• Nenhum resultado encontrado

DAS TIRAS CÔMICAS E DE OUTROS GÊNEROS QUADRINÍSTICOS

2 ASPECTOS TEÓRICOS

2.1 A linguagem dos quadrinhos

Os estudos sobre quadrinhos sofreram, até 1990, certo preconceito, não eram considerados apropriados para serem abordados e circularem na escola. Segundo Vergueiro (2006), não eram dignos de atenção na visão dos intelectuais. Ramos (2007, 2009, 2011) supõe que os estudos com os gêneros quadrinísticos começaram a se difundir a partir de então, após o surgimento em questões de vestibulares das tiras cômicas do jornal e após a inclusão dessa prática de linguagem nos PCNs (BRASIL, 1998). Vergueiro (2014) afirma ser indispensável que se ensine ao aluno a linguagem específica dos quadrinhos, a fim de que ele possa construir os diversos sentidos por eles contemplados. As histórias em quadrinhos “constituem um sistema narrativo composto por dois códigos que atuam em constante interação: o visual e o verbal”, ocupando cada um deles um papel especial, “reforçando um ao outro e garantindo que a mensagem seja entendida em plenitude” (VERGUEIRO, 2014, p. 31).

A imagem visual ou icônica é o elemento básico desse gênero, a sequên- cia de quadros apresenta um sentido (geralmente narrativa) ao interlo- cutor, sendo sua unidade menor a vinheta ou quadrinho.

À linguagem icônica estão ligadas questões de enquadramento, planos, ângu- los de visão, formato dos quadrinhos, montagem de tiras e páginas, gesticu- lação e criação de personagens, bem como a utilização de figuras cinéticas, ideogramas e metáforas visuais. A compreensão de cada um desses elementos também permitirá a melhor utilização das histórias em quadrinhos no ensino e possibilitará até mesmo a elaboração de HQs que utilizem com mais potencial da linguagem típica do meio (VERGUEIRO, 2014, p. 34).

Os diversos gêneros vinculados ao hipergênero histórias em quadrinhos são textos que combinam a linguagem verbal e a linguagem não verbal.

194

Segundo os estudos de Ramos (2007, 2009, 2011), são vários os gêne- ros que utilizam a linguagem das histórias em quadrinhos, tais como: a charge, o cartum, os diferentes gêneros autônomos das histórias em quadrinhos (o mangá, a novela gráfica, a história de aventura, a história de humor etc.) e das tiras (cômicas, seriadas, cômicas seriadas, livres). Além do caráter híbrido do texto em quadrinhos, a narratividade é a prin- cipal semelhança entre os gêneros quadrinísticos citados, ao lado da presença dos diálogos na forma de balões. Declara que “Quadrinhos são quadrinhos. E, como tal, gozam de uma linguagem autônoma, que usa mecanismos próprios para representar elementos narrativos” (RAMOS, 2007, p. 6). Segundo ele, “predomina nas histórias em quadrinhos a sequência ou tipo textual narrativo; a narrativa pode ocorrer em um ou mais quadrinhos, conforme o formato do gênero” (RAMOS, 2009, p. 19). Por fim, a sequência narrativa nos quadrinhos pode ocorrer em apenas uma vinheta ou mais (RAMOS, 2007, 2009).

Outra característica é o fato de que os quadrinhos podem apresentar personagens fixos ou não, podendo, inclusive, representarem perso- nalidades reais, como os políticos, por exemplo. As personagens fixas aparecem em vários quadrinhos, possuem características que o constroem e as fazem ser identificadas. As personagens podem ser desenhadas de maneira realista, estilizada ou caricata, no entanto predominam as desenhadas.

Nas charges, normalmente as personagens são figuras políticas da atua- lidade, o presidente ou o governador, por exemplo, que são apresenta- das de forma caricata. Romualdo (2000, p. 18) afirma que “as charges são textos coerentes e coesos, pois formam um todo de sentido que é transmitido pelas relações entre os diversos elementos gráficos que compõem as figuras de um quadrinho”. Ainda acrescenta que, nesses textos, há informatividade por meio de imagens, “os chargistas colo- cam neles suas opiniões, suas críticas a personagens e dados políticos” (ROMUALDO, 2000, p. 18), fatos mais polêmicos que afetam, de alguma forma, a população. O autor adverte, no entanto, que não é possível deco- dificar e compreender a mensagem icônica (termos do autor) das charges se o leitor não conhecer o contexto histórico, social ou econômico que ela encerra, porque “a charge possui relações intertextuais com outros textos” (ROMUALDO, 2000, p. 26). Nesse sentido, é preciso recuperá-las para que o sentido seja construído.

