4.1 A RELIGIÃO COMO FORMA DE CONTROLE SOCIAL
4.1.1 O conservadorismo pentecostal
A legitimidade social conquistada pelas igrejas pentecostais é ascendente desde suas primeiras aparições no cenário nacional, inobstante os escândalos financeiros e políticos envolvendo seus líderes, os métodos pouco ortodoxos empregados na arrecadação de donativos e as suas práticas rituais constantemente atreladas ao curandeirismo e charlatanismo. O expressivo contingente de fiéis se deve, entre outras causas, a sua força
midiática, que recebeu estrondosos investimentos por parte de seus clérigos. As emissoras de radiodifusão são utilizadas para promover a imagem da igreja como instituidora de costumes, hábitos e condutas conservadores tidos como moralmente corretos, decentes e probos, em atenção aos valores tradicionais do cristianismo. Isso explica, de certo modo, a legitimidade sem precedentes alcançada por essas igrejas (MARIANO, 2002).
Em conformidade com o modelo mercadológico adotado, é possível perceber a inclinação direitista da frente evangélica no âmbito político. Está presente em suas propostas, em seu posicionamento contrário às pautas progressistas - como a questão do casamento homoafetivo, a descriminalização do aborto, a concordância com a redução da maioridade penal - e nas coligações firmadas no âmbito partidário, que explicitamente rejeitam qualquer candidato alinhado à esquerda, em atenção ao seu inveterado anticomunismo. As eleições presidenciais de 2014 tiveram, inclusive, o radicalismo econômico liberal da base evangélica como ponto de destaque, o que evidenciou a clara intenção de estabelecer um nicho eleitoral efetivamente de direita no país. Busca-se, com isso, angariar adeptos das camadas sociais abastadas, estendendo, assim, o alcance do discurso pentecostal, comumente voltado aos estratos mais subalternos da população.
A expressiva maioria de pentecostais em cargos públicos alia-se a partidos de centro-direita, normalmente em defesa do governo, em busca de oportunidades que possam trazer benefícios materiais para suas igrejas.
As preocupações centrais dos políticos evangélicos, quase em sua totalidade pastores, priorizam questões de moral sexual e da família, indicando um espírito conservador sobre os costumes, que se reflete sobre o campo político e econômico. A tendência de os evangélicos colocarem-se à direita em termos de política pode também estar ligada ao fato de seus projetos políticos não passarem de uma estratégia para o seu próprio crescimento, aceitando, assim, com alguma facilidade, o fisiologismo presente na política tradicional brasileira (PEDDE, 2005, p. 122-123).
Verifica-se que o movimento evangélico, em meados dos anos 1980, às vésperas da Constituinte, tornou-se um grupo de pressão política que luta pelos interesses de suas congregações. Ao abandonar a tradicional autoexclusão do campo político, os pentecostais afirmaram que o faziam pela urgência de defender os seus interesses institucionais e os valores morais contra as perversões dos movimentos feministas, homossexuais e até mesmo contra os "macumbeiros", reafirmando a sua aversão às religiões afro-brasileiras. A partir daí, os evangélicos tentam dominar o espaço público, confessionalizando a política partidária e criando partidos próprios, que defendem, sem quaisquer reservas, a feitura de uma política com base na doutrina cristã no contexto de um Estado laico, como formalmente é o Brasil (MARIANO, 2011, p. 250-251).
Esse posicionamento conservador dos representantes políticos religiosos intensificou os debates entre os setores laicos da sociedade a respeito do papel da religião no Estado
secularizado. Discussões sobre o ensino religioso nas escolas públicas - que na verdade nada mais é do que um ensino da doutrina cristã -, o pluralismo e liberdades religiosas, o ativismo midiático desses grupos e a influência que exercem sobre os seus fiéis acabam sempre retornando à questão da ocupação religiosa do espaço estatal (MARIANO, 2011, p. 251-252). Ademais, o modo como os temas relativos aos direitos humanos são encarados por esses representantes políticos abre margem para questionamentos sobre o caráter democrático das suas candidaturas.
