5 A LIBERDADE DA ESCRITURA E DA LEITURA
5.8 A literatura como interpretação do passado
Até aqui, pudemos ver que o acúmulo de exemplos de liberdade que a narrativa cria em relação aos códigos hermenêuticos com os quais ela dialoga mostram uma faceta singular da literatura: todos eles mostram que a literatura pode ser transgressora dos códigos hermenêuticos. Deformando os valores fixados na História, inclusive os valores sagrados, parodiando-os ou simplesmente fornecendo a eles novas significações, promovemos a nossa liberdade. A literatura se serve do que já está dado, das interpretações que já estão dadas acerca dos temas com os quais ela trabalha, para fornecer alguma outra imagem ou ideia que responda a questões que estejam no seu horizonte de produção.
A maçã no escuro, como viemos tentando dizer, é nesse sentido associada
intertextualmente aos mitos do mal e a outras histórias que trazem em alguma medida a temática do mal, mas há todo um trato especial que lhes é destinado de modo a configurá-los de forma particular. A história de Adão é marcada pelo seu desvio em relação à ordem divina de não comer da árvore da vida. De forma semelhante, o romance em si pode tomar como modelo de ação a transgressão de Adão, tornando-se um romance transgressor que ganhe existência própria. Vimos também que o escrito de Martim, seja aquele que ele não conseguiu produzir satisfatoriamente, seja aquele representado pelo livro que ele tem a intenção de escrever, talvez imite o gesto transgressor de Adão.
Quando finalmente Vitória se revela um pouco mais a Martim e aos leitores, ela talvez anuncie uma outra faceta da literatura. Ao compartilhar com Martim os acontecimentos relativos ao rapaz da fogueira, ela se dá conta de que tem em si mesma muitas experiências, entre as quais apenas uma parcela mínima já havia sido antes rememorada. Vitória percebe que pode se valer da lembrança das experiências ainda não rememoradas para sentir uma ampliação de sua própria liberdade. “Estremeceu ao pensar que se não tivesse contado a Martim sobre o rapaz da fogueira, talvez ficasse para sempre ignorando acontecimentos seus, seus de direito. Pois só ao contar é que ela se lembrara... [...] e que também isso era vida sua, ah, quem sabe se a veemência se devia dar ao que se esquecera, quem sabe.”361 Ela se surpreende ao conseguir reunir experiências de seu passado em conjunto com suas interpretações, de modo a contar uma história. Cabe aqui uma pergunta: a literatura disporia não só da possibilidade da transgressão aos códigos hermenêuticos, mas também da possibilidade de interpretação do passado? Como diz o narrador, talvez plasmando seu pensamento com o de Vitória: “Porque o passado tem a
riqueza do que já aconteceu.”362 Assim, uma aparente pobreza de acontecimentos pode se enriquecer pelo exercício da rememoração e pela atribuição de valores e interpretação aos eventos rememorados. Pode-se criar elos nunca antes estabelecidos. Possibilidades adormecidas ganham uma dimensão mais rica e concreta.
Martim, de certa forma, pelo enfado que sente nessa conversa com Vitória, acaba por mencionar um elemento importante e que poderia auxiliar na rememoração e na valorização de dados esquecidos do passado. Ele traz a hipótese de que o amor resolve aquilo que não se explica: “Tudo o que a gente não entende, se resolve com amor. A senhora precisaria de encontrar um amor.”363 Obviamente, esse aconselhamento soa um tanto simplista, mas é possível identificar nele um fundo de verdade e que representaria uma possível saída para o mal. Talvez o amor cumpra o papel de nos salvar do mal. E o que ele diz soa ainda mais verdadeiro se levarmos em conta que, logo após a sugestão de Martim no sentido de Vitória “encontrar um amor”, ela é tomada de admiração por si mesma ao perceber detalhes que atravessaram sua própria história e que haviam caído no esquecimento. Uma transformação se opera em Vitória em mediação com a afirmação despretensiosa de Martim em relação ao amor.
