1.2 O PRINCÍPIO DA LIBERDADE E A SECULARIZAÇÃO COMO SUA GARANTIA
1.2.5 A laicidade como garantia da liberdade religiosa
O Estado laico vige no Brasil desde 7 de janeiro de 1890, com a edição do Decreto n. 119-A, que proibiu a intervenção das autoridades federais e dos Estados federados em matéria religiosa, impedindo a expedição de leis, regulamentos ou atos administrativos que estabelecessem ou proibissem algum credo religioso, consagrando a plena liberdade de culto. A laicidade foi recepcionada pela Constituição Federal de 1988 em seu art. 19, inciso I, que veda a todas as entidades da federação o estabelecimento de cultos religiosos e a subvenção ou o embaraçamento de seu livre funcionamento, assim como proíbe a confusão ou união com quaisquer religiões, estabelecendo a separação entre Estado e Igreja como princípio organizacional.
O laicismo6 ou secularismo designa a distinção entre clero e laicado, derivando de uma cultura leiga e de um Estado leigo, compreendendo como leigo aquilo que não é clérigo. A existência de uma cultura reconhecida como leiga remete à emancipação da filosofia em relação à religião, fruto da cultura renascentista que, a partir do século XVII, elevou o patamar das ciências em detrimento das atividades teológicas. Gradativamente, a política desvinculou-se da religião, apoiando-se nos discursos que afirmavam a natureza secular do Estado e a racionalidade da filosofia, dada como independente do conhecimento dogmático (BOBBIO et al., 1998, p. 670-671).
A laicidade se opõe ao Estado confessional na medida em que este se guia por um determinado credo religioso, subvencionando-o e favorecendo-o em detrimento das outras religiões que integram seu território. O Estado laico pressupõe a distinção entre instituições públicas e quaisquer religiões, de forma a garantir a autonomia daquelas e da sociedade civil, que pode, então, usufruir de sua liberdade diante tanto do Estado quanto da Igreja (BOBBIO et al., 1998, p. 670-671).
A laicidade não objetiva defender a religião majoritária em um dado ambiente social, mas tem a pretensão de salvaguardar as minorias religiosas, assumindo-as como iguais àquela, e de prevenir a ocorrência de intervenções estatais abusivas nas questões concernentes a aspectos religiosos internos. Em sentido diverso, a laicidade também visa a proteger o próprio Estado de influências indevidas das mais diversas religiões, quase sempre intrinsecamente dogmáticas, visto que o dogma é característica do conhecimento religioso, que assume
6 Não será feita diferenciação entre as expressões "laicismo" e "laicidade" no decorrer deste trabalho, conquanto
não se ignore a divergência doutrinária a respeito de suas significações, especialmente por conta da distinção etimológica de seus sufixos.
determinado fato como verdadeiro sem questioná-lo e sem realizar reflexões críticas sobre ele (SARMENTO, 2007, p. 3).
É cediço, ainda, que um Estado laico não é um Estado ateu, que nega a existência de uma ou mais entidades divinas. Ao negar a Deus, o ateu nada mais faz do que exprimir a sua liberdade de crer que não há motivos para uma fé divina (SARMENTO, 2007, p. 3). A laicidade não se confunde, também, com o anticlericalismo, o qual traduz uma declarada hostilidade às crenças religiosas e à estrutura eclesiástica. De fato, o Estado laico exprime agnosticismo ao não se atrelar a uma crença específica, o que se deve à impossibilidade fática de se conhecer, no estágio atual do conhecimento científico e filosófico, a verdade por trás de problemas existencialistas, capazes de suscitar infindáveis e irrespondíveis questionamentos. A dúvida metódica cartesiana é adotada pelo ente estatal relativamente aos mistérios da existência, tão caros aos mais diversos credos religiosos. A laicidade impõe a neutralidade, vedando a vinculação do Estado a qualquer concepção religiosa, o que não implica negar a religião, mas não se posicionar em favor ou desfavor de nenhuma crença.
A laicidade estatal é condição intrínseca para que todos os cidadãos sejam tratados com igual respeito, levando-se em consideração a expressiva pluralidade que caracteriza a sociedade hodierna. Um posicionamento público que beneficie determinado credo necessariamente sugere tratamento discriminado aos demais, mascaradamente desfavorecidos e obrigados a abraçar os valores daquele. Os membros das religiões não contempladas pelo olhar estatal são encarados como menos dignos de prestígio e sujeitados à exclusão social.
A existência de uma relação íntima entre Estado e Igreja impede o livre e igual exercício da fé pelos cidadãos, coagidos, mesmo que indiretamente, a se conformarem ao credo eleito caso não o professem. Na medida em que a igualdade se esvai com a promiscuidade entre poderes públicos e crença religiosa, a liberdade também submerge. A desvalorização das demais crenças que não a favorecida pelo poder estatal é inerente ao processo de sua aderência no espaço público (SARMENTO, 2007, 4-5).
A laicidade permite, ao menos no que diz respeito à ordem jurídica, que todas as crenças se encontrem no mesmo patamar, compartilhando um tratamento isonômico de equidistância em relação ao ente estatal e respeito por parte deste, muito embora seja notória a hegemonia de determinados credos historicamente vinculados à elite política e econômica.
