3 A MÍDIA E A SUA INFLUÊNCIA NOS JULGAMENTOS DO TRIBUNAL DO
3.2 A mídia e as decisões do Tribunal do Júri
É nesse contexto que surge o problema da influência da mídia nos julgamentos do Tribunal do Júri, pois nota-se a preferência da mídia por noticiar matérias criminais, principalmente no que se refere aos crimes de competência do Tribunal do Júri, uma vez que os mencionados crimes geram enorme curiosidade e comoção pública, sendo responsáveis pela maior audiência dos meios de comunicação de massa e pela maior lucratividade.
Os crimes de competência do Tribunal do Júri, ou seja, os crimes dolosos contra a vida vêm sendo objeto de uma mídia sensacionalista que transmite as informações de forma exagerada, emotiva, dramática e espetaculosa, com a finalidade de prender a atenção do público.
Sobre o sensacionalismo da mídia, Ana Lúcia Vieira diz:
O sensacionalismo é uma forma diferente de passar uma informação; uma opção por assuntos que podem surpreender, capazes de chocar o público; uma estratégica dos meios de comunicação que trabalham com a linguagem-clichê, vulgar, compacta,
conhecida como lugar-comum, de fácil compreensão por aquele que a recebe.60
Além disso, o sensacionalismo utilizado pela mídia na transmissão de notícias relacionadas aos crimes de competência do Tribunal do Júri introduz no imaginário e na consciência popular violência, medo, terror, pânico e insegurança. Tais sentimentos introduzidos na sociedade vêm acompanhados da forte pressão social que busca punir os culpados.
Sobre os sentimentos e a forte pressão da sociedade em busca da punição aos culpados, afirma Ana Elisa Bechara:
59 VIEIRA, Ana Lúcia Menezes. Processo Penal e Mídia. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003, p. 43-62.
E justamente em face dos sentimentos primitivos que ligam os indivíduos ao Direito Penal, parece haver uma atração social irresistível a legitimar a atuação da imprensa. Afinal, há uma curiosidade pública, agora já convertida em “comoção pública”, e essa “opinião pública” (ou opinião da imprensa, transmutada em opinião pública) reclama a pronta resolução do caso, com a severa punição dos seus agentes já julgados. A audiência dos programas televisivos dispara, os jornais e revistas não ousam trazer outras matérias em sua capa, que não a violência em discussão. Ganha-se dinheiro e
a sociedade resta aparentemente satisfeita.61
Sem qualquer responsabilidade e sem qualquer compromisso com a verdade, a mídia veicula repetitivamente e exaustivamente os crimes mencionados. Além de informar, ela investiga, opina, debate, expõe os envolvidos, acusa e julga os culpados, antes mesmo de uma decisão judicial.
Embora a informação seja um direito fundamental resguardado pela Constituição Federal de 1988, os veículos de comunicação estão ultrapassando a função informativa e assumindo as funções investigativa, acusadora e julgadora, na medida em que emitem pré- julgamentos.
Assim, assegura Ana Elisa Bechara:
Nesse contexto, ao observarmos o conteúdo das notícias relacionadas à matéria criminal, veiculada nos diversos meios de comunicação, constatamos, com ingrata surpresa, o papel desempenhado pela mídia no Direito Penal atual. Se antes tínhamos uma imprensa que buscava, de forma ativa, influenciar os operadores do sistema jurídico-penal, hoje estamos diante de meios de comunicação que pretendem se substituir aos próprios tribunais, esforçando-se para realizar, por seus próprios recursos, um julgamento virtual do caso concreto, de repercussão infinitamente
superior à da própria persecução penal.62
Essa atuação dos meios de comunicação compromete direitos fundamentais resguardados pela Constituição Federal de 1988 e pelos demais ordenamentos jurídicos infraconstitucionais, como o direito à presunção de inocência e os direitos da personalidade.
Além de desrespeitar os direitos fundamentais mencionados acima, essa veiculação irresponsável de notícias pelos meios de comunicação de massa coloca em risco o princípio da imparcialidade do julgamento, na medida em que pode influenciar as decisões dos jurados que, através do Tribunal Popular, decidem o futuro de seus pares.