Se levarmos em conta o que já pude anteriormente afirmar sobre o papel do amor na narrativa, vemos que há pelo menos dois impactos possíveis do amor sobre os homens. Assim como a linguagem pode isolar ou pode promover elos entre as pessoas, o amor também pode ter um emprego que resulta na diminuição da liberdade pessoal ou no aumento da liberdade pessoal. Diminui-se a liberdade quando estamos tomados, nos próprios dizeres do narrador, por um amor pelo mundo que não se pode tolerar364. Equivocadamente, comete-se o mal, nessa circunstância, para se livrar do mal-estar advindo desse amor intolerável, que causa o incômodo pelo mundo. Assim, fazendo equivaler o amor à liberdade, diz narrador: “E muitas vezes nossa liberdade é tão intensa que desviamos o rosto.”365 Por outro lado, aumenta-se a liberdade quando o amor pelo mundo cabe numa pessoa. Há uma descrição parecida desse contraste quando Vitória lembra a sua breve história com o rapaz da fogueira: “Ele não era nervoso, oh nem um pouco. Havia pessoas assim: a vida era grande nelas mas isso não as deixava
362 Idem, p. 270.
363 Idem, p. 267.
364 Aqui faço uma referência ao episódio da escrita de Martim, em que o narrador, atestando a desistência de Martim para escrever, diz: “Parece que muitas vezes se amava tanto uma coisa que por assim dizer se tentava negá- la, e tantas vezes é o rosto amado o que mais nos constrange. E a Martim que tanto procurava explicações para o seu crime – ocorreu então se ele não fugira do mundo por um amor que ele não pudera tolerar.” (A maçã no escuro, p. 173).
nervosas.”366 E de fato, estar nervoso é, em alguma medida, estar sujeito a um excesso de estímulos e de elementos da vida que são jorrados como numa torrente. Não estar nervoso a despeito de tantos elementos da vida atuarem em nossos corpos, em nossas percepções e em nossos pensamentos, pode ser um dom daquele que domina as forças da vida. Ou seja, os nervos que respondem aos estímulos externos não estão necessariamente à mercê das intempéries do mundo. Eles podem ser controlados pela postura dos sujeitos que administram com maior cuidado os seus afetos, as suas percepções e todas as interações que venham a ter com o mundo.
Retomando os estágios de simbiose poeticamente imaginados por Martim367, é possível fazer uma analogia entre a reação de nervosismo ou de não-nervosismo do corpo diante dos estímulos externos e a reação maléfica ou benéfica de um sujeito quando ele sente amor pelo mundo. O amor pelo mundo que provoca simbiose por não contar com a ação de um sujeito consciente pode conduzir a um resultado maléfico. Um corpo que apenas recebe o estímulo externo e não é capaz de filtrá-lo para o seu bem-estar pode conduzir o sujeito a um excesso incontrolável e que dificilmente será tolerado. No vocabulário do narrador, o que ocorre aqui é uma necessidade de fugir do mundo. Por outro lado, mesmo que o amor sentido pelo mundo seja excessivo, podemos desejar permanecer no mundo caso possamos conviver com essa força, caso essa força não assuma o controle total da nossa vida. Então, é possível que o amor pelo mundo, por Deus, pelas coisas, pelos seres humanos e a reciprocidade desse amor façam o mal ser evitado, em alguma medida. Assim, em vez de ser um gesto de vida, num molde simbiótico de vida, como no primeiro caso, o amor pode vir a representar o gesto de liberdade por excelência. Como a escritora já disse num outro texto, “Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.”368 A ideia do amor como salvador do mal se transformou em produto mercadológico, já foi colonizada pelo imaginário midiático, de forma que posso estar soando ingênuo com essas observações que fiz acerca do amor. No entanto, insisto nesse ponto: o fato da indústria cultural ter se apropriado dessa ideia não invalida o papel fundamental do amor em relação ao mal. A indústria cultural ressalta, evidentemente, o valor positivo do amor. São numerosos os exemplos dessa tendência que personagens de filmes, séries e telenovelas encarnam ao lidar com seus conflitos. Mas, diferentemente do romance A maçã no escuro, a indústria cultural provavelmente ainda não revelou a faceta negativa do amor, que pode conduzir ao mal. O discurso que ela propaga simplesmente diz que o mal não é amor. Mas
366 LISPECTOR, C. Idem, p. 270.
367 Elas foram descritas no capítulo 3 desta dissertação: “Se o mal é opaco, como ele pode ser reconhecido?” 368 LISPECTOR, C. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
Clarice mostra que o amor pode ser sim uma forma do mal, com um caráter que já foi interpretado, pelos românticos, como fatal. Assim é o amor quando pensado como “paixão amorosa”. Conforme diz Francisco Martins,
A paixão amorosa inclui-se, mesmo do ponto de vista mais ordinário, como sendo algo que passa a controlar o sujeito em direção a um destino inexorável. A paixão amorosa foi sublinhada pelos clássicos românticos. Ela é, porém, uma das possibilidades. Toda e qualquer exacerbação que conduza o sujeito a uma radicalização de uma forma de existência pode levar a um destino fatal.369