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3 ALGUNS GARGALOS: MULTIFORMATOS, MULTIAUTORIA,

3.4 A MATERIALIDADE DO LIVRO DIGITAL INTERATIVO: UMA

As questões técnicas e de permanência no tempo que foram abordadas neste capítulo estão intrinsecamente ligadas à materialidade do livro digital. Como nos lembra Corrêa (2016):

Ao se pensar na materialidade do objeto literário, em especial do contexto da produção literária mais recente (tanto narrativa quanto poema), aquela do mundo digital onde a técnica anda parelha com a tecnologia, é necessário discutir como lidar com a fruição da arte literária quando se lembra da afirmativa de Marshal McLuhan: ‘O meio é a mensagem’. (CORRÊA, 2016, p. 132)

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Numa cultura como a nossa, há muito acostumada a dividir e estilhaçar todas as coisas como meio de controlá-las, não deixa, às vezes, de ser um tanto chocante lembrar que, para efeitos práticos e operacionais, o meio é a mensagem. Isto apenas significa que as consequências sociais e pessoais de qualquer meio — ou seja, de qualquer uma das extensões de nós mesmos — constituem o resultado do novo estalão introduzido em nossas vidas por uma nova tecnologia ou extensão de nós mesmos. [...] Pois a ‘mensagem’ de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, cadência ou padrão que esse meio ou tecnologia introduz nas coisas, humanas. (MCLUHAN, 2011 [1964], p. 21 e 22)

Trazendo essas afirmações para o contexto da pesquisa, para se pensar na fruição literária a partir de uma produção em que meio e mensagem se confundem e o meio parece realmente – como sugeria McLuhan já na década de 1960 – uma extensão dos sentidos humanos, é necessário estudar esse meio e, mais do que isso, entender a sua materialidade98. Explica Edgar Kirchof (2016):

Enquanto o texto impresso está atrelado à materialidade do papel, o texto digital é composto por códigos digitais, os quais correspondem, em última análise, a representações numéricas que podem transitar de forma quase instantânea através da rede mundial de computadores. Evidentemente, essa facilidade modifica não apenas o modo como um texto é produzido, acessado, armazenado, disponibilizado e comercializado, mas também o modo como é lido. (KIRCHOF, 2016, p.204)

Kirchof nos alerta, pois, que a materialidade influencia em todo o processo de produção, distribuição, guarda e fruição de um texto, fato que justifica colocá-la na berlinda como tema fundamental para análise.

Em seu livro Writing Machines, Katherine Hayles (2002) já afirmava que a materialidade não pode mais ser considerada uma subespecialidade nos estudos literários, sob pena de não se conseguir construir uma descrição consistente de como a literatura está se modificando com o impacto das tecnologias da informação:

As the vibrant new field of electronic textuality flexes its muscles, it is becoming overwhelmingly clear that we can no longer afford to ignore the material basis of literary production. Materiality of the artifact can no longer be positioned as a subspeciality within literary studies; it must be central, for without it we have little hope of forging a robust and nuanced account of how literature is changing under the impact of information technologies. Not only electronic literature but virtually all historical periods and genres are affected as print works are increasingly re- produced as electronic documents. (HAYLES, 2002, p. 19)99

98 Corrêa, em seu artigo “Literatura: contexto digital, hipercolonialismo e materialidades” (In: Estud. Lit.

Bras. Contemp., n. 47, Jan-Jul 2016), trata como “materialidades” da literatura “as relações entre os meios em que a expressão literária se faz presente, todos carregados de significância e significado”.

99 “À medida que o vibrante novo campo da textualidade eletrônica flexiona seus músculos, está cada

vez mais claro que não podemos mais ignorar as bases materiais da produção literária. A materialidade do artefato não pode mais ser posicionada como subespecialidade nos estudos literários; deve ser

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Hayles fala de “metáfora material” para defender que a materialidade influi na relação entre a palavra e o mundo e afeta o significado das palavras e de outros componentes semióticos:

We are not generally accustomed to think of a book as a material metaphor, but in fact it is an artifact whose physical properties and historical usages structure our interactions with it in ways obvious and subtle. In adition to defining the page as a unit of reading, and binding pages sequentially to indicate an order of reading, are less obvious conventions such the opacity of paper, a physical property that defines the page as having two sides whose relationship is linear and sequential rather than interpenetrating and simultaneous. To change the physical form of the artifact is not merely to change the act of reading (although that too has consequences the importance of which we are only beginning to reconize) but profundly to transform the metaphoric network structuring the relation of word to world. (HAYLES, 2002, p. 22 e 23)100