O cartum é muito confundido com a charge. Diferenciam-se, em especial, pela temporalidade e pelo fato tratado: a última com o fato da atualida- de, enquanto o primeiro com a universalidade temática (RAMOS, 2009). Assim, o cartum não possui personagens fixas e pode ser compreendido em qualquer época, pois não está ligado a um fato específico.

Ao lado da narratividade e dos tipos de personagens utilizadas, Ramos (2007, 2009, 2011), a partir das ideias de Maingueneau, define a história

195

em quadrinhos como um “grande rótulo” (“guarda-chuva”): “quadrinhos seriam um grande rótulo, que abarcaria diferentes gêneros, entre eles as tiras (que também comporiam diferentes gêneros)” (RAMOS, 2011, p. 87). Sob esse rótulo, incluem-se a charge, o cartum, o mangá, a novela gráfica, a história de aventura, a história de humor, a tira cômica, a tira seriada, a tira cômica seriada etc. Acrescenta que “o rótulo, o formato, e o veícu- lo de publicação constituem elementos que acrescentam informações genéricas ao leitor, de modo a orientar a percepção do gênero em ques- tão” (RAMOS, 2007, p. 120). É o caso da charge: o fato de estar no jornal, perto do editorial e do artigo de opinião, dá ao leitor pistas de que se trata de um gênero com viés argumentativo, uma crítica a algum aconte- cimento político, como posto anteriormente por Romualdo (2000). Esse argumenta que, sem o contexto e a intertextualidade com outros textos e fatos, não é possível construir o sentido da charge.

Ramos (2007, 2009), com base nos estudos de Acevedo (1990) e Cagnin (1975), apresenta o balão como elemento essencial do quadrinho, recurso utilizado para indicar a fala ou o pensamento da personagem; é formado por dois elementos: “o continente (corpo e rabicho/apêndice) e o conteú- do (linguagem escrita ou imagem)” (RAMOS, 2009, p. 36). Há vários tipos de balões, no entanto os mais comuns são pensamento, fala-comum, balão-cochicho, fala-dupla, grito e uníssono.

A forma de apresentação da letra também tem significado na linguagem dos quadrinhos. As letras representam a oralidade, ou seja, como foi emitida a fala pela personagem: fala baixa, grito, expressão destacada. O tamanho menor pode indicar fala sussurrada, maior ou em negrito indi- ca grito ou estado emocional. O tipo e o formato da letra utilizados, asso- ciados às expressões faciais e posições do corpo, tornam-se recursos importantes na produção de sentido.

Além dos fatores comentados, outro recurso bastante importante é o uso da onomatopeia. Ramos (2007, 2009) define onomatopeias como sons que podem ser representados por uma palavra que sintetiza a ação e que podem ser apresentadas dentro ou fora dos balões. O aspec- to visual da letra utilizada nessas onomatopeias “pode indicar expres- sividades diferentes. Sua cor, tamanho, formato e até prolongamento adquirem valores expressivos distintos dentro do contexto em que é produzida” (RAMOS, 2009, p. 81).

Todas as características aqui discutidas, além dos demais recursos asso- ciados, garantem o sentido do quadrinho, comprovando que as histórias em quadrinhos “gozam de uma linguagem autônoma, que usa mecanismos próprios para representar os elementos narrativos” (RAMOS, 2009, p. 17). Assim, toda a narrativa é conduzida por meio das personagens, em seus rostos e pelos movimentos dos seres desenhados. O tempo é demonstra- do pelos recursos usados para dar movimento ao corpo da personagem no quadrinho ou pela posição do corpo nas figuras. O espaço é observa- do na paisagem dos quadrinhos. As cenas são recontadas e apresentadas

196

em cada quadrinho ou vinheta. As personagens ocupam o ponto principal nessas histórias, pois suas expressões e seus movimentos nas imagens possibilitam toda a trama e a construção de sentido do texto. É importante ressaltar que, durante a intervenção, os alunos conheceram cada um desses recursos e seus efeitos nos gêneros quadrinísticos.