A política clientelista adotada pelos evangélicos teve como resultado uma desprivatização da religião, que retornou do âmbito doméstico ao parlamento. Embora se saiba que a religião nunca esteve totalmente confinada aos espaços privados, a ascensão do pentecostalismo e a inserção massiva de seus clérigos na política radicalizaram esse cenário, tornando difícil imaginar um Congresso sem a presença dos candidatos eleitos pelos evangélicos. Há uma instrumentalização mútua entre religião e política, percebida no estabelecimento de alianças entre os maiores partidos laicos do país e as lideranças religiosas, que objetiva cooptar o fiel eleitorado pentecostal (MARIANO, 2011, p. 251).
É notório que as novas agremiações religiosas, particularmente as neopentecostais, não têm a intenção de expandir o processo de laicização da política. O seu ativismo religioso e político almeja justamente o contrário, isto é, ampliar a dimensão religiosa do espaço público, sacralizando-o e estendendo a moralidade cristã a toda a sociedade (MARIANO, 2011, p. 252). Nesse sentido, tornam-se defensores ferrenhos da irrestrita liberdade de expressão, alegando que esta alberga o direito de pregar um discurso machista e homofóbico11, que se
11 Entre as principais medidas empreendidas pela bancada evangélica do Congresso Nacional e seus aliados com
o intuito de perseguir os direitos e as liberdades das minorias, encontra-se o protesto ferrenho que culminou por fazer a presidenta Dilma Rousseff vetar, em 2011, um material produzido por organizações não governamentais com a colaboração do Ministério da Educação para combater a discriminação a minorias sexuais nas escolas e incentivar a aceitação à diversidade sexual, o chamado kit anti-homofobia, que fazia parte do projeto Escola Sem Homofobia. Igualmente, destaca-se o Projeto de Decreto Legislativo n. 234 de 2011 (PDC 234/11) de autoria do deputado federal João Campos (PSDB-GO), que versa sobre a suspensão de trechos da resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que proíbem que os psicólogos atuem, de qualquer maneira, no sentido de tratar a homossexualidade como uma doença a ser curada e que também impedem a participação deles, na mídia, em situações que contribuam para ampliar a discriminação contra os homossexuais. Ou seja, a proposta tinha a intenção explícita de criar um mecanismo para favorecer o preconceito contra a população homoafetiva e, inclusive, ficou nacionalmente conhecida como ―cura gay‖. Além disso, salta aos olhos a oposição dos
fundamentalistas religiosos, incluindo os políticos da bancada evangélica, ao Projeto de Lei n. 122 de 2006 (PL 122/2006), que trata genericamente da criminalização da discriminação por orientação sexual, uma pauta bastante defendida e apoiada pelos movimentos sociais que lutam pelo reconhecimento da cidadania da comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros), enquanto os críticos alegavam que as suas liberdades religiosa e de expressão lhes davam o direito de propagar um discurso
homofóbico, o que seria cerceado caso o PL 122 fosse aprovado. Recentemente, ganhou repercussão o Projeto de Lei n. 6.583 de 2013 (PL 6583/2013), cujo relator é o deputado federal Ronaldo Fonseca (PROS-DF) e que é popularmente chamado de Estatuto da Família, o qual fala que unicamente a união entre homem e mulher deve ser reconhecida como base para a formação de uma família, numa tentativa de privar outros arranjos familiares
fundamenta em preconceitos moralistas extraídos de interpretações literais dos textos bíblicos. Com uma interpretação antagônica, os apoiadores da laicidade veem essa realidade como antidemocrática e reveladora de um Estado omisso no que concerne à permissibilidade de se pronunciar um discurso de ódio.
A ascensão pentecostal abre espaço para o surgimento de dúvidas sobre o processo de secularização que se alastrou com a modernização do Ocidente, uma vez que aquela, em princípio, teria como consequência a redução da religião ao ambiente privado e a sua rigorosa separação da esfera pública. É possível perceber que o principal resultado da secularização foi a distinção institucional entre Igreja e Estado, não tendo havido, necessariamente, uma separação ideológica entre eles, o que é demonstrado pela influência recíproca entre as referidas esferas (PEDDE, 2005, p. 127). A autonomia e independência prometidas pelo processo de secularização não foram alcançadas e talvez não o sejam, dado que os âmbitos sociais se encontram interconectados. Questiona-se, então, se a incontestável influência mútua entre as aludidas instituições implicaria um reencantamento do mundo e um retorno às tradições pré-modernas.