• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO II ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA NO CONTEXTO DA

2.2 A intertextualidade nos romances de José Saramago

Numa definição ampla, entendemos por intertextualidade, o processo que se constitui pela utilização ou recuperação de um texto já existente para a produção de um novo texto. Para que consigamos apreender e compreender a intertextualidade nesse novo texto, precisamos conhecer o primeiro. A intertextualidade é estudada em diversos campos e disciplinas e também sob diversas perspectivas teóricas. Tais estudos tiveram origem na Linguística Textual e na Teoria Literária, sendo que o conceito – proposto por Kristeva e já apresentado ao público francês logo após a sua tradução do livro Poética de Dostoiévski (1970) – teve como base o postulado bakhtiniano de dialogismo: o de que não se pode produzir ou compreender um texto sem estabelecer um diálogo com outros textos produzidos anteriormente. Lembremo-nos de Bakhtin:

O texto só ganha vida em contato com outro texto (com contexto). Somente neste ponto de contato entre textos é que uma luz brilha, iluminando tanto o posterior como o anterior, juntando dado texto a um diálogo. Enfatizamos que esse contato é um contato dialógico entre textos... por trás desse contato está um contato de personalidades e não de coisas (BAKHTIN, 1986, p.162).

A intertextualidade é, pois, um critério fundamental para a textualidade, pois se insere no conjunto das características de um texto, permitindo sua interpretação. Além disso, põe fim à antiga visão do texto como uma mera sequência de frases. E até mais, se pensarmos no texto literário, nosso objeto de estudo:

Pois a intertextualidade não é só um outro nome para os estudos das fontes ou das influências, ela não se reduz à simples constatação que os textos entrem em relação (intertextualidade) com um os mais textos (o intertexto). Ela engaja uma reflexão sobre nosso modo de compreensão dos textos literários, nos leva a ver a literatura como um espaço ou uma rede, uma biblioteca se assim quisermos, na qual cada texto transforma os outros que o modificam também por sua vez (RABAU 2002, p. 15).

Como já dissemos, a obra como um todo de Saramago possui muitos traços de originalidade; por esse motivo, o escritor é considerado um dos

maiores romancistas da atualidade mundial. De todas as características inovadoras de sua obra, destacamos mais uma: a intertextualidade, baseada no uso frequente da paródia. Para Machado (2013, p.31)8, “[…] a paródia pode ser classificada entre os fenômenos da heterogeneidade [...]. A pesquisadora admite a captação e a imitação de um gênero e sua subversão”. Logo, percebemos nesse fenômeno linguageiro a presença da hipertextualidade (hipertexto e hipotexto, como já foi especificado anteriormente).

Identificar esses outros textos no texto saramaguiano não é tarefa fácil. Nem sempre o autor previne o seu leitor sobre seus “jogos linguageiros”, e esse último pode muitas vezes nem identificá-los. A intertextualidade se faz mais presente em alguns romances de Saramago do que em outros. Seja como for, os textos saramaguianos dialogam bastante com textos bíblicos, entre outros. Para exemplificar a intertextualidade com a Bíblia, observemos este fragmento do livro analisado:

A mulher do médico tinha perguntado, Que se terá passado com os bancos, não que lhe importasse muito, apesar de ter confiado suas economias a um deles, fez a pergunta por simples curiosidade, apenas porque o pensou, nada mais, nem esperava que lhe respondessem, por exemplo assim, No princípio, Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas, em vez disso, o que sucedeu foi o velho da venda preta dizer enquanto seguiam avenida abaixo, Pelo que pude saber quando ainda tinha um olho para ver, no princípio foi o diabo, as pessoas com medo de ficarem cegas e desmunidas, correram aos bancos para retirarem os seus dinheiros, achavam que deveriam acautelar o futuro [...] (SARAMAGO, 1995, p. 253-254).

Esse trecho contém uma passagem do Gênesis, nas linhas 5, 6 e 7. Mas a ela segue-se a ironia, quando o narrador “convoca” o senhor cego, da venda preta: no interior da fala deste, vê-se que Deus foi trocado pelo Diabo no momento da evasão de dinheiro.

A aproximação do autor com o processo intertextual nos revela que existe uma literatura experimental, na qual transita uma dimensão crítica do ser humano, sem perder de vista uma criatividade de aparência inovadora, apesar de em toda literatura haver a presença de textos anteriores ao texto de origem.

8 Tradução nossa de:« la parodie peut être classée parmi les phénomènes d’hétérogénéité[...]. Elle admet la captation et l’imitation d’un genre ou d’un contenu, et sa subversion. »

Todas as paródias, independentemente de serem irônicas ou não, têm uma função: a de aproximar o romancista da tradição literária.

Posteriormente, no capítulo 3, iremos tratar mais detalhadamente dessa categoria, que constitui um dos planos da semântica global de Maingueneau (2008).

Para finalizar esta seção, apresentamos, a título de ilustração, um exemplo da presença marcante da intertextualidade em Ensaio sobre a cegueira: trata-se da parábola do cego, retratada na pintura de Brueguel (1568), em que temos um cego guiando outros cegos.

O trecho a seguir confirma a presença dessa intertextualidade com a pintura: “[...] ou teria de suceder-lhes o mesmo que os cegos da pintura, caminhando juntos, caindo juntos e juntos morrendo.” (SARAMAGO, 1995, p. 125). A grande diferença é que, no romance de Saramago, os cegos são guiados pela mulher que vê.

Figura 2. A parábola do cego de Bruegel:1568. Museo Nazionale Capodimonte, Nápoles.

Fonte: Disponível em: <>. Acesso em: 20 nov. 2015. http://www.auladearte.com.br/historia_da_arte/brueghel.htm#axzz3uuaDmyqz

2.3 Ensaio sobre a cegueira: uma reflexão no âmbito da literatura