Nesse aspecto, observa Artur César de Souza:
Da mesma forma, a narração dos fatos pelas redes de informação sem caráter objetivo, segundo a opinião, ideologia ou sentimento pessoal daqueles que são responsáveis pelos meios de comunicação, sem dúvida, além de apresentar uma versão parcial da questão, pode por em risco a lisura e legitimidade do julgamento, uma vez que essas
61 BECHARA Ana Elisa Liberatore S. Caso Isabella: violência, mídia e direito penal de emergência. Instituto
Brasileiro de Ciências Criminais, São Paulo, v. 16, n.186, p. 16-17, maio 2008.
62 BECHARA Ana Elisa Liberatore S. Caso Isabella: violência, mídia e direito penal de emergência. Instituto
informações ingressarão, sem qualquer filtragem, no inconsciente do juiz e dos jurados, de tal modo que, antes mesmo do início do julgamento, o resultado final já se
encontra sacramentado.63
De fato, a legitimidade e a imparcialidade da decisão judicial encontram-se ameaçadas, uma vez que o julgador sofre pressão para proferir uma decisão influenciada pela repercussão midiática, especialmente nos casos de competência do Conselho de Sentença do Tribunal do Júri, que é composto por juízes leigos, ou seja, pessoas do povo que não passaram pelo mesmo escrutínio de um juiz togado e são mais vulneráveis a influências externas ao processo.64
Ana Lúcia Vieira confirma:
O jurado, “cidadão incumbido pela sociedade de declarar se os acusados submetidos a julgamento são culpados ou inocentes”, é mais permeável à opinião pública, à comoção que se criou em torno do caso em julgamento, do que os juízes togados e, por sentirem-se pressionados pela campanha criada na imprensa, correm o risco de se afastarem do dever de imparcialidade e acabam julgando de acordo com o que foi difundido na mídia. 65
Diferente de um juiz togado, os jurados são desprovidos de conhecimentos jurídicos e não precisam fundamentar suas decisões, uma vez que julgam com base na sua íntima convicção e nos ditames da justiça. Aos jurados, cabe apenas responder sim ou não aos quesitos formulados pelo juiz-presidente.
Acerca da ausência de motivação das decisões proferidas pelo Conselho de Sentença, Aury Lopes Júnior assegura:
O golpe fatal no júri está na absoluta falta de motivação do ato decisório. A motivação serve para o controle da racionalidade da decisão judicial. Não se trata de gastar folhas e folhas para demonstrar erudição jurídica (e jurisprudencial) ou discutir obviedades. O mais importante é explicar o porquê da decisão, o que o levou a tal conclusão sobre a autoria e materialidade. [...] A decisão dos jurados é absolutamente ilegítima porque carecedora de motivação. Não há a menor justificação (fundamentação) para seus atos. Trata-se de puro arbítrio, no mais absoluto predomínio do poder sobre a razão. E poder sem razão é prepotência. A situação é ainda mais grave se consideramos que a liberdade de convencimento (imotivado) é tão ampla que permite o julgamento a
partir de elementos que não estão no processo.66
Tal fato ocasiona uma temerosa insegurança jurídica nos julgamentos do Tribunal do Júri, pois resta impossível saber por que motivos os jurados votaram pela condenação ou
63 SOUZA, Artur César de. Caso Suzane Louise Von Richthofen e os irmãos Cravinho – a influência da mídia na
(im)parcialidade do Tribunal do Júri. Revista Ajuris, Porto Alegre, v. 34, n. 105, p. 73-90,mar. 2007, p. 88.
64 NOGUEIRA, Beatriz Lima. O Conselho de Sentença do Tribunal do Júri e a influência dos meios de
comunicação de massa à luz da Constituição Federal de 1988: análise dos limites da liberdade de expressa. 2016. 96 f. Monografia (Pós-Graduação Lato Sensu em Direito Constitucional Aplicado) - Faculdade de Direito Damásio de Jesus, Fortaleza, 2016, p. 7.
