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2 O campo científico e as caixas-pretas

2.3 Bourdieu e o campo científico

2.3.4 A luta concorrencial

Para compreender a luta concorrencial científica é preciso levar em consideração que a ciência depende de dois tipos de recursos. Depende do recurso científico, aqueles incorporados, relativos aos conhecimentos científicos do cientista; e do recurso financeiro, fundamental para tornar praticável a pesquisa científica, tal como a compra de equipamentos, instrumentos, mão-de-obra, etc.

Assim sendo, as instituições que gerem e distribuem os recursos financeiros, através dos administradores científicos, podem também "arbitrar‖ esta luta. Este arbítrio reside no fato de que a liberação ou os destinos dos recursos dependerá da avaliação feita por estas instituições. E os critérios de avaliação são objeto de permanente tensão e disputa. Estas disputas envolvem outras questões que não apenas os critérios ―puramente científicos‖. Tais instituições são compostas por um corpo técnico científico para proceder às avaliações, mas contam com técnicos administrativos e com negociações políticas que também influenciam nas delimitações das áreas de interesses e do montante a ser investido em cada uma delas.

125 De acordo com Bourdieu, é importante levar em consideração essas estruturas institucionalizadas, pois elas têm influência direta sobre o ―fazer‖ científico. Delinear a estrutura do campo permite compreender a posição que ocupa cada investigador e assim compreender quais são as suas estratégias possíveis. Pode-se assim compreender porque um investigador, uma disciplina ou um laboratório, agem de determinada maneira.

2.3.4.1 Um conflito regulado

Em conformidade com o objetivo de obtenção do monopólio legítimo do conhecimento científico, através do reconhecimento, o campo científico é um campo de constantes tensões. Assim, por exemplo, uma inovação pode influenciar negativamente outras investigações, mas não necessariamente de modo intencional, como um meio de rivalizar, mas como parte do jogo para manutenção da legitimidade. O conflito serve para legitimar e marcar os pontos pertinentes a uma determinada área de conhecimento. Segundo Bourdieu, no campo científico podem-se subverter os domínios, mas não os conhecimentos. ―Umas das particularidades das revoluções científicas é o fato de introduzirem uma transformação radical ao mesmo tempo em que conservam os conhecimentos, sem ser revoluções conservadoras, que visam subverter o presente para restaurar o passado‖ (BOURDIEU, 2001, p. 90).

A ―revolução‖, a luta pela legitimidade, toma a forma de luta pela legitimidade de domínios. Interessa menos subverter os conhecimentos, mas mobilizá-los em sentidos diferentes. As ‗―revoluções‖ têm como efeito a transformação das hierarquias. As lutas no campo científico têm como objetivo a manutenção da atualidade. Bourdieu apresenta tal disputa pela atualidade projetada em dois tipos de posturas frente a luta. A postura conservadora (os estabelecidos), lutando pela manutenção da estrutura e do status do campo, e a postura inovadora, correspondendo aqueles que mesmo não intencionalmente, trazem novos elementos que podem subverter a ordem estabelecida (BOURDIEU, 2001, p. 90).

A conservação e a inovação são percebidas no campo em sua estrutura hierárquica. Assim, o campo científico está estruturado em áreas de conhecimento, disciplinas, linhas de pesquisa, laboratórios, etc. As lutas pela conservação e inovação ocorrem nestes domínios. O conceito de campo, de acordo com Bourdieu, permite visualizar um

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―mínimo de unidade‖ da ciência, mas permite também visualizar que as diferentes disciplinas ocupam espaços hierárquicos distintos e o que as faz diferente depende em certa medida desta mesma posição.

O que confere unidade às disciplinas são os seus ―instrumentos de base‖, as formas padronizadas de pensamento e as regras do método experimental. Além das propriedades internas, as disciplinas também se distinguem por sua posição no seu espaço hierárquico. E a construção de uma disciplina pode estar ligada aos interesses em obter meios econômicos e sociais para empreender um grande projeto científico. Deste modo, para compreender o surgimento de uma disciplina é preciso levar em consideração a sua história intelectual e sua história social.

2.3.4.2 Autonomia e requisitos de admissão

O mundo acadêmico é concorrencial, um universo de disputas pelo 'monopólio da manipulação legítima' dos bens científicos, ou seja, o monopólio ―do bom método, dos bons resultados, da boa definição dos fins, objetos e métodos científicos‖ (BOURDIEU, 2001, p. 68). Para obter esse monopólio o campo ou a disciplina precisa, antes, adquirir autonomia. Autonomia refere-se não à sua relação com os outros campos, mas à sua legitimidade, à especificidade do seu saber e a importância dada ao conhecimento produzido. Trata-se do reconhecimento.

