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A peculiaridade dos evangélicos pentecostais

3.2 A INSERÇÃO RELIGIOSA NA POLÍTICA

3.2.2 A peculiaridade dos evangélicos pentecostais

Não sendo possível, meramente com os dados apontados, obter resultados conclusivos acerca da influência do perfil de cada religião especialmente no que tange à esfera política, é preciso adotar outros critérios para diferenciar os credos nesse quesito. Destarte, cumpre analisar o grau de exposição do fiel à autoridade religiosa, que indica, em outras palavras, a frequência de participação dos fiéis nos diversos cultos promovidos por suas igrejas. Sendo a vivência da religião um requisito para o "ser evangélico", não é espantoso que o seu alto grau de religiosidade implique maior frequência a cultos. É preciso considerar, todavia, as particularidades de cada credo em relação às suas práticas religiosas e formas rituais, que podem estabelecer diferenças a respeito da necessidade da presença ativa do fiel nos locais de culto (MAIA, 2006, p. 48).

Tabela 7 - Envolvimento dos adeptos das principais religiões nas atividades de seus credos

Grandes grupos de religião Total

Características relativas à filiação religiosa Frequentem a

cerimônias religiosas mais de uma vez por

semana Costumam auxiliar a religião financeiramente Doação mensal, em média, para a religião Total 100,00% 31,00% 39,00% R$ 43,00

Católica apostólica romana 57,00% 17,00% 34,00% R$ 23,00

Evangélicas 28,00% 54,12% 51,04% R$ 74,50

Pentecostal 19,00% 63,00% 52,00% R$ 69,10

Não pentecostal 9,00% 51,00% 49,00% R$ 85,90

Espírita kardecista 3,00% 23,00% 16,00% R$ 42,00

A tabela 7, montada com base em dados do Instituto Datafolha10, apresenta informações relativas à assiduidade dos fiéis dos maiores grupos confessionais no Brasil na vivência de suas respectivas religiões. É importante salientar que a pesquisa se refere apenas a católicos, espíritas kardecistas e evangélicos, estes sendo divididos somente em pentecostais e não pentecostais.

Nos evangélicos em geral e, em particular, entre os pentecostais, dá-se o maior percentual de membros que vão ao templo ou participam de outras atividades religiosas mais de uma vez por semana, especificamente 54% e 63%, respectivamente, muito acima do valor registrado ao se considerar o conjunto inteiro de entrevistados, que é de 31%, enquanto os espíritas são o contingente com o menor índice de frequência. No que concerne a ajudar financeiramente a igreja, os evangélicos novamente apresentam os números mais elevados, uma vez que 51% deles alegam contribuir financeiramente com a sua agremiação, ao passo em que o valor observado no universo amostral inteiro é de 39%. Quanto ao montante médio oferecido mensalmente, os evangélicos não pentecostais se encontram na liderança, fornecendo R$ 85,90 por mês.

É possível intuir, por conseguinte, que a massiva participação evangélica em atividades religiosas organizadas por sua igreja sugere um maior grau de exposição aos discursos e práticas da instituição e de suas autoridades eclesiásticas (MAIA, 2006, p. 49). Se o discurso sustentado pela liderança religiosa nos dias em que o fiel participou do culto intentar direcionar o seu voto para os candidatos representativos de sua agremiação, não surpreenderá o fato de o eleitor religioso fazer recair a sua decisão política sobre os indivíduos subvencionados pela igreja.

Com o fito de analisar a influência exercida pelos líderes religiosos sobre os membros das suas congregações, a tabela 8 exibe uma comparação a respeito de dois fatores, a saber: se o indivíduo votou no candidato apoiado pela sua igreja e se o sujeito leva em conta a opinião de religiosos que fazem campanha. Católicos e espíritas apresentam índices muito próximos no primeiro item, de 5% e 3%, respectivamente, ambos abaixo do encontrado no espectro geral, enquanto 18% dos evangélicos pentecostais disseram que votaram no postulante indicado pelo líder de sua igreja, comprovando, mais uma vez, que os mandatários desse grupo religioso exercem razoável influência sobre os seus fiéis. Ademais, 51% dos evangélicos alegam que dão importância para o discurso de um religioso em campanha, um pouco abaixo do que acontece entre os evangélicos pentecostais.

Tabela 8 - Análise do nível de influência dos fiéis dos grandes grupos religiosos no Brasil

Grandes grupos de religião Total

Sujeição à influência política dos líderes religiosos Votaram no postulante

indicado pelo líder da igreja

Valorizam o discurso de religiosos que fazem campanha

Total 100,00% 8,00% 39,00%

Católica apostólica romana 57,00% 5,00% 34,00%

Evangélicas 28,00% 16,71% 51,04%

Pentecostal 19,00% 18,00% 52,00%

Não pentecostal 9,00% 14,00% 49,00%

Espírita kardecista 3,00% 3,00% 16,00%

4 A REPRESENTATIVIDADE POLÍTICA RELIGIOSA COMO TENTATIVA DE REENCANTAMENTO DO MUNDO

O controle social pode se exteriorizar por meio de diversas instituições sociais que induzem as pessoas a se acomodarem à consciência coletiva. A religião, o Direito, a moral, as normas do trato social, como a etiqueta, a moda e a cortesia, são alguns dos mecanismos de controle que intentam manter os indivíduos nos lugares que lhes são reservados socialmente. Por meio de tais mecanismos e das respectivas sanções impostas aos transgressores da estabelecida ordem, é realizado o processo de socialização, que almeja incutir os ditames culturais na consciência individual (SELL, 2006, p. 64).

No que concerne à moral, o sujeito submetido aos seus comandos precisa a eles aderir subjetivamente. Isto é, os mecanismos morais apenas surtem efeito no indivíduo se este com eles concordar. A submissão às normas morais não é automática, conquanto seja, muitas vezes, naturalizada pelo indivíduo, que passa a segui-las sem quaisquer questionamentos ou dúvidas quanto ao seu conteúdo. O comportamento em acordo com a moral é aquele tido como aceitável em dado momento histórico. Ademais, a normalidade e a patologia variam não só quando se consideram diferentes sociedades e diferentes momentos históricos, mas também quando se toma um indivíduo isolado ou um grupo de indivíduos (SELL, 2006, p. 65-66).

O Direito goza de um mecanismo de controle concentrado que se materializa em instituições como o cárcere e os tribunais. Já a moral se diferencia por utilizar-se do controle difuso, deteriorando o seu valor perante a sociedade. O simples fato de inexistirem, a priori, instituições organizadas de viés sancionador como resposta às condutas que desobedecerem aos postulados morais não quer dizer que a sanção social outorgada incidirá de maneira pouco drástica sobre a vida dos indivíduos que a receberem. A relegação à condição patológica pode ser tida como mais severa do que a restrição de direitos por um período determinado (SELL, 2006, p. 66). O caráter estigmatizante e segregador da reação social que se segue à conduta transgressora da norma de cunho moral pode, muitas vezes, ser pior do que a reação oficial dos órgãos estatais. Sabe-se, contudo, que a conduta classificada como desviante não precede a definição que lhe é atribuída, de modo que se pode afirmar que o desvio não passa de mera conceituação, alcunha dada por aqueles que apresentam o poder de definir, de construir uma realidade e de qualificá-la. A anormalidade, então, provém de um processo de atribuição do status de patológico, e não de uma qualidade subjetiva do autor da conduta desviante (BARATTA, 2011, p. 118).