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CAPÍTULO III: PRÁTICAS EDUCATIVAS CRÍTICAS

3.7 OUTROS CONCEITOS, NOVOS OLHARES

3.7.1 A matemática e o poder formatador da realidade

Como já mencionado anteriormente, um dos propósitos da EMC é refletir sobre a aplicação e/ou utilização do conhecimento matemático

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“A palavra que apresenta essa qualidade não teve seu uso previsto para todas as situações possíveis que poderiam surgir. [...] A textura aberta engloba os casos em que não sabemos se um termo se aplica ou não em função de não termos previsto essa nova situação no momento em que constituímos o significado original da palavra. Como não sabemos se a palavra se aplica ou não, ou seja, como não sabemos o seu uso em todas as situações possíveis, podemos dizer que a definição do conceito não é exaustiva ou é incompleta” (STRUCHINER, 2002, p. 20).

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This does not mean that they have no texture, but the reader should not expect them to fit together like pieces of a jigsaw puzzle. (SKOVSMOSE, 1994, p. 12,apud PASSOS, 2008, p. 64).

na sociedade.

Nessa direção, Skovsmose (1994) traz para o debate a reflexão sobre o papel da linguagem como uma maneira de interpretar o mundo. Para o autor, nem tudo que é observado pode ser expresso por meio da linguagem. Os sentimentos e as emoções, por exemplo, são difíceis de expressar por meio da linguagem. Assim, Skovsmose nos alerta para o fato de que se a interpretação da realidade acontece por meio da linguagem, então a utilização de diferentes sistemas de linguagem permite diferentes interpretações da realidade. E, por existirem diferentes sistemas de linguagem, existem também diferentes realidades? E o autor continua seus questionamentos44: “faz sentido pensar na linguagem não somente como um meio flexível para expressar ideias, mas também como um filtro para formulação de ideias? (SKOVSMOSE, 1994, p. 2, sem grifos nos originais).

O autor afirma que sim, e justifica: sendo a matemática um “corpo de conhecimento” com estrutura própria, com seus códigos e símbolos que possibilitam uma apreensão e interpretação de uma realidade, “ela se torna parte da linguagem com a qual sugestões políticas, tecnológicas e administrativas são apresentadas. A matemática torna-se parte da linguagem do poder.” (BORBA, SKOVSMOSE, 2001, p. 127).

Será que a matemática nos faz ver a realidade de uma maneira distorcida? Se assim for, distorcida em relação a que? […] a matemática poderia ser interpretada como uma linguagem, por meio da qual nós não somente observaríamos certas estruturas da realidade e ignoraríamos outras, mas também organizaríamos a realidade?45 (SKOVSMOSE, 1994, p. 4 ).

Essa forma de pensar, segundo Skovsmose (2007a), abre a possibilidade de visualizarmos a matemática desempenhando um papel de controladora de realidade. E, para exemplificar, o autor traz situações

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Does it make sense to think of language not only as a flexible medium for expressing ideas but also as a filter for formulating ideas? (SKOVSMOSE, 1994, p. 2, apud ,PASSOS, 2008, p. 64).

45 Does mathematics make us see reality in a distorted way? If so, distorted in relation to what?

[…] Could mathematics be interpreted as a language by means of which we not only observe certain structures of reality and ignore others, but also organize reality?(SKOVSMOSE apud

em que se pode constatar como os modelos matemáticos podem interferir na vida das pessoas.

Uma delas se refere a uma prática comum utilizada pelas companhias aéreas com o objetivo de maximizar seus lucros que resultam no “overbooking”. Ao se fazer um estudo estatístico sobre a rotina de vendas de passagens de avião, verifica-se que nem todas as pessoas que compram passagens conseguem realizar suas viagem. Em virtude disso, as companhias vendem um número maior de bilhetes do que os assentos disponíveis nas aeronaves. O procedimento é realizado levando-se em conta algumas variáveis e modelos matemáticos que determinarão a quantidade de passagens que poderá ser vendida para cada vôo de forma a minimizar o risco de decolagem de aeronaves com assentos vazios.

Esses procedimentos não podem ser criados ou colocados em uso sem os conhecimentos matemáticos e os resultados projetados na sociedade são chamados por Skovsmose de “matemática em ação”. É a matemática “formatando a realidade”, interferindo no cotidiano das pessoas. Afinal, não é algo raro encontrar alguém que, mesmo tendo seu bilhete em mãos, deixou de voar por falta de lugares nas aeronaves.

Outro exemplo trazido pelo autor refere-se ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que se apoia em modelos matemáticos para associar um número entre 0 e 1 a cada cidade ou região. Muitos governos utilizam-se desse índice para a distribuição de verbas. Ou seja, são modelos matemáticos determinando, por exemplo, se uma cidade, em detrimento de outra, será contemplada com verbas para construir mais escolas, hospitais, e assim por diante. Novamente, temos aí modelos matemáticos interferindo na vida das pessoas.