Uma das estratégias para obtenção da autonomia refere-se ao que Bourdieu chama de matematização, ou seja, o processo de diferenciação e especialização do conhecimento que só pode ser compartilhado entre os pares de uma determinada área de conhecimento. É uma estratégia para limitar a quantidade de objetores, posto que, apenas quem partilha dos mesmos códigos pode o fazer. Como já referido, uma das características diferenciadoras do campo científico é a de que sua validação só pode ser feita pelos pares, mas pelos pares correspondentes a determinado conhecimento científico44. A divisão entre os cientistas em áreas de conhecimentos, disciplinas, etc., delimita, também, aqueles que têm legitimidade para julgar.

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O que remete ao campo de produção de alimentos e sua formação baseada na matematização, posto que a ligação entre saúde e alimento esta muito relacionada à matematização da "ração diária necessária" que fez parte da promoção deste campo como um campo autônomo.

127 O processo de automação de um subcampo requer, primeiro, critérios de admissão do quadro de cientistas reconhecidos como pares em um mesmo subgrupo, o que dependerá da sua competência, aquela necessária à mobilidade no campo e que não é necessariamente consciente, o habitus. E, segundo, requer a criação de legitimidade pública. Essa legitimidade pública, a qual Bourdieu chama de ilusio, é a capacidade do subcampo de se fazer necessário ao público. Para tanto, torna-se necessária a ―presença pública‖, a presença dos leigos, ou daqueles que não fazem parte do campo científico, em certas fases da produção do conhecimento, para que se torne necessária e legítima. Delimitar e marcar esta distinção em subgrupo reconhecido dentro e fora do campo é o que Bourdieu chama de autonomia45.

O objetivo do campo científico é manter-se o mais autônomo possível. Assim, defende Bourdieu, o cientista trabalha com vistas aos seus pares, com vistas a não ficar para traz, a não ser ultrapassado. A racionalidade científica não parte do vazio, nem obedece apenas a lógica economicista da busca por financiamento. Há uma equação que o cientista faz entre o campo científico e político, para obter como resultado o reconhecimento e a legitimidade dentro e fora do seu campo46.

2.3.5 Conclusões

A principal contribuição de Latour para esta pesquisa é a noção de caixa-preta, que traduz o trajeto do fato/artefato científico até chegar a ser considerado algo dado, quase como ―natural‖. Essa percepção nos fez olhar para nosso objeto de estudo a partir daquilo que os une, o produto alimentício saudável, e perceber como a noção de alimento

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Sobre a "ilusio" e a autonomia (adquirida pela matematização), o campo da produção de alimentos procedeu a esse processo de publicização do conhecimento "matematizado‖, o chamado nutricionismo, e a partir dele criou-se novas disciplinas dentro do mesmo do campo. Aproveitou-se o conhecimento desenvolvido pelo campo da medicina e a relação entre alimento e saúde e criaram-se novas disciplinas, a ciência de alimentos, a engenharia de alimentos e a nutrição. Sendo a engenharia mais ligada à proteção higiênico-sanitária (evitando doenças) e as demais ligadas ao advento da relação entre saúde e alimento cada vez mais voltada para a prevenção de doenças ou promoção de saúde.

46 Apresenta uma crítica a Latour, por este sugerir uma não distinção entre o campo político e o científico. Para Latour, parece não haver essa distinção na visão de Bourdieu. Mas para Bourdieu essa distinção entre capital político e científico é imprescindível uma vez que distingue o objetivo ou a razão científica (a razão de ser) - [pensar sobre - pois a forma como Bourdieu coloca a questão é bem pertinente]

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saudável é uma caixa-preta. A compreensão do alimento saudável como uma caixa-preta nos permite analisar o fazer dos cientistas como parte de uma rede sócio-técnica que coloca o alimento saudável como algo pronto e não questionável. Quando se observa a ideia de alimento saudável verifica-se que o que está e jogo é a implantação deste ―conhecimento‖, desta caixa preta. Vê-se que o objetivo é o de criar inovações dentro da ideia de alimento saudável.

Verificamos que a controvérsia, que segundo Latour permite visualizar melhor a caixa-preta, não está necessariamente na ideia da existência do alimento saudável, mas sobre o que é considerado ou não considerado saudável. Os conceitos de translação e tradução são interessantes para pensar como os cientistas, nos campos estudados, interpretam e retraduzem a concepção de alimento saudável. Concepção que, como vimos no primeiro capítulo, parece estar disseminada pela sociedade, compartilhada entre os consumidores. Os cientistas de alimentos parecem ser os cientistas que ficam no laboratório criando alimentos saudáveis, mas toda a discussão e negociações para criação de um determinado alimento considerado saudável se perde no processo, e aparece ao público apenas como um alimento saudável. Analisaremos, após a apresentação dos dados no próximo capítulo, os processos de traduções e negociações na construção do campo de produção industrial de alimentos, verificando como a concepção de alimento saudável participa dessa rede sócio-técnica, através da ótica dos cientistas e dos engenheiros de alimentos.

