não significa necessariamente ter atingido o último grau de animação; estar “bem animado” não é o mesmo que estar maximamente animado).

Vamos examinar a seleção de muito. “Very” só modifica AGs de parâmetro relativo; se muito for assim, esperamos que ele possa substituir bem apenas em (439)/ (440), que exemplificam AGs de escalas abertas e de parâmetro relativo.

(441) (a) A banheira está muito cheia. (escala completamente fechada, parâmetro absoluto)

(b) A banheira está muito vazia.

(442) (a) Seu vestido favorito está muito limpo no armário. (escala fechada no grau mínimo, parâmetro absoluto)

(b) Meu vestido favorito está muito sujo!

(443) (a) Esse brinquedo é muito seguro. (escala fechada no grau máximo, parâmetro absoluto)

(b) Esse brinquedo é muito perigoso.

(444) (a) João é muito alto. (escala completamente aberta, parâmetro relativo, tem unidade de medida: metros, pés)

(b) João é muito baixo.

(445) (a) Maria chegou lá muito animada. (escala completamente aberta, parâmetro relativo, não tem unidade de medida)

(b) Maria saiu de lá muito desanimada.

Então muito e bem (intensificador) não distinguem escalas ou parâmetros? Como vamos poder definir que elementos do domínio das escalas importam para os modificadores de grau do PB? Vamos examinar a seleção de todo intensificador:

(446) (a) A banheira está (*?toda) cheia. (b) A banheira está (*?toda) vazia

(447) (a) Seu vestido favorito está (*?todo) limpo no armário. (b) Meu vestido favorito está todo sujo!

160 (b) Esse brinquedo é (*todo) perigoso.

(449) (a) João é (*todo) alto. (b) João é (*todo) baixo.

(450) (a) Maria chegou lá toda animada. (b) Maria saiu de lá toda desanimada.

Todo é o mais seletivo dos modificadores de grau. Entre os AGs de parâmetro

absoluto, todo modifica apenas as escalas fechadas no grau mínimo. Isso está de acordo com a análise de todo como um saturador de grau máximo. A argumentação que Kenendy & McNally levantaram para o “degree booster” do inglês, “much”, cabe perfeitamente: se o grau máximo já está saturado, não pode ser saturado novamente. Daí todo não modificar escalas fechadas no grau máximo (tanto as completamente fechadas (446)(a/b) quanto as abertas no grau mínimo (448)). De parâmetro absoluto, sobraram apenas as escalas fechadas apenas no grau mínimo (447); o adjetivo de pólo positivo (“sujo”) requer qualquer quantidade acima de nada de sujeira; “todo sujo” significa “sujo no máximo grau” ((447)(a)); o pólo negativo não pode ser modificado porque “limpo” significa “grau zero de sujeira”; esse significado e a marcação do grau máximo na escala são contraditórios ((447)(b)). Quanto aos adjetivos de parâmetro relativo, todo só pode modificar aqueles cujas escalas não têm uma unidade de medida associada; por exemplo, “altura” pode ser medida em metros ou pés; todo não pode modificar os adjetivos “baixo” e “alto”, ligados a essa escala (449); mas pode modificar os adjetivos de parâmetro relativo e de escala aberta que não contam com um sistema de medida dedicado, como é o caso de avaliativos de disposição ou estado emocional como “animada/desanimada” (450).

Todo parece promissor como um guia para entender a seleção dos DegMs em PB. Ele

faz a mesma seleção que “much” quando se trata de AGs de escalas (parcial ou totalmente) fechadas, de parâmetro absoluto: seleciona apenas escalas fechadas no grau mínimo. A diferença entre “much” e todo diz respeito a AGs de parâmetro relativo: todo modifica AGs de escala aberta sem unidade de medida associada; “much” é complementar a “well” na seleção de parâmetros; mas todo não seleciona um parâmetro em detrimento do outro.

Aonde chegamos com a seleção dos DegMs do PB, então? Vamos resumir as posições dos mais seletivos, bem (leitura de maneira) e todo, na tabela V:

161 Tabela V – DegMs do PB PARÂMETRO NÃO-TRIVIAL EXTRÍNSECO/ VAGO RELATIVO

manipulável por contexto

TRIVIAL

INTRÍNSECO/ FIXO ABSOLUTO

impermeável ao contexto

(1) TOTALMENTE FECHADA bem (maneira)

(2) PARCIALMENTE FECHADA todo

(3.1) TODA ABERTA com medida

E S C A L A

(3.2) TODA ABERTA sem medida todo

Mesmo deixando de lado bem intensificador e muito, que teriam de ser inseridos em todas as posições da tabela V, o quadro que obtivemos apenas com os mais seletivos, bem de maneira e todo, ainda não mostra uma complementaridade completa, nem entre escalas abertas e fechadas, nem de parâmetro, visto que bem de maneira é especializado em parâmetro fechado, mas todo pode modificar AGs de parâmetro relativo ou absoluto (desde que não tenham medida-padrão associada). Há duas interpretações para esse resultado: (i) ou a estrutura do domínio das escalas não é a proposta para Kennedy & McNally em PB e/ou os DegMs do PB não servem como ferramenta para traçar esse domínio; ou então (ii) a complementaridade descrita para o argumento dos DegMs do inglês aparece em PB de outra forma. Vamos explorar a segunda opção, comparando todo + AG a muito + AG.

No documento O EFEITO GRAU MÁXIMO SOBRE OS DOMÍNIOS: (páginas 167-172)