E possível citar outros exemplos em que a matemática se apresenta como controladora e reguladora de atividades, tais como: as taxas de juros e porcentagens praticadas; a indução ao voto por resultados de pesquisas de opinião em períodos eleitorais.

Nos exemplos apresentados tem-se os modelos matemáticos servindo de referência para orientar determinadas decisões e sendo “utilizados para criar uma „situação real‟ que antes não existia.” (ARAÚJO, 2007, p. 33). Ou seja, “por meio de modelos matemáticos, também nos tornamos capazes de „projetar‟ uma parte do que se torna a realidade. Tomamos decisões baseados em modelos matemáticos e, dessa forma, a matemática molda a realidade.” (BORBA; SKOVSMOSE, 2001, p. 135).

De acordo com Borba e Skovsmose (2001, p. 135), ao se considerar o poder formatador da matemática, tem-se uma discussão diferente sobre a aplicação da matemática. Ou seja, essasaplicações têm

sido frequentemente compreendidas da perspectiva da descrição. “A „realidade‟ é „dada‟, digamos, e um modelo matemático dessa „realidade‟ pode ser comparado com um mapa mais ou menos acurado.” Agora a reflexão toma outra dimensão: “Por meio de modelos matemáticos, também nos tornamos capazes de „projetar‟ uma parte do que se torna realidade. […] dessa forma a matemática molda a realidade.” (SKOVSMOSE, 2001, p. 135).

Segundo Skovsmose e Borba:

O poder formatador da matemática é diferente do potencial descritivo da matemática (e, de um ponto de vista sociológico, mais forte que ele). A descrição levanta questões de exatidão, já a formatação enfatiza as ações tomadas com o objetivo de enquadrar fenômenos. O locus de discussão dos poderes descritivos é diferente do

locus de discussão dos poderes formatadores.

(SKOVSMOSE; BORBA, 2001, p. 146).

O poder formatador da matemática está relacionado, portanto, à tomada de decisões baseada em modelos matemáticos, ou seja, são os modelos matemáticos moldando a realidade. Segundo Milanezi (2007), a expressão “enquadrar fenômenos” denota bem o sentido do conceito em questão, ou seja, pressupõe uma submissão da realidade aos modelos matemáticos pré-estabelecidos, os quais muitas vezes são utilizados como verdades absolutas na tomada de decisão.

O que não significa, contudo, ser a matemática o único agente de formatação da realidade, tão-pouco que a mesma pode deixar de ser vista como um construto social. O que se pretende destacar com a discussão é o fato de a matemática ter se constituído um elemento determinante das realidades sociais acarretando, desta forma, consequências nos campos político, econômico e sociológico.

3.7.2 Materacia

Voltemos ao conceito de materacia por considerá-lo muito importante no contexto desta pesquisa. Segundo Skovsmose (1994), o desenvolvimento da materacia, matemacia ou matemácia se constitui numa das principais preocupação da Educação Matemática Crítica.

Vejamos algumas definições do autor ao termo: “ Materacia não se refere apenas às habilidades matemáticas, mas também à competência de interpretar e agir numa situação social e política estruturada pela matemática.” (SKOVSMOSE, p 66, 2000). “A noção de matemácia significa competências relacionadas à matemática, significado similar à noção de aptidão literária46 como desenvolvida por Paulo Freire.” (SKOVSMOSE 2007a, p. 75).

A noção de matemácia, portanto, está associada à ideia de uma alfabetização funcional em matemática em que a dimensão sociopolítica seja contemplada. Na obra de 2007, o autor traz a seguinte definição de matemácia:

Do mesmo modo que o letramento, a matemácia se refere a diferentes competências. Uma delas é lidar com noções de matemática; uma segunda é aplicar essas noções em diferentes contextos; a terceira, é refletir sobre estas aplicações. Esse componente reflexivo é essencial para a competência da matemácia. […] De forma mais geral, matemácia significa um suporte para o cidadão crítico, bem como para qualquer grupo de pessoas que nós tenhamos em mente. (SKOVSMOSE, 2007a, p. 75 e 76).

Podemos, ainda, segundo Biotto (2008), entender a matemacia como um conhecimento matemático que contempla duas dimensões: uma técnica e outra sociopolítica. A dimensão técnica da matemacia envolve a habilidade de lidar com conceitos matemáticos. A dimensão sociopolítica da matemacia envolve aplicar esses conceitos em diferentes contextos e refletir sobre suas aplicações, avaliando o uso que se faz da Matemática.