O conceito campo científico é entendido como o espaço designado aos cientistas e engenheiros de alimentos, que resumem, ou delimitam, o espaço concorrencial, ou seja, o lugar aonde lutam pelo reconhecimento, que pode se refletir, por exemplo, na aquisição de financiamento para sua pesquisa. Esse campo é estruturado por disciplinas que disputam entre si pela legitimidade do saber científico e do espaço de atuação. Essas disputas podem se reverter em disputas pela manutenção/conservação da estrutura das disciplinas ou pela sua subversão em novas disciplinas com novos objetos de análise ou compartilhando os mesmos. Conforme já apontamos, a legitimação social das disciplinas, cientistas e conhecimentos científicos, depende da aceitação pelos pares. Só após essa etapa de aprovação a disciplina, cientista ou conhecimento consegue adquirir autonomia. Autonomia aqui refere-se a capacidade de reconhecimento imediato pela sociedade, trazendo consigo toda uma gama de conceitos e máximas incorporados, sendo ela adquirida pelo processo de construção de códigos próprios à

129 determinada disciplina, delimitando a possibilidade de objetores. Na pesquisa de campo ficam evidentes alguns conflitos inerentes a determinados assuntos entre os cientistas de diferentes disciplinas e sua preocupação em distinguir-se uns dos outros pela sua especialidade (códigos compartilhados) e diferenciação, o que caracteriza uma disputa. Nossa tese, posta à análise após a apresentação dos dados, é de que a caixa-preta do alimento saudável participa desse processo de diferenciação, destacando-se na controvérsia entre o que é considerado ciência de alimentos e ciência médica, ou sobre o que é da competência de cada um destes campos.

Apresentaremos nos capítulo 3 e 4 as disputas, polêmicas e conflitos, envolvidos na busca pela delimitação e legitimação das disciplinas do campo acadêmico de produção industrial de alimentos. Os temas abordados nestes capítulos surgiram com base principalmente nas entrevistas, mas também nas análises documentais.

No capítulo 3, apresentamos a trajetória da construção das disciplinas do campo em estudo. Veremos que a polêmica na definição do conceito de alimento saudável faz parte dessa trajetória e da própria demarcação das competências e das diferenciações entre as disciplinas. Um tema importante nesse contexto é o do desenvolvimento47 do sistema produtivo industrial em escala global, referindo-se, dentre outras coisas, à discussão sobre ―sociedade do conhecimento‖, e o papel do ensino superior e de sua estrutura na sociedade contemporânea.

Veremos ainda no capítulo 3 que os temas citados (conceituação de alimento saudável e sociedade do conhecimento) se refletem na estrutura de ensino e na formulação dos currículos acadêmicos, no que se refere à influência da demanda do mercado internacional na definição das profissões, que por sua vez apresenta uma tendência à homogeneização das formações acadêmicas. Tendência esta imputada ao atendimento das necessidades globais de produção e do intercâmbio tanto científico como técnico. Veremos que estes assuntos participam da delimitação das disciplinas, colocando as disciplinas tradicionais e subversivas em disputa por ―espaço‖ (enquanto delimitação de uma área própria) e legitimidade, e em concorrência pelos recursos financeiros e estruturais.

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Desenvolvimento referindo-se ao processo de construção, da trajetória, e não à um sentido linear crescente.

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No terceiro capítulo concentramos nossa análise na estrutura institucional das disciplinas, envolvendo a estrutura de ensino, os currículos dos cursos e as ênfases de cada curso acadêmico. Apontamos a estrutura do campo e os principais conflitos nessa delimitação. Destacamos, no entanto, que tal estrutura não é fixa, mas ela se estabelece na relação de forças entre os participantes. A luta pela autonomia enquanto disciplina acadêmica é uma das variáveis. Nesse jogo de força para obtenção da autonomia, enquanto disciplina acadêmica, os participantes atuam de maneira a defender ou atacar determinados conceitos, concepções, vertentes, entre outros aspectos. Descrevemos a estrutura do campo estudado, a partir das disciplinas selecionadas, classificando-as em tradicionais ou revolucionárias, com base nos aspectos institucionais.

No capítulo quarto, no entanto, é onde abordamos esses conflitos e disputas com base nas experiências que os entrevistados compartilharam. Este último capítulo apresenta a análise das entrevistas com os professores universitários, trazendo os discursos dos professores e destacando os temas, as opiniões, e os argumentos prós e contras aos assuntos debatidos. A condução da entrevista semiestruturada se baseou em dois assuntos identificados nos dois primeiros capítulos desta tese: a polêmica na definição do conceito do alimento saudável; e, o trabalho científico. Alguns temas se mostraram bastante presentes no cotidiano de trabalho dos professores/pesquisadores, como por exemplo, os impactos da globalização da produção de alimentos e a globalização do mercado consumidor; as políticas públicas de investimentos em pesquisa e os impactos da crise mundial, e questões de ética na pesquisa. O capítulo 3 é mais burocrático, mas tenta abordar questões de fundo que ajudarão na compreensão das análises do capítulo 4.

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