65 VIEIRA, Ana Lúcia Menezes. Processo Penal e Mídia. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003, p. 246.
pela absolvição do réu, uma vez que eles podem ter considerado influências externas ao processo para proferir a decisão.67
Apesar da desnecessidade de fundamentação das decisões do Conselho de Sentença não afastar o dever dos jurados de decidirem com isenção e imparcialidade, favorece ainda mais que eles, ao condenarem ou absolverem o acusado, façam um julgamento influenciado pelo pré-julgamento realizado e amplamente divulgado pela mídia.
Tem-se que as impressões trazidas pela mídia podem influenciar demasiadamente as decisões dos jurados, fazendo com que eles decidam mais baseados na emoção e nos pré- julgamentos divulgados pelos meios de comunicação do que na razão e na imparcialidade da avaliação das impressões trazidas no desenrolar do processo pela acusação e pela defesa.
Nesse sentido, Ana Lúcia Vieira assegura:
A publicidade prévia do ato criminoso ou dos atos do desenvolvimento processual pelos meios de comunicação, perante os casos da competência do Tribunal do Júri, é particularmente preocupante, pois, uma vez que o julgamento é feito por juízes leigos, a impressão que a mídia transmite do crime e do criminoso produz maior efeito neles
do que as provas trazidas pelas partes na instrução e julgamento no plenário.68
Ao se afastarem das provas apresentadas no processo pela defesa e pela acusação, os jurados podem estar baseando seu convencimento em fatos dissonantes da verdade processual.
Isto porque, em busca do esclarecimento da verdade processual, todas as provas produzidas e utilizadas pelo Tribunal do Júri são lícitas, tendo em vista a vedação constitucional de utilização de provas ilícitas ou de provas obtidas por meios ilícitos. Em contrapartida, as provas produzidas e utilizadas pela mídia podem ser ilícitas.
No afã da busca por mais audiência e mais lucro, os meios de comunicação mostram documentos, imagens, vídeos, sons e depoimentos sem averiguar adequadamente a veracidade das provas e a licitude dos meios pelos quais elas foram obtidas. Assim, as provas produzidas e utilizadas pela mídia podem ser ilícitas, falsas ou editadas, o que afasta os jurados do esclarecimento da verdade processual.
Destaca-se ainda que, apesar de terem sido garantidos aos jurados a incomunicabilidade e o sigilo das votações para que pudessem formar e expressar livremente suas decisões, sem qualquer influência ou pressão, essas garantias não asseguram
67 NOGUEIRA, Beatriz Lima. O Conselho de Sentença do Tribunal do Júri e a influência dos meios de
comunicação de massa à luz da Constituição Federal de 1988: análise dos limites da liberdade de expressa. 2016. 96 f. Monografia (Pós-Graduação Lato Sensu em Direito Constitucional Aplicado) - Faculdade de Direito Damásio de Jesus, Fortaleza, 2016, p. 80.
materialmente a formação do livre convencimento do Júri, resguardando apenas formalmente a imparcialidade do mesmo, uma vez que não são suficientes para impedir a influência da mídia no convencimento dos jurados.
Isto porque, os jurados sofrem influência da mídia antes mesmo de formarem o Conselho de Sentença, no momento em que foram divulgadas as primeiras notícias sobre o caso pelos meios de comunicação.
Para tentar garantir a ordem pública, a imparcialidade do julgamento e a segurança pessoal do acusado, o Código de Processo Penal, nos artigos 427 e 428, permite também a aplicação do instituto do desaforamento. Por meio desse instituto, é possível transferir o julgamento para outra comarca da mesma região, onde não mais persistam os motivos que geraram dúvidas sobre a garantia de uma decisão justa pelos jurados.69
No entanto, nos casos de crimes que ganham grande repercussão nacional pela mídia, tal instituto tornou-se obsoleto, pois a transferência de comarca não impedirá a influência da mídia sobre os jurados. Portanto, assim como a incomunicabilidade e o sigilo das votações, o desaforamento resguarda apenas formalmente a imparcialidade do Conselho de Sentença.
Por todo o exposto, é forçoso reconhecer que a imparcialidade da instituição do Tribunal do Júri, um dos corolários da democracia e da participação popular no âmbito das decisões propostas pelo Poder Judiciário, é colocada em risco pela ausência de fundamentação das decisões dos jurados e pela atuação sensacionalista da mídia em matéria criminal.