Assim, a pesquisadora define a materialidade como o que emerge das interações entre as propriedades físicas e as estratégias artísticas de uma obra; o que emerge da interação dinâmica entre o mundo físico e a inteligência humana, que molda essa “fisicalidade” para criar significado:

Materiality thus emerges from interactions between physical properties and a work’s artistic strategies. For this reason, materiality cannot be specified in advance, as if it preexisted the specificity of the work. As emergent property, materiality depends on how the work mobilizes its resources as a physical artifact as well as on the user’s interactions with the work and the interpretive strategies she develops – strategies that include physical manipulations as well as conceptual frameworks. In the broadest sense, materiality emerges from the dinamic interplay between the richness of a phisically robust world and human intelligence as it crafts this physicality to create meaning. (HAYLES, 2002, p. 33)101

central, pois sem ela temos pouca esperança de forjar uma descrição robusta e com nuances de como a literatura está mudando sob o impacto das tecnologias da informação. Não apenas a literatura eletrônica, mas praticamente todos os períodos e gêneros históricos são afetados, à medida que as obras impressas são cada vez mais re-produzidas como documentos eletrônicos.” (HAYLES, 2002, p. 19, tradução nossa)

100 “Não estamos acostumados a pensar em um livro como uma metáfora material, mas, na verdade,

ele é um artefato cujas propriedades físicas e usos históricos estruturam nossas interações com ele de maneiras óbvias e sutis. Além de definir a página como uma unidade de leitura, e vincular as páginas sequencialmente para indicar uma ordem de leitura, existem convenções menos óbvias, como a opacidade do papel, uma propriedade física que define a página como tendo dois lados com relação linear e sequencial, em vez de interpenetrante e simultânea. Mudar a forma física do artefato não é meramente mudar o ato de ler (embora isso também tenha consequências cuja importância estamos apenas começando a reconhecer), mas, profundamente, transformar a rede metafórica que estrutura a relação entre palavra e mundo.” (HAYLES, 2002, p. 22 e 23, tradução nossa)

101 “Assim, a materialidade emerge das interações entre as propriedades físicas e as estratégias

artísticas de uma obra. Por essa razão, a materialidade não pode ser especificada antecipadamente, como se preexistisse à especificidade do trabalho. Como propriedade emergente, a materialidade depende de como o trabalho mobiliza seus recursos como um artefato físico, bem como das interações do usuário com o trabalho e as estratégias interpretativas que ele desenvolve - estratégias que incluem manipulações físicas e estruturas conceituais. No sentido mais amplo, a materialidade emerge da

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Para Hayles, a literatura nunca se resumiu a palavras e construções verbais meramente imateriais; os textos literários têm corpos como os seres humanos, que influenciam profundamente na produção de sentidos:

A critical practice that ignores materiality, or that reduces it to a narrow range of engagements, cuts itself off from the exuberant possibilities of all the unpredictable things that happen when we as embodied creatures interact with the rich physicality of the world. Literature was never only words, never merely imaterial verbal constructions. Literary texts, like us, have bodies, an actuality necessitating that their materialities and meanings are deeply interwoven into each other. (HAYLES, 2002, p. 107)102

Em paralelo, Ana Elisa Ribeiro (2017) ressalta as implicações da materialidade dos livros para a existência humana, profissional e social, como “objetos de mobilização, interação e jogos de poder”.

Os livros são existências, impressas ou digitais, autossuficientes como objeto ou, mais recentemente, dependentes de devices, que nos conectam uns aos outros, costuram relações e alteram sentidos na existência humana. Não basta pensá-los como se fossem secções de um mundo inanimado, como poderíamos, desde há muito tempo e um tanto inadvertidamente, descrevê-los. É preciso pensá-los como integrantes desta grande interação de que todos fazemos parte, já que os livros encapsulam nossas ideias, boas ou ruins, atuando como sinapses, quando lidos, relidos, discutidos, resenhados, mal falados, copiados, citados, colecionados, doados, queimados, reimpressos, esquecidos para serem relembrados. Não são híbridos de humano e objeto, mas são objetos de mobilização, interação e jogos de poder.