2 REFLEXÕES SOBRE O PROCESSO DE LAICIZAÇÃO DO APARATO POLÍTICO-JURÍDICO
Sabe-se que os percursos históricos tomados pelas sociedades modernas não seriam os mesmos sem o fenômeno da secularização, responsável por laicizar os âmbitos político e jurídico dos países ocidentais. O movimento separatista rompeu as relações institucionais entre Igreja e Estado com base, especialmente, num longo processo de racionalização do Direito e da política, o qual impulsionou a construção dos modelos estatais hodiernos, secularizando o domínio da lei. Tal separação propiciou ao Estado o alcance da autonomia sobre as decisões políticas, não devendo mais explicações ao grupo religioso outrora aliado, ampliando a sua dominação sobre a Igreja em suas esferas política e jurídica. Ademais, a ruptura em exame afastou, juridicamente, as pretensões de favorecimento dos grupos religiosos hegemônicos, bem como as tentativas de imposição de suas crenças e normas morais ao aparato político (MARIANO, 2002).
A secularização não só garante a autonomia do Estado e do Direito nele compreendido, como também desqualifica os ordenamentos não oficiais que antes se confundiam com as leis jurídicas. A submissão dos grupos religiosos e de seus respectivos ordenamentos ao domínio secular da legislação humana concede ao indivíduo o direito de não ser obrigado a crer em determinada moral e a prerrogativa de escolher qual moral seguir (MARIANO, 2002). Favorece, ainda, o positivismo normativista ao afastar o possível pluralismo jurídico causado pela existência de outras formas institucionais de poder que eram, também, fontes do Direito. Ao se negar juridicidade às normas não positivadas por autoridade competente, o jusnaturalismo e a imposição de normas de teor aparentemente divino são suplantados, efetivando o conceito de Estado de Direito lockiano na medida em que os antigos ditadores da moral são obrigados a também se sujeitar aos desígnios da lei, uma vez que esta se aplica aos próprios dirigentes dos poderes estatais.
O Estado secular assegura direitos e estabelece deveres, exercendo o controle social por meio da penalização e punição de condutas consideradas ilícitas. O positivismo normativista, ao dar permissão ao Estado para que exerça o monopólio da criação e da imposição das leis, detém a titularidade sobre os meios de repressão e impede que a esfera religiosa escape de sua soberania. Afinal, é este mesmo Estado secular que garante aos grupos religiosos a imunidade tributária, o direito à liberdade de culto e de crença.
É do Estado que se reivindica: a pronta repressão à privação de direitos por motivo de crença religiosa, à discriminação, à intolerância e à perseguição religiosas; a proteção dos locais de culto e suas liturgias, como prescreve a Constituição
brasileira; a defesa dos que se vêem vitimados ou têm seus direitos fundamentais violados por determinados agentes religiosos. Da mesma forma, nos modernos Estados democráticos de direito, para que um grupo religioso possa reclamar e obter a reparação de um dano causado por um agente social qualquer ou até pelo próprio Estado, é preciso recorrer às instituições judiciais, políticas e policiais desse mesmo Estado. E por estarem sujeitos à lei - seja às normas de edificação municipais, à legislação que estabelece o máximo de ruído permitido nos cultos, às leis trabalhistas etc. -, os grupos religiosos, tal como todo agente social secular, são passíveis de sofrer as sanções decorrentes de qualquer infração legal (MARIANO, 2002).
O próprio campo religioso foi profundamente alterado pela separação Estado-Igreja, devido ao desmantelamento do monopólio religioso dos credos hegemônicos, extinguindo, em parte, os benefícios conferidos à antiga religião oficial e não mais inferiorizando as crenças que com ela não se coadunam. A secularização tem como resultado a garantia legal da liberdade e tolerância religiosas no plano jurídico, instituindo o tratamento igualitário entre as diferentes religiões como regra (MARIANO, 2002). O pluralismo religioso é consequência dessa igualitária submissão ao Direito estatal propiciada pela secularização, dando origem a um verdadeiro mercado religioso concorrencial, do qual se tratará mais adiante, porque essencial à compreensão da atual configuração do cenário religioso nacional.
Logo, cumpre investigar o processo de transformação da sociedade e da própria esfera das confissões religiosas que se seguiu à secularização do Estado, fato histórico que permitiu o exercício de crenças até então reprimidas, abrindo portas ao pluralismo religioso, quebrando o monopólio da religião dominante e minimizando as benesses que lhe eram conferidas. Ademais, as radicais mudanças organizacionais vivenciadas pelo Estado, em razão da acolhida da laicidade, romperam, formalmente, a confusão entre Direito e moral, própria das teorias jusnaturalistas, elegendo o ordenamento positivo como o único dotado de validade jurídica e capacidade de sancionar os comportamentos que não estejam em conformidade com a legislação vigente. É necessário, também, analisar a histórica hegemonia econômica e política do antigo credo oficial, até hoje persistente, que agora convive com novas manifestações religiosas que têm conquistado espaço e poder, enquanto outros credos minoritários permanecem em posição subalterna.
2.1 RAÍZES HISTÓRICAS DO PROCESSO DE SECULARIZAÇÃO DA POLÍTICA E AS