A materialidade dos livros traz implicações não apenas para sua própria forma de existir - em papel, tal ou qual, com lombada, orelhas, capas, ou digital, mostrado em um equipamento de dimensão X ou Y, tal ou qual capacidade de memória ou processamento, e assim… -, mas para nossa existência humana, profissional, social. (RIBEIRO, 2017, artigo on-line)

Assim, mesclando-se meio e mensagem, com o apoio de Hayles e Ribeiro, pode- se depreender o significado e a importância do estudo da materialidade no campo da literatura: o texto literário, mesmo que em meio digital, é corporificado, e sua materialidade emerge das interações entre as estratégias artísticas e as características e propriedades físicas de cada obra; a materialidade altera e completa sentidos, aliando

interação dinâmica entre a riqueza de um mundo fisicamente robusto e a inteligência humana, uma vez que molda essa fisicalidade para criar significado.” (HAYLES, 2002, p. 33, tradução nossa)

102Uma prática crítica que ignora a materialidade, ou que a reduz a uma estreita faixa de compromissos,

priva-se das possibilidades exuberantes de todas as coisas imprevisíveis que acontecem quando nós, como criaturas corporificadas, interagimos com a rica fisicalidade do mundo. A literatura nunca foi apenas palavras, nunca meramente construções verbais imateriais. Textos literários, como nós, têm corpos, uma realidade, necessitando que suas materialidades e significados sejam profundamente entrelaçados.” (HAYLES, 2002, p. 33, tradução nossa)

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o que os criadores propõem em termos literários e artísticos, de textos verbais a recursos estéticos, à forma física como a obra se apresenta; o que influi na fruição desse objeto literário, na criação de novos sentidos e na experiência de leitura e interação com o ser humano.

Como este trabalho não tem como objetivo investigar questões de recepção, voltando o foco para os objetos estudados, propõe-se aqui entender a “materialidade do livro digital interativo” como o fator gerador da experiência artística e humana que resulta da soma, ao conteúdo propriamente dito (textual, literário, estético), de três elementos básicos: meio digital + formato + dispositivo de leitura, conjunto que vai influir na maneira como o leitor fruirá esse objeto e em como será sua experiência de leitura.

O livro digital interativo, para além de seu conteúdo, é mais do que um meio (meio digital), mais do que o software em que é desenvolvido, e mais do que o aparelho em que é fruído (dispositivos/devices). Tais produções são multidependentes: se acessadas pela internet, por exemplo, dependem do meio digital e de suas conexões; se desenvolvidas com a utilização de um software, dependem da política de uso desse programa (se é aberto ou proprietário); se só podem ser lidas em um tipo de sistema operacional ou dispositivo, dependem do suporte, do equipamento de leitura. Todos esses aspectos influenciam na experiência do usuário leitor.

Tratam-se aqui de livros feitos para serem fruídos no meio digital. Imprimir suas telas, com textos e imagens estáticas, não traria a mesma experiência de leitura franqueada em dispositivos digitais, por exemplo. O meio é, portanto, um fator primordial. Da mesma forma, um e-book em formato EPUB exibido em um computador de mesa proporciona uma experiência de leitura diferente daquela obtida com um e-book lido em um leitor Kindle, por exemplo (que, inclusive, não é colorido), ou de um app-book cheio de interações acessado em um celular e ou tablet. Livros digitais podem ser produzidos em diferentes formatos, como apontado anteriormente (EPUB e app, por exemplo), sendo que cada qual pressupõe, na ponta, um ou mais equipamentos ou dispositivos de acesso que permitam sua efetiva leitura - a dimensão tangível de determinada produção editorial no momento de sua fruição. Programas, formatos e dispositivos são, portanto, fatores também fundamentais na construção da materialidade do livro digital interativo, que se sugere definir como a soma de recursos tecnológicos que envolvem o meio (digital), as técnicas de produção e os dispositivos para leitura.

Dessa forma, especificamente em relação aos objetos em estudo, a materialidade do livro Meu Aplicativo de Folclore, por exemplo, é a de um livro digital em formato de

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aplicativo para fruição em dispositivos móveis do tipo tablet, dos sistemas Android e iOS (um app-book para tablets Android e iOS). A materialidade do livro Pequenos Grandes Contos de Verdade, por sua vez, é a de um livro digital em formato de aplicativo para fruição em celulares e tablets do sistema iOS (um app-book para dispositivos móveis apenas do sistema iOS). A materialidade da coleção Kidsbook Itaú Criança é de livros digitais em formato Canvas para fruição on-line em dispositivos móveis com acesso à rede social Facebook.

Acredita-se que a definição proposta, apesar de altamente descritiva, permite vislumbrar possibilidades e limitações desses objetos literários, tanto em termos das linguagens e recursos que podem abarcar, como enquanto produtos culturais, tecnológicos e de consumo (o que inclui pressupor quem terá acesso efetivo a essas obras), revelando um pouco sobre os livros como “objetos de mobilização, interação e jogos de poder”, como nos diz Ribeiro (2017).